Checkpoint 8: Tapering para o Indomit K42?

Tapering (ou polimento)? Apesar dessa ter sido a semana anterior à Indomit K42, raras vezes tive períodos tão puxados de treino!

Não só pela meia com tempo runs na quarta, logo após uma sessão de tiros na terça e antes de outra de fartleks na quinta – quando, aliás, tive a minha primeira quebra em treino. Mas o próprio longão, com direito a 3 subidas e descidas no Pico do Jaraguá alternando entre estrada e trilha, foi intenso.

Hoje, mesmo depois de um regenerativo bem leve, estou bastante dolorido e sentindo cada milímetro da musculatura. Por um lado, há a natural preocupação com a recuperação antes da prova, no sábado; mas, por outro, há também o fato de que nunca soube lidar bem com esse negócio de tapering, diminuindo volume às vésperas de uma prova para deixar os músculos mais frescos. A bem da verdade, todos os taperings que fiz foram pontuados por dores esquisitas, gripes súbitas e toda uma leva de inconveniências que me deixaram bem pior do que estava mesmo no auge do cansaço.

Assim, correr o Indomit lá em Bombinhas será uma espécie de teste. Pegarei mais leve ao longo da semana – mas bem pouco, apenas para não forçar os limites desnecessariamente. A ideia é encarar a maratona como se fosse um treino normal e ver como me sinto, calibrando melhor o treino pre-prova para a meta final desse processo todo (a Douro Ultra Trail, em setembro).

Tomara que funcione bem!

Em paralelo, apenas uma nota importante (para mim): essa semana passei dos 2 mil metros de altimetria acumulada, uma espécie de marco psicológico para mim e pico de treino até agora! Gráficos abaixo:

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Subindo e descendo o Pico do Jaraguá

Hoje foi dia de brincar nos desníveis.

Logo que acordei, empolgado, voei para o Pico do Jaraguá para uma sessã com três subidas e descidas alternando entre a estrada e a Trilha do Pai Zé.

Preferi começar pela estrada, com seus quase 5km intermináveis – mas lindos – de pura subida serpenteando a montanha. Serviu para aquecer em uma manhã fria e com neblina encobrindo o pico.

Depois, a parte divertida: descer. Faz algum tempo que tomei as descidas como a parte mais deliciosa de qualquer treino, principalmente quando consigo ir rápido. Mérito do meu treinador que inseriu um negócio chamado de Kenyan Hills na minha planilha: algo como subir e descer morros como se o mundo estivesse prestes a acabar.

Chegando na base de volta, hora de pegar a trilha. Já tinha feito ela uma vez, mas é impressionante como intimidade vem rápido.

Subir em trilha, claro, é mais demorado do que na estrada – mas depois que se perde o medo dela tudo fica mais instigante. A pressa vem nas horas certas, a cautela chega nos momentos precisos, pernas e pulmões se alternam no cansaço. Até o topo.

De lá para baixo, tudo é diversão novamente, voando morro abaixo sem medo do solo. Aliás, medo é um negócio curioso: basta perdê-lo que nada de errado parece acontecer. Ao contrário: ele parece ser trocado por pura segurança nas pisadas. Perfeito.

O terceiro “round” foi uma alternância: subi pela estrada, para somar mais volume, e desci de novo pela trilha, para fechar com mais sorrisos.

E assim foi o dia, com perfeitos 1.300 metros de ganho altimétrico e um belo treino para os desafios que estão por vir!

Não é tão comum ir ao Pico do Jaraguá – mas certamente é algo muito esperado por ser, na minha opinião, um dos lugares mais perfeitos para se correr aqui em Sampa.

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Reunião comigo mesmo na Sala Zero (a rua)

Terça-feira, 7 da manhã.

Agosto começou preocupado, com aquela estática no ar que emula a mais nítida tensão do cotidiano. Sem Copa, o mundo finalmente começa a voltar ao seu ritmo cotidiano, muito embora os quase dois meses perdidos tenham feito um belo grau de estrago.

O final de julho e o começo de agosto estão sendo devotados, quase que na íntegra, a arrumar a casa. Otimizar processos, equipe, planos, projetos e tudo mais que desenha o dia a dia de uma empresa. E o que isso tem a ver com corrida?

Tudo.

Pelo menos para mim, tomar decisões que gerem qualquer tipo de reorganização do presente tem uma dependência quase natural da corrida.

O despertador de ontem já foi setado com isso em mente – uma espécie de reunião comigo mesmo na sala de número zero (a rua).

Saí com os mesmos Merrell TrailGloves que detonaram meus pés há algumas semanas (mas que agora estão perfeitamente adaptados) e rumei para o Ibira. Garoa fina, frio, muitas buzinas e nuvens negras do lado de fora.

Do lado de dentro, na mente, silêncio. Estava isolado do mundo, pensando, enumerando os problemas e bolando soluções. Invocando calma e afastando preocupações vazias. Antes de morrer, Churchill disse que sua vida havia sido “marcada por gigantescos problemas – a maioria dos quais nunca chegou de fato a acontecer.”

Isso virou meu mantra. Assim como a experiência de correr Comrades, com 90 km de passos calmos, planejados, mantendo sempre o ritmo e com a confiança de que o final chegará mais cedo ou mais tarde.

Experiências assim são fundamentais em tempos de turbulência. Ainda bem que elas existem.

Aliás, correr ultras traz um tipo de benefício que vai muito além da saúde física: nos ensina a manter o curso firme, fixo, em um tipo de sintonia entre mente e corpo que dificilmente se encontra em esportes que não sejam de puro endurance. Nos ensina a respeitar subidas e descidas, usando a sempre inevitável gravidade a favor de cada decisão tomada. Nos ensina a respeitar o tempo ao invés de atacá-lo. É o melhor de todos os MBAs.

Ao final, depois da subida da Ministro, estava quase aliviado. Não consegui resolver todas as questões, mas algumas.

O suficiente para levar bem o dia e ainda ter no que trabalhar durante a corrida de amanhã.

O suficiente para enxergar melhor.

Agora, portanto, está na hora de colocar em prática os raciocínios desenhados nos últimos 12km.

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Descansar sem dormir

Depois de dias seguidos nas ruas e trilhas, o corpo sente.

Hoje acordei dolorido, com o cansaço arrastando as suas unhas pelas pernas, costas e pálpebras. Por uma infelicidade de agenda arrumei uma reunião extremamente cedo, o que significa que meu “day off” teve apenas 6 horas de sono.

Suficiente para embalar o resto da semana? Difícil afirmar que sim. Mas, quando não há solução, não adianta haver também estresse pela sua falta.

Hoje o corpo precisará se recuperar em horas úteis, em meio a prazos apertados, clientes, propostas e os conflitos internos cotidianos que definem qualquer vida corporativa.

Hoje o corpo não poderá contar com horas de sono concentrando o poder mental inconsciente na recuperação muscular.

Hoje o próprio sono terá que dar um jeito de sair antes que sua falta acumule ainda mais cansaço.

A semana, afinal, será longa e está apenas começando.

Hora de trabalhar.

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Checkpoint 7: Montanhas e trilhas

Semana com viagem a trabalho nunca é fácil: no mínimo, há uma semi-impossível conciliação entre uma infinidade de tarefas novas, locais, com o cotidiano que nunca dá trégua.

Mas, mimimis à parte, há também a possibilidade de explorar novos caminhos. Esse foi o ponto alto da semana: desbravar as trilhas de Paraty, com ou sem vistas, mata adentro, bebendo paisagens que deixam claro o motivo de toda essa transição do asfalto para a terra.

Aliás, é impressionante como a rua fica perde parte de seu encanto já depois das primeiras montanhas que se sobe.

Falando da semana em si, a quilometragem foi menor do que a média das anteriores – mas nada que não estivesse planejado. Depois de uma espécie de escadinha na volumetria, esses dias estavam programados para dar uma aliviada nas pernas e permitir que a musculatura digerisse melhor o que havia enfrentado. Não sei o quão efetivo isso foi dadas as mudanças de cenário (e altimetria), mas veremos nos próximos capítulos.

Esse mês tem prova nova: a Indomit, em Bombinhas, e já devo me focar mais para ela. Terei um papo com o Ian na terça sobre isso, ajustando as planilhas e fazendo um checkpoint geral de todo o processo de treino até agora.

Enquanto isso, amanhã é dia de descansar um pouco para começar uma semana que promete ser bem agitada!

Gráficos abaixo:

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Ainda sobre altimetria: cotidiano vs. Indomit K42 vs. Douro Ultra Trail

Agora que já consegui desenhar o perfil altimétrico dos meus treinos cotidianos, está na hora de comparar com as próximas provas.

Bom… diferentemente de muitas corridas de rua (onde altimetria é muito pouco relevante, aliás), os perfis são pouco detalhados e não dão muita margem a cálculos exatos. Mas enfim… vamos ao que temos:

No mês de agosto, a prova-alvo será a Indomit K42, em Bombinhas. O site disponibiliza o mapa abaixo:

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O ponto mais alto não é exatamente alto – tem pouco menos de 300m. Há muitos planos e, muitas estradas de terra e, apesar de trechos em pedras e na praia, o percurso parece relativamente fácil. Claro: considerando que continua sendo uma maratona e, portanto, que já carrega as dificuldades naturais da distância.

O trecho mais “tenso” é no começo, com uma inclinação severa de 15%. É mais íngreme do que o mais íngreme que já subi (trilha do Pico do Jaraguá) – mas dura menos de metade da distância. No mais é curtir o cenário, que deve ser deslumbrante.

Em setembro vem a prova alvo, a DUT. Aqui as coisas complicam mais um pouco:

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Não há marcação trecho a trecho no site, que apresenta apenas uma visão genérica do perfil. No entanto, a imagem acima é de um post que eles fizeram recentemente no Facebook e pega um trecho de 18km. Traçar o grau de inclinação desse trecho não é algo tão “correto” assim, pois ele inclui partes planas e algumas descidas. Mas, se considerássemos uma “linha reta” entre a parte mais baixa (no Douro) e a mais alta (na Serra do Marão), o ganho altimétrico é de 10,8%. É quase a mesma coisa que a parte mais íngreme da Ministro – só que por 18km inteiros. Esse sim é de se preocupar.

Em todos os casos, no entanto, os cenários e os próprios desafios devem compensar de longe. Aliás, todos esses cálculos são prova pura disso: é a ansiedade querendo prever o esforço que, na prática, não faço a menor ideia de como medir mesmo :-)

Das trilhas para o cinema

Taí um prato cheio para as telas: um festival de cinema inspirado em corrida de trilhas. Afinal, há lugar melhor para buscar fotografias incríveis?

Aliás, se tem uma coisa que tem me deixado boquiaberto é a quantidade de vídeos sensacionais sobre esse esporte que, verdade seja dita, tem muito pouco a ver com corrida de rua.

De vez em quando procurarei postar mais alguns por aqui (como já fiz há alguns dias), pois entendo que a inspiração que vem deles é tamanha que acaba interferindo no próprio processo de treinamento.

Enquanto isso, vale babar um pouco com essas cenas e torcer para que a próxima corrida venha a passos galopantes!

O plano: dos 27 aos 80K em 2 meses

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OK, o plano tem algo de arrojado demais. Ou talvez arrogante. Ou ingênuo, insano ou qualquer outra palavra com conotação mais negativa do que positiva.

Mas, ainda assim, é um plano. E não entro exatamente de mãos vazias: afinal, não dá para esquecer que saí bem de uma Comrades há duas semanas, o que no mínimo me dá algum tipo de experiência com endurance.

Agora, no entanto, o bicho é outro: de zero de experiência em trilhas, munido apenas de um treinador experiente (a distância) e muita, muita força de vontade, pretendo chegar à Douro Ultra Trail em setembro. No caminho, elegi duas provas: a Pé na Estrada, de 27K nos arredores de Campinas, e a Indomit Bombinhas, de 42K, esta última com características (no mínimo) premium dados fatores como percurso, história, região etc.

Agora é ver como as coisas caminham e seguir firme nos treinos, que já começaram bem pesados desde a segunda passada!

A porta destrancada pela Comrades

O tornozelo ainda lembrava um pouco que Comrades estava a menos de uma semana de distância – mas estava na hora de virar a página.

Depois de quase uma semana sem correr, calcei o tênis, vesti a roupa e saí para o Ibira.

Era a minha primeira corrida depois da ultra que dominou os meus sonhos por tanto tempo. E o dia estava igual aos tantos outros que, por meses, me viram percorrer o asfalto.

Mas alguma coisa estava diferente.

Enquanto corria em passadas ainda lentas, meio cansadas, dava para ver uma espécie de realidade nova formada por uma maior autoconfiança e certeza de que somos capazes de muito mais do que os nossos próprios corpos imaginam.

A experiência espiritual, para dizer o mínimo, que dominou os últimos quilômetros de Comrades, deixou marcas. Mudou. Abriu um acesso, talvez, para um território mental que eu só conhecia pelos livros.

E fui mergulhando fundo nesse território, explorando-o um pouco mais, a cada passada. Estava conhecendo melhor uma zona mental nova, feita de pura concentração zen e que, até então, estava escondida no cotidiano.

Quilômetros foram se diminuindo. Músculos, se soltando. Dores, sumindo.

Até que a volta se completou e, de repente, estava de volta em casa.

Hora de subir e retomar a rotina que me aguardava – mas ciente de uma espécie de novo poder mágico que, a partir de então, já estava destrancado.

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Como estou pós-Comrades

Hoje é dia 5 de junho – 4 dias depois da Comrades 2014, lá na Africa do Sul.

Apesar de já ter feito uma ultra antes – a Two Oceans, de 56K – essa foi a minha primeira jornada em um percurso acima de 50 milhas. E foi absolutamente espiritual, para dizer o mínimo. Não vou me prolongar muito falando da Comrades – já fiz todo um blog com algumas centenas de posts narrando tanto a jornada quanto a prova em si (veja aqui).

Mas, considerando que este é o que considero o dia 1 da minha transição para as trilhas, é sempre bom começar detalhando o meu estado físico alguns dias depois de ter passado 10h54 na estrada entre Pietermaritzburg e Durban.

Meu tornozelo esquerdo é o único ponto realmente problemático. Aparentemente desenvolvi um cisto sinovial nos últimos quilômetros da prova, vazando líquido de alguma articulação e criando uma bolha na parte de cima do tornozelo que está comprimindo toda a região. O lado bom é que não é nada de grave: o cisto já começou a desaparecer, com o líquido sendo reabsorvido pelo próprio organismo. A região inteira ainda ainda está bastante inchada, mas melhor. Fui ao médico ontem para saber se poderia ser algo grave mas, aparentemente, basta dar um pouco mais de tempo ao tempo e estarei inteiro.

O restante da musculatura está toda recuperada: não há mais nenhum sinal de dor em nenhuma outra parte do corpo.

O moral está excelente – como não poderia deixar de ser. No domingo completei uma prova que definitivamente mudou a minha vida e a minha forma de me entender enquanto pessoa. Comrades faz isso com todos, aparentemente.

Meu relógio quebrou na Comrades. Aparentemente, o sal do suor acumulado embaixo do pulso danificou os sensores do Adidas Smartrun que, agora, não carrega mais. Devo passar na Adidas esse final de semana para ver o que fazer mas, como o relógio foi comprado fora do Brasil, tenho poucas esperanças de solução. Se for o caso, terei que comprar um outro. Infelizmente.

Assim, com um tornozelo ainda se recuperando, sem relógio, com moral elevado e restante da musculatura recuperada, começo uma nova jornada que me levará para mais distante das ruas e mais próximo das montanhas. Ainda é cedo para dizer sequer se gostarei da experiência – embora ache difícil que não.

De toda forma, veremos, a partir de hoje, quais os caminhos que me esperam!

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