Esgotado

Dentre todas as palavras, essa talvez seja a que melhor definiu essa semana: esgotado.

Depois de um ritmo que incluiu Comrades em junho, Indomit Bombinhas em agosto, Duro Ultra Trail em setembro e a infernal Maratona de SP em outubro, foi como se o meu tanque tivesse se esvaziado.

Nem sair para a rua hoje eu consegui. Essa semana inteira teve apenas 3 treinos – e ainda assim difíceis, muito mais cansativos do que se esperaria para um pace lento e uma altimetria praticamente nula.

Batendo um papo com meu treinador, a conclusão foi óbvia: preciso tirar o resto desse mês de folga. Não parando com os treinos, claro – mas pelo menos diminuindo o ritmo enquanto, em paralelo, busco uma nova meta. Metas, afinal, são os melhores geradores de combustível motivacional do mundo.

Nesse ponto estou já bem satisfeito: a ultra improvisada na Estrada Real está me parecendo uma ideia cada vez melhor. Ontem, inclusive, o Renato Mourão mandou um comentário aqui no blog me convidando para um grupo de corrida que já planeja uma ultra pelo Caminho de Sabarabuçu, de 160km. Ainda estou fazendo as contas – são quilômetros demais e tempo de menos uma vez que eles largam no final de novembro. Mas pelo menos será uma belíssima referência.

Seguirei planejando ainda nessa próxima semana. Já organizei alguns caminhos interessantes aqui, baixei mapas e analisei altimetrias. Vou postando novidades por aqui.

Enquanto isso, vou me recuperando da intensidade dos últimos meses.

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Preciso de um plano

Se tem uma coisa que não estou acostumado, é com uma absoluta falta de planos ou metas.

Nos últimos anos, sempre tive uma corrida como alvo, me permitindo traçar estratégias e me empolgar com a evolução diária.

Foi assim que entrei, pela Two Oceans, no mundo das ultras; que mergulhei de cabeça na Comrades, rompendo a barreira das 50 milhas; que transicionei para as trilhas via Indomit e me entreguei às montanhas na Douro Ultra Trail.

E isso tem sido uma jornada fabulosa.

Hoje, no entanto, há um vazio.

A última prova relevante foi a Maratona de SP, que me qualificou para a Comrades do ano que vem (no final de maio).

E daqui até lá?

A única ultra próxima planejada era em São Bento do Sapucaí – mas a data foi um impeditivo por compromissos familiares.

Provas curtas me encantam pouco – é como se não houvesse muito mais desafio nelas.

E agora?

Vasculhei, vasculhei, vasculhei e nada: não parece haver nenhuma ultra próxima entre hoje e março, data a partir da qual já preciso estar bem concentrado na Comrades.

Estou sem metas. Sem provas alvo. Sem nada que exija algum tipo de planejamento. Sem nada que me deixe empolgado de verdade.

Como correr sem ter algum lugar para chegar?

Para mim, isso é bem complicado. Está na hora de bolar alguma coisa diferente.

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A estranha leveza da alta intensidade

Manhã cedo em Sampa, garoa começando a ceder, sol começando a sair por entre uma mescla de núvens e noites. 

Perfeito para a última sessão de tempo runs em solo brasileiro: amanhã embarco para Portugal, já tendo a Douro Ultra Trail como meta. 

E, saindo da fase de pico de treino, com 100km acumulados nos últimos sete dias, realmente achei que seria mais difícil. Talvez pela falta da mochila de hidratação, já devidamente guardada na mala, ou pelo clima absolutamente favorável lá fora, acabei sentindo uma leveza impressionante na rua. 

A primeira subida de ritmo veio logo depois dos 5 minutos de aquecimento: 30 minutos fixos a um pace encaixado na casa dos 4’30″/km. Fosse a dois dias atrás, seria porrada pura. 

Hoje, foi bem vindo. Não vou dizer que não deu para sentir nada – mas posso afirmar que foi bem mais light do que imaginava mesmo hoje cedo, quando levantei da cama forçado pelo despertador insistente. 

Depois uma pequena pausa para trote e mais 20 minutos de tempo

Desta vez fui por dentro do parque do Ibirapuera e não por fora de sua grade como fiz na primeira volta, buscando uma distância maior para alinhar o plano de 1h30 de treino. 

Também leve. 

Quando os 20 minutos passaram cheguei a manter o ritmo por mais alguns instantes, mas acabei desistindo ao chegar em um cruzamento. 

Aí foi administrar o trote final que, claro, incluiu a já tradicional subida da Ministro. Mesmo ela, devo dizer, foi mais fácil. 

A que devo toda essa relativa tranquilidade em um treino que deveria ser tão intenso? 

Talvez a certeza de que as fases mais duras de todo esse processo já passaram. Talvez o sentimento de que estou, de fato, preparado para a ultra trail – ao menos dentro das possibilidades. 

Talvez a proximidade da viagem, que põe uma espécie de ponto final a uma meta que começou em junho. 

Seja lá o que for, foi bom. E absolutamente reconfortante. 

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Semana de pico, longão 2: o inesperado

O prospecto de levantar às 5 para fazer mais um percurso de 2h30, verdade seja dita, não era dos melhores. 

Acordei brigando com o despertador e sentindo um pouco as pernas – provavelmente mais pelo que estava por vir do que pelo que passou. 

Ainda assim, não se completa ultras trocando as ruas pela cama. Saí. 

Ainda noite, o ar de Sampa estava frio, meio cortante e com aquele tipo de eletricidade esquisita no ar indicando que o dia seria inesperado. De alguma forma.

A corrida em si não foi. Ela cansou mais a cada volta pelo Ibira, ao ponto de eu chegar a me questionar sobre cortar 30 ou 40 minutos. Não cedi: em momentos assim, aprendi que o melhor a fazer é me fechar em mim mesmo e buscar pensamentos mais intensos na cabeça, focando-me neles ao invés de nos quilômetros por vir. 

Funcionou até o final, inclusive na subida da Ministro.

Quando cheguei de volta na portaria do prédio, estava exausto: as dores pelo corpo pareciam subir lenta e decididamente, em forma de minúsculas pulsações elétricas, pelas pernas.

Como farei as 5 horas do sábado? Esse foi o meu último pensamento antes de entrar em casa.

Aí aconteceu o inesperado: o silêncio. 

Passava um pouco das 8 e minha mulher havia levado minha filha na escola. A partir daí, ela seguiria para o dia dela, tão intenso quanto o de qualquer um que vive aqui na urbe. 

A minha primeira reunião, no entanto, seria apenas às 10. 

A casa estava vazia e em um silêncio absolutamente estranho para qualquer um (que tem filho). E por pelo menos uma hora e meia ela ficaria assim. 

Hora, então, de respirar fundo e desacelerar. 

Fiz café, sanduiche, omelete com curry e tanto tempero que faria a Companhia das Índias pasmar de inveja. Acendi um incenso mais exótico chamado Frankencense e deixei a casa ser tomada pelo cheiro.

Nada de TV com notícias: busquei um playlist chamado “Your Favorite Coffeehouse” no Spotify e deixei ele tocar lentamente, levemente. A cada gole de café. A cada inspirada incensada. 

Sentei. Respirei. 

Não dá para dizer que uma mágica súbita aconteceu e levou embora todas as dores musculares. Elas ainda estão aqui, muito embora bem mais relaxadas. Até o final de amanhã devem passar. 

Neste instante, escrevo este post ainda imerso em um clima absolutamente zen e imune a qualquer tipo de estresse, barulho, ou interrupções – incluindo as que mais amo na vida, diga-se de passagem. É que um pouco de pausa, às vezes, faz bem. 

Quando acordei hoje, brigando com a planilha e o tênis que me olhava torto, imaginei que teria um dia cheio de tumulto, cansaço, demandas alheias e próprias. E provavelmente ainda terei, dado que a minha primeira reunião começa apenas em alguns minutos.

Mas só essa hora e meia de calmaria entoada por temperos, café quente e aromas exóticos já foi absolutamente – e inesperadamente – perfeita. Essa hora e meia, por si só, já valeu o dia. 

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Os pequenos milagres do corpo

Milagres, na minha opinião, nunca são tão grandiosos quanto costumam ser definidos.

Não acredito que milagres curem doenças graves ou salvem a humanidade de desastres cataclísmicos: dou esse crédito à ciência e à sorte, dois elementos que costumam ser ignorados quando grandes feitos são creditados a um ser maior.

Mas isso não significa que não acredite em milagres. Ao contrário: tenho a mais nítida certeza de que eles existem sim – mas escondidos nas pequenas coisas que costumamos ignorar. Milagre, para mim, é tão somente um nome mais pomposo para eficiência surpreendentemente exagerada em qualquer que seja o processo.

Algo como os efeitos de um dia sem treino para a recuperação muscular.

Ontem amanheci quebrado, sofrendo as dores tardias da Indomit somadas a dois dias de treino que, embora leves, só pioraram o quadro. Tudo – absolutamente tudo – doía. Caminhar, por si só, parecia tortura chinesa.

Não corri ontem. Não por decisão consciente, verdade seja dita, mas porque uma viagem a trabalho me impediu.

Acordei cedo, peguei avião, fiz uma bateria de reuniões, não consegui sequer almoçar e voltei para casa no último vôo. Não dá para dizer que descansei – ao menos não no sentido mais óbvio do termo.

Mas, aparentemente, meu corpo decidiu aproveitar a falta de uma corrida em 24 horas para acelerar a recuperação geral.

Lá dentro, microrupturas devem ter se reparado, tendões descansado, músculos relaxado. Tudo em um punhado de horas. Tudo com a agilidade que nunca conseguirei ter nas trilhas.

E tudo surpreendentemente – e milagrosamente – efetivo.

Hoje, por puro milagre, acordei novo em folha.

Que bom: já é hora de correr.

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Video da Douro Ultra Trail no ar

Toda prova-alvo tem uma coisa em comum: a ansiedade de quem pretende corrê-la. E, quando a organização sabe capitalizar em torno disso, essa ansiedade cresce ainda mais.

Capitalizar, nesse caso, significa gerar imagens, posts em redes sociais e, principalmente, vídeos que deixam o corredor com água na boca, contando os dias para a largada. A organização da Douro Ultra Trail – minha prova alvo em todo esse processo de transição do asfalto para as trilhas – acabou de fazer isso com um vídeo muito, muito bem montado. Vale conferir abaixo:

Subindo e descendo o Pico do Jaraguá

Hoje foi dia de brincar nos desníveis.

Logo que acordei, empolgado, voei para o Pico do Jaraguá para uma sessã com três subidas e descidas alternando entre a estrada e a Trilha do Pai Zé.

Preferi começar pela estrada, com seus quase 5km intermináveis – mas lindos – de pura subida serpenteando a montanha. Serviu para aquecer em uma manhã fria e com neblina encobrindo o pico.

Depois, a parte divertida: descer. Faz algum tempo que tomei as descidas como a parte mais deliciosa de qualquer treino, principalmente quando consigo ir rápido. Mérito do meu treinador que inseriu um negócio chamado de Kenyan Hills na minha planilha: algo como subir e descer morros como se o mundo estivesse prestes a acabar.

Chegando na base de volta, hora de pegar a trilha. Já tinha feito ela uma vez, mas é impressionante como intimidade vem rápido.

Subir em trilha, claro, é mais demorado do que na estrada – mas depois que se perde o medo dela tudo fica mais instigante. A pressa vem nas horas certas, a cautela chega nos momentos precisos, pernas e pulmões se alternam no cansaço. Até o topo.

De lá para baixo, tudo é diversão novamente, voando morro abaixo sem medo do solo. Aliás, medo é um negócio curioso: basta perdê-lo que nada de errado parece acontecer. Ao contrário: ele parece ser trocado por pura segurança nas pisadas. Perfeito.

O terceiro “round” foi uma alternância: subi pela estrada, para somar mais volume, e desci de novo pela trilha, para fechar com mais sorrisos.

E assim foi o dia, com perfeitos 1.300 metros de ganho altimétrico e um belo treino para os desafios que estão por vir!

Não é tão comum ir ao Pico do Jaraguá – mas certamente é algo muito esperado por ser, na minha opinião, um dos lugares mais perfeitos para se correr aqui em Sampa.

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Quebrando no treino

Ignorar o bom senso nunca foi uma boa ideia.

Quando saí ontem para treinar, sabia que estava bem pela metade. A corrida da noite anterior, de alta intensidade, ainda estava marcada na musculatura e gerando mínimas – porém existentes – pontadas a cada passo mais apertado.

Ainda assim, saí. E para um treino de intensidade ainda maior: dez tiros insanamente rápidos de 3 minutos cada.

Some ainda uma ladeira até o Parque Villa-Lobos e pronto: a receita da quebra estava dada.

O aquecimento foi tenso, lento, dolorido.

O primeiro tiro veio quase como um alívio pois, evocando músculos diferentes dos do trote, acabou relaxando as pernas. Pelo menos por algum tempo.

1’30” de trote leve. Segundo tiro. Doeu mais.

O trote leve seguinte virou uma caminhada.

Terceiro tiro. Ritmo bem mais lento e dor bem mais intensa.

No quarto tiro estava um caco.

No quinto, resolvi assumir a quebra.

Voltei ladeira acima, trotando leve.

No final das contas, acabei conseguindo realizar meio treino.

Valeu por lembrar que é sempre melhor ouvir o bom senso antes do que durante – afinal, certamente a história seria outra se eu tivesse deixado um dia inteiro para descanso ao invés de tentar desafiar a mim mesmo tão desnecessariamente.

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5 lições aprendidas no primeiro treino às escuras

Hardcore: assim foi a noite de ontem.

Saí por volta das 18:30 para o Ibira com algumas missões, incluindo 2 horas de treino, dois blocos de tempo runs com 20 minutos cada e uma primeira experiência usando iluminação artificial presa à testa.

Estava desacostumado a fazer 2 horas em dia útil – algo dificultado por não ter almoçado nada (além de muitas xícaras de café). Mas fui – e bem.

Fiz os blocos de tempo runs bem encaixados, a um pace sub 5′ e sem me matar tanto. Foi a primeira vez que senti, aliás, que o ritmo puxado de treino imposto pelo Ian está realmente fazendo efeito.

Mas o ponto alto mesmo foi experimentar a lanterna na cabeça. É claro que o Ibirapuera não é exatamente uma floresta perdida: há muita iluminação na pista e alguma rente às grades que o delimitam. Mas há, sim, muitos trechos que ficam totalmente às escuras. E nesses eu me diverti.

Lições aprendidas:

1) É difícil – mas fundamental – manter os olhos fixos a alguns metros à frente do corpo para evitar surpresas escondidas (como raízes ou desníveis mais abruptos).

2) Nos momentos mais seguros da trilha vale esticar os olhos mais à frente para entender o que está por vir. Quando necessário, desacelerar não é nenhum crime.

3) É também recomendado elevar mais os pés durante as passadas. Descobri isso no primeiro tropeço: quanto mais alto eles estiverem e mais tempo passarem distantes do solo, menor é a chance de se arrastarem e se “confundirem”, por assim dizer.

4) Equipamento bom é importante. Estava com uma lâmpada simples, meio pesada à frente e que volta e meia escorregava pela testa. Aguentar isso por um punhado de minutos não é um problema – mas não dá nem para imaginar o grau de irritação que viria depois de algumas horas.

5) Música é inimiga. Quanto menos distrações no escuro, melhor: mais a mente conseguirá se concentrar em decifrar o terreno com pouca iluminação e com o baixo senso de profundidade que vem do uso de lanternas.

Bom… Foi a minha primeira experiência, o que significa que estou longe de ser um especialista no assunto. Mas devo dizer que estou bem satisfeito com essas cinco lições aprendidas.

Afinal, o próprio fato de voltar de uma corrida sabendo mais do que se sabia 2 horas antes já é, sem dúvida, algo a se comemorar.

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Rumo a Paraty

Viajar a trabalho sempre é cansativo – principalmente quando se tem um evento para coordenar, o que geralmente significa horas sem fim de esforço, estresses súbitos sendo desenrolados etc. Isso sem contar com o tempo longe da família, que faz uma falta de arrebentar.

Quando a viagem é para um lugar paradisíaco, no entanto, o horizonte já melhora.

Neste instante estou a caminho de Paraty, no meio do abençoado litoral que separa o Rio de Sampa.

A previsão é de sol sem nuvens e temperaturas entre 15 e 28 graus até o domingo.

Trabalho? Terei muito o que fazer – mas, honestamente, a única coisa em que consigo pensar agora é nas vistas, trilhas e estradas que pegarei por lá.

Calor, umidade, montanhas e praias com tudo que tem direito: há coisa melhor para inspirar uma corrida?

O problema agora é só segurar as 24 horas que me separam dos primeiros trotes!

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