O que funcionou e o que não funcionou no treino para correr 150K

Já começo com uma observação sobre o título: apesar da corrida ser, oficialmente, de 140K, questões da marcação acabaram fazendo com que ela se estendesse por exatos 148K. Como consegui concluir dentro do tempo limite… Bom… Considero então que o treino que fiz funcionou bem. 

Quem acompanha o blog sabe também que eu mesmo montei essa planilha sem ajuda de treinador e me baseando apenas em dicas de amigos e na sempre fundamental Internet. Pois bem: é hora então de fazer um balanço sobre todo esse período. 

Contextualização

A prova para a qual me preparei foi a Caminhos de Rosa – um percurso longo pelo sertão mineiro com direito a temperaturas que chegaram a 42 graus. A altimetria existia apenas no último trecho, quase que como um toque sádico, mas a poeira e o clima quente e seco foram suficientes para transformar essa corrida em uma das experiências mais áridas que eu tive na vida.

O relato da prova pode ser lido aqui.

Qual foi a maior dificuldade da prova?

Nos preparamos para os quilômetros, para as horas, para o clima – mas o que sempre pega em ultras assim são as coisas que sequer passam pela mente. No meu caso, a prova foi extremamente prejudicada por um par errado de meias que tinham uma saliência “errada” na parte interna e, portanto, fizeram bolhas nos dois pés já no km 30. Ou seja: corri por 110km com bolhas massacrando os pés e sem nada que pudesse fazer quanto a isso exceto aguentar. 

Não tenho nenhuma dúvida de que, não fosse por isso, teria tirado pelo menos 2 ou 3 horas do meu tempo, o que deixa um aprendizado importante: sempre, SEMPRE se deve levar um par diferente de meias para acasos assim. 

As dificuldades esperadas

Fora isso, as dificuldades foram as esperadas: distâncias longas, isolamento, calor. O calor, confesso, atrapalhou principalmente no começo, causando dores de cabeça já na quarta hora de prova. Mas foram só as bolhas aparecerem que as dores mudaram de local e a cabeça ficou perfeita. 

Essa prova especificamente tinha muito pouco ponto de apoio – havia trecho de 70km, por exemplo, sem um único PC, povoado ou pé de gente nos arredores. Para piorar, esse trecho foi à noite e em um pedaço da prova que estava consideravelmente mal sinalizado, aumentando o estresse. 

Não dá para dizer que foi fácil – mas dá para afirmar que estava preparado. 

Durante meu treino, um dos pontos que acabei me autocriticando foi a ausência de provas para ajudar nos longões. Em dias que eu fazia 50K, por exemplo, acabava só por cerca de 6 horas, sem ter com quem conversar ou me distrair. Do ponto de vista de treinamento, esse tédio realmente foi chato – mas me preparou bem. Acabei aguentando o isolamento melhor que imaginava, usando toda uma série de truques mentais (de cantar alto feito um louco a invocar os personagens de Guimarães Rosa e a pensar constantemente na minha família) para a travessia. 

Ainda sobre o treino mental

Quem olhar apenas as planilhas achará que o treino foi puramente físico. Ledo engano: houve mais preparo da cabeça do que do corpo, eu arriscaria dizer. 

A alma da prova era a literatura de Guimarães Rosa: sua linguagem, suas histórias, seus personagens, seu sertão-mundo. No instante em que me inscrevi comprei 4 livros dele e me debrucei sobre seu universo. Grande Sertão: Veredas; Manuelzão e Miguilim; No Urubuquaquá, no Pinhém; Noites do Sertão. 

Todos livros cujas histórias fantásticas se passavam justamente pelo percurso da prova, agregando um valor e uma população àqueles sertões como nada mais. 

As quase mil e quinhentas páginas devoradas foram simplesmente perfeitas. 

O modelo da planilha

Do ponto de vista prático, minha planilha foi montada com micro-ciclos mensais. Oficialmente, comecei no final de fevereiro, logo depois que voltei do Cruce. 

A partir daí, comecei fazendo 3 semanas de alta intensidade e uma de descanso (reduzindo bruscamente o volume). Essa semana servia para recarregar as baterias, abrindo caminho para um novo ciclo alto. 

As três semanas de alto volume eram praticamente idênticas: não usei nada daquele modelo de ampliar 10% de volume por semana. Isso funcionou: depois de um mês onde aguentar volumes altos seguidos foi complicado, acabei me adaptando e adaptando o corpo a correr cansado. 

Foco no volume

Não há como se focar simultaneamente em alto volume e alta intensidade – ou vamos com um ou com outro. No meu caso, privilegiei o volume. O pace ficou quase inteiramente estacionado na casa dos 6, 6 e meio por km: leve o bastante para não prejudicar o treino mas sem ser “lerdo”. Gostei desse modelo, embora a perda de velocidade média realmente tenha incomodado um pouco. Em uma próxima, talvez faça algum ajuste pequeno para trabalhar nem que seja um pouquinho a mais na velocidade.

Altimetria compatível

Os 150K tiveram apenas cerca de 2 mil metros de desnível positivo acumulado – pouco para a distância. Como já sabia disso, acabei focando pouco em subidas ou descidas. 

Apenas em abril, quando corri os 50K da Indomit SP, é que enfrentei montanhas maiores na região da Mantiqueira. 

Depois disso, fiquei apenas no cotidiano, deixando o treino compatível com o perfil da prova. Isso também funcionou bem. 

A distribuição de treinos na semana

Quanto se deve correr em um longão quando se prepara para uma ultra longa? Menos do que se costuma imaginar.

Sim, precisamos de volume – mas Kilian Jornet, um dos mestres das longas distâncias, sempre diz que o que conta é a volumetria da semana, não do dia. 

Decidi testar isso e não fiz um único longão maior que 50K. Minha semana de pico foi mais ou menos assim: 

  • Segunda: Descanso
  • Terça: 20K
  • Quarta: 10K
  • Quinta: 15K
  • Sexta: Descanso
  • Sábado: 50K
  • Domingo: 20K
  • Total corrido: 125K

No meio da semana me mantinha aquecido com três dias sequenciais já abertos com uma meia; e o final de semana incluía um back-to-back relativamente forte, com uma pequena ultra pela cidade seguida de uma meia. 

Correr com as pernas cansadas: era esse o foco. Funcionou bem. 

O que eu faria diferente?

Sem sombra de dúvidas: o tempo de treino. Entre o final de fevereiro, quando comecei, até a largada em 19/08, foram quase seis meses de treino. Seis meses é tempo DEMAIS. 

Houve um momento, já próximo do pico, que o cansaço estava tanto que meu corpo começou a pifar: ficava com sonos súbitos no meio do dia, febres que vinham e iam em horas, bruxismo e coceiras sem motivo. Para a próxima prova longa não pretendo deixar mais que 4 meses para treinos focados (principalmente por considerar que não estava exatamente destreinado).

Resumo do que funcionou: 

  • Modelo de mini-ciclos mensais crescentes, com 3 semanas fortes de igual volume ou tempo na rua e 1 semana de descanso (com corte de algo como 40% ou 50% da carga)
  • Treinos simulando o percurso, só e isolado e com altimetria compatível
  • Treino mental/ espiritual, meio que mergulhando no universo da prova
  • Foco em volume, não em intensidade
  • Distribuição de treinos na semana, com back-to-backs fortes evitando a necessidade de longos de mais de 50K

Resumo do que não funcionou:

  • Pouca atenção a acessórios: as meias me mataram e eu tinha que ter levado um par diferente
  • Velocidade talvez devesse ter sido mais trabalhada – afinal, quanto maior o pace, menor o tempo sofrendo adversidades durante a prova
  • Tempo longo demais de treino, o que acabou gerando efeitos colaterias desnecessários e danosos

Nota geral?

Considerando tudo isso, eu daria nota 7,5 ou 8 para todo esse processo de treino. Poderia ter ido melhor? Sim, claro. Mas considerando a aridez e a dificuldade elevada da prova, a extensão maior que o esperado/ anunciado, o calor e a poeira do sertão, o isolamento e tudo mais, o fato de eu ter concluído dentro do tempo e de estar já recuperado, ansioso por um trote novo no Ibirapuera já 4 dias depois de ter cruzado a chegada, certamente é um bom sinal.

Agora é dar mais um tempinho para respirar, voltar aos poucos, deixar as bolhas voltarem a ser pés e seguir. Há mais jornadas pela frente.

Gráficos de todo o processo, do final de fevereiro até o domingo passado:

Caminhos de Rosa: Relato da prova

Talvez a mais célebre frase de Guimarães Rosa na sua obra prima, Grande Sertão: Veredas, seja “viver é muito perigoso”. É fácil imaginar perigo lendo as páginas de um romance repleto de tiros e jagunços – mas, às vezes, só se entende mesmo esse perigo vivenciando-o. Há imprevistos, há calor, há perrengues, há distâncias, há isolamento – como também há companheirismo, gestos ímpares de altruísmo e aromas que perfumam o ar de vontade de seguir adiante como nada mais.

Não duvido que viver realmente seja perigoso – mas é também absolutamente maravilhoso. Se ficou uma lição de correr 140km pelos sertões, foi essa.

E comecemos pelos imprevistos: já havia relatado aqui que um pacer, o Paulo, havia desistido por questões pessoais. Acontece: estava ainda com uma pacer – Luana Bianchi Ornelas – e uma comadre – Mayra Galha – que, mesmo sem entender direito esse esporte doido que tanto amamos, topou vir junto para conhecer o sertão, fotografar e ajudar. Havia ainda um terceiro membro que dividiria a tarefa de pacer com a Lu e que se juntou de última hora, o amigo comradeiro Thiago.

Infelizmente, ele veio e se foi com a mesma velocidade: imprevistos também o tiraram da rota na sexta de manhã, poucas horas antes da largada.

Enfim, nos agrupamos. A tarefa seria mais difícil, mas ainda viável: contaria apenas com uma pacer, que precisaria dividir seu tempo entre o tênis e o carro.

Nos reorganizamos. Refizemos o planejamento.

Às 14:00, sob o sol do sertão e logo depois de um vaqueiro perfeito seguir com uma boiada perfeita, largamos.

Trecho 1: 

Eu gosto de calor. Não só não me incomodo com o sol, mas costumo dar as boas vindas a ele seja qual for a temperatura.

Nada, no entanto, era igual àqueles 40 graus onipresentes se disfarçando entre meio metro de poeira fina que pulava do solo seco a cada pisada. O céu estava incrivelmente azul, não havia sombra e a paisagem era provavelmente a mesma pela qual Riobaldo, Diadorim e a jagunçada correu para tumultuar o sertão.

Corri esse primeiro trecho, de 45km precisamente marcados, exatamente conforme o planejado: em 6 horas. Houve apenas um porém (que acabou se mostrando crítico depois): as meias que levei tinham uma pequena saliência na sola do pé e começaram a fazer bolhas já depois do km 30.

Cheguei a parar para trocar os pares mas nada: as bolhas estavam ali para crescer e tudo o que eu podia fazer era aguentar.


A Luana entrou como pacer nos 8km finais do primeiro trecho, deixando a Mayra fotografando embasbacada com a beleza árida do sertão. Perfeito.

Chegamos na entrada do segundo trecho no pôr-do-sol, já vendo as florestas de eucaliptos que nos acompanhariam dali em diante.

Trecho 2: 

Mais 45km pela frente…. ou mais.

Pois é: à noite, a marcação da prova realmente estava com pontos falhos e a quantidade de bifurcações era tamanha que achar o caminho certo se transformava em um desafio à parte. Fitas? Impossíveis de enxergar sob a luz pálida da lua e a poeira turvando o ar. Setas reflexivas? Pequenas como eram, só se mostravam quando iluminávamos o local exato com uma mira cirúrgica.


Mas funcionamos bem como time, principalmente pelos olhares sempre atentos das meninas e, no final das contas, nos perdemos por apenas 2km.

Ainda assim, as horas que passamos na noite sertaneja foram, arrisco dizer, as mais difíceis de toda a prova. O isolamento era poderoso; as bifurcações eram cansativas; a sensação de estar correndo no mesmo lugar era torturante.

A solução? Quando estava correndo só, isolado no meio do sertão iluminado apenas pela lanterna e pela lua, cantar. E cantei alto feito um alucinado, gritando melodias desafinadas para o céu estrelado até rir de mim mesmo para, depois, engolir as risadas e me alimentar de bom humor.

Funcionou.

Ainda assim, todo o resto do planejamento morreu nesse segundo trecho, quando as bolhas começaram a assumir proporções realmente devastadoras.

Por fim, chegamos no ponto de controle que separava o trecho 2 do 3.

Ou não.

Ponto de controle? Nada: havia apenas uma barraca de camping com dois irmãos que nos ajudariam a atravessara BR e a começar o terceiro trecho diretamente.

Já eram 5:30 da manhã e o sol já começaria a raiar. O que fizemos?


Montamos o nosso próprio PC. Abrimos o carro, preparamos a cadeira e nos demos uns 20 minutos para recuperação com os pés para cima.

Era hora de rumar para a fazenda.

Trecho 3: 

Em tese, seriam 17km de onde estávamos até a fazenda, principal posto de controle da prova.

Com o sol raiando mas ainda sem o calor, toda a força reapareceu sabe-se lá de onde. Já estava com quase 100km rodados mas, tirando as bolhas, me sentia praticamente inteiro.

Corri o começo do trecho forte, aproveitando o frio da manhãzinha e aquele cheiro delicioso do sertão. Creio que foi mais ou menos por esse momento que algumas formações esquisitas começaram a aparecer para abrilhantar o caminho de exoticidades – como um conjunto de fornos de fabricação de carvão ou mini montanhas cortando leitos secos de rio que um dia deviam ter sido oceanos à parte. Tudo de uma lindeza sem tamanho.


Aí decidi andar um pouco.

Aí as bolhas apertaram ainda mais, me apresentando um novo estágio de dor.

Aí a marcação de quilometragem complicou avida.

17km? Só no papel. Na prática, foram 22 – e esses 5km a mais tiveram um efeito mental terrível para mim.

Mas, já sabia bem, ultras são jornadas que se faz sem parar – e acabei seguindo meu caminho. Cheguei na fazenda já sem plano e, no instante em que senti o cheiro delicioso de comida de verdade, abri um sorriso.

Sentei com os pés para cima em uma sombra na varanda, comi um prato de frango, tomei uma Coca e me dei ao luxo de dormir por exatos (e perfeitos) 10 minutos.

Só se entende o poder de uma brisa na sombra depois de passar tantas horas assando no calor do sertão, concluí.

Trecho 4: 

Ainda restava o último trecho. A distância? Já não arriscava mais confiar nem no GPS e nem na marcação da prova.

Apenas levantei, troquei de roupa e fui.

Fui andando, acrescento: correr já era uma impossibilidade.

Ali, naquele último trecho, tanto Mayra quanto Luana se revezaram como pacers, mantendo a conversa em alto e evitando os baixos tão comuns à exaustão.

Era um trecho difícil: em um ponto, havia algo como 8km de subida a céu aberto, assando ainda mais os miolos. Calor, cansaço, tudo se somou.

Em um dado momento, fui praticamente forçado pelas meninas a sentar e descansar: estava andando já em ziguezague sem saber, exaurido e mal humorado. Forcei por mais alguns metros mas acabei cedendo na última sombra antes de uma ladeira aberta.

Lá, enquanto descansava, um outro carro parou do lado e perguntou se estava bem. Depois que fiz que sim, a moça apenas falou: “já tem gente chegando e ainda falta muito, muito chão para você!”.

Se tivesse uma arma, Riobaldo certamente teria encarnado em mim e aquela moça estaria atravessando os céus. Ainda bem que o regulamento proibia assassinatos.

Levantei de novo, já razoavelmente recomposto depois de algumas castanhas de caju, uma barrinha de chocolate e uma Coca.

Segui andando, chegando até outra floresta de eucalipto, depois outra, depois outra.

Dado que o GPS já marcava 140km, esperava ver a chegada a cada curva – mas ela não vinha.

Enfim, chegamos à Gruta do Maquiné deixando para trás a poeira e entrando no asfalto que nos levaria a Cordisburgo.

“Devem restar apenas alguns metros”, pensei.

O apoio de uma outra equipe que estava próxima decidiu conferir a distância exata e voltar para contar, evitando essa angústia do inchegável. E ele voltou com uma notícia devastadora: “ainda faltam 4,5km, dos quais cerca de 400 metros são de subida e o restante é quase todo de descida!”

Pedi para sentar e descansar um pouco.

Respirei.

Me levantei.

A noite já havia caído de novo e, se eram só menos de 5km que me separavam da chegada, era isso que eu teria que enfrentar.

Luana e Mayra se revezaram novamente como pacers, sempre buscando manter o moral elevado. Funcionou.

Descer algo como 4km com tantas dores nas coxas não foi nada fácil, asseguro – mas foi viável. Tudo é viável quando se tenta.

Finalmente, uma pequena igreja e o portal dos sertões: estávamos em Cordisburgo.

Viramos uma esquina. Depois outra.

Mais uma.

À frente, o pórtico de chegada.

É impressionante como um arco tão simples pode representar tanta coisa. Tudo é sempre relativo na vida, tudo sempre depende da jornada. Tudo é a jornada.

Faltando poucos metros, pedi para a Mayra, que estava ao volante, estacionar o carro.

Estava tão grato às duas pelo colossal trabalho de ser apoio em uma prova dessas que queria muito cruzar a chegada com ambas.

Assim fomos, buscando energia de algum lugar qualquer para correr os últimos metros e terminar a prova.

Ali, 29 horas e 37 minutos depois, estavam concluídos os Caminhos de Rosa.

Ali, naquele momento, sob as palmas de Riobaldo e sua jagunçada, de Cara-de-Bronze, de Pê-Boi, de Dona Lina, de Miguilim e Dito, os caminhos também passaram a ser meus: viraram, ao menos em minha mente e em meu coração, Caminhos de Ricardo.

No final, meu GPS marcou quase 148km – uma jornada e tanto que certamente mudou muito a maneira com que enxergo a vida.

Toda ultra difícil cumpre esse papel, aliás, e é provavelmente por isso que as corremos: para conhecer melhor cada pedaço dos nossos corpos; para testar as nossas mentes; para abrir novos rumos aos nossos corações.

29 horas e 37 minutos depois eu era uma outra pessoa.

Estava exausto, mas renovado; quebrado, mas mais inteiro do que nunca; estava em puro estado de contradição. Estava entendendo que, sim, como dizia Guimarães Rosa, “viver é muito perigoso” – mas que importante mesmo é a palavra “viver”, não a parte do “perigoso”.

Perigos passam: o que fica é a jornada.

Se pudesse tecer algumas recomendações à organização e ao meu amigo Zumzum, diria para deixar as marcações noturnas maiores e mais reflexivas, para se assegurar melhor da extensão do percurso e para erguer mais pelo menos um ou dois postos de apoio. Mas não exagero em críticas: não tenho dúvidas da dificuldade monumental que deve ter sido organizar algo assim.

E, além do mais, tudo acabou transcorrendo bem, funcionando quase como deveria principalmente se considerarmos que seguir qualquer plano à risca no meio do sertão seria uma impossibilidade científica.

Deixo, portanto, dois agradecimentos aqui neste post que encerra uma jornada de mais de 5 meses de treinamento intenso: ao próprio Zumzum e à organização por nos proporcionarem essa oportunidade e, claro, às minhas duas queridas amigas e apoiadoras, Luana e Mayra, sem as quais jamais teria conseguido cruzar o pórtico de Cordisburgo.


Agora é hora de descansar um pouco.

Percurso completo:

https://www.strava.com/activities/683171669/embed/a952d3ac47176b7519d726c3948c1dc8c5db136d

Screen Shot 2016-08-22 at 1.42.53 PM

Percurso completo

Screen Shot 2016-08-22 at 1.42.17 PM

Análise de pace

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Organizando o Caminho: equipe e checklist

Quarta-feira, 3 de agosto, 9 da noite.

Hora de começar a REALMENTE organizar a ultra, mesmo porque essa inclui um time de apoio próprio.

Enquanto escrevo isso – mais como um lembrete de tarefas do que como relato – converso com os três membros do time que estarão lá no sertão: Paulo Penna, que usará a função de pacer como treino para as 100 milhas que percorrerá no mês que vem; Mayra Galha, comadre que testemunhará pela primeira vez esse esporte doido que tanto amamos; e Luana Ornelas Bianchi, provavelmente a organizadora mais organizada que já pisou neste planeta.

As próprias bios resumidas já indicam os papeis de todos. Além de me aguentarem – nem imagino o estado de humor que ficarei depois de enfrentar 40 graus de variação térmica durante 3,3 maratonas – e de dividirem a direção do carro,:

  • Paulo provavelmente se esvairá em suor comigo ao coletar todas as letras que Guimarães Rosa despejou sob o solo do sertão
  • Luana garantirá a integridade geral de todos e manterá tudo nos trinques
  • Mayra, que é fotógrafa das de deixar Sebastião Salgado parecendo um batedor de 3×4, registrará essa épica jornada

Sendo prático, o que precisamos endereçar? Checklist abaixo com as iniciais dos nomes dos responsáveis:

  • Carro: Já alugado em BH. Paulo, único morador da cidade, pegará o carro na locadora e, depois de nos pegar no desembarque, iniciará a jornada no volante [R]
  • Os hotéis já estão todos reservados tanto na largada, no Morro da Garça, quanto na chegada, em Cordisburgo [R]

Equipamentos:

  • 1 esteira de Yoga para eventuais desmaios [R]
  • 1 cadeira daquelas de montar e desmontar para momentos de quase-desmaios [R]
  • 1 Cooler [R]
  • 1 mochila de hidratação para eventuais trechos em que o carro não possa ir [R]
  • 1 caixinha de lenços umedecidos + papel higiênico [R]
  • Roupas para mim mesmo: 1 calça para a noite, 2 shorts, 2 camisas, 1 camisa de manga longa, uma segunda pele (que ganhei no kit do Cruce) e uma polar (também do Cruce), meias extras, 2 tênis [R]
  • Vaselina o suficiente para eu escorregar em mim mesmo, evitando qualquer risco de assaduras [R]
  • Câmera da Mayra [M]
  • 1 kit de primeiros socorros [R]
  • Kit comida (pratos, copos e talheres descartáveis) [R]
  • 1 toalha [R]
  • 1 manta térmica [R]
  • Sacos de lixo [R]
  • 1 cabo USB para carregar o que puder ser carregado [R]
  • 2 Headlamps com baterias sobressalentes [R]
  • 2-3 Coletes reflexivos [R + L]

Mantimentos:

Como passaremos 24 horas, aproximadamente, no percurso – e como há muito poucos locais habitados – é importante ter comida e bebida para nós 4 no carro. Isso incluirá:

  • 1 saco de gelo, que deve ser reservado com antecedência e que já providenciarei [R]
  • Um montão de castanha do pará, nozes e amendoins (tanto eu quanto o Paulo somos low-carb) [R]
  • 12 latinhas de Coca [R – item a ser comprado em BH]
  • 30 litros de água [R – item a ser comprado em BH]
  • 20 barras de cereal [R]

Agora é providenciar tudo.

Asics São Paulo City Marathon: perfeita

Já na largada se percebia a diferença. Mesmo com 15 mil pessoas prestes a enfrentar os 21 ou 42km, todas largando do Estádio do Pacaembu, não havia sequer sinal de confusão. 

Ao contrário: eu, que já saí correndo de casa e cheguei meio em cima da hora, consegui entrar confortavelmente na minha baia. 

A largada em ondas – uma demanda antiga de corredores e sempre ignorada por organizadores – foi um óbvio sucesso para evitar tumulto. 

E, assim, saímos para uma corrida que começou com os primeiros raios de sol pelo centro velho da metrópole. Sou suspeito para falar: amo o centro tanto quanto amo São Paulo. Rodar por ele de maneira organizada, com amigos e postos de hidratação, foi um presente.

Presente maior foi ouvir uma banda tocar “Sampa” na esquina da Ipiranga com a São João, uma pequena orquestra entoar Bach em frente ao Municipal e acordes de Van Halen cortarem o frio na Galeria do Rock. Foi uma mistura digna do caldo cultural que é São Paulo.

E, do centro belo, decadente, majestoso e cheio de paradoxos, subimos e descemos a Brigadeiro. 

Fomos para o Ibirapuera, minha segunda casa, pulmão verde da cidade. Cortamos o parque até a Faria Lima, pulmão de negócios do maior centro de negócios da América do Sul.

Por um interminável túnel, atravessamos o rio até o outro lado. De lá, o verde e as cores dos Ipês já dominavam a paisagem inteira enquanto surpresas eram dadas pela organização – de vaselina extra a jujubas, passando pela valiosíssima Pepsi, amiga de todas as horas de quem gosta de longas distâncias.

Ponte cruzada, rumo ao Villa Lobos. Na frente do parque, claro, um quarteto de cordas entoava Bachianas Brasileiras como um presente. Voltamos.

USP, segunda casa de todos os corredores paulistanos. O dia estava já se azulando e esquentando a essa altura, o que apenas abrilhantava ainda mais o dia.

De lá foi uma reta até a chegada no Jockey, que contava com uma arena como São Paulo certamente nunca viu. 

Impressionante.

Acho difícil que alguém que tenha feito a Asics São Paulo City Marathon discorde de mim: esta foi a prova perfeita para a cidade. Percurso incrível, temperatura deliciosa, organização impecável.

Que seja a primeira de muitas.

O plano para a São Paulo City (Ultra)Marathon

Domingo tem maratona de São Paulo – e uma com direito a correr pelo meu amado centro velho em um percurso que, embora ainda conte com os cotovelos tediosos da USP, me deixou empolgado desde o momento que o vi. 

Provas são perfeitas para treinos: garantem postos de hidratação, amigos e torcida para empurrar qualquer um rumo aso seus objetivos. Os meus, nessa última semana intensa pre Caminhos de Rosa, vão um pouco além dos 42K: preciso fechar algo na casa de 50. 

Originalmente, pensei em sair de casa correndo. Desisti por dois motivos: a largada é às 6 da manhã, horário perfeito para a prova mas cedo demais para começar antes dela; e a distância pequena demais entre o local e a minha casa (pouco menos de 5K). Por sorte, a chegada é lá no Jockey, que fica a exatos 9K da porta do meu prédio. 

O plano, portanto, é chegar na largada como sempre faço e começar a partir de lá. O percurso é este, abaixo, desenhando uma espécie de sorriso na cidade: 


Depois dos 42K, já com medalha na mão e 80% do treino feito, pego uma reta que atravessa o rio, corta a Vila Madalena, contorna o Allianz Parque e chega em casa. Trecho com algum masoquismo, acrescento, pois tem ladeira até não poder mais! Ainda assim, é o que se apresenta – e é também muito, muito melhor do que sair solo pela cidade. 


Pena que não dá para usar essa prova como qualify para a Comrades… Mas, como dizem os sábios, cada desafio a seu tempo!

Mais um filme sensacional sobre os Unogwaja

Não me canso de ver filmes e babar na história dos Unogwajas – alguns herois, incluindo os amigos Rodrigo João e Nato Amaral, que cruzaram a África do Sul de oeste a leste em 10 dias para depois largar na Comrades no décimo primeiro com dois objetivos: arrecadar dinheiro para caridade e, claro, ganhar uma experiência inesquecível. 

Acompanho a trajetória deles desde 2014, quando inclusive tive o prazer de, por pura coincidência, testemunhar a chegada do grupo em Pietermaritzburg na véspera da Comrades. 

Bom… Na semana passada eles lançaram um novo filminho com a história do grupo e do que tem conseguido. 

Ei-lo abaixo:

Vídeo: Sobre uma prova que nunca farei

Nunca gosto de dizer nunca. Há uns 10 anos, do alto do meu sedentarismo, jamais poderia imaginar que estaria aqui, hoje, escrevendo um blog sobre um esporte que nunca sequer tinha ouvido falar.

Ainda assim, arrisco-me desta vez a pregar o “nunca” em relação à Hurt 100, uma prova de 100 milhas extremamente técnicas e perigosas sobre uma das ilhas do Havaí. A dificuldade é tamanha que, ao menos na minha concepção, a diversão acaba ficando de lado. E qual a graça da vida se ela não puder nos divertir?

Ainda assim, dificuldades e agruras assim são sempre divertidas em filmes. São os extremos vividos pelos outros que nos fazem curtir ainda mais as amenidades às quais nos lançamos com algum tempero de aventura.

Eis Hurt 100:

 

 

Vídeo: História completa de Comrades

Para quem ama a rainha das ultras, esse vídeo é um achado.

Sim: os primeiros 1:45 são meio chatos, com uma introdução desnecessária – recomendo que pulem.

E sim: ele é infelizmente todo em inglês, sem legendas.

Se isso não for um problema, recomendo fortemente. Dá para entender quase toda a magia dessa corrida (e digo “quase” porque, para entendê-la por completo, só correndo os 89km que separam Durban de Pietermaritzburg).

Vídeo para matar saudades das trilhas do Cruce

Mesmo com parcos anos correndo em trilhas, posso dizer que poucos são os percursos tao deliciosos quanto os do Cruce. Claro: todo ano os percursos mudam – mas a região é sempre a mesma. 

E isso inclui trilhas lisas e absolutamente corríveis, montanhas belíssimas emoldurando lagos sensacionais ao fundo em três dias de pura endorfina. Quem não foi ainda, recomendo seriamente. 

Para quem foi, eis um vídeo que achei agora na Web com um programa gravado na edição deste ano para a TV espanhola: