Mais um filme sensacional sobre os Unogwaja

Não me canso de ver filmes e babar na história dos Unogwajas – alguns herois, incluindo os amigos Rodrigo João e Nato Amaral, que cruzaram a África do Sul de oeste a leste em 10 dias para depois largar na Comrades no décimo primeiro com dois objetivos: arrecadar dinheiro para caridade e, claro, ganhar uma experiência inesquecível. 

Acompanho a trajetória deles desde 2014, quando inclusive tive o prazer de, por pura coincidência, testemunhar a chegada do grupo em Pietermaritzburg na véspera da Comrades. 

Bom… Na semana passada eles lançaram um novo filminho com a história do grupo e do que tem conseguido. 

Ei-lo abaixo:

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Vídeo: História completa de Comrades

Para quem ama a rainha das ultras, esse vídeo é um achado.

Sim: os primeiros 1:45 são meio chatos, com uma introdução desnecessária – recomendo que pulem.

E sim: ele é infelizmente todo em inglês, sem legendas.

Se isso não for um problema, recomendo fortemente. Dá para entender quase toda a magia dessa corrida (e digo “quase” porque, para entendê-la por completo, só correndo os 89km que separam Durban de Pietermaritzburg).

A lista de desejos (atualizada em 18/02/2016)

O El Cruce cortou dois itens da minha lista: a própria prova, um sonho antigo, e a realização de uma ultra por etapas. Experiências inesquecíveis – que, como praticamente todas as que cruzei da lista, mudaram toda a minha percepção de vida.

O próprio vídeo que adicionei do Cruce, aliás, foi da edição que participei.

Outra prova entrou aqui: a BR135+, que participei como apoio em janeiro passado. Não sei quando, mas um dia ainda a realizarei. E, por hora, é o momento de achar a próxima meta a ser cumprida.

A lista está assim:

 

  • Fazer a primeira ultra: Two Oceans (56K), na África do Sul (feito em MARÇO de 2013):
  • Correr Comrades (89K), também na Africa do Sul (feito em JUNHO de 2014):
  • Fazer a primeira ultra trail (Douro UltraTrail, de 80K, em Portugal, feito em SETEMBRO de 2014):
    • Organizar minha própria ultra (Ultra Estrada Real, de 88K, feita em ABRIL de 2015)
    • Fazer a Comrades no sentido inverso (up-run), ganhando a medalha back-to-back – www.comrades.com – MAIO de 2015:
    • Fazer uma prova com 100 km (Indomit Costa Esmeralda Ultra Trail, feita em 07/11/2015)

 

  • Qualquer ultra em etapas (El Cruce Columbia, feita entre 12 e 14 de FEVEREIRO de 2016)
  • El Cruce Columbia – http://elcrucecolumbia.com/ (feito entre 12 e 14 de FEVEREIRO de 2016):
  • Qualquer prova do circuito do Ultra Trail de Mont Blanc (UTMB) – www.ultratrailmb.com – AGOSTO:
  • TransArabia (Jordânia) ou TransOmania (Oman) – www.thetransarabia.com – NOVEMBRO ou JANEIRO, respectivamente:
  • Fazer qualquer ultra do circuito de Skyrunning
  • Lavaredo Ultra Trail (Itália) – www.ultratrail.it – JUNHO
  • Correr no Grand Canyon (preferencialmente fazendo o Rim2Rim)
  • Correr no Everest – everesttrailrace.com – NOVEMBRO:
  • Qualquer prova com 100 milhas
  • Qualquer ultra em percurso com neve
  • BR135+ – JANEIRO

Caiacando pelo Lago Lácar

Enquanto há horas disponíveis e não há tarefas a serem feitas… que tal um rolê de caiaque por 4 horinhas pelo Lago Lácar?

Dá para usar músculos diferentes dos que precisam descansar (embora eu tenha feito um regenerativo básico de 5K hoje), conferir as águas cristalinas do lago com direito a trutas saltando, ver as montanhas de outro ângulo e, enfim, somar uma experiência diferente dos Andes. 

Perfeito! Duvida? Veja as fotos:

   
    
    
   

Abertura do El Cruce: God save the Queen?? :-)

De repente, uma mão me puxou e me perguntou algo em um espanhol tão rápido que, meio que no susto, apenas respondi “si, claro!”.

Em 5 minutos estava em uma fila indiana segurando uma bandeira gigantesca da… Inglaterra! Aparentemente, eu e 32 outros corredores desfilaríamos logo depois da banda militar homenageando os 33 países presentes no Cruce.

Bom… nunca me achei exatamente parecido com um inglês… mas encarnei de tal maneira que até um ‘God sabe the Queen’ acabou saindo da minha boca :-)

Fiquei até procurando compatriotas para falar sobre a família real, mas acho que só tinha eu mesmo de britânico nos arredores. Ou isso ou – claro – a ‘nossa’ típica discrição impediu os demais súditos de Elisabeth de aparecerem!

Assim, seguindo tambores rufando no meio da praça e sendo parte acidental do evento, acabei absolutamente contagiado de adrenalina da abertura do Cruce 2016. Não que tenha sido tarefa difícil: o palco era ao ar livre, tendo montanhas, lago e um céu azul-turquesa como pano de fundo, com direito a um telão de led e um rock’n’roll entre as falas dos organizadores para ninguém botar defeito. 

Apresentaram a elite – e confesso que estar próximo de ídolos como Marco de Gasperi e François D’Haene foi “tieticamente” empolgante – detalharam a infra e fecharam com um vídeo daqueles feitos de pura palpitação cardíaca. 

A empolgação foi tamanha que, quando terminaram os eventos, a praça inteira de San Martin virou uma versão rock de Carnaval, com gente pulando ao som dos Stones e entoando gritos de euforia pura!

Quer jeito melhor de abrir uma prova dessas??

   
   

Caminhos de Rosa pela frente?

Depois de uma longa troca de mensagens com o Zumzum, amigo e organizador dessa prova, a vontade de percorrê-la foi instalada fundo.

Não na versão de 250km – ainda não estou nesse nível de loucura – mas na de 140km.

140km rodando pelos sertões do Guimarães Rosa, conhecendo os pontos exatos que se transformaram em suas histórias, sentindo o sol queimar as costas com a mesma fúria resignada com que torra o solo… Putz, tudo isso é, no mínimo, absolutamente inspirador.

E, como ela está prevista lá para agosto… Quem sabe?

 

Correndo pelo passado

No começo do século XVII, uma corrida pelo planalto que se elevava sobre o Anhangabaú revelaria uma São Paulo bastante diferente. Claro: alguém correndo só pelo mato há mais de 300 anos provavelmente geraria uma estranheza tamanha que, eventualmente, acabaria na forca. Mas ignoremos isso por alguns instantes ao imaginar a cidade de São Paulo pouco tempo depois do Anchieta ter fundado o seu colégio jesuita. 

O próprio conceito de cidade, aliás, era outro: ao invés de uma imensa metrópole, era uma vila composta por uma punhado de loucos desbravadores e delimitada por três igrejas. 

Em uma das pontas ficava a Igreja de São Francisco. Apesar de feita de taipa, como todas as construções da época, era tão suntuosa quanto a própria ironia dado o santo que homenageava. Ficava no alto de uma colina, praticamente de frente para o Anhangabaú. Bote-se que, à época, o vale era puro mato pantanoso, provavelmente de um verde gritante, marcado apenas por alguns poucos aldeamentos indígenas e por eventuais colunas de bandeirantes que buscavam rasgar os interiores à procura de escravos e riquezas. 

  
Na outra extremidade, quase em uma linha reta e ignorando a Praça da Matriz (que eventualmente se transformaria no coração do centro com a construção da Sé), chegaríamos ao Carmo. De todas, era a igreja mais suntuosa e muito bem localizada.

   
 Ficava a poucos passos do Pátio do Colégio, primeira construção do homem branco na região, e provavelmente ainda tinha alguns aldeamentos indígenas nas proximidades. 

  
O Carmo ficava em outra quina do planalto, de frente para o atual terminal D. Pedro e dando acesso a uma várzea imensa. Percebe-se por aí o quanto a região era perfeita para se erigir uma vila, contando com a natureza como principal arma de defesa. Aliás, era dali de uma da torre do Carmo que melhor se conseguia avistar qualquer “visitante” vindo do litoral, seja Santos, São Vicente ou Rio. Bastava que alguém visse o estranho perambular organizado de raros transeuntes e os sinos tocavam, sendo seguidos pelos da Matriz, de São Francisco e São Bento. 

São Bento seria a próxima igreja delimitando São Paulo, fechando o triângulo original do planalto. Mas, antes de chegar lá, o visitante se depararia com uma curiosodade: justamente na região de maior concentração de templos – Carmo, Pátio do Colégio e Matriz – ficava a famosa Rua das Casinhas. O motivo da fama: alinhada de pequenas casas que serviam de quitandas durante o dia, ela se transformava às noites em um dos maiores aglomerados de prostitutas de todo o mundo dito civilizado. 

  
Ignoremos o detalhe profano e sigamos rumo a São Bento, cujas origens tem também muito pouco do sagrado. Quem bancou a construção foi um dos principais bandeirantes paulistas, Fernão Dias, responsável por um genocídio quase sem precedentes junto às populações indígenas. Outros tempos: ao invés de condenado, claro, seus “esforços civilizatórios” foram recompensados por um túmulo de destaque no altar. 

  
Olhando o parapeito do mosteiro beneditino, aliás, um corredor perdido no tempo teria testemunhado uma cena incrível. Inconformados com a confusão causada pelo fim da União Ibérica, os paulistas se revoltaram e decidiram declarar um estado próprio, aclamando um de seus cidadãos (de origem espanhola, diga-se de passagem), Amador Bueno, como Rei. Este, calculando o perigo e a morte certa que o esperaria, recusou veementemente a oferta jurando fidelidade à Coroa Portuguesa. A pequena multidão mudou os ânimos de aclamação para indignação e ele acabou se refugiando no Mosteiro, de onde falou à população pedindo calma e conseguindo se esquivar do que seria um destino fadado à forca. 

Entre igrejas, cenas tragicômicas, colunas de bandeirantes genocidas, muito mato e agrupamentos indígenas em todo canto, São Paulo estava longe de ser o que é hoje. E por que falar de tudo isso em um blog de corrida? 

Porque correr, claro, permite também se ignorar o tempo e aliar a vista seletiva a uma viagem por outras épocas. Permite se ignorar ônibus, mendigos e fuligem, pixações e fiações, depredações e vandalismos, e se focar no que seria o percurso corrido há 300, 400 anos. 

E, claro: qualquer cidade que corramos nos permite isso. Mas quanto mais diferente for o passado e o presente, mais impactante, mais “chocante” será a percepção. 

Uma corrida de domingo pode revelar muito mais do que tempos e paces.