The Long Run

Para os apaixonados pela Comrades, um filme que faz jus ao sensacional clima da prova:

 

O treinamento mental

Dividi meu treinamento para o Caminhos de Rosa em dois grandes blocos: um físico e outro mental.

O físico não tem muito segredo: é planilha tradicional montada com um método prático e que tenho seguido de maneira minuciosa.

O mental é que é uma espécie de novidade para mim. E veja: para esta prova, o Caminhos de Rosa, treino mental não é apenas se preparar para passar horas e mais horas furando o tédio com a persistência. É puxar companhias a partir da poeira que se deita sobre o sertão mineiro onde a prova acontecerá.

Que companhias? Riobaldo, Diadorim, os Hermógenes, Miguilim, Manuelzão, Pedro Orósio, Grivo, Cara-de-Bronze e toda uma leva de jagunços, vaqueiros e buritis criados por Guimarães Rosa em toda a sua obra.

O que acontece é que as histórias do Rosa são de uma densidade tão intensa, tão incrível, que lê-las com a devida atenção tem sido uma ultra à parte.

Neste ponto estou nos dois picos: no do treino físico, já fazendo levas e mais levas de semanas com 100 a 100Ks, e no do mental, já chegando no último dos livros do Rosa que pretendo devorar.

E ambos os treinos, confesso, estão me deixando tanto exausto quanto ansiosíssimo para os 140K.

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USP deliciosamente vazia

Havia algo de estranho quando entrei na USP no sábado passado para fazer os meus 50K.

Normalmente, toda aquela região é tão coalhada de corredores e ciclistas que se tem a sensação de se estar em uma espécie de versão esportiva das ruas de Mumbai: o trânsito é caótico ao ponto de não se entender como ele chega a funcionar.

E – apesar de notícias de um ou outro atropelamento de vez em quando – ele funciona.

No sábado, tudo estava diferente. Não sei se por alguma regra nova que desconhecia ou por fechamento de ruas devido à Volta Ciclística 9 de Julho, a USP estava fechada para carros.

Sem carros, sem assessorias.

Sem assessorias, sem pessoas.

Como eu corro solo, levando minha própria água e sem depender de nenhuma estrutura, confesso que amei. Foi como se a USP estivesse inteiramente fechada para mim (e talvez para outros 2 ou 3 perdidos que dividiam os seus mais de 10K de percursos livres a arborizados comigo).

Some a isso um dia de sol perfeito com uma temperatura apenas levemente fria e foi como se os Deuses tivessem desenhado aquele dia com o máximo de esmero.

Como comentei, não sei se a USP permanecerá assim, fechada para carros e aberta para pedestres – mas, apesar de gostar do clima de esporte que costuma (ou costumava) dominar a região, confesso que não reclamarei tanto se essa mudança se perenizar.

  


 

 

 

50K perfeito por São Paulo

A maior dificuldade, a meu ver, para treinos focados em ultras, é a inserção dos longões de pico na rotina.

Como nem sempre dá para encaixar provas de montanha na planilha, às vezes é necessário improvisar e gastar o tênis no asfalto da cidade. A questão é: por onde? Ficar dando voltas e mais voltas no mesmo circuito é, na melhor das hipóteses, tão eficiente quanto entediante.

Atravessar os extremos da cidade também é complicado uma vez que a distância entre alguns dos pontos praticamente puxa a preguiça.

O percurso ideal, portanto, tem que ser circular (evitando ao máximo se repetir trechos por muito tempo) e com metas praticamente equidistantes, deixando uma sensação constante de proximidade de linhas de chegada imaginárias.

No último sábado acabei forjando um percurso circular de 50K que considerei perfeito para isso – tanto que, embora tenha chegado obviamente cansado, ainda tinha gás para rodar mais.

O percurso está aí, abaixo, bastando que se clique neste link ou na imagem para acessar mais detalhes.

Screen Shot 2016-07-11 at 11.00.25 AM

Pontos importantes:

  • Saí, claro, de casa. Todo percurso de treino tem que largar de onde moramos, pois isso facilita (e muito) todo o processo.
  • O Google Maps é essencial: basta dizer onde quer ir, colocar o fone e ouvir as suas instruções enquanto se corre. Perfeito para pessoas perdidas como eu.
  • Um percurso desses tem ainda pontos em que se pode ampliar o trajeto, caso necessário. Dá para se somar mais uns 10K, por exemplo, passando a Ponte do Morumbi e esticando até o Parque Burle Marx, fazendo algumas voltas nas trilhas de lá e voltando; da mesma maneira, voltas maiores pelo Ibirapuera podem garantir mais alguns quilômetros e uma outra esticada até o Parque da Água Branca pode somar uns 5K.
  • Para o trajeto, marquei os seguintes pontos: Jardim das Perdizes – Parque Villa Lobos – USP – Parque Burle Marx via Av. Morumbi (sendo que cortei antes, na Ponte do Morumbi) – Parque Ibirapuera – Jardim das Perdizes.

Será provavelmente este o trecho que repetirei ao menos para os próximos dois longões que tenho.

 

Checkpoint: Primeira ultra no treino feita

Foi uma semana complicada. Depois de duas com alto volume, depois de duas maratonas e com o bônus de eu ter me mudado de apartamento e viajado por 3 dias a trabalho na sequência, o corpo pedia descanso. 

Recebeu o oposto: na planilha, a semana passada, última do ciclo de 3 pesadas, seria fechada com 50K. 

De todos os dias, consegui levantar disposto apenas na terça, para os 20K na escuridão das primeiras horas da manhã paulistana. Depois disso, a força de vontade necessária para me erguer da cama foi tamanha que tive que inserir mudanças de planos. 

Na quarta acordei decidido a desistir. Desdesisti, como diria Guimarães Rosa, e corri à noite. 

Na quinta me senti seguro o bastante para ignorar o dia. Mudei de ideia e voltei correndo do trabalho para casa, fechando os 15K. 

Mesmo no sábado, que tende a ser um dia sagrado, foi necessária uma hora inteira para convencer o meu corpo de completar as 6 horas planejadas. 

A prova vai se aproximando na medida em que o corpo já começa a se desesperar por descanso. 

Tudo bem: esta semana, pelo menos, é mais leve. Bem mais leve. 

Ela precede um outro ciclo de alto volume – o último antes da prova – que me trará mais 3 pequenas ultras e será fechado na São Paulo City Marathon, se minha memória não me falha. 

Falta pouco.

Vídeo para matar saudades das trilhas do Cruce

Mesmo com parcos anos correndo em trilhas, posso dizer que poucos são os percursos tao deliciosos quanto os do Cruce. Claro: todo ano os percursos mudam – mas a região é sempre a mesma. 

E isso inclui trilhas lisas e absolutamente corríveis, montanhas belíssimas emoldurando lagos sensacionais ao fundo em três dias de pura endorfina. Quem não foi ainda, recomendo seriamente. 

Para quem foi, eis um vídeo que achei agora na Web com um programa gravado na edição deste ano para a TV espanhola:

Achando a roça no meio da cidade

Já no começo da corrida percebi um galo cantando alto, cortando toda e qualquer possibilidade de concentração no audiolivro. 

Um pouco mais adiante, galinhas se certificavam que seus pintinhos não se perdessem pelo êrmo da roça, sempre aterrorizado por gatos e seus olhares famintos. 

O cheiro de estrume de cavalo era quase onipresente, resultado dos estábulos encostados em um dos cantos da fazenda.

Fazenda? 

Quem lê essas primeiras frases imediatamente imagina que essa corrida se passou em alguma cidade do interior. Negativo.

Esse é o cenário do meu novo “lar”: o Parque da Água Branca, um parque absolutamente urbano encrustrado no meio de São Paulo. É também um dos motivos que tanto amo essa cidade: poder correr alguns metros e já se sentir em outra dimensão é, sem dúvidas, sensacionalmente incrível!

As lembranças boas que ficam

Há quase uma semana, quando cheguei em Paraty, decidi fazer um longão no final de tarde pela BR. Já fiz um post sobre isso deixando claro o quão péssima foi a ideia de correr na escuridão em uma estrada deserta – algo que facilmente pode ser classificado como uma pura e inquestionável imbecilidade. 

Mas não queria que a imagem da minha própria burrice marcasse Paraty e, nos dias seguintes, saí com o nascer do sol por um percurso bem semelhante. 

E olha só a diferença….

Dá para ficar com raiva de um percurso assim? 

O treino

Ontem, quando estava olhando a planilha de treino para me entender melhor com ela, percebi que estava testando na pele uma das máximas do Kilian Jornet, de que volume se deve considerar sempre por semana e não por dia. 

Nessa minha caminhada até os 140K, o meu maior longão de todos será de 50K – bem menos, proporcionalmente, do que usei para treinar para os 100K da Indomit, os 90 de Comrades ou qualquer outra prova. Suicídio? 

Não minto que um certo medo da programação já começa a subir à espinha. 

Por outro lado, nunca tive tanto volume concentrado quanto agora. Semanas com mais de 100K são rotina, assim como correr pelo menos uma maratona a cada 7 dias seguida de 10 milhas ou de uma meia. E não nego: estou, hoje, muito mais forte do que no começo do treino, há alguns meses. 

É aqui que entra a questão: confiar no corpo, que está deixando claro que está mais preparado do que jamais esteve, ou na mente, que começa a questionar com algum atraso todo o modelo colocado em prática? 

O problema da escolha entre a confiança e o medo é que ela não é (e nem nunca será) racional, consciente. Será uma dúvida que me acompanhará a cada quilômetro empoeirado do sertão mineiro no dia 19 – e será um desafio a mais a ser enfrentado. 

Ultras para distâncias desconhecidas são assim mesmo: o desafio maior reside justamente nas suas interrogações.