Checkpoint semanal: Acumulando novas ladeiras

Essa semana foi bem representativa do estilo de treinamento que comecei a partir de dezembro: tiros, intervalados e tempo runs entre terça e quinta e longões em trilhas aos finais de semana.

Nessa, especificamente, o ritmo foi duro – muito duro. Os tiros foram insanamente puxados, principalmente considerando que estávamos em plena correria da última semana realmente útil do ano.

Para piorar, os dois primeiros treinos foram feitos em finais de tarde – mas o terceiro, na quinta, cedo pela manhã, o que me deu apenas algumas horas de recuperação.

Sem problemas: tudo melhorou quando fiz meu estilo preferido de corrida: um longão de 4 horas perdido pelo Parque do Carmo, uma das melhores “descobertas” que fiz aqui em São Paulo. Foi um sobe-desce constante, com altimetria sendo conquistada aos goles. Mas, claro, recompensada por vistas incríveis em trilhas tão perfeitas que pareciam improváveis considerando que estávamos em plena zona urbana de Sampa.

O Parque do Carmo foi o ponto alto da semana – uma bela forma de fechar os longões antes de partir para o final do ano, na quarta que vem, em Villa La Angostura (na Argentina). Lá, claro, espero cenários mais exóticos, trilhas mais instigantes e montanhas mais altas para desbravar.

Mas tudo em seu tempo. Por enquanto, ainda há mais alguns dias de trabalho intenso antes de decretar o final de ano.

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Pelas trilhas do Parque do Carmo

Nem em minhas mais otimistas expectativas eu imaginaria que o Parque do Carmo fosse tão incrível. Arrisco inclusive dizer que ele é, o parque mais perfeito aqui em São Paulo para quem curte ultras.

Há de tudo: percurso extenso, muitas, MUITAS subidas e descidas e trilhas de todo tipo, desde as mais abertas às single tracks no meio da Mata Atlântica.

De acordo com o meu Strava, eu fiz praticamente cada centímetro do Parque ao longo das 4 horas de treino. A variação altimétrica, aliás, fica nítida pelo meu ritmo: nesse tempo, fiz pouco mais que 30km. Mas, assim como em percursos “oficiais” de ultras, o olhar dificilmente vai para o relógio quando se tem tantas vistas incríveis pela frente.

Há árvores imensas, mata fechada, campos isolados e desertos, lagos, morros cobertos de uma grama tão verde que chega a brilhar. Isso sem contar com toda uma variedade de pássaros ecoando orquestras, insetos esquisitos zunindo e esquilos atravessando o caminho sempre apressados.

Talvez as fotos que tirei permitam uma impressão mais nítida do Carmo – descrevê-lo, afinal, realmente é difícil.

Mas uma coisa garanto: por mais distante que seja da minha casa – cerca de 50 minutos de carro sem trânsito – é um lugar que certamente voltarei.

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Oi verão

Depois de algum tempo, consegui energias para uma corrida ontem pela manhã.

Nem precisou ser tão cedo, inclusive: com as primeiras horas ficando mais leves no trabalho, esticar um pouco no parque ficou mais viável. Bela decisão.

O céu estava azul brilhante, nítido e sem nenhuma única mancha branca. O sol, quente, forte, queimando a pele e declarando a incontestabilidade de sua estação.

Cheguei no Ibirapuera no meio de uma sessão de tempo run e me esvaindo em suor. Pela frente, bikes e corredores formavam aquela multidão de indivíduos imersos em suas próprias solidões. Uma solidão feliz, aliás, a julgar pela luminosidade dos rostos. O verão faz isso.

Adoro o verão. Nasci em Salvador, terra do sol, e o calor úmido da Bahia fez parte da minha vida por 18 anos. A gente fica mais íntimo do sol, entende melhor seus humores e fica viciado na luz que emana de seus raios.

Por mais que eu ame São Paulo, não nego que sinto uma baita falta do sol e do calor o ano todo. O cinza do céu, a camada fina de poluição que apaga um pouco a saturação das cores, o frio que volta e meia desce sobre essa parte do país… tudo isso tem um efeito esquisito na mente.

Mas ontem não. Ontem foi dia de calor, de sol, de luz, de suor, de cores, de verão.

E isso porque estamos apenas no começo da estação!

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A descoberta dos olhos

Ok: isso pode parecer meio idiota, mas descobri que mesmo os lugares mais habituais podem ser explorados até desvendarem algum segredo que insistia em sobreviver.

Segredos, afinal, são inimigos número um das rotinas, que eliminam a capacidade de percepção ao fazer o corpo entrar em piloto automático.

E pilotos automáticos, por sua vez, são inimigos número um de qualquer espécie ou subespécie de corrida de aventura.

Então, ao iniciar minha sessão de 5 tiros de 6 minutos na minha segunda casa – o Ibirapuera – decidi perceber caminhos novos.

Há uma observação importante que cabe aqui: era final de tarde, com dia claro por conta do horário de verão e um tempo livre (milagrosamente) maior do que o previsto para o treino. Aliás, a minha capacidade de acordar cedo neste final de ano tem sido praticamente nula: acordo já tão esgotado que pensar em colocar o tênis já emite sinais de câimbra para as pernas.

Tudo bem: o horário, convenhamos, importa bem menos que o treino em si. E isso sem contar que quebras de rotina sempre fazem bem – o que me traz de volta à eliminação do “efeito piloto automático” do qual estava falando.

Ainda nos primeiros 15 minutos de aquecimento decidi sair dos 3 percursos tradicionais (pista, trilha e volta pelo lado de fora). Peguei uma pequena via que seguia por dentro, em direção ao lago.

Descobri que há um pavilhão japonês escondido no Ibira. E uma vista para o lago incrivelmente inspiradora, escondendo casais siameses que ignoram qualquer presença.

Entre uma via e outra, os cheiros mudam na medida em que novas espécies de plantas vão encontrando o final mais úmido da tarde; a vista para a cidade vai ficando curiosamente mais distante; um novo parque parece brotar de dentro do antigo ao qual eu já estava tão habituado.

Parece idiota falar de um parque onde corro já por tanto tempo como se ele fosse novo, diferente – mas o fato é que ele de fato se transformou. Ou melhor: meu olhar é que percebeu caminhos diferentes em algo que já estava lá faz tempo.

Foi aí que bateu alguma lucidez: todo esse processo de percorrer trilhas urbanas, de sair do lugar comum e desvendar a cidade onde vivo, sem medo e meio que sem destino, tem funcionado como um treinamento perfeito para os olhos.

Intervalados, tempo runs e tiros treinam o corpo; longões, de quase-maratonas a ultras oficiais, treinam a resistência da mente; mas a capacidade de percepção, os olhos, também precisam de estímulos contínuos, de contrastes apontando a existência de caminhos.

Até então eu ignorava a mera necessidade, por mais óbvia que ela agora pareça, de treinar os olhos.

Com o perdão do trocadilho, ainda bem que eles finalmente foram abertos para isso.

E que venham mais novidades, seja em novos percursos ou em velhos caminhos habituais!

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Para a lista: Parque do Carmo

De acordo com a meteorologia, o sábado que vem será abençoado por mais chuva. Ótimo para as represas paulistas, péssimo para os meus planos de desbravar a Cantareira!

Tudo bem: o final de semana ainda está longe e São Pedro pode mudar de ideia até lá. Mas um plano B é sempre bem vindo.

Com isso em mente, abri o Google Maps e fiquei buscando manchas verdes no mapa de Sampa. Cortei as que já conheço: Ibirapuera, Horto, Villa-Lobos, Pico do Jaraguá, Parque do Povo, Ipiranga, Aclimação, Jardim Botânico, Luz, Água Branca… foi até inspirador notar que já conheço tanto parque na cidade!

Aí notei uma mancha grande, lá na Zona Leste, que nunca tinha passado pela minha cabeça: o Parque do Carmo.

Pesquisei.

Tem de tudo: trilhas, circuitos pavimentados, gramadões e muitos, muitos hectares de puro verde. E o melhor: abre a partir das 5:30, sem esse negócio de fechar quando estiver chovendo.

Peguei ainda algumas fotos na Web, que coloco abaixo, apenas para me certificar de que vale a pernada. E vale.

Não vou dizer que o Carmo se transformou em meu plano A: ainda estou doido de curiosidade para me enfiar na Cantareira, principalmente depois de degustá-la, de leve, por meio das cercas furadas no Horto.

Mas também não vou dizer que seria um plano B melancólico.

Resultado: faça sol ou faça chuva, o sábado me reserva 4 horas de trilhas novinhas em folha!

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Trilha Urbana: Aclimação, Ipiranga e Rua dos Lavapés

Trilhas, na cidade ou na montanha, são essencialmente caminhos para algum destino qualquer.

O destino até pode se repetir incontáveis vezes, mas é a beleza de se poder alternar esses caminhos que faz as trilhas sempre únicas.

Hoje foi dia de voltar ao Ipiranga – claro, por um novo caminho. Ao invés do centro, subi e segui pela Paulista até descer pela Aclimação. Cortei ruas, subi e desci ladeiras e descobri novos esconderijos paulistanos – todos já com aquele tom de cidade de interior pintado pelo domingo.

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De repente, no topo de uma ladeira, lá estava o Palácio. Entre seus jardins e o monumento, uma pequena feitinha se organizava para dar mais cor à cena.

Com isso, céu azul turquesa de mesclava ao amarelo do Palácio, ao cinza do monumento e ao verde dos jardins. Baita cena incrível.

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Dei uma volta, aproveitando o “exótico” percurso de bambus atrás do Palácio e, na volta, cruzei até o monumento. Vi uma escada escondida levando para baixo e desci: lá uma porta cinza, pichada, apenas deixava claro que guardava em seu interior os restos mortais de D. Pedro I. Ainda bem que se trata de um mausoléu: se fosse sua casa em vida, certamente ele ficaria bem contrariado!

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No retorno para casa, segui pela Av. D. Pedro I, toda alinhada com árvores e pequenas casas. Segui rumo à Aclimação, bairro que dividia as zonas rurais e urbana da cidade. A rua que servia de “fronteira” abarcava o hábito das pessoas lavarem seus pés antes de adentrarem pela cidade. Não é à toa que acabou batizada de Rua dos Lavapés, normalmente pouco convidativa mas, aos domingos, bucolicamente bonita e margeada por casas tão coloridas quanto abandonadas.

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De lá, cheguei à região da Liberdade apenas para ver alguns japoneses idosos caminhando até algum local importante, a julgar pelas feições. Como essa cidade é plural!

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A corrida, no entanto, tinha hora para terminar. Depois de pouco menos de 20km, estava na Paulista. Chegava em casa inteiro e absolutamente inspirado pela trilha em plena metrópole.

Checkpoint: Mudanças no treino

O corpo nem sempre obedece o calendário gregoriano.

Na prática, meu mês de descanso foi novembro, pontuado por corridas leves e até mesmo desleixadas para compensar uma temporada dura, pontuada por Comrades, Indomit Bombinhas e Douro Ultra Trail e fechada com a duríssima Maratona de São Paulo em outubro.

Pois bem: descansei.

Dezembro é mês de sol, de calor e de algum alívio no trabalho: meu treinador tem aproveitado isso ao máximo agora. De maneira geral, as rotinas se dividem em duas:

  1. Treinos de qualidade, como tempos, intervalados e tiros, 3 vezes por semana
  2. Longões leves, mas cada vez mais longos, nos finais de semana

E devo dizer que estou achando a rotina perfeita: ela aumenta minha velocidade e, ao mesmo tempo, me permite passar as horas em trilhas que tanto amo em dias onde o tempo costuma passar mais devagar.

Foi por conta desse roteiro que comecei a desbravar São Paulo, percorrendo a região da Pinacoteca, o Ipiranga, o Jardim Botânico e o Horto, para ficar apenas em algumas. Na prática, é como se uma nova cidade se apresentasse cada sábado e domingo para mim. Perfeito.

Nesse final de semana, especificamente, correr o Horto e fazer novamente o Ipiranga acabou acrescentando uma altimetria maior do que a média, superando os 1.000m. Ultimamente, ganho altimétrico tem sido uma métrica quase tão importante quanto distância e pace para mim: é o maior teste de resistência para ultras que, afinal, costumam ser corridas em montanhas. Mil metros pode não ser nada, por exemplo, perto dos 4,5 mil da Douro Ultra Trail e de tantas outras – mas é um bom treino.

E, no total, essa soma de bons treinos em locais impensavelmente novos tem dado um gás novo para mim nesse final de ano.

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Trilha Urbana: Pelo Horto

O incrível de cidades grandes como São Paulo é que elas nunca param de surpreender.

Hoje, meu plano era ir ao Parque da Cantareira e fazer 3 horas de trilhas por lá, desbravando matas e absorvendo vistas. Não deu: assim que saí do carro fui informado de que, por conta da garoa que insistia em cair, o parque não abriria hoje.

Plano B: Horto Florestal.

Não conhecia o Horto mas sabia que ficava a cerca de 500 metros da Cantareira. Fui até lá e entrei.

Primeira impressão: o lugar é lindo. Verde, cheio de sons vindo do céu e de dentro da mata e extremamente bem cuidado. A segunda impressão veio quando olhei o mapinha do local: cada volta tinha menos de 3km! Para completar as 3 horas seria necessário dar tantas voltas que, provavelmente, acabaria tonto!

E essa é a parte que a cidade surpreende. Decidi ignorar o traçado e sair guiado apenas pelos pés. No começo, até segui o percurso demarcado – mas por menos de 5 minutos. Avistei algumas entradas escondidas: entrei.

Descobri trilhas escondidas – algumas, confesso, parte do vizinho Parque da Cantareira desvendadas por fendas em trechos das grades o separa do Horto. Fui assim mesmo, embora com mais cautela.

O único problema é que nenhuma das pequenas trilhas tinha qualquer tipo de demarcação – algo meio complicado para quem tem un senso de localização tão ruim quanto o meu.

Mas, ainda assim, elas eram pequenas e fáceis de encarar.

Na saída, decidi sair do Horto e dar voltas por fora, pela região. Ideia ótima para somar quilômetros e que acabou sendo repetida mais uma vez, mas que deixou saudade da mata. Cheguei até a esticar um pouco pela Estrada de Santa Inês, rumo ao Velhão, mas desisti depois que o acostamento desapareceu e o perigo aumentou. Não estava lá para isso.

Resumo: correr no Horto foi como descobrir uma mini selva dentro de São Paulo – e aproveitá-la ao extremo.

Amei o lugar – mas, na semana que vem, espero que o tempo colabore para que eu possa descobrir a Cantareira!

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As luzes do Ibirapuera

Fazia algum tempo que eu não corria à noite: a última vez já deve fazer pelo menos um mês, antes das luzes de Natal se instalarem no Ibirapuera.

Ontem, no entanto, foi dia de intervalados – e a manhã atribulada acabou empurrando a planilha para depois das 20:00.

Para falar a verdade, eu nem me lembrava que o Ibira estava iluminado: o sol do verão, às vezes, nos faz esquecer que a noite sequer existe. Mas foi só eu me aproximar do parque e, de repente, músicas começaram a ecoar pelos céus, animando um show de águas nas fontes para uma plateia que persistia presente, teimosa, ignorando a garoa fina que caía. E isso tudo com milhares de luzes pintando as árvores ao fundo.

Na mesma hora eu desliguei o podcast e fiquei ali, absorvendo o clima a cada passo. Normalmente eu gosto do silêncio que acompanha corridas nas horas extremas do dia, seja no começo da manhã ou noite adentro – mas o barulho bem orquestrado de ontem foi muito, muito bem vindo.

O ano – ainda bem – está acabando.

Ele está levando consigo, sem dó, cada gota de energia que eu havia reservado para 2014: mas a cena de ontem ajudou a me dar pelo menos mais algum impulso para chegar inteiro ao dia 31.

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