Checkpoint: Foram-se as duas semanas mais chatas

Sob a ótica do treinamento, semanas chatas são aquelas tão carregadas de contratempos que o próprio ato de treinar se torna um desafio.

Pois bem: ontem, a última das duas semanas assim foi-se embora. Relembrando: na semana retrasada, além de viajar a trabalho, eu me mudei de apartamento; e, na passada, fiquei da quinta ao domingo em um evento, também a trabalho. 

Em ambos os casos os longões foram corridos em dias alternativos – segunda e quinta. Em ambos os casos fechei o domingo com aquela sensação de que ter conseguido treinar foi quase um ato milagroso. 

Pela minha planilha, essa é a terceira semana da série de 3 fortes e 1 leve. Nesta, no entanto, o longão não será mais uma maratona e sim uma pequena ultra de 50K no sábado. É sinal de que estamos chegando perto da data da prova.

Vamo simbora pra Comrades

Um dos (grandes) amigos que fiz na Comrades, o Cracrá, acabou se transformando em cineasta e, já faz algum tempo, transforma suas experiências nas ultras em vídeos.

Este vídeo aqui, abaixo, tem ainda um “algo a mais”: feito na última Comrades, que eu não participei, acabou gerando uma mescla de saudade com ansiedade pela próxima.

Vale ver. E, para mim, rever. E reviver.

Corrida de reconhecimento

No último domingo saí para uma corrida de reconhecimento no entorno da minha nova casa, bem no meio dos bairros de Perdizes, Pompeia e Barra Funda. O dia não poderia ter sido melhor: final de tarde de outono, céu cintilantemente azul, frio suave soprando o suor para fora do corpo com a gentileza de um primeiro amor.

Não era a primeira vez que corria por lá, claro – já rodei essa cidade de cima a baixo incontáveis vezes. Mas a sensação de pertencimento muda tudo: pela primeira vez eu estava me integrando, e não apenas visitando, o bairro. E, assim, com um qualquer coisa de soberba e orgulho, saí cruzando trilhos de trens, contrastes entre o novo e o velho, espaços boêmios, corporativos, residenciais. 

Rodei no parque do Jardim das Perdizes, beirei a ex-barra do Rio Tietê, peguei o Memorial da América Latina de Surpresa. No meu caminho, muitos fantasmas – desde os meus, pessoais, que me trouxeram até aqui, até os locais como os imigrantes italianos que ergueram a metrópole industrial. 

Passei pelas Indústrias Matarazzo, cruzei com operários cansados, vi o Prefeito Antônio Prado passar em revista à primeira linha de trem da cidade, ouvi sinos, apitos, burburinhos e barulhos de uma cidade cujo passado foi inteiramente feito de caça ao futuro. Neste futuro de então vi indústrias morrendo e sendo tomadas por prédios altos, vi os trens conhecerem os metrôs e os macacões sujos serem substituídos por ternos de auditores da Price. Tudo misturado. 

No meio dos fantasmas paulistanos, nascidos ou não na cidade, subi até o centro pelo Minhocão. Tomei a São João e cruzei a Ipiranga, deixando a boemia de um passado que não conheci para trás. Subi até o imponderável Edifício Martinelli, então marco do luxo e hoje lar de mendigos e odores indescritíveis. Saí seguindo até a Praça Roosevelt, depois Augusta, depois Paulista. 

Depois voltei. Cortei o Pacaembu, passando perto do estádio que urrava gritos de gol e fazia o chão tremer até chegar à Sumaré. Já com o sol nas suas últimas luzes, fiz a avenida inteira pela ciclovia, curcundei o Allianz Parque e entre novamente no meu novo bairro – novo tanto para mim quanto para a própria cidade, que só passou a reconhecê-lo oficialmemente há poucos meses. 

A volta de reconhecimento durou 22km quase exatos. 
Quando entrei no prédio era outro: estava diferente, mudado, como ficamos quando testemunhamos aqueles exatos momentos em que percebemos o início de um novo capítulo. 

De domingo em diante, a vida seria outra. 

 

Checkpoint: Semana de mudança

Literalmente, aliás. Seguir uma planilha em uma semana que inclui mudança de carro e viagem a trabalho não é exatamente uma tarefa fácil. Quando se tem uma gripe repentina para apimentar ainda mais as dificuldades, aí sim a coisa fica tensa. 

Bom… Fiz o possível. Rodei uma maratona na segunda à noite e espalhei o resto da planilha onde deu. Mas perdi uma meia. 

Contrapartida: meu pace foi muito, mas muito melhor, ficando na média abaixo dos 6/km mesmo considerando os 91K rodados com tantos semáforos e cruzamentos nos caminhos. São os pros de se mudar a rotina algumas vezes: independentemente da manutenção ou não do volume, o corpo acaba se desencaixando de seus próprios hábitos e nos entregando surpresas. 

É um pouco do que acontece em provas também – e essa semana serviu para me relembrar disso. Alguém treina o mesmo volume que pretende correr? Em ultras, pelo menos, dificilmente. Treinar, afinal, é treinar: é preparar o corpo para ter resistência e flexibilidade o suficiente para que saiamos da linha de largada e cruzemos bem a de chegada. E estar preparado não é a mesma coisa que estar “comprovado”.

Não minto que esteja um pouco preocupado com o treinamento com um todo. Sim, estou seguindo quase tudo à risca – mas, até agora, meu maior longão foi uma maratona (ainda que feita por semanas consecutivas e ainda que tenha algumas sessões de 50K pela frente). Mas tudo a seu tempo: é inegável que minha resistência tem aumentado significativamente e, às vezes, precisamos dar um jeito de largar a preocupação de lado e apenas confiar. 

Treinamento tridimensional

É impressionante como a preparação para uma ultra é tridimensional.

Há a dimensão óbvia: o corpo. Planilhas, atenção à forma, cuidado com as pequenas dores que, vez por outra, teimam em querer crescer, volume, intensidade.

Há também a dimensão nutricional: dificilmente se consegue sequer sobreviver a um treinamento mais pesado sem saber comer. No meu caso, isso incluiu até abandonar os carboidratos e adotar, de peito, alma e estômago, uma alimentação low-carb. Funcionou. Virou um estilo de vida do qual não consigo mais me afastar.

Mas essas duas dimensões, embora importantíssimas, nem de longe garantem o mais importante: a paixão em si pelo esporte.

É aí que entra a terceira dimensão: a espiritual.

O que ela considera? A criação peculiar de um universo paralelo, isento de responsabilidades com tempo ou espaço, para que se consiga mergulhar de cabeça em um determinado percurso.

Quando primeiro pensei em fazer o Caminhos de Rosa, fui alertado por muitos de que as duas maiores dificuldades seriam o calor e o tédio, principalmente considerando que o percurso inclui maratonas inteiras corridas sem contato com cidades ou povoados. A solução? Ora… se o caminho inteiro é inspirado nas obras do Guimarães Rosa, bastava mergulhar no universo já criado pelo mestre.

Estou lendo tudo, absolutamente tudo o que ele escreveu. Tédio? O percurso já está tomando ares absolutamente inspiradores, apaixonantes, até enigmáticos. Já dá para correr imaginando o bando de Riobaldo guerreando com os hermógenes, Manuelzão tocando uma boiada, Miguilim chorando a morte do Dito.

Já dá para amar o sertão mineiro antes mesmo de pisar nele.

Tem sido um treinamento com os olhos – e um dos mais gostosos de todos os que já fiz.

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Ultra é mais espírito do que esporte

Na semana passada, vi uma foto de um amigo meu no Facebook comemorando uma travessia aquática.

Dei os meus entusiasmados parabéns e ele comentou comigo que estava treinando para a travessia Mar Grande-Salvador. Me entusiasmei.

Explico melhor: a travessia marítima Salvador-Mar Grande é o que há de mais antigo em minha memória sobre endurance. Trata-se de atravessar 13km da Baía de Todos os Santos, saindo de um ponto da Ilha de Itaparica e chegando em outro na capital baiana.

Quando criança, considerava todos os nadadores como heróis e loucos – ou loucos e heróis, para colocar na ordem correta.

O tempo, no entanto, foi me afastando da prova. Me mudei para São Paulo.

Comecei a correr.

Me apaixonei pelas ruas e trilhas e me entreguei por completo a esse esporte.

Até essa bendita foto no Facebook.

Em um intervalo de segundos, anos de infância apareceram como um susto entusiasmado que, somados à experiência em provas longas, desenharam um gosto de viabilidade que nunca tive antes.

Ainda estou cozinhando esse sonho – mas já o considero como uma das minhas metas futuras, embora tenha mais a ver com ultra do que com maratona.

Mas, do ponto de vista espiritual, há mesmo tanta diferença entre atravessar uma montanha ou uma baía? Em todos os casos, são horas revirando a própria alma e puxando energia do peito para se encontrar, se abraçar, se entender. Muda-se apenas o elemento, a solidez do solo, a escolha dos membros.

Mas, fora isso, é a mesma coisa: uma meta de autosuperação.

Ultra é mais espírito do que esporte.

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Maratona em uma segunda à noite

Mudei os planos. Ao invés de espalhar a quilometragem pela semana por conta da impossibilidade de rodar o longão no sábado, dia em que me mudo, decidi fazer isso ontem.

Assim, saí imediatamente depois do trabalho para a rua, girando pela cidade. Claro: o frio intenso e a escuridão da noite mais longa do ano certamente não ajudaram – mas tudo sempre pode ser encarado como uma aventura a mais.

Saí de casa. Desci a Sumaré. Dei a volta no Allianz Parque. Cruzei os trilhos da Estação de Trem Água Branca. Subi até o Jardim das Perdizes, onde dei outra volta. Saí, cruzei o viaduto e margeei o Memorial da América Latina. Fui até o Parque da Água Branca, onde dei duas voltas. Saí. Voltei até a Sumaré. Subi até a Brasil e, de lá, peguei a Groenlândia. Margeei o Ibirapuera por fora uma vez. Entrei. Dei duas voltas por dentro. Saí. Subi a 9 de Julho até a Paulista. Fui até a Augusta e a desci até a Tietê.

Cruzei. Cheguei.

Melhor: apesar do cansaço que sempre bate com uma maratona, devo dizer que a quantidade que tenho feito está começando a me fazer encará-las como cotidiano. Não só terminei inteiro como rodei em um pace melhor do que tenho feito meus treinos de 15 ou 20K: 5’49″/km.

Quando cheguei em casa, claro, já estava alta noite. Foi o tempo de respirar, tomar um banho e desmaiar, embora a adrenalina tivesse empurrado o sono para depois da meia noite. 

Nesse intervalo de tempo, já deitado e sentindo o tilintar dos músculos rearranjando-se nas pernas, me peguei quase maravilhado com essa quebra de rotina: “Uma maratona rodada em uma noite qualquer de segunda. Deveria fazer coisas assim mais vezes…”