Primeiro giro

Mesmo completamente só aqui em San Martin – ainda não encontrei nenhum corredor brasileiro por estas bandas – e sem nada para fazer durante o dia, coloquei o despertador para as 6 da manhã.

Não foi masoquismo: queria sentir o clima nas primeiras horas e ver o sol nascer nos Andes. Excelente ideia, acrescento.

Saí para um trote leve, de 10K, nos arredores da vila. Não busquei trilhas ou nada do gênero: apenas segui a estrada morro acima, evitando que criatividades excessivas no mapa acabassem me cansando além da conta.

Sem nenhum compromisso com tempo ou agenda, quem ganhou o presente mesmo foram os meus olhos. Já havia corrido por aqui no passado, quando passei o ano novo na “vizinha” Villa la Angustura – mas paisagens assim são sempre, sempre bem vindas de volta.

Aos poucos, acabei vendo o céu sair do azul escuro para o colorido, do colorido para o claríssimo, do claríssimo para o azul turquesa. Ao fundo, as montanhas (infelizmente sem neve) se erguiam em uma demonstração de poder inquestionável. Na base, pequenas chácaras se estendiam por quilômetros, sendo cortadas apenas por eventuais casinhas de madeira que pareciam ter sido retiradas de um desenho animado.

O clima não estava quente – nem de longe. Aliás, eu arriscaria dizer que peguei uns 12 ou 13 graus ao sair do hotel, mesmo com o sol brilhando.

Há maneira melhor de começar um dia?

Não.

Ao todo, essa uma hora foi absolutamente revigorante, animadora, inspiradora. O problema é que ela só durou uma hora: ainda tinha o dia inteiro pela frente.

Pois bem: logo que cheguei de volta, me vesti de ingenuidade e fui ao centro pegar o meu kit. Eu e todos os outros 2,5 mil corredores, aparentemente.

Fila? Acho que nem o INSS tinha tanta gente esperando parada! Mudança de planos: deixei o kit para a tarde. Era hora de descobrir o que fazer amanhã, no que resolvi me inscrevendo em um passeio de 4 horas de caiaque pelos lagos amanhã cedo. Sim, deve ser cansativo – mas pelo menos será para os braços, não para as pernas.

Ainda tinha outra tarefa pendurada: o trabalho. Uma viagem como essas consome alguns dias úteis e, ao menos para mim, é impossível deixar o trabalho de lado e considerar tudo como férias (por mais bem vindas e merecidas que sejam, acrescento).

Entre trabalho, trote e posts, portanto, acabei comendo toda a manhã e parte da tarde. E é neste ponto que estou: sentado em um café, martelando o teclado no blog enquanto o projeto que acabei de montar é uploadado para o dropbox e passado adiante. A boa notícia é que, como a produtividade sempre voa com a absoluta falta de interrupções, acabei adiantando tanta coisa que o resto do dia de hoje e todo o amanhã está vazio.

Nova tarefa pela frente, portanto: preencher o tempo. Só espero que não seja com a fila da entrega do kit que, a esta altura, já deve estar menor! :-)

   
    
   
 

 

 

E assim se foi o primeiro dia antes dos primeiros dias

E assim se foi o primeiro dia antes dos primeiros dias: da mesma forma que começou, em compasso de espera. 

Cheguei em San Martin de Los Andes por volta das 13:30 absolutamente sonado. Era segunda, feriado de Carnaval, e teria ainda dois dias inteiros para descansar – desconsiderando apenas umas pequenas pausas para o onipresente trabalho, claro. 

A primeira coisa que fiz – depois de um bem vindo banho, claro – foi rodar pelo povoado. Em um par de minutos, acrescento: San Martin cabe na palma de uma mão, não tendo mais que meia dúzia de quarteirões. Ainda assim, respira ares mais forasteiros do que interioranos: embora poucas, suas avenidas são tomadas por lojas de esporte de aventura; pequenas agências pontilham a paisagem; corredores e ciclistas dividem espaço com crianças brincando soltas; e um clima de adrenalina extrema parece ter subjugado um local que certamente nascera com propósitos muito mais bucólicos. 

A vista também era única: dos dois lados, paredões de montanha afunilavam a vila para o Lago Lácar, formando uam espécie de praia tornada ainda mais gelada por ventos cortantes que espalhavam poeira e pinçavam os nervos. O céu, inquieto, já dedurava a geografia ao se pintar com as cores exatas da bandeira da Argentina. 

E, como não poderia deixar de ser, o cheiro de parrilla acentua a fome de qualquer um que pensar em atravessar a frente dos restaurantes. 

Tudo em San Martin era convidativo, do clima às paisagens e aos sons. Mas o cansaço, ao menos neste primeiro dia, estava extremo demais para eu aproveitá-la. Feito o reconhecimento, almocei logo antes da hora do jantar, invadi uma ou outra loja, tentei – sem sucesso – agendar alguma aventura turística de última hora para o dia seguinte, e voltei para o hotel. 

Nada mais poderia me fazer sair da cama, nem mesmo a claridade insistente do outro lado da janela.

Hoje havia terminado. 

E amanhã, ainda bem, será dia de fazer o reconhecimento como ele realmente deve ser feito: a passos rápidos, trotando povoado afora. Ainda não tenho ideia de que lado irei ou de quanto cobrirei – embora obviamente deva pegar leve por conta do Cruce. Mas uma coisa é certa: a Patagonia e os Andes parecem estar tão ansiosos quanto eu para se metamorfosear de paisagem em aventura.

  
 
 

O caminho

Quando se está só, o caminho parece empolgantemente longo.

“Parece”, aliás, é modo de dizer: cheguei em Guarulhos pouco depois da meia noite para pegar o vôo das 3 da manhã até o aeroporto de Ezeiza, em Buenos Aires; de lá, às 5:40, tomei um transfer até o outro aeroporto da cidade, o Aeroparque – a uma hora de distância – e esperei mais algumas horas: o vôo até San Martin de Los Andes, última perna da viagem, saía apenas às 10:50.

Estou dentro dele ao escrever este post.

Durante as 12 horas que já se passaram desde que fechei a porta de casa, uma mescla de tédio com ansiedade se costurou entre páginas de livros e revistas e papos de outros corredores sobre as suas próprias expectativas. Com o corpo preso a uma cadeira, a mente decidiu voar por todo um percurso de devaneios próprios. Instinto de sobrevivência, talvez.

***

Há poucas horas, lá no Aeroparque, cruzei com a corredora Fernanda Maciel, que voltava ao Brasil depois de quebrar um incrível recorde no Aconcágua. “Devem ser bons ventos”, pensei comigo mesmo. “Deuses da corrida não dão as caras assim se não for para inspirar experiências memoráveis.”

No mesmo minuto, sabe-se lá por quê, comecei a pensar em mim mesmo. Egoisticamente. Despudoradamente. Quase arrogantemente.

Há 8 anos eu estava deitado em uma mesa cirúrgica correndo risco de vida pelo estilo sedentário e estressado de vida que levava; hoje, estou dentro de um avião prestes a atravessar os Andes correndo. Tédio e ansiedade, às vezes, geram uma espécie de orgulho como efeito colateral. 

Fiquei assim, imerso na total falta de modéstia que inundava a minha mente, até que ouvi a chamada para o vôo.

A fila era típica de aeroportos em vésperas de grandes provas: corredores de tudo quanto é nacionalidade sorrindo tensos, mostrando dentes grunhidos e mal se contendo de ansiedade. Eu estava exatamente igual – só que por dentro, já que não conhecia ninguém com quem extravasar sem parecer um psicótico em pleno surto.

Ouvi as histórias dos outros sem pudor, no entanto – da fila do embarque até dentro do avião. As descrições do frio nos acampamentos me deixaram um pouco apreensivo; um possível exagero (ou pelo menos assim espero) no relato da tecnicidade dos percursos do Cruce sopraram alguma tensão no peito; os tons de empolgação nas vozes dos que estavam retornando para correr de novo agiam como uma injeção poderosíssima de endorfina.

Em algum ponto do papo dos outros, fome e o sono atrasado me fizeram desligar a consciência e, como por mágica, o avião se transformou em uma imagem das montanhas. 

Estava em um fim de tarde avermelhado, levemente frio, com a cordilheira se estendendo como uma moldura pelo Lago Lacar. Era um pôr do sol daqueles testemunhados na plenitude do imenso vazio, do despovoado, do nada que se deixa iluminar pelas infinitas constelações cujas existências costumamos ignorar nas grandes cidades. Era exatamente o que estava buscando: a perfeição absoluta. Senti sorrisos forçarem as bochechas algumas vezes até que, de repente, um ruído me colocou de volta no avião.

***

Acordei com um daqueles avisos inúteis sobre tempo de vôo que os comandantes costumam fazer logo que se começa a dormir. 

Respirei e me situei. Na poltrona de trás, o papo entre os corredores sobre o percurso havia misteriosamente se metamorfoseado em previsões catastróficas sobre a crise brasileira. Pela frente, ainda restava mais de uma hora.

Tentei visitar de novo o auto-orgulho para passar o tempo, mas parece que ele havia adormecido também em algum lugar. Pensei em devorar mais um capítulo do meu livro: a falta de vontade foi soberana. Pior: também não tinha mais filme no IPhone ou matéria virgem na revista de bordo.

Não tinha mais nenhuma alternativa. Agora era só fazer o que se deve fazer durante uma espera: esperar.

Esperar e, talvez, aproveitar esse treino de endurance imposto pelo tédio, emulando toda uma ultra mental repleta de associações livres até que a linha de chegada – o Aeroporto de Chapelco, em San Martin de los Andes – apareça no horizonte.

Que apareça logo.

    

Checkpoint: Rumo aos Andes

Última corridinha feita: 11K pelo Ibirapuera. 

Fora as desconfortáveis dores fantasma fruto do período de tapering, tudo normal.

Hoje de madrugada embarco para a Argentina, devendo chegar em San Martin de Los Andes por volta das 13:00 de amanhã. De então até a sexta, dia da largada, serão apenas trotes leves pelas montanhas, mergulhos no geladíssimo lago Lacar e ajustes finíssimos no preparo final – principalmente por conta da ansiedade, que já se acumula por todo o corpo.

E vambora para mais uma experiência de vida memorável!

  
  

Correndo através do tempo-espaço

Cidade vazia.

Sol ardendo no céu.

Véspera de viagem para o Cruce.

A soma dessas três variáveis: um último longo por São Paulo nas primeiras horas da manhã mergulhando na história da Barra Funda.

Tinha pouco mais de duas horas pra rodar pouco mais de 20km: comecei subindo até a Dr. Arnaldo e me despencando pela Sumaré até o parquinho do Jardim das Perdizes. Deu para uma volta lá olhando o verde e ouvindo as marteladas das construções nos arredores. Todo um bairro está oficialmente se erguendo ali.

Na saída, passei por bairros que se ergueram também subitamente no passado. Margeei os trilhos da Barra Funda, tangenciando o atual Memorial da América Latina. Ali, há muitas décadas, a nata do samba paulista nascia para agregar mais poesia à urbe.

Voltei para a avenida e entrei no Paraue da Água Branca. Pequena chácara absolutamente rural perdida no centro de São Paulo. Correr por lá significa pular galos e galinhas, deixar patos atravessarem o caminho, sentir o cheiro de cavalos descansando em suas cocheiras.

Saí. Tomei uma reta por baixo do Minhocão, virei algumas esquinas e cheguei no atual colégio Boni Consili. Consegui, sob protestos mal humorados da moça da recepção, aproveitar o portão semiaberto para tirar uma foto do palacete que hoje serve de sede pra a instituição. É provável que ela sequer faça ideia do tesouro que guarda: a casa de Antônio Prado, o mito paulistano que passou de fazendeiro escravocrata a viabilizador da mão de obra imigrante, que trouxe luz, bonde elétrico, trens e a industrialização que transformou essa cidade de povoado interiorano quase irrelevante em uma das maiores metrópoles do mundo.

  
  
Acenei um ‘tchau’ ao espírito da lenda e fui subindo a ‘serra’. Da Barra Funda fui a Santa Cecília, depois a Higienópolis. Desci até o estádio do Pacaembu: não me deixaram entrar.

Subi de novo até a Dr. Arnaldo e segui à Paulista, cruzando-a até o Parque Trianon. Esse talvez seja dos mais exóticos da cidade, com mata atlântica pura, protegida e encravada bem no meio da principal avenida da cidade.

Já aos pés de casa, foi mais ou menos onde encerrei o treino.

22km.

No total, testemunhei um novo bairro nascer, reverenciei os sambistas do passado glorioso, me perdi por um tempo rural que não existe mais, visitei o empreendedor impulsionador da metrópole, circulei o estádio, cruzei a avenida cartão postal e fechei tudo em uma mini-floresta sobrevivente.

Nada mal para 2 horinhas antes da maior parte da cidade sequer acordar…

Caminhos de Rosa pela frente?

Depois de uma longa troca de mensagens com o Zumzum, amigo e organizador dessa prova, a vontade de percorrê-la foi instalada fundo.

Não na versão de 250km – ainda não estou nesse nível de loucura – mas na de 140km.

140km rodando pelos sertões do Guimarães Rosa, conhecendo os pontos exatos que se transformaram em suas histórias, sentindo o sol queimar as costas com a mesma fúria resignada com que torra o solo… Putz, tudo isso é, no mínimo, absolutamente inspirador.

E, como ela está prevista lá para agosto… Quem sabe?

 

LCHF: Resultados depois de 11 meses

Nem parece, mas já faz 11 meses que eu estou no low-carb.

Mudanças nos últimos 6 meses

Verdade seja dita, andei dando uma relaxada nos últimos tempos. Já fora do período que considero mais crítico, onde estava consumindo 20g de carboidratos por dia, deixei esse volume crescer para algo entre 90g-100g.

O problema talvez esteja no que tem feito esse volume crescer: chocolate. É: não tem jeito. Lidar com isso aparentemente será a minha sina e, embora não preocupantes, os efeitos desse vício apareceram nos exames.

A única outra mudança representativa foi o aumento no consumo de carne vermelha. Nada de muito radical – mas diferente do zero em que fiquei por 3 meses na tentativa bem sucedida de diminuir a Ferritina. Diminuí e reintroduzi um pouco de carne no dia a dia que, aparentemente, não apresentou nenhum grande problema.

Mudanças mais recentes

A essas duas mudanças na dieta, acrescento ainda outra observação: faz cerca de 10 dias que cortei o chocolate – o mesmo vilão de sempre – para manter algum tipo de autocontrole. Apesar do consumo geral de carboidratos nunca ter ficado elevado, essa diminuição abrupta me empurrou de novo para uma espécie de fase de adaptação.

Me senti tonto em alguns momentos, fraco e mais sonolento que antes. Ainda bem que foi temporário: uma semana depois do corte já voltei ao normal do low-carb: bem disposto, inteiro, mais ágil.

Vamos aos indicadores:

Indicadores hepáticos:

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De todos, o TGP apresentou um leve crescimento – mas todos estão estáveis. Para mim isso é essencial dado que fígado é o meu ‘órgão de atenção’. Ainda assim, preciso prestar um pouco mais de atenção nele daqui para a frente. Vamos ver como se comporta no próximo exame.

Colesterol:

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Aqui fica mais claro esse “efeito-chocolate”: apesar do colesterol total estar bem, o HDL poderia estar maior e o LDL, menor. Ainda assim, a proporção entre triglicérides e HDL, número mais importante para a análise como um todo, está bem, fixada em 1,26 (sendo que qualquer coisa abaixo de 2,00 é considerado como ideal).

Glicose e insulina:

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Todos perfeitos, praticamente sem alterações desde os últimos exames.

IMC:

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O acréscimo de mais carboidratos me fez ganhar um pouco de peso – manada de crítico. O IMC continua quase perfeito.

Ferritina:

 

É o elemento mais preocupante para mim por conta de meu histórico médico.

Sim, houve um leve aumento – mas credito isso ao consumo mais moderado (versus o virtualmente inexistente) de carne vermelha.

Como os níveis estão bem dentro do saudável, pretendo mantê-los assim. Um pouco de indulgência, afinal, faz bem :-)

Conclusões finais:

Cada leva de exame, para mim, é tenso. Depois que se passa 16 horas em uma mesa cirúrgica para retirar metade do fígado, resultados de exames são como uma espécie de “juízo final” – mesmo eu estando ciente de que nem tudo deva ser levado de maneira tão drástica.

Depois de 11 meses de low-carb, esse resultado foi positivo. Mostrou consequências de excessos desnecessários – que pretendo corrigir – e o baixo efeito de consumo moderado de carne vermelha.

Essas “pequenas constatações empíricas”, aliás, são perfeitad por ensinar mais sobre o próprio corpo: nos dizem até que ponto podemos ir e quais linhas não devemos evitar.

Agora é hora de seguir adiante fazendo tudo o que, claro, já sabia que precisaria fazer mesmo.

Daqui a mais alguns meses tem mais exame.

 

 

 

El Cruce: checklist de equipamentos

Com o Cruce chegando perto, já era hora de resolver a questão dos equipamentos. Pois bem: munido nas informações (meio confusas) do site e de dicas de alguns amigos, saí às compras ontem e está tudo quaaaaaase pronto. 

Além da mochila de hidratação (a mesma Quechua RaidTrail 10L de sempre), os seguintes itens estão devidamente preparados: 

  

Itens fornecidos pela organização:

  • Camiseta de prova
  • Número de competidor e chip
  • Camiseta manga longa (ou remera)
  • Polar (jaqueta)
  • Mochila resistente à água para os acampamentos

Itens obrigatórios:

  • Mochila de hidratação (não está na foto, mas está conferida)
  • Manta térmica (na foto, número 5)
  • Casaco impermeável (4)
  • Gorro (7)
  • Bivac ou vivisac (3)

Itens recomendados:

  • Isolante térmico (1)
  • Saco de dormir (alugarei junto à organização)
  • Poles (2)
  • Headlamps (6)
  • Luvas para trilhas (8)
  • Toalha
  • Kit com talheres
  • Kit para bolhas (também não está na foto, mas está já preparado)

O que falta, então? Apenas 3 itens: 

  1. kit com talheres
  2. Pilhas AAA para a headlamp

Resolvo ainda esta semana. 

(A propósito, participar dessa prova dá muito mais trabalho do que de qualquer outra que já fiz antes!!!)

Checkpoint: Hora de desacelerar

Depois do treino doloroso de ontem, em que 20K pareceram uma ultra à parte, ficou claro que um descanso maior era necessário. 

Hoje, portanto, nada de saída: a semana ficou fechada em 45K, com direito a dois dias sequenciais de descanso antes de uma outra semana leve. A próxima, no entanto, seguirá a mesma receita que usei para a última Comrades: será um pouco mais intensa, embora ainda leve. A ideia é fazer uma espécie de tapering inverso, com uma queda brusca seguida de um aumento gradual até o Cruce. 

Sem muito segredo, portanto. Repetirei algo que já deu certo, mesmo porque o último mês deixou bem claro que o preparo em si já existe. 

Como disse ontem, agora é tudo sobre autocontrole e preservação. 

   

   

Missão cumprida ou missão comprida?

Desde que acordei, os olhos estavam pesados. Acordar, aliás, é quase um exagero: levei horas para conseguir me arrastar para fora da cama e mais horas para me concentrar nas poucas coisas que tinha para fazer. Correr pela manhã? Impossível. 

Lá no fundo do cérebro, estava claro que o melhor que tinha a fazer era mesmo entender o sinal do cansaço e me entregar ao ócio. 

Mas quem disse que fiz isso? 

Enquanto o dia passava, fui encaixando uma programação de treino no dia. 4 da tarde: horário em que minha mulher sairia com minha filha e eu ficaria só em casa. 

Não fiquei. 

Para agregar um pouco mais de entusiasmo, tracei uma rota até a Freguesia do Ó, lá no alto de um pico do outro lado do Rio Tietê, local que já foi terra de bandeirantes e missionários e que, hoje, é praticamente uma coleção de bares em torno de uma igreja. Sagrado e profano, ao que parece, sempre conviveram bem por aquelas bandas. 

Mas, por mais que tenha realmente adorado desbravar um novo percurso nos calcanhares da história paulista, correr em si foi difícil. Tudo pesava.

Estava sem energia. 

Estava com sede, mais do que a capacidade da mochila de hidratação. 

Estava exausto. 

Estava até com um toque de sono. 

Ainda assim, deu para correr até o largo da matriz velha, onde o bandeirante Manoel Preto construiu a primeira capela, que pegou fogo há mais de um século, e o largo da matriz nova. Deu para fazer isso cruzando os trilhos de trem de uma zona que, ao menos aos sábados, continua mantendo ares bucólicos dos tempos do começo da industrialização. 

   

 Deu para subir ladeirões e voltar pela interminável Av. Pompeia. 

E, claro, deu para agradecer aos céus quando cheguei de volta ao meu quarteirão, encerrando o treino. 

Valeu a pena? 

Não sei. A sensação é de missão cumprida – mas o cansaço dá dicas de que talvez a missão tenha sido mesmo é comprida. 

Hora de começar a levar a sério a necessidade de descanso antes que o Cruce chegue.