Checkpoint: Recuperação e teimosia

Foi, sem dúvida alguma, uma semana de conflitos. 

Semana que já começou com o contraste das deliciosas corridas em dunas cearenses de dias anteriores versus o concreto e o cinza de São Paulo. 

Na semana passada, estava inteiro e voando sobre terrenos difíceis; nesta, dolorido até a alma no mais liso dos asfaltos. Na semana passada, acordava sozinho às 5:30 da manhã sedento pelo sol e os novos percursos; nesta, me senti quase como um viciado em crack, espremendo uma corrida entre as 20 e as 21 horas na mais pura fissura.

Fiz 55km nos últimos sete dias – exatamente metade dos 7 anteriores. E não estou em perfeito estado. 

Verdade seja dita, fui alertado repetidas vezes pelo corpo de cancelar uma ou duas corridas para evitar problemas mais sérios. Ouvi apenas parcialmente: ontem de manhã, por exemplo, cortei o longão ao cabo de 3km; mas, à noite, acabei fazendo mais 12 apenas para sentir a rua.

Por sorte, 55km não é lá tanto assim – e quem sabe não tenha que pagar o preço pela óbvia teimosia.

Pelo menos é o que espero. 

Teimosia, aliás, é exatamente isso: a forma mais desesperada e tola da esperança.

   
 

Longos nem sempre são longos

Havia compromisso hoje cedo: o longão teria que ficar para depois das 10. 

Sem problemas: já saí pronto e equipado para o que deveria ser mais um dos percursos de desbravamento da selva urbana, iniciando pelo centro e cruzando Memorial da América Latina, passando pela casa do Mário de Andrade, subindo e descendo ladeiras de Perdizes. 

Em um dia de sol a pino e com um calor daqueles que amo, poucos prospectos seriam melhores. 

Só que algo estava errado. 

O primeiro sinal veio pelo ouvido: o fone que usava quebrou de vez, me impedindo de ouvir as instruções de rota sussurradas pelo Google Maps. O percurso teria que mudar, saindo do centro e indo para algum lugar com o qual estaria mais familiarizado. 

Sem problemas. Joguei fora o fone e segui. 

Olhei o Garmin como faço instintivamente, já sem perceber. Segundo sinal: ele estava travado, reiniciando. O mundo digital estava sendo claro comigo: eu estava perdido, ao menos “espiritualmente”. 

Respirei fundo e notei que um cansaço extremo subia pelo corpo: pernas doíam, joelho direito simulava uma pontada, pálpebras pareciam ter sono. 

Me lembrei da semana anterior, onde acumulei talvez mais do que deveria de quilômetros sobre dunas. Olhei para cima: o sol, que sempre me inspirou excelentes corridas por mais ardido que estivesse, parecia severo, quase malvado. 

Olhei para trás: havia praticamente acabado de começar. 

Olhei para a frente: o mais sensato seria seguir uma reta até em casa e dar o dia por encerrado. 

Foi o que fiz. 

O menor longão da história acabou com pouco mais de 3km em 18 minutos. 

Hoje, o corpo queria descanso – e ignorá-lo realmente não parecia boa ideia. 

  

Moído

A semana está leve. Levíssima, dado o volume que vem pela frente e os quilômetros que deixei no Ceará. Ao todo, fiz 32km nos últimos 3 dias e terri mais 33, aproximadamente, no final de semana.

O problema é que, aparentemente, os quilômetros cearenses vieram comigo de volta para São Paulo. O exagero de fazer 8 dias sequenciais recheados com dunas e mais dunas de areia fofa parecem ter deixado um legado semelhante ao que apareceu depois de emendar Comrades com os 50K de Atibaia. 

As pernas doem, como se estivessem moídas, e o cansaço geral está além do que deveria. Não há nenhuma dor mais preocupante – ligamentos, joelhos, articulações e ossos estão perfeitos, o que deixa afastado algum risco maior de lesão. Mas, claro, há uma luz amarela acesa.

Veremos como o corpo reagirá ao descanso de amanhã e à conclusão mais leve, com menos volume e menos intensidade, dessa semana. 

E torçamos para que a recuperação venha com um pace mais rápido que o que estou conseguindo manter!

  

Deslocado

Sente-se – ou pelo menos eu me sinto – um alien ao sair para correr na hora do almoço. Tudo parece desritmado: não se está abrindo ou fechando o dia, está se perdendo calorias quando todos ao redor concentram-se em ganhá-las, os trajes esportivos são o oposto das calças e camisas sociais que se escondem atrás das buzinas nervosas com semáforos.

E é exatamente por esses motivos que correr ao meio dia faz tão bem.

Quebrar as mais sólidas rotinas, afinal, parece gerar uma vitalidade poderosa, fruto parte de um certo constrangimento por se estar tão deslocado e parte da alegria pelo exato mesmo motivo.

Deveria fazer isso mais vezes. 

  

De volta à vida normal

No caminho até o trabalho, carros zuniram perto demais, buzinas soaram altas, blocos de pessoas cruzaram outros blocos de pessoas em franco desafio às leis da física.

No trabalho, telefones, vozes, tramas internas, pequenas intrigas e tudo mais que caracteriza qualquer vida coporativa.

Estava de volta.

Sem alternativa, me encaixei já nas primeiras horas contribuindo do meu jeito à talvez irremediavelmente fétida (embora também encantadora) vida metropolitana. Trabalhei, disparei ordens em volumes mais altos, discuti, bolei projetos e, com o cansaço ao qual não estava mais habituado, voltei para casa.

No dia seguinte, hoje cedo, acordei direto para o Ibirapuera: precisava correr para arejar as ideias. 

Me deparei com o óbvio: a corrida em nacos mais pacíficos e leves do mundo se dá quase como uma oportunidade de agradecer à natureza pela vida que ela proporciona. Desbrava-se paisagens, afasta-se a pressa, curte-se cada brisa e cada cenário como se fossem milagres.

Aqui, na cidade, corre-se por motivos mais próximos da sobrevivência, do instinto. Não que as cenas em si não sejam belíssimas a seu modo – eu amo cruzar a cidade, mesmo em seus ambientes mais precários. Mas correr em vidas típicas das grandes urbes é mais do que curtir o momento: é um ato de sobrevivência.

  

Programando o futuro

Como diz o ditado, “o que era doce, acabou-se”. Estou neste exato momento curtindo os primeiros sinais daquela típica depressão pós-viagem, em que a perspectiva de correr no (embora amado) Ibira posa como um contraste absoluto em relação às dunas e praias do Ceará. 

Mas, enfim, parte da graça de correr é poder justamente aproveitar o mundo de uma maneira solitária, intensa, egoista e, sobretudo, completa. Foi-se o Ceará, virão novas trilhas. 

A começar pela que está programada para o dia 7 de Novembro: meus primeiros 100K sob o solo hiper técnico e traiçoeiro de Santa Catarina, na Indomit UltraTrail Costa Esmeralda. Não minto que estou levemente aterrorizado com o prospecto de encarar aquelas trilhas novamente – minha primeira vez foi no Indomit Bombinhas, de 42K, que me tomaram mais de 6 horas. Mas, de lá para cá, muita coisa já aconteceu e amadureci bastante como corredor. Não que esteja pronto para encarar uma Marathon de Sables, claro – mas 100K não há de ser, espero, tão infernal assim. 

E a parte divertida começa agora, com a programação montada por mim mesmo. 

No começo, esta semana, pegarei leve: preciso livrar a musculatura das dores e recome;car o ciclo, embora os 100K com areia fofa que carrego da semana certamente serão uma bela base. 

Depois sigo com microciclos: duas semanas evolutivas com tiros e tempo runs seguidas de uma semana mais leve. Os longões estão até modestos: fora os 50K da semana de pico, já em meados de outubro, os outros variam entre 3 e 4 horas, mais ou menos. Procurarei fazê-los em trilhas diversas, seja na Serra do Japi, no Parque do Carmo ou em qualquer outro canto próximo a Sampa. 

É claro que, como toda boa programação, ajustes devem ser feitos. Mas é sempre bom ter uma base a partir de onde improvisar. 

Agora é foco puro. Em pouco mais de 3 meses terei completado meus primeiros 100K. 

   
    
   

Checkpoint: A descoberta de novas horas

Sabe quando você acorda em estado de exaustão pra ir ao trabalho e, de repente, se dá conta que está em pleno sábado? 

Pois é: hoje foi mais ou menos assim. Acordei pronto para arrumar as malas e sair até me dar conta que partiria para o aeroporto apenas às 14:30! Tempo de sobra para espremer uma última volta e fechar 100km na semana (embora, se contarmos o domingo passado, já estivesse com 110km e nem um único dia de descanso).

Esse foi o tom da viagem toda, aliás: nos 8 dias em que estive aqui não deixei de correr por nenhum. Não por falta de avisos do corpo: minhas pernas estão moídas – mais pela falta de interrupção do que pela rodagem em si – e cheguei a acordar ao menos duas vezes decidido a passar o dia inteiro no mar. Não deu: a mente comandou as pernas dunas a fora para mostrar a beleza do lugar aos olhos.

     

 E, assim, cheguei pela primeira vez ao marco de 8 dias seguidos correndo, somando neles 118km – boa parte por muita areia fofa.

Sim, tudo errado de acordo com o planejamento. Mas semana que vem descanso um pouco mais: é sempre bom, afinal, entender que saber ouvir o corpo não é a mesma coisa que ficar submisso a cada um dos seus desejos. 

Embora fisicamente exausto, afinal, estou inteiro. Pronto para uma nova fase do treino, agora mirando os 100km da Indomit UltraTrail Costa Esmeralda!
   
 

Gravando a última impressão

Mar e dunas ontem, cidade hoje. Por algum motivo, há qualquer coisa que sempre me encantou em pequenas vilas que parecem congeladas no tempo.

Fora algumas anomalias urbanas superpopuladas, repletas de violência e miséria pútrida, o interior nordestino é essenclamente cheio delas. 

A região do pontal não é exceção.

Saí hoje tão cedo que a lua cheia ainda reinava absoluta no céu que apenas começava a se riscar com os primeiros tons de azul claro. Era sábado, dia mais parado que os já calmíssimos habituais, mas algum movimento se ensaiava. 

Mulheres de vestido de renda varriam areia para longe de suas varandas, homens olhavam o sol que sempre viam com um ar de tedioso espanto, crianças e cachorros faziam os primeiros barulhos do dia. 

A pobreza da região era óbvia – mas era também resignada, calma, quase que conivente com sua própria falta de perspectiva. 

Era uma pobreza de tudo: dinheiro, conforto, futuro, vocabulário. Curiosamente, ela se equilibrava com o outro extremo: a abundância de paisagens, de dunas, de oceano, de azul do céu e de vida que cismava em proliferar naquele naco abandonado do mundo.

No caminho, estradas se abriam em frente a igrejas de todas as faces cristãs, ruelas se esgueiravam por entre céu e terra, carnaúbas se erguiam do mato, brisas teimosas quebravam, ainda que por instantes, o já insuportável calor nordestino.

Olhei para tudo aquilo diversas vezes: para os rostos castigados mas leves dos locais, para as casas mal pintadas, para as pracinhas bucólicas e para toda a natureza que se sobressaía superlativa. 

Gravei cada milímetro na mente.

Era essa a última impressão que queria levar de volta para São Paulo amanhã.

   
   

De costa a costa no Pontal

Despedidas tem que ser feitas em alto estilo, claro. Em grande parte, os últimos quilômetros corridos serão sempre os mais frescos na memória, quer por motivos óbvios quer por terem sido corridos em meio a um turbilhão de pensamentos ecoando entre os ouvidos, todos mesclando saudades com momentos de altos e baixos passados nas trilhas.

Meu último dia não foi hoje – será amanhã. Mas, hoje, decidi fazer 21K rodando pelos dois lados do Pontal.

Primeiro, saí ainda cedo e com maré começando a baixar pelo trecho oeste. Repeti o caminho de ante-ontem, absolutamente deserto e na companhia apenas de mar e dunas. Decidi variar e, por pura diversão, troquei trechos de areia dura por mais e mais dunas, escalando-as e correndo para baixo como se tivesse 10 anos de idade. Fiz isso uma, duas, três, várias vezes. Até que os Vibrams, que me acompanharam em toda a viagem, ficassem tão cheios de areia que seria necessário parar para recalçá-los.

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Com o sol já ardendo, busquei refúgio em uma das casinhas de palha feitas para abrigar jangadas. Foi uma boa ideia: abrigado por uma sombra providencial e banhado por uma brisa divina, pude erguer os olhos e enxergar, à minha frente, um mar de um azul vibrante brilhando sob o céu. Naquele pedaço de segundo tive a certeza de que estava imerso em uma daquelas cenas que o cérebro escolhe jamais esquecer.

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Com um suspiro, limpei o tênis e segui. A maré já estava mais baixa, o que facilitou a corrida e me fez desistir de cortar por um trecho fora da praia para evitar uma região mais cheia de pedras. Fui por elas mesmo, me equilibrando e alternando saltos como se estivesse dançando sobre o acaso.

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Já na outra ponta, prossegui, passando o hotel e seguindo no sentido leste.

A praia, agora com maré bem baixa, parecia outra: o mar brilhava diferente, o cenário parecia mais árido e campos com um toque de sertão se abriam a cada morro. Em um determinado ponto precisei sair das areias e subir uma pequena falésia para atravessar uma zona mais “impassável”. De cima, o velho farol vermelho pontuava um horizonte aberto como poucos, feito de vegetação rasteira, de cactus  e de uma eventual duna.

Fui até o farol cortando o mato e enfrentando a areia fofa. O solo se alternava: virava terra vermelha queimada, depois branca rochosa, depois mato, depois duna. Todos os solos do mundo pareciam conviver ali – ao menos até a beira do pequeno forte que abrigava a luz.

Nele, uma escada interrompida parecia um dia ter servido ao propósito de levar pessoas ao seu interior em algum momento do passado. Pulei algumas pedras e, usando as mãos, consegui chegar ao primeiro degrau. Subi até o topo apenas para sentar e tomar o último gole de água apreciando mais uma vista memorável. Que incrível essa região ainda praticamente intocada pela civilização, ainda deserta, ainda pura sob tantos aspectos! Que incrível todo esse estado do Ceará, certamente um dos mais belos do Brasil!

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Olhei para o Garmin: estava na hora de retornar. Fiz o caminho de volta à base mas, em vez de seguir pela praia, decidi ir por dentro para viver um pouco mais daquela paisagem sertaneja, quente, forte.

A ideia foi perfeita: de repente, me deparei com uma estrada de areia inteiramente margeada por cactus gigantes! A impressão deixada foi tamanha que tive que parar e andar um pouco apenas para sorver aquela cena com a atenção que ela merecia: nem nos meus sonhos imaginei me deparar com algo assim.

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Dali em diante foi uma reta só.

Cheguei de volta ao hotel no segundo que o relógio bateu 21km: perfeito. Ainda eram 8:30 da manhã e o dia inteiro se estendia como promessa.

Correndo do barulho

Sair para correr às 5:30 da manhã foi difícil. Desisti por conta de pernas moídas de tanta areia fofa.

Uma hora depois, acordei. Abri a janela: mar azul e areia branca, infinita, me fizeram ficar arrependido até o último fio do cabelo. Mas, àquela altura, não havia mais tempo: estava na hora de conhecer Canoa Quebrada.

Serei sincero: chegar em uma barraca gigante esbanjando um som no talo que vomitava uma mistura de Axé com Sertanejo com Fábio Junior não é exatamente o que entendo como perfeição. A distorção criada entre aquele barulho todo e o cenário paradisíaco era péssima. 

Desisti de desistir: descalço, fui praticamente sugado pelo percurso de areia que se estendia à minha frente e comecei a correr. Não muito – queria apenas fazer uns 6 ou 7km para arejar as pernas, para regenerar a musculatura e oxigenar os ouvidos. Nenhuma decisão poderia ter sido melhor.

Poucos metros depois da barraca infernal, o vento apagava qualquer rastro de som e era tudo apenas mar azul turquesa, areia branca, dunas e céu azul.

No horizonte, torres eólicas se enfileiravam: estava na margem oposta do rio onde o cachorro avançou sobre mim no primeiro dia. Do outro lado, até o estado de espírito parece mudar.

Entre passadas e suor escorrendo pelas costas, só uma sensação de paz absoluta dominava. E mais: o calor, no final, foi rapidamente eliminado com um mergulho extremamente bem vindo no mar cearense.

Estava revigorado ao ponto em que nem o insistente barulho incomodava mais.