Checkpoint: Rumo aos Andes

Última corridinha feita: 11K pelo Ibirapuera. 

Fora as desconfortáveis dores fantasma fruto do período de tapering, tudo normal.

Hoje de madrugada embarco para a Argentina, devendo chegar em San Martin de Los Andes por volta das 13:00 de amanhã. De então até a sexta, dia da largada, serão apenas trotes leves pelas montanhas, mergulhos no geladíssimo lago Lacar e ajustes finíssimos no preparo final – principalmente por conta da ansiedade, que já se acumula por todo o corpo.

E vambora para mais uma experiência de vida memorável!

  
  

Checkpoint: O pico perfeito

Tenho mais duas semanas de treinamento: na terceira embarco para San Martin de Los Andes, de onde largo no El Cruce. Estou convicto de que o problema com uma prova dessas não é a rodagem em si – 100km em 3 dias – ou mesmo a altimetria, esta sim de uma intensidade poderosa. Tampouco o grau técnico das trilhas me deixa tenso: sem querer parecer presunçoso demais, acredito que as duas provas da Indomit que fiz (Bombinhas, há um ano, e Costa Esmeralda, há alguns meses – ambas encharcadas de tanto temporal) tenham deixado o couro mais rijo em relação a isso.

A dificuldade mesmo, acredito, estará em largar por dois dias (o segundo e o terceiro) com o corpo frio e as pernas cansadas. O cronograma da prova inclui, afinal, 40K no primeiro dia, 30 no segundo e 30 no terceiro – uma divisão quase homogênea de dificuldades não fosse esse acúmulo de exaustão. E, se o ideal em treinamento é buscar simular as provas ao máximo, creio ter feito isso bem. 

Na semana do Reveillon, em Niterói, somei pouco menos de 100K em um sobe e desce de montanhas por trilhas diversas sem parar. O calor, elemento que dificilmente encontrarei nos Andes, serviu como pimenta para agregar um pouco mais de dificuldade. 

As duas semanas seguintes até foram mais leves do ponto de vista de volume, mas organizei os treinos de forma a deixá-los consecutivos, fazendo back-to-backs que simulassem a sensação de correr sobre pernas cansadas. Foi diferente e bastante intenso – mas viável. 

Na semana retrasada, 85Kms também comprimidos – desta vez em quatro saídas. Subi o que pude aqui em Sampa, somando algo como 1.000 metros de altimetria acumulada, mantendo um pace mais lento porém controlado. 

E, claro, teve a semana passada: o pico perfeito de um treinamento que, se não foi radicalmente de acordo om o traçado, também passou longe de ser desleixado. Deixei segunda, terça e quarta para descanso total. 

Na quinta, iniciei meus trabalhos de pacer na BR. Entre quinta e sábado de manhã, rodei quase os mesmos 85km da semana anterior – porém em menos dias e com muito, muito mais altimetria: 3 mil metros. Enquanto corria, a sensação que tive foi de absoluta surpresa: não podia imaginar o quão preparado estava. Não senti cansaço algum e, correndo o risco de soar arrogante, acredito que poderia até ter feito a BR inteira em formato solo. 

Os intervalos de descanso, em que outros pacers assumiam, deveriam ter servido para esfriar o corpo – algo que não chegou, de fato a acontecer. Cada largada minha era mais marcada por empolgação do que pode dor, resultado também das paisagens fenomenais da Serra da Mantiqueira. 

E, bom… se consegui fazer tão confortavelmente este último treinão, que de certa forma teve quase a mesma quilometragem que o Cruce em quase o mesmo tempo, embora em formato diferente, praticamente sem trilhas e com altimetria mais baixa, então creio estar preparado. 

Bem preparado, arriscaria dizer. 

Isso também significa que essas próximas duas semanas, a começar por hoje, devem ser mais dedicadas a um tapering leve, um descanso maior ao corpo para que ele fique mais forte. 

De toda forma, entre volume de rodagem, altimetria, tempo e sensação de segurança, devo dizer que estou absolutamente confortável. Mais: esse pico de treinamento talvez tenha sido o mais perfeito de todos até agora. 

Veremos os efeitos práticos em breve.

   
   

Checkpoint: Back2backs e a busca pela seriedade na fase final do treino para o Cruce

Logo depois que postei a desistência de correr ontem, mudei de ideia e fui para a rua.

Saí no final da tarde embalado pela planilha que, claro, mostrava que o Cruce estava logo ali na esquina. 

Para ser bem sincero, meu treinamento para o Cruce está bem desleixado: tenho mantido um volume médio razoável de rodagem e buscado inserir o máximo possível de subidas, claro… Mas parei por aí.

Nem tenho ideia de quando deveria chegar no pico; tapering é algo que verei em cima da hora; e uma mescla de treinos de qualidade com volumetria é ficção científica. Estou apenas saindo para correr, mantendo um pace quase homogêneo mesmo sabendo que isso está longe de ser ideal e mal olhando para a programação que tracei há meses.

Isso sem contar com o inesperado apoio que darei à Zilma na BR como pacer, que acabarei usando como longão máximo daqui a menos de duas semanas. Quanto planejo correr? Algo como 50 a 60k, mais ou menos. “Mais ou menos”, aliás, sendo o conceito que melhor descreve todo o meu planejamento atual.

Já não há mais muito tempo para mudar isso e acrescentar estrutura no treinamento: o Cruce será em menos de dois meses. Mas dá para tentar, que foi o que acabei fazendo nesse final de semana.

Para mim, a principal diferença do Cruce para outras provas às quais estou habituado é que ela se dará em estágios. Serão 40km no primeiro dia, 30 no segundo e 30 no terceiro, todos somando altimetrias pra lá de tensas. 

Com o medo de parecer arrogante, não é o volume que me assusta: já tenho experiência o suficiente – ou pelo menos espero ter – para saber fazer a mente empurrar o corpo. O que preciso trabalhar é o inesperado de largar por dois dos três dias com as pernas mastigadas, castigadas, esmigalhadas. 

Não serei também injusto comigo mesmo: tenho feito back2backs com mais frequência, educando o corpo a correr cansado. Todo o final de ano em Niterói, afinal, foi recheado de corridas morro acima e morro abaixo, emendadas umas nas outras e com o bônus de um calor sobrehumano. 

Ainda assim, não seria agora a hora de parar: esse final de semana acabou repetindo a fórmula de pouco tempo de descanso entre os treinos. Saí para 25K no final da tarde do sábado, emendando com mais 17 na manhã do domingo. Era o mínimo que precisava fazer para fugir do fantasma da preguiça.

Estou agora como deveria estar: com as pernas mastigadas, doloridas, exaustas – mas “satisfeito”. Essa seriedade a mais no treino para o Cruce já estava se fazendo gritantemente necessária.

Só espero que dê tempo para que ela surta o efeito necessário e me garanta o que estou buscando: uma experiência esperacular.

   
 

Achando a corrida catártica

Para mim, não há como começar um ano sem antes fechar o anterior. E não estou falando aqui apenas de comemorar o Reveillon, obviamente.

Mas há sempre aquela corrida perfeita que divide dezembro de janeiro, que vira a página do passado e coloca em nossa frente todo um conjunto de páginas em branco prontas para serem recheadas com novas histórias.

De 2014 para 2015, essa corrida catártica aconteceu lá no pé dos Andes, na Patagônia Argentina.

2015 em si foi fechado em clima oposto, sob os mais de 40 graus do verão carioca, mas em trilhas que, apesar de opostas, compartilhavam graus semelhantes de beleza. Mas a corrida catártica de 2016 aconteceu mesmo aqui, de volta a São Paulo, no Ibiraquera.

No sábado passado, ainda com as pernas cansadas de subir os morros de Niterói, saí para 15km mais que “comuns” pela trilha do Ibira. De comuns, no entanto, eles tiveram pouco.

Apesar de ter feito a mesma rota de sempre, o gosto era outro: havia tempo de sobra para que eu aproveitasse o clima, havia lama suficiente na trilha para que ela ficasse deserta e umidade suficiente no ar para que a mata exalasse aquele delicioso aroma tão anômalo às grandes metrópoles.

Cheguei a parar no meio do parque e simplesmente respirar o entorno, me sentindo parte do Parque como nunca antes. E, entre um pensamento e outro, o ano anterior acabou sendo devidamente deixado para trás enquanto toda uma nova energia tomava as minhas veias de assalto.

Estava pronto.

Que bom: o ano, afinal, promete ser bastante intenso.

  

Cruce……..

De todas as provas que tenho alinhadas no meu futuro próximo, o Cruce é sem dúvidas a quem mais tem me deixado empolgado. 

Só o prospecto de voltar a correr na região dos lagos andinos – uma das mais belas que já vi na vida – cruzando montanhas e passeando por dois países já faz a endorfina arrepiar cada pelo do corpo. 

Ver um vídeo assim, então, é de matar…

Que chegue logo fevereiro!!! 

El Cruce 2014 | Kailash Team Neptunia from Morfina Filmes on Vimeo.

Planejamento de ultras

Depois de algumas semanas me organizando, caçando calendários e fazendo todo tipo de conta, é hora de efetivamente estabelecer as minhas próximas metas. E já digo uma coisa: estou absolutamente empolgado com elas!

Daqui até fevereiro tenho pelo menos três provas nas quais já me inscrevi e que, claro, pretendo dominar para riscar itens da minha lista de desejos.

A primeira será logo agora, no final do mês: 50K em Atibaia, parte do circuito da Copa Paulista de Corridas de Montanha. A prova em si não deve ser nada de apavorante, mas quero tirar da mente aquela impressão negativa de passar por percursos “excessivamente selvagens”. Não sei se é ou não o caso de Atibaia – o site não dá nem sequer uma pista sobre nada – mas será excelente para returbinar o corpo.

A segunda já será mais “tensa”: meus primeiros 100K, com direito às trilhas técnicas da Indomit Costa Esmeralda e a uma largada à meia noite. Uma prova de fogo: passando bem por ela, encaro qualquer coisa! E, para falar a verdade, essa é a prova que mais está me deixando de cabelo em pé, meio inseguro. Mas, enfim, só sabemos mesmo quais são os nossos limites depois de nos testarmos.

Finalmente, a terceira e última também está nos meus sonhos faz tempo: o El Cruce, lá nos Andes, paisagem exuberante que tive o prazer de percorrer por conta própria no final do ano passado. E, nesse caso, será a minha primeira corrida em estágios.

Agora é treinar.

Empolgado.

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Checkpoint semanal: De volta

Olhar para trás depois de uma jornada como a que fiz pelos Lagos Andinos dá sempre uma nostalgia. Afinal, foram tantas as experiências acumuladas nas montanhas argentinas que faltam palavras para descrever.

Não sei se quero descrever agora, no entanto – ao menos em palavras. Há coisas que podem dizer mais: as planilhas, mostrando o crescimento do volume de treino, um mapa de calor do Strava mostrando tudo o que foi percorrido e as fotos todas que postei ao longo da semana. Vistas que, para sempre, ficarão presas na memória.

Quanto às planilhas, uma constatação apenas: desde que passei a usar o Garmin, a medição de altimetria mudou dramaticamente. O que antes era 200m em um percurso, por exemplo, virou 80m. No início, não sabia o que estava errada – se a medição anterior ou a atual.

Depois pesquisei mais e descobri que o Garmin realmente falha bastante nisso – conclusão reforçada por medições completamente diferentes com o próprio Garmin sobre exatamente o mesmo percurso. Bom… se não dá para comparar com o passado, então, que sirva de parâmetro para o presente, desde o mês de novembro.

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Despedida dos Andes

Os índios Mapuche acreditam que toda relação com a natureza é pautada pela reciprocidade. Quer algo dos Deuses, das montanhas ou das águas? Dê algo em troca, demonstrando respeito e gratidão.

Quando cheguei aqui na Patagônia estava um caco: exausto por um ano dificílimo e repleto de altos e baixos, sem paciência para nada e em níveis de estresse que não lembro ter estado antes. Buscava apenas uma coisa: virar a página, encerrando o ano e começando um novo capítulo de forma inteira, bem mais energizado.

A corrida em trilhas, claro, teve papel fundamental. Na somatória, passei horas e mais horas sozinho, totalizando mais de 100km por montanhas, lagos e florestas.

Fugi de cachorros revoltados já no primeiro dia; subi a mais famosa montanha da região para dar de cara com um portão fechado na primeira base – muito embora tivesse sido recompensado com vistas magníficas no caminho; fiz a rota dos sete lagos, subi o Ístmo de Quetrihue até os mirantes do bosque dos Arrayanes, onde cruzei suas trilhas; atravessei o território Mapuche para subir até o mirante no Cerro Belvedere, de onde atravessei para a montanha vizinha, Inacayal, para testemunhar o espetáculo de uma cachoeira nascendo de suas pedras e dando vida a todo esse ecossistema de lagos.

Em todo esse tempo, a paz interior que tanto buscava aqui nos Andes esteve sempre ao alcance das mãos – mas nunca efetivamente agarrada por elas.

Minha última corrida seria a minha última chance.

Escolhi uma das poucas trilhas que ainda não tinha feito, seguindo em boa parte pela estrada e desembocando na Playa del Espejo – uma espécie de praia na beira de um lago isolado e de incrível beleza.

A manhã clara, de céu azul forte e ar ameno, ajudou. Passo a passo, fui correndo a maior parte do percurso, imerso no silêncio das montanhas e respirando o seu ar por subidas e descidas.

O caminho todo foi como uma espécie de revisita a toda a viagem, ao ano que se foi e ao que virá.

Foi catártico, para dizer o mínimo.

E de repente, como que a passe de mágica, na medida em que a Playa se aproximava, as preocupações e o estresse foram dando margem a uma espécie de energia que estava fazendo falta. Muita falta.

Ao chegar lá, desci até o lago. Lindo, incrível. Uma fina camada de neblina parecia acariciar suas águas calmas que, por sua vez, refletiam os Andes como uma espécie de mensagem. Alta, diga-se de passagem.

Tudo aquilo parecia tão eterno, tão constante e inabalável, que qualquer preocupação a mais parecia futilidade. Era exatamente o que eu precisava entender.

Respirei.

Voltei.

No caminho parei no Lago Correntoso para me despedir. Havia enfrentado suas águas geladas no dia anterior, mergulhando fundo e nadando algumas centenas de metros para ajudar no processo de “limpeza de alma”, por assim dizer. Funcionou.

Complementado com os 21K que havia acabado de fazer, precisava mostrar o meu agradecimento ao estilo Mapuche.

Desci até as suas margens, onde 3 ou 4 pescadores miravam peixes invisíveis em silêncio, sentei em um tronco e simplesmente agradeci com todo o meu espírito.

Abri minha mochila de hidratação e, na terra, despejei toda a água que ainda restava. Não era tanto – mas era tudo o que tinha naquele momento.

Fiquei mais alguns minutos por lá olhando o lago e enchendo o pulmão com o ar andino. Estava, pela primeira vez em muito tempo, inteiramente em paz.

E, com esse último pensamento em mente, coloquei a mochila nas costas, me voltei para a trilha e, lenta mas decididamente, comecei a correr. Até 2015.

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