Relato da prova

Estávamos em 65, já alinhados em Santa Bárbara, quando o relógio bateu 5:40 da manhã. Com os primeiros raios do sol, ainda tímidos, saímos.

O primeiro destino era a cidade de Catas Altas, 22km para frente em um trajeto relativamente plano e que, mesmo com uma pequena (e levíssima) trilha de 2k, foi vencido em pace rápido.

Pelo caminho, os olhos já começavam a colecionar memórias: correr ao lado de trilhos, cruzando colinas e passando por um aqueduto antigo, feito pelos escravos, foi algo incrível.

E seguimos e chegamos. Em Catas Altas, uma leve garoa aliviava o suor e encobria um pouco da majestosa Serra da Caraça, que rodeava a região. Subimos até a igreja matriz, um daqueles exemplares perfeitos da arquitetura colonial, e seguimos viagem até Santa Rita Durão.

Mais 18k em uma paisagem diferente, meio cinza, sempre acompanhada pela Caraça e abrindo vistas deslumbrantes a cada curva.

A partir daqui, nada mais de planos: o trajeto inteiro seria pontuado por subidas e descidas que ainda castigariam as pernas. Tudo bem: pernas castigadas, vistas abençoadas.

Em Santa Rita, outra cidadezinha incrível e extremamente bem conservada, mostrando aos forasteiros um pouco da alma de Minas Gerais. Entre goles de água e uma altimetria que começava a se mostrar intensa, chegamos a Camargos.

Outra pérola, como todas as que fizeram o caminho memorável. Não só elas, aliás: a organização dos voluntários foi impecável!

Havia van à frente, picape atrás fechando o percurso, tropas de bikes ajudando e hidratação e comida em todos os pontos. Apesar da rota inteira ser bem demarcada, alguns corredores se perderam – mas rapidamente esse staff os localizou, conferiu seus nomes em uma planilha e os colocou no caminho certo. Não cito nomes para não deixar a minha memória cometer nenhuma injustiça, mas boa parte do sucesso dessa ultra se deve ao suor desses herois!

E, enfim, de Camargos, subimos uma serra severa, quase sádica, até Mariana. Nesse ponto, comecei a me sentir mal, tendo me superhidratado por uma falha tática: já estava nos 57k e tinha tomado apenas água e em grande quantidade, tirando o equilíbrio de sódio do corpo. Para piorar, isso aconteceu justamente quando o sol decidiu nos castigar e quando as subidas foram piores.

Por sorte, estava com os amigos David, Dirceu e Ilza, que me deram um isotônico em pó e uma cápsula de sal. No caminho, encontrei também a van de apoio que me deu uma Coca. Bem… no total, foram 10km de estresse mas que sintetizaram o que é participar de uma ultra: há sempre os momentos mais “escuros” que passam com um pouco de paciência e conhecimento do próprio corpo – e sempre solidariedade nos corredores parceiros.

Em Mariana, já estava perfeito. As pernas e pés, é verdade, doíam – mas nada além do esperado.

De lá até Ouro Preto seria uma ladeira só de 12km pelo asfalto, subindo sem parar.

E subimos, agora também na companhia da Milva, que estava manuseando dois postos de apoio.

Intercalamos 30″ de trote com 30″ de caminhada, acendendo as headlamps para avisar aos carros que estávamos próximos.

A ladeira foi severa – mas a imagem do sol de fim de tarde queimando as colinas mineiras com as luzes de Ouro Preto iluminando a distância compensou.

Quando chegamos, o clima na cidade era só de festa: os moradores já estavam por dentro da prova e perguntavam, incrédulos, se realmente estávamos vindo de Santa Bárbara.

Quando viramos na Praça Tiradentes, só palmas eram ouvidas: os outros corredores estavam em festa, celebrando o feito e congratulando a todos que chegavam.

Não há palavra melhor para descrever essa ultra: perfeita. Por 13h23 em seus 88km e quase 2 mil metros de subida acumulada.

Não sei se haverá nova edição, se essa prova se oficializará no calendário ou coisa do gênero. Mas sei que ver uma ideia postada há meses aqui no blog se materializar de forma tão impressionante e mágica foi inesquecível – assim como toda essa experiência de cruzar a história de Minas, atravessando caminhos de bandeirantes e escravos pelas veias por onde pulsou boa parte da economia colonial.

E, embora tantos tenham sido responsáveis pela realização desse sonho, há duas pessoas em especial que não posso deixar de agradecer: Zilma Rodrigues, que chegou 2 horas antes de mim e que agitou a organização pre-prova, e André Zumzum, que deu um show à parte na coordenação do apoio.

Agora é descansar por uns dias, aproveitando a sensação de realização que vem com as linhas de chegada de ultras, e iniciar uma nova preparação para novos e bem vindos desafios!

certificado

 

 

 

 

 

3 comentários sobre “Relato da prova

    • Oi Flávio! Essa prova foi organizada entre amigos e acho que não ocorrerá esse ano. Uma das cidades que passamos foi Bento Rodrigues, que acabou devastada pela tragédia da Samarco.

      Mas olha… Dá uma pesquisada no Desafio Extrema Estrada Real – é bem parecida e passa por alguns dos mesmos lugares. Eu mesmo estou considerando ir :-)

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