Checkpoint: Corrigindo a altimetria

Começo de 2015, volta à rotina. Na verdade, este deveria ter sido o título do checkpoint: voltei ao Ibirapuera, fui à USP, fiz uma nova trilha urbana pela região da Barra Funda e Minhocão. Ou seja: estamos de volta, inaugurando o ano novo como deveria ser.

Sob esse aspecto, nada de diferente do planejado.

Mas houve, sim, algo mais abrupto que aconteceu. Depois que constatei, desde os Andes, que o Garmin falha insanamente no cálculo de altimetria, comecei a medir diferenças entre ele e o MiCoach, da Adidas, que se baseia o sistema do IPhone.

Resultado: os treinos mais curtos mostram diferenças de cerca de 50%; os mais longos, de 35%. Em todos os casos, o Garmin fica abaixo, o que explica a sensação de que algo estava errado desde que passei a utilizá-lo, em novembro.

Pois bem: normalizei todas as minhas planilhas, por assim dizer, considerando uma média de 40% de diferença. É uma média conservadora – mas melhor do que ficar com algo tão abaixo da realidade.

Não dá para dizer que isso me dará uma clareza no entendimento da minha altimetria semanal – nem de longe. Mas, no mínimo, me permitirá ter uma noção mais aproximada da realidade.

Screen Shot 2015-01-11 at 9.08.58 AM

No solo sagrado da USP

A USP é uma espécie de solo sagrado para corredores paulistanos – principalmente aos sábados.

Lá, a partir já das primeiras horas, hordas de atletas amadores começam a se apropriar de suas ruas e alamedas, transformando o cenário na mais pura energia.

Não poderia haver palavra melhor, aliás: aos sábados, os 8km de extensão do percurso parecem ser uma usina de energia gerada por corredores e ciclistas e destinada exclusivamente a alimentar os seus próprios humores. Todos, afinal, parecem ficar imersos em um mundo próprio, com pensamentos se movendo na velocidade das passadas.

IMG_5140.JPG

usp

usp2

Há outros locais assim em Sampa, claro: o Ibirapuera, por exemplo, é praticamente a segunda casa de milhares e milhares de corredores. Mas o dia de longão mesmo é aos sábados: dia em que horas são passadas na rua, em que tarefas do trabalho não amassam o tempo, em que se pode realmente curtir cada gota de suor derramada.

E, para longões, poucos lugares são melhores do que a USP.

No meu trajeto cotidiano, parto de casa e vou correndo até a Cidade Universitária. Desço a Cidade Jardim, cruzo Brasil e Faria Lima, viro à direta na Marginal e cruzo a ponte sobre o Rio Pinheiros pela Rebouças.

Fato: o cheiro ácido do rio não é o ponto alto do dia, assim como as reuniões de travestis encerrando o turno na outra margem. Mas tudo isso passa logo.

Em instantes já se está no superarborizado Butantã e cruzando os portões da USP, onde corredores parecem sair de cada canto.

Somando ida e retorno até a minha casa, consigo variar entre 21km e 24km de corrida (considerando uma volta na USP). Mas o visual é tão perfeito que, às vezes, é fácil aumentar para 2, 3 voltas ou mais, ampliando o longão e melhorando o preparo para alguma prova qualquer.

Há ainda um segredo bem guardado lá dentro: em uma pequena rua, já na parte alta do percurso e logo antes da Rua do Matão, há uma espécie de mini-floresta cercada por grades. Pode não parecer mas, por trás de vans de assessorias esportivas e de grupos de corredores batendo papos há um portão que sempre fica entreaberto. Se passar por ali, entre.

Em um piscar de olhos, tudo muda. O asfalto vira uma trilha acidentada, os gramados e parques se transformam em árvores gigantes e fechadas, o vento cessa e dá espaço a um clima abafado, quente. Besouros cantam um zunido ensurdecedor enquanto mosquitos fazem a festa nas pernas que estão passando por ali.

OK: a descrição pode não ser, exatamente, convidativa. Mas pense de outra forma: para quem curte trilhas, descobrir um mundo novo e súbito com ares de floresta fechada é inspirador.

2015/01/img_6444.jpg

2015/01/img_6446.jpg

2015/01/img_6445.jpg

2015/01/img_6447.jpg

2015/01/img_6448.jpg

 

A saída da mini-floresta é quase a Rua do Matão. A partir dali é encarar o quilômetro de subida em um clima mais ameno, gostoso, respirar a vista da cidade do alto e descer de volta até o portão.

Dá para entender porque a USP é tão sensacional para quem curte correr: poucos lugares conseguem ser perfeitos para todos os gostos e ainda perto do centro.

Screen Shot 2015-01-10 at 11.36.24 AM

Velocidade na recuperação da velocidade

Ontem à noite saí para 1h15 de corrida no Ibirapuera. A ideia era continuar perseguindo a velocidade que me deixou desde que voltei da Patagônia, meta na qual devo persistir pelo menos pelos próximos meses.

Não fiz feio.

Ainda estava seco quando estacionei o carro mas, já nos primeiros passos, gotas que me fizeram questionar se chovia granizo começaram a despencar do céu. De início, eram tão grossas que parecia possível ziguezaguear por entre elas, ficando seco enquanto todos buscavam cobertura em algum lugar longe das árvores que ameaçavam voltar a cair como na semana anterior.

Depois, o vento e uma maior força das águas fizeram o parque parecer um imenso chuveiro.

Uma observação: eu não estava aqui na semana passada. Houve um dia em que tantas árvores caíram no Ibirapuera que, pela primeira vez em décadas, ele teve seus portões fechados por uma questão de segurança.

Dias depois, parecia haver uma espécie de trauma coletivo quanto a isso: todos os corredores, vendedores locais e transeuntes estavam com ar de medo, escondidos sob qualquer pedaço de concreto que conseguiam encontrar. Todos olhavam para o céu com a esperança de que mar virasse sertão o mais rapidamente possível. Esperança vã, diga-se de passagem.

Com e memória vazia, sem ter testemunhado o caos, foi fácil para mim ignorar tudo isso. Partindo do princípio de que chuva não mata, apenas molha, continuei cruzando o parque em ritmo firme, rápido, tranquilo. A água refrescava, lavava, até divertia.

Foi uma corrida sensacional e com uma meta mais que bem executada, tendo 14km rodados em 1h15. Missão cumprida.

Parcialmente, pelo menos.

Hoje cedo, antes do sol raiar, estava na rua novamente para outra volta no parque.

Desta vez, o intuito não era manter pace fixo por muito tempo mas sim alterná-lo em 9 tiros de 1 minuto cada, sanduichados entre aquecimentos e desaquecimentos que totalizavam pouco mais de 1h de corrida.

Queria ver o desempenho sobre pernas cansadas por uma sessão feita poucas horas antes.

Mas o dia parecia tão diferente, iniciando com uma lua imensa brilhando sobre um céu sem núvens, cedendo espaço para um amanhecer incrivelmente multicolorido, que dificilmente parecia ter havido um temporal pouco tempo antes. Na verdade, a corrida da noite anterior parecia ter ocorrido há meses.

E, apesar do cansaço das pernas ter discordado disso, a mudança no visual climático enganou bem a mente.

Tudo, afinal, é uma questão de escolher o foco mais eficiente, confortável, no qual se concentrar.

Os 9 tiros não foram os mais rápidos da minha vida – mas saíram bem. Foram executados, milimetricamente precisos, sem nenhum contratempo.

Ao chegar de volta em casa senti o corpo pedir descanso. Tudo bem: além do restante do dia teria ainda amanhã para relaxar as pernas antes do longão de sábado – que também não será nada tão puxado, ficando na casa das 2 horas para evitar sobrecargas desnecessárias.

Quando saí para a minha primeira corrida na terça, a preocupação quanto à perda de ritmo foi relativamente grande. Mal podia eu imaginar que, dois dias e dois treinos depois, já começaria a me sentir inteiro de novo.

O corpo, às vezes, é muito mais rápido do que a mente imagina.

2015/01/img_6443.jpg

Lentidão gerada pelo excesso de montanhas

Quando se está correndo solto por trilhas e montanhas, dificilmente se olha para o relógio em busca de intervalados bem feitos ou tiros. Busca-se apenas aproveitar paisagens únicas e a experiência de se sentir parte de algo muito maior do que tempos e asfaltos podem proporcionar.

Quando o período nas montanhas é grande, esse desprendimento rapidamente vira uma espécie de hábito. Lá nas subidas, correr e caminhar se alternam de maneira absolutamente simbiótica e sem preconceito: caça-se vistas geradas pela altimetria e não quilômetros gerados pelo asfalto plano.

Corrida, no entanto, não é caminhada – são esportes diferentes, com efeitos diferentes no corpo e na cabeça.

Estou descobrindo isso agora. Hoje, mais precisamente, depois de voltar da minha primeira sessão pós-Andes lá no Ibirapuera.

Em tese, uma sessão de dificuldade média: duas séries de progressão incluindo, cada uma, 2′ em zona azul, 3′ em verde, 4′ em amarelo e 5′ em vermelho.

Os 15 minutos de aquecimento inicial já foram meio difíceis, soltando a musculatura das pernas. Mas, depois disso, desafiar o ímpeto irrealmente natural de caminhar ao invés de acelerar foi difícil.

A cada esquina ou mini subida o corpo baixava a marcha por conta própria – e eu forçava nova aceleração; meu ritmo, ao invés de subir até pela falta do peso extra da mochila de hidratação, permanecia teimosamente igual; e o cansaço era decididamente maior que qualquer subida do Cerro Bayo, Belvedere, Inacayal ou Arrayanes.

Os 10 dias nas montanhas me inspiraram como poucas coisas antes – mas também me deixaram mais lento.

Essa volta à rotina será focada na recuperação de performance – pelo menos em níveis mais aceitáveis.

/home/wpcom/public_html/wp-content/blogs.dir/5b7/69502451/files/2015/01/img_6436-2.jpg

Checkpoint semanal: De volta

Olhar para trás depois de uma jornada como a que fiz pelos Lagos Andinos dá sempre uma nostalgia. Afinal, foram tantas as experiências acumuladas nas montanhas argentinas que faltam palavras para descrever.

Não sei se quero descrever agora, no entanto – ao menos em palavras. Há coisas que podem dizer mais: as planilhas, mostrando o crescimento do volume de treino, um mapa de calor do Strava mostrando tudo o que foi percorrido e as fotos todas que postei ao longo da semana. Vistas que, para sempre, ficarão presas na memória.

Quanto às planilhas, uma constatação apenas: desde que passei a usar o Garmin, a medição de altimetria mudou dramaticamente. O que antes era 200m em um percurso, por exemplo, virou 80m. No início, não sabia o que estava errada – se a medição anterior ou a atual.

Depois pesquisei mais e descobri que o Garmin realmente falha bastante nisso – conclusão reforçada por medições completamente diferentes com o próprio Garmin sobre exatamente o mesmo percurso. Bom… se não dá para comparar com o passado, então, que sirva de parâmetro para o presente, desde o mês de novembro.

Screen Shot 2015-01-05 at 1.03.13 PM

Screen Shot 2015-01-14 at 10.34.32 AM

IMG_6277 IMG_6288 IMG_6283-1 IMG_6279-1 IMG_6281-1 IMG_6286-1 IMG_6306 IMG_6309 IMG_6304-0 IMG_6297-0 IMG_6302-0 IMG_6299-0 IMG_6295 IMG_6321 IMG_6327 IMG_6325 IMG_6323 IMG_6329 IMG_6335 IMG_6331 IMG_6333 IMG_6337 IMG_6345 IMG_6343 IMG_6341 IMG_6339 IMG_6347 IMG_6354-5 IMG_6356-3 territoriomapuche IMG_6366-0 IMG_6358-0 IMG_6360-0 IMG_6362-0 IMG_6364-0 IMG_6374 IMG_6376 IMG_6394 IMG_6378 IMG_6380 IMG_6382 IMG_6384 IMG_6386 IMG_6388 IMG_6390 IMG_6405 IMG_6406 IMG_6408 IMG_6412 IMG_6409-0 IMG_6411 IMG_6409 IMG_6407 IMG_6410 IMG_6421 IMG_6419 IMG_6420-1 IMG_6422-0 IMG_6423-0 IMG_6424-0 IMG_6425-0

Fechando o ano debaixo d’água

Ontem à noite, quando fui conferir a app do Weather Channel por conta do dilúvio que castigava a cidade, confirmei a má notícia: 100% de previsão de chuva por todas as horas do dia e até, pelo menos, o Natal.

Parece que toda a água que fugiu do sudeste nos últimos meses resolveu voltar (e tirar o atraso) nas últimas semanas de dezembro. Tudo bem: nunca tive problema em correr na chuva – embora, confesso, sempre preferi fazer isso nos finais de tarde ou às noites.

Saí preparado para enfrentar poças, banhos dados por carros apressados e jatos d’água lançados das nuvens. E foi exatamente isso que aconteceu: faz tempo, aliás, que não pego um toró tão forte na cidade!

O lado bom é que há um ar maior de preguiça nas ruas cortado pelas passadas rápidas, há aquele cheiro de planta molhada e aquela visão de asfalto refletindo o céu cinza. A cara da cidade muda enquanto ela vai se lavando de 2014 e se preparando para um 2015 mais calmo (espero).

Fiquei com isso na cabeça por todo o tempo, meio que torcendo para que hoje, último dia oficial do ano para mim, acabe logo. Para que só tenha meia dúzia de coisas para fazer em home office, para que possa já entrar no avião, para que possa respirar mais fundo sem pensar tanto em reuniões e apresentações.

Tudo bem que a rua hoje mais parecia um aquário: mas terminar o ano debaixo de chuva, lavando corpo e alma, realmente foi perfeito!

/home/wpcom/public_html/wp-content/blogs.dir/5b7/69502451/files/2014/12/img_6246.jpg

Checkpoint: Mudanças no treino

O corpo nem sempre obedece o calendário gregoriano.

Na prática, meu mês de descanso foi novembro, pontuado por corridas leves e até mesmo desleixadas para compensar uma temporada dura, pontuada por Comrades, Indomit Bombinhas e Douro Ultra Trail e fechada com a duríssima Maratona de São Paulo em outubro.

Pois bem: descansei.

Dezembro é mês de sol, de calor e de algum alívio no trabalho: meu treinador tem aproveitado isso ao máximo agora. De maneira geral, as rotinas se dividem em duas:

  1. Treinos de qualidade, como tempos, intervalados e tiros, 3 vezes por semana
  2. Longões leves, mas cada vez mais longos, nos finais de semana

E devo dizer que estou achando a rotina perfeita: ela aumenta minha velocidade e, ao mesmo tempo, me permite passar as horas em trilhas que tanto amo em dias onde o tempo costuma passar mais devagar.

Foi por conta desse roteiro que comecei a desbravar São Paulo, percorrendo a região da Pinacoteca, o Ipiranga, o Jardim Botânico e o Horto, para ficar apenas em algumas. Na prática, é como se uma nova cidade se apresentasse cada sábado e domingo para mim. Perfeito.

Nesse final de semana, especificamente, correr o Horto e fazer novamente o Ipiranga acabou acrescentando uma altimetria maior do que a média, superando os 1.000m. Ultimamente, ganho altimétrico tem sido uma métrica quase tão importante quanto distância e pace para mim: é o maior teste de resistência para ultras que, afinal, costumam ser corridas em montanhas. Mil metros pode não ser nada, por exemplo, perto dos 4,5 mil da Douro Ultra Trail e de tantas outras – mas é um bom treino.

E, no total, essa soma de bons treinos em locais impensavelmente novos tem dado um gás novo para mim nesse final de ano.

Screen Shot 2014-12-14 at 10.43.30 AM

As luzes do Ibirapuera

Fazia algum tempo que eu não corria à noite: a última vez já deve fazer pelo menos um mês, antes das luzes de Natal se instalarem no Ibirapuera.

Ontem, no entanto, foi dia de intervalados – e a manhã atribulada acabou empurrando a planilha para depois das 20:00.

Para falar a verdade, eu nem me lembrava que o Ibira estava iluminado: o sol do verão, às vezes, nos faz esquecer que a noite sequer existe. Mas foi só eu me aproximar do parque e, de repente, músicas começaram a ecoar pelos céus, animando um show de águas nas fontes para uma plateia que persistia presente, teimosa, ignorando a garoa fina que caía. E isso tudo com milhares de luzes pintando as árvores ao fundo.

Na mesma hora eu desliguei o podcast e fiquei ali, absorvendo o clima a cada passo. Normalmente eu gosto do silêncio que acompanha corridas nas horas extremas do dia, seja no começo da manhã ou noite adentro – mas o barulho bem orquestrado de ontem foi muito, muito bem vindo.

O ano – ainda bem – está acabando.

Ele está levando consigo, sem dó, cada gota de energia que eu havia reservado para 2014: mas a cena de ontem ajudou a me dar pelo menos mais algum impulso para chegar inteiro ao dia 31.

IMG_6168.JPG

O Tempo

Levou algum tempo para que eu percebesse o motivo real de passar tanto tempo correndo nas ruas e trilhas.

A grande maioria dos corredores que conheço deu os seus primeiros passos por saúde, originalmente amaldiçoando cada instante em que o despertador gritava pela manhã. Mas saúde, por mais importante que seja, é insuficiente para manter alguém nas ruas – principalmente quando as longas distâncias vão ficando cada vez mais longas.

Quando me inscrevi em minha primeira prova de 5K, um passado inteiro de más notícias e sobrepeso pareceu ter ficado para trás, como se eu tivesse me transformado em um outro ser que, até então, existia apenas no imaginário.

Mas aí os 5K viraram 10; os 10, 16; os 16; 21; os 21, 42; e os 42 se perderam em distâncias maiores por terrenos que nem sabia possíveis.

As distâncias foram me dando tempo livre, tempo para mim mesmo e para a minha própria solidão. Foram me ensinando calma, perseverança e mostrando aos olhos paisagens que não imaginava que existissem fora da TV.

E assim, de repente, comecei a me entender melhor.

Saúde? Não dá para dizer, honestamente, que correr 16 horas sem parar pelas montanhas, sentindo náuseas e dores em músculos que sequer se conhece, seja algo saudável. Ao menos não para o corpo.

Mas depois de 3 anos e 10 mil quilômetros rodados, depois de ter perdido meio fígado em uma cirurgia mais longa que a minha mais longa ultra, depois de virar pai e de enfrentar tantos desafios na vida pessoal e profissional… bem… tudo pareceu mais claro.

E, hoje, tudo se traduz em uma só palavra: Tempo.

Afinal, é ele que mais aproveitamos ao nos enfurnarmos em nossa própria mente por horas a fio durante corridas; é ele que parece se ampliar a cada nova experiência que temos, a cada nova paisagem nas trilhas ou cidades; é com ele que aprendemos a lidar melhor com cada nova dificuldade imposta ao corpo, seja por lesão ou puro cansaço, e à mente.

Não temos, afinal, como prolongar os nossos relógios e fazer dias virarem meses para que vivamos indefinidamente; mas temos, com certeza, como aprender a extrair de cada minuto toda a intensidade que ele pode carregar.

E correr, no mínimo, nos vicia isso.

IMG_6166.JPG

Trilha Urbana: da Paulista ao Jardim Botânico

Há cerca de 1 ano, levei minha filha para o zoológico de São Paulo. Ela, obviamente, amou – mas o que mais me chamou a atenção foi o vizinho Jardim Botânico, que desfilava ao lado da avenida um corredor gigante de palmeiras imperiais guiando os olhares para lagos e bosques aparentemente infinitos.

Com essa cena em mente, me mandei hoje até lá, correndo desde casa. O caminho não é exatamente belo: depois da subida da Bela Cintra e virada à direita na Paulista, é praticamente uma reta. Com pessoas apressadas já no sábado cedo, desviar os obstáculos humanos era o mais complicado.

Lá pela região da Praça da Árvore desci uma transversal e comecei a cortar por dentro, rumo à Rodovia dos Imigrantes. Não é a região mais atrativa, mas o pace aperta naturalmente quando passamos por favelas e sob pontes usadas como pontos de crack. Corri bem nesses trechos.

E, em meio ao que mais parecia grupos de zumbis, pichações e muito cinza, de repente aparece o majestoso Jardim Botânico.

Grande, imponente, verde e já com uma pequena fila de japoneses municiados com suas câmeras ansiosos por desbravar o oásis paulistano.

Certamente conseguiram o que foram buscar: já na entrada, uma passarela suspensa de madeira abre caminho para uma multidão de espécies de plantas, algumas habitadas por aves diferentes e macacos.

Saí caçando algumas trilhas que encontrei facilmente, margeando lagos e cenas que mais pareciam de filme.

Em um dado momento, me vi na nascente do Ipiranga – ponto que, mesmo seco por conta da estiagem, tem um valor simbólico importante.

Segui pela trilha, entrei mata adentro, subi e desci. Só beleza.

No caminho da saída, me deparei com a avenida de palmeiras imperiais que estava presa em minha memória e a percorri inteira. Perfeita.

Mas, como tudo na vida, há hora para acabar.

Tomei o caminho de volta para casa tomando o cuidado de cortar os trechos mais tensos de favela, o que acabei conseguindo. No caminho, apenas uma pausa para foto de uma igreja em estilo gótico no meio da Jabaquara e pronto: foi só descer à região do Ibirapuera, pegar a Brasil e voltar para casa.

Essa trilha urbana foi diferente das últimas no sentido de que só o ponto de destino foi realmente bonito. Diferente de cortar o centro, pontilhado por surpresas arquitetônicas e históricas em cada esquina, o caminho até o Jardim Botânico foi essencialmente feio e com alguns pontos perigosos.

Mas oásis são isso mesmo, certo? Pontos paradisíacos cercados por paisagens áridas. E, no final das contas, foram 30km que valeram muito, muito a pena!

IMG_6136.JPG

Entrada do Jardim Botânico

IMG_6143.JPG

Lago no Jardim Botânico

IMG_6141.JPG

Lago no Jardim Botânico

IMG_6139.JPG

Escadaria em uma das laterais do Jardim Botânico

IMG_6151.JPG

Alameda Von Martius, no Jardim Botânico

IMG_6145.JPG

Lago com trilha ao fundo, Jardim Botânico

IMG_6153.JPG

Lago em uma das extremidades do Jardim Botânico

IMG_6149.JPG

Trilha próxima à nascente do Ipiranga, no Jardim Botânico

IMG_6155.JPG

Vista da Alameda Von Martius, Jardim Botânico

IMG_6157.JPG

Igreja Nossa Senhora da Saúde

Percurso no Strava

Percurso no Strava