O caminho

Quando se está só, o caminho parece empolgantemente longo.

“Parece”, aliás, é modo de dizer: cheguei em Guarulhos pouco depois da meia noite para pegar o vôo das 3 da manhã até o aeroporto de Ezeiza, em Buenos Aires; de lá, às 5:40, tomei um transfer até o outro aeroporto da cidade, o Aeroparque – a uma hora de distância – e esperei mais algumas horas: o vôo até San Martin de Los Andes, última perna da viagem, saía apenas às 10:50.

Estou dentro dele ao escrever este post.

Durante as 12 horas que já se passaram desde que fechei a porta de casa, uma mescla de tédio com ansiedade se costurou entre páginas de livros e revistas e papos de outros corredores sobre as suas próprias expectativas. Com o corpo preso a uma cadeira, a mente decidiu voar por todo um percurso de devaneios próprios. Instinto de sobrevivência, talvez.

***

Há poucas horas, lá no Aeroparque, cruzei com a corredora Fernanda Maciel, que voltava ao Brasil depois de quebrar um incrível recorde no Aconcágua. “Devem ser bons ventos”, pensei comigo mesmo. “Deuses da corrida não dão as caras assim se não for para inspirar experiências memoráveis.”

No mesmo minuto, sabe-se lá por quê, comecei a pensar em mim mesmo. Egoisticamente. Despudoradamente. Quase arrogantemente.

Há 8 anos eu estava deitado em uma mesa cirúrgica correndo risco de vida pelo estilo sedentário e estressado de vida que levava; hoje, estou dentro de um avião prestes a atravessar os Andes correndo. Tédio e ansiedade, às vezes, geram uma espécie de orgulho como efeito colateral. 

Fiquei assim, imerso na total falta de modéstia que inundava a minha mente, até que ouvi a chamada para o vôo.

A fila era típica de aeroportos em vésperas de grandes provas: corredores de tudo quanto é nacionalidade sorrindo tensos, mostrando dentes grunhidos e mal se contendo de ansiedade. Eu estava exatamente igual – só que por dentro, já que não conhecia ninguém com quem extravasar sem parecer um psicótico em pleno surto.

Ouvi as histórias dos outros sem pudor, no entanto – da fila do embarque até dentro do avião. As descrições do frio nos acampamentos me deixaram um pouco apreensivo; um possível exagero (ou pelo menos assim espero) no relato da tecnicidade dos percursos do Cruce sopraram alguma tensão no peito; os tons de empolgação nas vozes dos que estavam retornando para correr de novo agiam como uma injeção poderosíssima de endorfina.

Em algum ponto do papo dos outros, fome e o sono atrasado me fizeram desligar a consciência e, como por mágica, o avião se transformou em uma imagem das montanhas. 

Estava em um fim de tarde avermelhado, levemente frio, com a cordilheira se estendendo como uma moldura pelo Lago Lacar. Era um pôr do sol daqueles testemunhados na plenitude do imenso vazio, do despovoado, do nada que se deixa iluminar pelas infinitas constelações cujas existências costumamos ignorar nas grandes cidades. Era exatamente o que estava buscando: a perfeição absoluta. Senti sorrisos forçarem as bochechas algumas vezes até que, de repente, um ruído me colocou de volta no avião.

***

Acordei com um daqueles avisos inúteis sobre tempo de vôo que os comandantes costumam fazer logo que se começa a dormir. 

Respirei e me situei. Na poltrona de trás, o papo entre os corredores sobre o percurso havia misteriosamente se metamorfoseado em previsões catastróficas sobre a crise brasileira. Pela frente, ainda restava mais de uma hora.

Tentei visitar de novo o auto-orgulho para passar o tempo, mas parece que ele havia adormecido também em algum lugar. Pensei em devorar mais um capítulo do meu livro: a falta de vontade foi soberana. Pior: também não tinha mais filme no IPhone ou matéria virgem na revista de bordo.

Não tinha mais nenhuma alternativa. Agora era só fazer o que se deve fazer durante uma espera: esperar.

Esperar e, talvez, aproveitar esse treino de endurance imposto pelo tédio, emulando toda uma ultra mental repleta de associações livres até que a linha de chegada – o Aeroporto de Chapelco, em San Martin de los Andes – apareça no horizonte.

Que apareça logo.

    

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