El Cruce: Dia 2

Escrito nas montanhas argentinas em 13/02/2016

Há largadas em ondas – e há largadas em ondas e marolas. Foi assim que saímos para o dia 2: com ordem de largada de acordo com nossos tempos de chegada e, pra cruzar o pórtico, em grupos de 3 liberados a cada 15 segundos.

Para uma corrida de montanha essencialmente feita de single tracks, difícil pensar em uma maneira melhor de evitar engarrafamentos. E funcionou.

Diferentemente do dia de ontem, o percurso inteiro foi relativamente livre. Destaque para a perfeição das trilhas: longas, sinuosas tanto nos trechos de subida quanto nos de descida, secas e desimpedidas. 

Secas, na verdade, pelo menos a partir do km 10: até lá a corrida incluía atravessar trechos do Lago Lácar com água que chegou até a cintura. Pelo lado bom, isso trouxe um tempero diferente e, claro, um visual fenomenal.

Visual, por sua vez, que melhorava a cada metro de subida depois que as águas ficaram para trás. Havia trechos, já entre montanhas, que planaltos se abriam inteiros, gerando horizontes tipicamente andinos: montanhas por todos os lados e vegetação seca.

A partir do km 20, quando as florestas ficaram para trás, foi uma sucessão interminável de planaltos cortados apenas por rajadas de vento que forçavam os olhos a fecharem por alguns instantes.

Mas foi só vento, ainda bem: a chuva de ontem à noite ficou no passado e nos concedeu um dia com algumas nuvens, mas sol e claridade o suficiente para babarmos no visual andino.

A chegada do dia ficava na metade de uma montanha: a outra metade ficará para amanhã, quando chegaremos ao ponto mais alto do Cruce antes de descermos de volta para San Martin.

Por hora, é só relaxar um pouco, deixar as pernas se recuperarem e esperar por amanhã!

   
    
   

El Cruce: Os camps

Escrito nas montanhas argentinas em 13/02/2016

Difícil falar do segundo dia sem antes falar da primeira noite no camp. 

Frio e chuva dominaram a paisagem. Não que tenha sido aquela chuva torrencial, mas foi uma garoa fina, gelada e permanente que durou até o dia raiar. No camp em si, a infra acabou nos deixando o mais próximos possível do confortável: havia churrasco a qualquer hora, café, uma tenda de relax, uma específica oara se recarregar as baterias dos relógios e barracas até que confortáveis. 

Neste ponto eu dei MUITA sorte: em um acesso de pão-durice no ato da inscrição, não reservei uma barraca só para mim e fui designado pela organização uma outra pessoa com quem dividiria. Isso significaria espaço apertado e dois dias dividindo barraca com alguém que, como eu, estaria por muito tempo sem banho e com suor.

Mas a palavra-chave aqui é “dividiria”. Meu companheiro acabou não vindo e a barraca – ainda bem – ficou só para mim!

E olhem que espaço:

   
    
  
  

El Cruce: Dia 1

Escrito na beira no Lago Lácar, ao lado de Hua Hum, fronteira da argentina com o Chile, em 12/02/2016

Terminada a primeira maratona, era hora de rememorá-la.

Tarefa fácil, já que o percurso era incrivelmente lindo, com trilhas deliciosamente suaves e vistas embasbacantes – tudo ainda somado àquele clima de ultras que se vê desde a largada:

  

Não digo que tenha sido fácil: em qualquer circunstância, uma maratona de montanha é sempre uma maratona de montanha. Essa, que chegou a 44km com mais uns 1.200m de subida, não seria diferente.

Ainda assim, parece que foi. Há, afinal, uma diferença entre esforço e percepção de esforço. Quando se está em terreno “virgem”, com vistas alucinantes, em uma prova icônica cruzando a cordeilheira dos Andes até pisar no Chile, a percepção é menor.

E fica ainda melhor quando temos uma primeira experiência de vida de camping em plena prova, com direito a churrasco de chão na chegada, tenda de relaxamento e um rio cristalino (embora ridiculamente gelado) para tomar “banho” (ou algo próximo disso).

Pontos memoráveis:

Percurso, claro. Não haveria de ser diferente.

As descidas em trilha, principalmente da primeira montanha. Foi tão intensa quanto descer uma ribanceira no ponto morto – e, por isso mesmo, deliciosa. Não me lembro de ter voado tanto em algum trecho antes como nesse.

As filas. Fica como o único ponto baixo: pedir licença para passar nos single tracks que empacavam sem nenhum motivo concreto era o mesmo que solicitar passagem a uma parede. No final, só consegui correr solto mesmo quando pedia licença e seguia antes da resposta.

O camping. Sensacional. Nunca imaginei que fosse algo assim tão perfeitamente organizado.

O rio. Tomar banho em um rio andino que desce das montanhas é revigorante como poucas coisas!

Bom… por enquanto, é só. Apesar deste post ir ao ar apenas no domingo, ele está sendo escrito de dentro da minha barraca ao término do dia 1. Hora, portanto, de deixar os pés para cima e descansar: amanhã tem mais prova – incluindo o começo real das subidas às montanhas “de verdade”!

   

  

  

  

  

  

  

    
    
    
    
 

Em 60 minutos.

Em 60 minutos, deixo a minha sacola com roupas e mantimentos para os campings na organização do Cruce. 

A partir desse momento, ficarei apenas com roupas e equipamentos para largar às 08:20 de amanhã, 12/02.

A partir desse momento, o Cruce efetivamente começará para mim. 

E, como não poderia deixar de ser, a ansiedade parece espessa ao ponto de impedir que eu consiga raciocinar além desses mesmos 60 minutos. 

Pela previsão do tempo, teremos 3 dias mais frios e com chuvas entre os finais de tarde e noite. Durante os percursos, no entanto, o céu claro deve reinar, abrindo caminho para vistas que certamente serão memoráveis. 

Pelo que vi na Internet dos grupos de corredores que já largaram, houve certamente muito mais sorrisos do que sofrimento estampado em seus semblantes. Bom sinal. 

Pelo que estou sentindo nos rostos de todos os corredores que ainda se preparam, incluindo os três novos amigos brasileiros que fiz aqui (Márcio, Francisco e Reginaldo, todos largando junto comigo), o desejo de se teletransportar até o dia de amanhã é generalizado. Ô, tempo que não passa quando queremos que ele voe!

Exceto por estas poucas conclusões ou previsões, não sei de mais nada. Não sei sequer se conseguirei postar alguma coisa de lá das montanhas, embora a lógica diga que não. Se for o caso, atualizo o blog quando voltar, no domingo, recheando-o com fotos e descrições mais próximas da realidade do que do imaginário. 

Enquanto isso, o que fazer? Não há remédio: sentar aqui, com um olho na sacola e outro nos ponteiros aparentemente congelados do relógio. 

Por 60 longos minutos.

   
 

Vídeo: Como foi o primeiro dia que me aguarda

O título do post pode parecer um paradoxo gramatical – mas ele está certo. Explico: há 3 levas de largadas no Cruce, todas fazendo o mesmo percurso: o primeiro dia, ontem, foiçara a elite/ avançados; o segundo, hoje, será para duplas; e o terceiro, sexta, será para amadores (me incluindo aí).

E, como eles estão filmando cada uma das etapas e disponibilizando praticamente em tempo real na web, deu para sentir como será o meu primeiro dia. E, aparentemente, apesar de ser o dia mais longo (com 40K), ele será relativamente tranquilo, sem trilhas técnicas e com um percurso tão “corrível” quanto maravilhoso. Será uma espécie de boas vindas, creio.

Veja abaixo:

 

 

Caiacando pelo Lago Lácar

Enquanto há horas disponíveis e não há tarefas a serem feitas… que tal um rolê de caiaque por 4 horinhas pelo Lago Lácar?

Dá para usar músculos diferentes dos que precisam descansar (embora eu tenha feito um regenerativo básico de 5K hoje), conferir as águas cristalinas do lago com direito a trutas saltando, ver as montanhas de outro ângulo e, enfim, somar uma experiência diferente dos Andes. 

Perfeito! Duvida? Veja as fotos:

   
    
    
   

Primeiro giro

Mesmo completamente só aqui em San Martin – ainda não encontrei nenhum corredor brasileiro por estas bandas – e sem nada para fazer durante o dia, coloquei o despertador para as 6 da manhã.

Não foi masoquismo: queria sentir o clima nas primeiras horas e ver o sol nascer nos Andes. Excelente ideia, acrescento.

Saí para um trote leve, de 10K, nos arredores da vila. Não busquei trilhas ou nada do gênero: apenas segui a estrada morro acima, evitando que criatividades excessivas no mapa acabassem me cansando além da conta.

Sem nenhum compromisso com tempo ou agenda, quem ganhou o presente mesmo foram os meus olhos. Já havia corrido por aqui no passado, quando passei o ano novo na “vizinha” Villa la Angustura – mas paisagens assim são sempre, sempre bem vindas de volta.

Aos poucos, acabei vendo o céu sair do azul escuro para o colorido, do colorido para o claríssimo, do claríssimo para o azul turquesa. Ao fundo, as montanhas (infelizmente sem neve) se erguiam em uma demonstração de poder inquestionável. Na base, pequenas chácaras se estendiam por quilômetros, sendo cortadas apenas por eventuais casinhas de madeira que pareciam ter sido retiradas de um desenho animado.

O clima não estava quente – nem de longe. Aliás, eu arriscaria dizer que peguei uns 12 ou 13 graus ao sair do hotel, mesmo com o sol brilhando.

Há maneira melhor de começar um dia?

Não.

Ao todo, essa uma hora foi absolutamente revigorante, animadora, inspiradora. O problema é que ela só durou uma hora: ainda tinha o dia inteiro pela frente.

Pois bem: logo que cheguei de volta, me vesti de ingenuidade e fui ao centro pegar o meu kit. Eu e todos os outros 2,5 mil corredores, aparentemente.

Fila? Acho que nem o INSS tinha tanta gente esperando parada! Mudança de planos: deixei o kit para a tarde. Era hora de descobrir o que fazer amanhã, no que resolvi me inscrevendo em um passeio de 4 horas de caiaque pelos lagos amanhã cedo. Sim, deve ser cansativo – mas pelo menos será para os braços, não para as pernas.

Ainda tinha outra tarefa pendurada: o trabalho. Uma viagem como essas consome alguns dias úteis e, ao menos para mim, é impossível deixar o trabalho de lado e considerar tudo como férias (por mais bem vindas e merecidas que sejam, acrescento).

Entre trabalho, trote e posts, portanto, acabei comendo toda a manhã e parte da tarde. E é neste ponto que estou: sentado em um café, martelando o teclado no blog enquanto o projeto que acabei de montar é uploadado para o dropbox e passado adiante. A boa notícia é que, como a produtividade sempre voa com a absoluta falta de interrupções, acabei adiantando tanta coisa que o resto do dia de hoje e todo o amanhã está vazio.

Nova tarefa pela frente, portanto: preencher o tempo. Só espero que não seja com a fila da entrega do kit que, a esta altura, já deve estar menor! :-)

   
    
   
 

 

 

E assim se foi o primeiro dia antes dos primeiros dias

E assim se foi o primeiro dia antes dos primeiros dias: da mesma forma que começou, em compasso de espera. 

Cheguei em San Martin de Los Andes por volta das 13:30 absolutamente sonado. Era segunda, feriado de Carnaval, e teria ainda dois dias inteiros para descansar – desconsiderando apenas umas pequenas pausas para o onipresente trabalho, claro. 

A primeira coisa que fiz – depois de um bem vindo banho, claro – foi rodar pelo povoado. Em um par de minutos, acrescento: San Martin cabe na palma de uma mão, não tendo mais que meia dúzia de quarteirões. Ainda assim, respira ares mais forasteiros do que interioranos: embora poucas, suas avenidas são tomadas por lojas de esporte de aventura; pequenas agências pontilham a paisagem; corredores e ciclistas dividem espaço com crianças brincando soltas; e um clima de adrenalina extrema parece ter subjugado um local que certamente nascera com propósitos muito mais bucólicos. 

A vista também era única: dos dois lados, paredões de montanha afunilavam a vila para o Lago Lácar, formando uam espécie de praia tornada ainda mais gelada por ventos cortantes que espalhavam poeira e pinçavam os nervos. O céu, inquieto, já dedurava a geografia ao se pintar com as cores exatas da bandeira da Argentina. 

E, como não poderia deixar de ser, o cheiro de parrilla acentua a fome de qualquer um que pensar em atravessar a frente dos restaurantes. 

Tudo em San Martin era convidativo, do clima às paisagens e aos sons. Mas o cansaço, ao menos neste primeiro dia, estava extremo demais para eu aproveitá-la. Feito o reconhecimento, almocei logo antes da hora do jantar, invadi uma ou outra loja, tentei – sem sucesso – agendar alguma aventura turística de última hora para o dia seguinte, e voltei para o hotel. 

Nada mais poderia me fazer sair da cama, nem mesmo a claridade insistente do outro lado da janela.

Hoje havia terminado. 

E amanhã, ainda bem, será dia de fazer o reconhecimento como ele realmente deve ser feito: a passos rápidos, trotando povoado afora. Ainda não tenho ideia de que lado irei ou de quanto cobrirei – embora obviamente deva pegar leve por conta do Cruce. Mas uma coisa é certa: a Patagonia e os Andes parecem estar tão ansiosos quanto eu para se metamorfosear de paisagem em aventura.

  
 
 

O caminho

Quando se está só, o caminho parece empolgantemente longo.

“Parece”, aliás, é modo de dizer: cheguei em Guarulhos pouco depois da meia noite para pegar o vôo das 3 da manhã até o aeroporto de Ezeiza, em Buenos Aires; de lá, às 5:40, tomei um transfer até o outro aeroporto da cidade, o Aeroparque – a uma hora de distância – e esperei mais algumas horas: o vôo até San Martin de Los Andes, última perna da viagem, saía apenas às 10:50.

Estou dentro dele ao escrever este post.

Durante as 12 horas que já se passaram desde que fechei a porta de casa, uma mescla de tédio com ansiedade se costurou entre páginas de livros e revistas e papos de outros corredores sobre as suas próprias expectativas. Com o corpo preso a uma cadeira, a mente decidiu voar por todo um percurso de devaneios próprios. Instinto de sobrevivência, talvez.

***

Há poucas horas, lá no Aeroparque, cruzei com a corredora Fernanda Maciel, que voltava ao Brasil depois de quebrar um incrível recorde no Aconcágua. “Devem ser bons ventos”, pensei comigo mesmo. “Deuses da corrida não dão as caras assim se não for para inspirar experiências memoráveis.”

No mesmo minuto, sabe-se lá por quê, comecei a pensar em mim mesmo. Egoisticamente. Despudoradamente. Quase arrogantemente.

Há 8 anos eu estava deitado em uma mesa cirúrgica correndo risco de vida pelo estilo sedentário e estressado de vida que levava; hoje, estou dentro de um avião prestes a atravessar os Andes correndo. Tédio e ansiedade, às vezes, geram uma espécie de orgulho como efeito colateral. 

Fiquei assim, imerso na total falta de modéstia que inundava a minha mente, até que ouvi a chamada para o vôo.

A fila era típica de aeroportos em vésperas de grandes provas: corredores de tudo quanto é nacionalidade sorrindo tensos, mostrando dentes grunhidos e mal se contendo de ansiedade. Eu estava exatamente igual – só que por dentro, já que não conhecia ninguém com quem extravasar sem parecer um psicótico em pleno surto.

Ouvi as histórias dos outros sem pudor, no entanto – da fila do embarque até dentro do avião. As descrições do frio nos acampamentos me deixaram um pouco apreensivo; um possível exagero (ou pelo menos assim espero) no relato da tecnicidade dos percursos do Cruce sopraram alguma tensão no peito; os tons de empolgação nas vozes dos que estavam retornando para correr de novo agiam como uma injeção poderosíssima de endorfina.

Em algum ponto do papo dos outros, fome e o sono atrasado me fizeram desligar a consciência e, como por mágica, o avião se transformou em uma imagem das montanhas. 

Estava em um fim de tarde avermelhado, levemente frio, com a cordilheira se estendendo como uma moldura pelo Lago Lacar. Era um pôr do sol daqueles testemunhados na plenitude do imenso vazio, do despovoado, do nada que se deixa iluminar pelas infinitas constelações cujas existências costumamos ignorar nas grandes cidades. Era exatamente o que estava buscando: a perfeição absoluta. Senti sorrisos forçarem as bochechas algumas vezes até que, de repente, um ruído me colocou de volta no avião.

***

Acordei com um daqueles avisos inúteis sobre tempo de vôo que os comandantes costumam fazer logo que se começa a dormir. 

Respirei e me situei. Na poltrona de trás, o papo entre os corredores sobre o percurso havia misteriosamente se metamorfoseado em previsões catastróficas sobre a crise brasileira. Pela frente, ainda restava mais de uma hora.

Tentei visitar de novo o auto-orgulho para passar o tempo, mas parece que ele havia adormecido também em algum lugar. Pensei em devorar mais um capítulo do meu livro: a falta de vontade foi soberana. Pior: também não tinha mais filme no IPhone ou matéria virgem na revista de bordo.

Não tinha mais nenhuma alternativa. Agora era só fazer o que se deve fazer durante uma espera: esperar.

Esperar e, talvez, aproveitar esse treino de endurance imposto pelo tédio, emulando toda uma ultra mental repleta de associações livres até que a linha de chegada – o Aeroporto de Chapelco, em San Martin de los Andes – apareça no horizonte.

Que apareça logo.