Checkpoint: Corrigindo a altimetria

Começo de 2015, volta à rotina. Na verdade, este deveria ter sido o título do checkpoint: voltei ao Ibirapuera, fui à USP, fiz uma nova trilha urbana pela região da Barra Funda e Minhocão. Ou seja: estamos de volta, inaugurando o ano novo como deveria ser.

Sob esse aspecto, nada de diferente do planejado.

Mas houve, sim, algo mais abrupto que aconteceu. Depois que constatei, desde os Andes, que o Garmin falha insanamente no cálculo de altimetria, comecei a medir diferenças entre ele e o MiCoach, da Adidas, que se baseia o sistema do IPhone.

Resultado: os treinos mais curtos mostram diferenças de cerca de 50%; os mais longos, de 35%. Em todos os casos, o Garmin fica abaixo, o que explica a sensação de que algo estava errado desde que passei a utilizá-lo, em novembro.

Pois bem: normalizei todas as minhas planilhas, por assim dizer, considerando uma média de 40% de diferença. É uma média conservadora – mas melhor do que ficar com algo tão abaixo da realidade.

Não dá para dizer que isso me dará uma clareza no entendimento da minha altimetria semanal – nem de longe. Mas, no mínimo, me permitirá ter uma noção mais aproximada da realidade.

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Garmin vs. MiCoach: Discrepâncias grandes no cálculo de elevação acumulada

Depois desses últimos dias nos Andes, me peguei pensando bastante sobre irregularidades na medição de altimetria acumulada por devices diferentes.

Desde que troquei o MiCoach pelo Garmin, os gráficos passaram a indicar mudanças absolutamente bruscas nos perfis altimétricos de meus treinos – algo péssimo quando se tem corridas em montanha como alvo.

Além disso, dois fatores me chamaram a atenção:

a) Na Douro Ultra Trail, o ganho total de elevação, oficialmente medido, foi de 4,5 mil metros ao longo de seus 80km. Foi duro, mais viável. Pois bem: no total semanal em que estive nos Andes, o Garmin indicou que subi pouco menos de 2,5 mil metros – mas sou capaz de jurar que o esforço foi, no mínimo, equivalente ao da DUT. Eram muito mais montanhas, para dizer o mínimo, em um ritmo de subida bem mais intenso.

b) Uma das corridad que fiz lá mostrou uma discrepância importante. Fiz ida e volta no mesmo percurso e o resultado foi desconcertante: o GPS mostrou um ganho altimétrico muito maior na primeira metade, algo tecnicamente impossível.

Veja: não estou falando de margens de erro desprezíveis de 5%: estou falando de diferenças que chegam a superar os 60%!

Na terça passada fiz um teste diferente: corri com o Garmin no pulso e a app da MiCoach no IPhone ligados. Assim, ambos mediriam exatamente o mesmo percurso, pelo mesmo tempo.

Resultados abaixo:

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O gráfico acima é o do MiCoach. Perceba que ele marcou 147m de subida acumulada (em um total de 10,96km percorridos).

Veja agora o do Garmin:

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Aqui, a elevação acumulada despenca para 98m por 10,82km. A diferença na quilometragem em si é mínima, desprezível – mas a altimetria variou 50%!

E por que isso é importante? Treinar para provas em montanha requer mais prática em subidas e descidas do que qualquer coisa! E como, então, basear um modelo inteiro de treino em dados com uma variação tão ridícula sobre o mesmo percurso?

Na falta de resposta, fui até a Web. Saí com menos respostas.

Parece consenso que o Garmin Forerunner 620, que uso, tem falhas no cálculo de altimetria – mas é também muito falado que o GPS do IPhone, no qual o MiCoach se baseia, também erra bastante.

O que fazer então?

Nada. Ou melhor: voltar aos velhos tempos e correr com base na sensação de esforço, essa sim mais acertiva que qualquer device eletrônico. Por incrível que pareça.

Velocidade na recuperação da velocidade

Ontem à noite saí para 1h15 de corrida no Ibirapuera. A ideia era continuar perseguindo a velocidade que me deixou desde que voltei da Patagônia, meta na qual devo persistir pelo menos pelos próximos meses.

Não fiz feio.

Ainda estava seco quando estacionei o carro mas, já nos primeiros passos, gotas que me fizeram questionar se chovia granizo começaram a despencar do céu. De início, eram tão grossas que parecia possível ziguezaguear por entre elas, ficando seco enquanto todos buscavam cobertura em algum lugar longe das árvores que ameaçavam voltar a cair como na semana anterior.

Depois, o vento e uma maior força das águas fizeram o parque parecer um imenso chuveiro.

Uma observação: eu não estava aqui na semana passada. Houve um dia em que tantas árvores caíram no Ibirapuera que, pela primeira vez em décadas, ele teve seus portões fechados por uma questão de segurança.

Dias depois, parecia haver uma espécie de trauma coletivo quanto a isso: todos os corredores, vendedores locais e transeuntes estavam com ar de medo, escondidos sob qualquer pedaço de concreto que conseguiam encontrar. Todos olhavam para o céu com a esperança de que mar virasse sertão o mais rapidamente possível. Esperança vã, diga-se de passagem.

Com e memória vazia, sem ter testemunhado o caos, foi fácil para mim ignorar tudo isso. Partindo do princípio de que chuva não mata, apenas molha, continuei cruzando o parque em ritmo firme, rápido, tranquilo. A água refrescava, lavava, até divertia.

Foi uma corrida sensacional e com uma meta mais que bem executada, tendo 14km rodados em 1h15. Missão cumprida.

Parcialmente, pelo menos.

Hoje cedo, antes do sol raiar, estava na rua novamente para outra volta no parque.

Desta vez, o intuito não era manter pace fixo por muito tempo mas sim alterná-lo em 9 tiros de 1 minuto cada, sanduichados entre aquecimentos e desaquecimentos que totalizavam pouco mais de 1h de corrida.

Queria ver o desempenho sobre pernas cansadas por uma sessão feita poucas horas antes.

Mas o dia parecia tão diferente, iniciando com uma lua imensa brilhando sobre um céu sem núvens, cedendo espaço para um amanhecer incrivelmente multicolorido, que dificilmente parecia ter havido um temporal pouco tempo antes. Na verdade, a corrida da noite anterior parecia ter ocorrido há meses.

E, apesar do cansaço das pernas ter discordado disso, a mudança no visual climático enganou bem a mente.

Tudo, afinal, é uma questão de escolher o foco mais eficiente, confortável, no qual se concentrar.

Os 9 tiros não foram os mais rápidos da minha vida – mas saíram bem. Foram executados, milimetricamente precisos, sem nenhum contratempo.

Ao chegar de volta em casa senti o corpo pedir descanso. Tudo bem: além do restante do dia teria ainda amanhã para relaxar as pernas antes do longão de sábado – que também não será nada tão puxado, ficando na casa das 2 horas para evitar sobrecargas desnecessárias.

Quando saí para a minha primeira corrida na terça, a preocupação quanto à perda de ritmo foi relativamente grande. Mal podia eu imaginar que, dois dias e dois treinos depois, já começaria a me sentir inteiro de novo.

O corpo, às vezes, é muito mais rápido do que a mente imagina.

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Lentidão gerada pelo excesso de montanhas

Quando se está correndo solto por trilhas e montanhas, dificilmente se olha para o relógio em busca de intervalados bem feitos ou tiros. Busca-se apenas aproveitar paisagens únicas e a experiência de se sentir parte de algo muito maior do que tempos e asfaltos podem proporcionar.

Quando o período nas montanhas é grande, esse desprendimento rapidamente vira uma espécie de hábito. Lá nas subidas, correr e caminhar se alternam de maneira absolutamente simbiótica e sem preconceito: caça-se vistas geradas pela altimetria e não quilômetros gerados pelo asfalto plano.

Corrida, no entanto, não é caminhada – são esportes diferentes, com efeitos diferentes no corpo e na cabeça.

Estou descobrindo isso agora. Hoje, mais precisamente, depois de voltar da minha primeira sessão pós-Andes lá no Ibirapuera.

Em tese, uma sessão de dificuldade média: duas séries de progressão incluindo, cada uma, 2′ em zona azul, 3′ em verde, 4′ em amarelo e 5′ em vermelho.

Os 15 minutos de aquecimento inicial já foram meio difíceis, soltando a musculatura das pernas. Mas, depois disso, desafiar o ímpeto irrealmente natural de caminhar ao invés de acelerar foi difícil.

A cada esquina ou mini subida o corpo baixava a marcha por conta própria – e eu forçava nova aceleração; meu ritmo, ao invés de subir até pela falta do peso extra da mochila de hidratação, permanecia teimosamente igual; e o cansaço era decididamente maior que qualquer subida do Cerro Bayo, Belvedere, Inacayal ou Arrayanes.

Os 10 dias nas montanhas me inspiraram como poucas coisas antes – mas também me deixaram mais lento.

Essa volta à rotina será focada na recuperação de performance – pelo menos em níveis mais aceitáveis.

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Checkpoint semanal: De volta

Olhar para trás depois de uma jornada como a que fiz pelos Lagos Andinos dá sempre uma nostalgia. Afinal, foram tantas as experiências acumuladas nas montanhas argentinas que faltam palavras para descrever.

Não sei se quero descrever agora, no entanto – ao menos em palavras. Há coisas que podem dizer mais: as planilhas, mostrando o crescimento do volume de treino, um mapa de calor do Strava mostrando tudo o que foi percorrido e as fotos todas que postei ao longo da semana. Vistas que, para sempre, ficarão presas na memória.

Quanto às planilhas, uma constatação apenas: desde que passei a usar o Garmin, a medição de altimetria mudou dramaticamente. O que antes era 200m em um percurso, por exemplo, virou 80m. No início, não sabia o que estava errada – se a medição anterior ou a atual.

Depois pesquisei mais e descobri que o Garmin realmente falha bastante nisso – conclusão reforçada por medições completamente diferentes com o próprio Garmin sobre exatamente o mesmo percurso. Bom… se não dá para comparar com o passado, então, que sirva de parâmetro para o presente, desde o mês de novembro.

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Despedida dos Andes

Os índios Mapuche acreditam que toda relação com a natureza é pautada pela reciprocidade. Quer algo dos Deuses, das montanhas ou das águas? Dê algo em troca, demonstrando respeito e gratidão.

Quando cheguei aqui na Patagônia estava um caco: exausto por um ano dificílimo e repleto de altos e baixos, sem paciência para nada e em níveis de estresse que não lembro ter estado antes. Buscava apenas uma coisa: virar a página, encerrando o ano e começando um novo capítulo de forma inteira, bem mais energizado.

A corrida em trilhas, claro, teve papel fundamental. Na somatória, passei horas e mais horas sozinho, totalizando mais de 100km por montanhas, lagos e florestas.

Fugi de cachorros revoltados já no primeiro dia; subi a mais famosa montanha da região para dar de cara com um portão fechado na primeira base – muito embora tivesse sido recompensado com vistas magníficas no caminho; fiz a rota dos sete lagos, subi o Ístmo de Quetrihue até os mirantes do bosque dos Arrayanes, onde cruzei suas trilhas; atravessei o território Mapuche para subir até o mirante no Cerro Belvedere, de onde atravessei para a montanha vizinha, Inacayal, para testemunhar o espetáculo de uma cachoeira nascendo de suas pedras e dando vida a todo esse ecossistema de lagos.

Em todo esse tempo, a paz interior que tanto buscava aqui nos Andes esteve sempre ao alcance das mãos – mas nunca efetivamente agarrada por elas.

Minha última corrida seria a minha última chance.

Escolhi uma das poucas trilhas que ainda não tinha feito, seguindo em boa parte pela estrada e desembocando na Playa del Espejo – uma espécie de praia na beira de um lago isolado e de incrível beleza.

A manhã clara, de céu azul forte e ar ameno, ajudou. Passo a passo, fui correndo a maior parte do percurso, imerso no silêncio das montanhas e respirando o seu ar por subidas e descidas.

O caminho todo foi como uma espécie de revisita a toda a viagem, ao ano que se foi e ao que virá.

Foi catártico, para dizer o mínimo.

E de repente, como que a passe de mágica, na medida em que a Playa se aproximava, as preocupações e o estresse foram dando margem a uma espécie de energia que estava fazendo falta. Muita falta.

Ao chegar lá, desci até o lago. Lindo, incrível. Uma fina camada de neblina parecia acariciar suas águas calmas que, por sua vez, refletiam os Andes como uma espécie de mensagem. Alta, diga-se de passagem.

Tudo aquilo parecia tão eterno, tão constante e inabalável, que qualquer preocupação a mais parecia futilidade. Era exatamente o que eu precisava entender.

Respirei.

Voltei.

No caminho parei no Lago Correntoso para me despedir. Havia enfrentado suas águas geladas no dia anterior, mergulhando fundo e nadando algumas centenas de metros para ajudar no processo de “limpeza de alma”, por assim dizer. Funcionou.

Complementado com os 21K que havia acabado de fazer, precisava mostrar o meu agradecimento ao estilo Mapuche.

Desci até as suas margens, onde 3 ou 4 pescadores miravam peixes invisíveis em silêncio, sentei em um tronco e simplesmente agradeci com todo o meu espírito.

Abri minha mochila de hidratação e, na terra, despejei toda a água que ainda restava. Não era tanto – mas era tudo o que tinha naquele momento.

Fiquei mais alguns minutos por lá olhando o lago e enchendo o pulmão com o ar andino. Estava, pela primeira vez em muito tempo, inteiramente em paz.

E, com esse último pensamento em mente, coloquei a mochila nas costas, me voltei para a trilha e, lenta mas decididamente, comecei a correr. Até 2015.

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Bosque Los Arrayanes

Com a placa apontando para o Bosque Los Arrayanes em mente, já que na corrida anterior havia voltado a partir de lá sem prosseguir, fui para o meu penúltimo dia de trilhas na Patagônia.

Para otimizar tempo, dessa vez, fui de carro até a entrada do Parque Nacional e comecei a partir de lá. Não tinha ainda certeza da distância mas sabia que não faria todo o percurso, somando 24km.

E, assim, comecei pelo mesmo caminho do dia anterior, subindo sem parar até os mirantes. Não cheguei até eles: logo na placa que indicava o bosque segui por outra subida e depois por uma descida bem íngreme. Estava já em territórios inexplorados.

Logo de início um mirador abria a vista do nascer do sol nos Andes, com o lago se estendendo feito um tapete espelhado refletindo as montanhas e os primeiros raios se luz. Vai demorar para eu me desacostumar desses inícios inspiradores de corrida por aqui.

Guardei a imagem na cabeça (e em uma foto) e segui. Reto, sempre em frente, mesclando tantas ondulações de percurso que fizeram o altímetro do Garmin desistir de qualquer precisão.

Uma vez no bosque, as paisagens ficam mais homogêneas: fileiras de pinheiros e árvores gigantescas se alinham dos dois lados da trilha, cobrindo parte do céu e deixando apenas o suficiente de luz entrar pelas suas copas para pintar os troncos de dourado.

De curva em curva, novos tons iam sendo revelados pelo sol, exigindo uma diminuição no pace para um simples (porém fundamental) ato de contemplação.

Pace. Se tem um efeito colateral desse período aqui nos Andes é a diminuição sistemática do ritmo. Afinal, toda corridinha inclui centenas de metros de subida, forçando tanto períodos de caminhada que eles se tornam mais a regra que a exceção. Aqui definitivamente não é o lugar certo para que gosta de velocidade – mas, mesmo para esses, eu ainda arriscaria dizer que a mudança de ares e estilos certamente faz bem.

Estou curioso para saber qual o resultado disso em um próximo intervalado que fizer lá no Ibirapuera. Será que voltarei anos no tempo e precisarei recuperar todo o ritmo? Ou que essa espécie de descanso aos músculos de velocidade gerarão um efeito contrário? Ou será que, dado o pouco tempo, nenhuma mudança significativa terá ocorrido? Só na semana que vem para saber.

Enquanto isso, já era hora de voltar quando o relógio apitou 6km.

A propósito: a falta de sincronia do Garmin com as marcações de km na trilha beiravam o ridículo, assim como o registro altimétrico que deveria ser – mas não foi – sincrônico, já que fiz a mesma rota de ida e retorno.

Bom… exceto pelas minhas planilhas e meus gráficos, quem se importa?

Do km 6 (ou 7) tomei o rumo da saída e fiz de novo todo o trecho do Bosque, subindo até a região dos mirantes e descendo até a entrada.

Uma vez lá dei uma esticadinha até uma praia em frente ao ístmo que havia subido nos últimos dias. O paredão rochoso, coberto de pinheiros, se esticava sozinho lago adentro criando um efeito espelhado absolutamente impressionante. É uma das cenas que levarei comigo desse lugar tão incrível.

A viagem agora está chegando ao fim.

Esses dias na montanha estão, aos poucos, recalibrando o organismo e enchendo o sangue da energia necessária para enfrentar 2015.

Tenho ainda uma meia para fazer e completar os 80km da semana – e pretendo deixar isso para a estrada mesmo, fazendo um bate-volta até a Praia do Espelho – um lago escondido por aqui e com uma beleza estonteante.

Mas isso será para o fechamento da viagem – e abertura oficial de 2015.

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Mirantes de Arrayanes

A primeira corrida de 2015 tinha mesmo que ser memorável.

Ontem, sacudi a poeira do Reveillon logo cedo e saí às 7:30 para o Bosque de Los Arrayanes, em um dos extremos de Villa La Angostura. Não sabia muito o que encontraria ou mesmo se conseguiria entrar no bosque uma vez que era um Parque Nacional com horário de abertura mais tarde.

Ainda assim, fui. E não me arrependi nada.

A manhã estava absolutamente azul, sem uma única nuvem no céu e com picos brancos nas montanhas por conta da neve que caiu na noite de ano novo.

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O caminho em si já era um presente, passando por uma estrada cercada de pinheiros gigantes, cruzando uma igrejinha de pedra do começo do século XX e desembocando em uma baía de águas cristalinas.

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Em um canto, uma placa indicava a entrada do bosque. Estava mesmo fechado mas, sem correntes no portão, foi fácil ser seduzido pelo visual e desobedecer as regras.

Mais para dentro placas sinalizavam caminhos opostos: o bosque para a esquerda e dois mirantes para a direita. Subi para os mirantes.

Foram alguns quilômetros de subida bem íngreme, com trilhas bem marcadas serpenteando a montanha. Me arrependi de não ter levado os poles – mas nada que um pouco mais de força de vontade não resolvesse.

Aos poucos, depois de algumas curvas, os pinheiros foram ficando mais escassos e a vista começou a se desacortinar. Deslumbrante.

Os mirantes dão para a Baía Mansa e pra a Baía Brava, separadas pelo igualmente belo Ístmo de Quetrihue. Ao fundo, os lagos se estendem por toda a paisagem; no horizonte, picos nevados – incluindo os três que já havia subido (Cerros Belvedere, Inacayal e Bayo), davam um toque de magia; em cima, o azul intenso do novo céu de 2015 completava a tela.

Anos podem se passar, mas dificilmente em me esquecerei dessas paisagens andinas.

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Cheguei a ficar um tempo por lá, de pé, só com a montanha e a vista. Respirei, pensei, repensei. E voltei.

Voei morro abaixo com um senso de realização forte, compatível com a beleza que acabara de testemunhar.

Quando cheguei na base, estiquei ainda pelo outro caminho, rumo ao bosque, mas descobri que ele seguia apenas por 700 metros: por risco de desabamento, os Arrayanes poderiam ser alcançados apenas pelos mirantes, seguindo adiante ao invés de voltar.

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Por um lado, bateu uma certa frustração; por outro, no entanto, foi uma bela desculpa para que eu voltasse ao local antes do fim da viagem.

Pelos fascinantes Mirador Belvedere e Cascata Inacayal

Ontem foi dia de montanha.

Já com o sol iluminando os Andes, peguei uma trilha perto do hotel até o Cerro Belvedere, em uma região que mescla um mirante lá nas alturas e uma cachoeira de 60 metros saindo do meio da montanha.

Nada mal para começar o dia, não?

Fora eu ter me perdido nos primeiros quilômetros e penado um pouco para entender o mapa, já que o GPS não reconhecia nenhuma das trilhas, o caminho foi incrível.

Tudo relativamente simples por um bom pedaço, com uma subida constante mas leve. Até que, de repente, uma placa de madeira pintada a mão alertava: “Territorio Mapuche”.

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Os mapuchos são índios da região andina, que viviam logo abaixo da região Inca e dominavam boa parte do sul do continente. E índios modernos, hoje, tem as suas regras: não gostam de ser incomodados, ignoram as leis locais e curtem viver de acordo com suas próprias diretrizes comunitárias.

Como a trilha cortava a comunidade, segui com cautela, caminhando no máximo possível de silêncio.

De repente, latidos. Um, dois, muitos.

A maior parte dos cachorros era de pequeno porte e eu apenas ignorei. Um, no entanto, estava mais sério.

Era grande e estava nitidamente irritado com a minha “invasão”, chegando a menos de um metro de distância enquanto latia e rosnava insistentemente.

Com os poles seguros e preparados para qualquer enfrentamento, segui em silêncio. Sem parar, acelerar ou diminuir o pace, apenas fui.

Ele me acompanhou de perto, latindo, até que deu uma última rosnada e desistiu. Ufa!

Um segundo cachorro grande também se aproximou na sequência, mas logo ficou para trás.

À minha frente, uma cerca semiaberta carregava apenas a instrução de que, a partir dali, apenas pessoas e cavalos poderiam entrar.

Estava no começo “oficial” da subida ao Mirador Belvedere, já livre de mapuchos, cachorros ou qualquer coisa que não fosse o silêncio da montanha.

E assim subi, sozinho, por uma trilha incrivelmente linda e demarcada apenas por uma tinta vermelha em algumas das árvores.

Por quilômetros, só subida e mais subida. A cada curva, uma vista diferente da mata enchia os olhos e atiçava a curiosidade; a cada passo, a sensação de se estar sozinho cortando a montanha fazia o peito vibrar mais forte.

Até que cheguei a uma clareira com uma única e esquisita árvore desnuda.

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Fui a uma ponta: aos meus pés, lagos, vilarejos e a cordilheira se estendiam por quilômetros de distância. Estava no Mirador sorvendo uma das mais incríveis vistas que meus olhos já viram.

 

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Fiquei por alguns instantes ali até perceber a placa que indicava a cachoeira.

Segui.

A trilha era menor, mais sinuosa e mesmo levemente perigosa, mesclando descida com subida. Fui andando com a ajuda dos poles, a essa altura meus melhores amigos, até começar a ouvir o barulho das águas.

A cada passo, mais forte. Mais alto. Mais intenso.

E uma outra clareira apareceu.

Fui até uma ponta onde se podia “invadir” um pouco o penhasco. Um paredão gigantesco se estendia do outro lado do abismo, cercado por pinheiros e dando vista a uma fina mas belíssima queda d’água.

Ficava difícil definir qual a melhor vista, mas a altura ali era tamanha e a protuberância onde pisava parecia tão “frágil” que, pela primeira vez na vida, senti vertigem.

Mas aí foi só respirar, dar alguns passos para trás e voltar: primeiro para o Belvedere, depois para a comunidade Mapuche.

Montanha abaixo, fui correndo sempre que dava. A volta pareceu curta, breve – pelo menos até a cerca.

A essa altura já passava das 9 e, em uma das casas, um velho camponês trabalhava em sua casa.

Com os latidos cortando o silêncio ao fundo, pedi ajuda. Expliquei que estava um pouco receoso de cruzar caminhos com o cão novamente e ele me respondeu que dois turistas já foram atacados por ele nos últimos meses.

Por sorte, ele sentiu um pouco de pena, subiu em um cavalo sem sela e me ofereceu uma escolta até a saída do território.

Obviamente que aceitei, agradecido, e fui caminhando ao seu lado. Os cachorros olharam de longe enquanto passamos, aparentemente respeitando a escolta.

No final, ele me deixou em um lugar perfeito para descer correndo de volta até a estrada e, de lá, até o hotel.

Adrenalina, trilhas incríveis e vistas inesquecíveis diretamente dos Andes. Dá para pedir mais?

 

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Subindo até o Cerro Bayo

Segundo dia, segunda rota.

Desta vez preferi uma trilha marcada e “oficial”, subindo o Cerro Bayo (montanha mais conhecida de Angostura).

Pelo que o sujeito do hotel comentou seriam 6km até a montanha, 3 até a primeira base e mais 2 ou 3 até o cume.

Bom… se tem uma coisa que aprendi é que locais, independentemente do local, sempre erram feio nas indicações de distância – geralmente por um excesso de otimismo. Aqui não foi diferente.

De fato, foram 6km até a montanha em si – mas a sua base ficava mais 6km para frente. Tudo bem: a trilha em si era de estrada de terra, bem ampla e totalmente deserta nas primeiras horas da manhã.

Foram 6km de subida ininterrupta passando por alguns mirantes incríveis, desacortinando uma vista cinematográfica para o lago com dezenas de montanhas gigantes ao fundo.

A cada metro subido, uma nova vista se somava à queda de temperatura.

Em um dado momento, percebi uma saída para uma trilha menor, marcada por fitas vermelhas com as que encontramos em provas. Decidi entrar e rodei quase 1km cortando uma mata densa, feita de pinheiros gigantes e tão colados uns nos outros que mal dava para perceber que havia um paredão vertical na encosta.

Como a trilha começou a descer de volta, desisti e voltei para a estrada de terra. Pelo menos valeu a sensação de perambular solto por uma floresta andina.

Foram mais alguns km pela trilha principal até chegar na primeira base. Problema: ela estava fechada, assim como o acesso em si para o Cerro Bayo!

Nada de cume hoje. Mas quer saber?

Considerando que o percurso foi maior que o originalmente planejado, que a vista foi inesquecível e que a minha janela de tempo nas trilhas estava se esgotando, valeu muito a pena.

Tirei uma foto do Cerro Bayo, dei meia volta e tomei o rumo do hotel, fechando 26km de uma corrida muito, muito bem aproveitada.

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