Checkpoint: A zona cinzenta

Há uma espécie de zona cinzenta depois que se realiza alguma grande meta. 3, no caso: Indomit, BR (ainda que como apoio) e Cruce aconteceram em um impressionantemente curto período de 3 meses. 

Nessa última semana, todas as dores e incômodos acumulados em meses de treinamento decidiram aparecer e se instalar no corpo. Sem problemas: dei a ele alguma folga, saindo apenas levemente para alguns trotes mais regenerativos. 

Nessa última semana, um sono digno de picadas da mosca de Tse-Tse dominou as manhãs; uma estranheza em testemunhar o trânsito paulistano se instalou no semblante; uma facilidade de respirar, silenciosamente, um ar meio orgulhoso, impulsionou os pulmões. 

Semanas depois do que consideramos como grandes realizações pessoais são feitas para cimentá-las no peito, para nos mostrar que a vida é feita desses momentos singulares pelos quais tanto batalhamos. São períodos sagrados que, talvez infelizmente, acabem sendo reverenciados por nós mesmos em uma silenciosa solidão. São períodos catárticos, de consolidação de mudanças de visão de mundo, em que não se deve desperdiçar um único átomo de esforço em uma direção que não seja a do autoentendimento. 

Semana que vem? Provavelmente ainda estarei na mesma zona cinzenta, aproveitando-a, cultivando-a e, sobretudo, digerindo-a. 
Enquanto isso, talvez esteja na hora de revisitar as provas de 2016 e ver em qual ou quais me encaixo. 

Daqui a pouco será hora de começar tudo de novo. 

  
  

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Acúmulo: 3 meses, 3 metas e muito cansaço

Voltei da Argentina na terça passada. 

No mesmo dia, acordei para um último trote em San Martin de Los Andes, rodando 10km pela inacreditavelmente linda estrada que margeia o Lago Lácar, deixando por lá meus agradecimentos pelos chãos e montanhas que, mais uma vez, mudaram minha forma de ver o mundo. 

Apesar de ter chegado do Cruce apenas no domingo à tarde, corri relativamente solto, leve, sem dores ou nenhum tipo de cansaço muscular. Aliás, estava tão leve que nem parecia que estava terminando um ciclo que começou em novembro, com os 100K da Indomit, chegou a janeiro com 85Ks rodados na BR135 e se fechou com esses outros 100K nas 3 etapas andinas. 

A vida, no entanto, tem essa mania de nos puxar para a realidade sem dó: já na própria terça, varei o dia e a viagem inteira trabalhando, alternando ligações no celular, trocas de email e construções de projetos até as 2 da manhã da quarta, já em solo brasileiro. De lá para cá foram apresentações, reuniões nas primeiras horas do dia e todo um leque de tempestades cotidianas feitas para me relembrar que vivo em São Paulo, não em uma pequena cidade encrustrada nas montanhas. Não estou reclamando: essa dualidade, essa existência quase esquizofrênica tanto nas trilhas quanto nas artérias e arranha-céus paulistanos, é uma das coisas que mais amo da minha vida. 

Mas houve um preço. 

Com o resto da semana insanamente focada no trabalho, realmente não consegui sair para correr. Nem tentei: estava claro para mim que, depois dessas três provas, precisava de pelo menos alguns dias de folga. 

O que não podia imaginar é que o corpo desenvolveria uma vontade própria de descanso. Sem uma prova marcada para o futuro próximo, sem uma planilha montada e uma disciplina a ser seguida, ele simplesmente desabou-se em si mesmo. 

Saí para correr hoje em um despretencioso percurso de 10K pelo Ibira: quase não consegui. Dores musculares, articulações excessivamente rijas, calor e indisposição fizeram esses 10K parecerem 100. Voltei quase me arrastando para casa e sem ter aproveitado nenhum único minuto do parque. 

Conclusão: talvez eu realmente precise dar um pouco mais de tempo ao corpo, recomeçando mais levemente. Talvez ele precise mesmo de umas férias merecidas (embora curtas). 

O corpo, afinal, sente. E sente mais o acúmulo, o alto volume de treinos e provas do passado recente, as sucessivas metas batidas emendadas umas nas outras. Não tenho do que reclamar: ele respondeu perfeitamente a tudo o que a mente demandou. Nada mais justo que dar a ele uma pequena folga. Nada mais justo do que obedecer as suas demandas.

E, enquanto isso, que essas sejam as imagens guardadas na cabeça até a volta de vez aos treinos: as da minha última corrida em San Martin, também uma espécie de celebração pessoal dessas 3 grandes metas batidas em apenas 3 meses. 

   
 

A lista de desejos (atualizada em 18/02/2016)

O El Cruce cortou dois itens da minha lista: a própria prova, um sonho antigo, e a realização de uma ultra por etapas. Experiências inesquecíveis – que, como praticamente todas as que cruzei da lista, mudaram toda a minha percepção de vida.

O próprio vídeo que adicionei do Cruce, aliás, foi da edição que participei.

Outra prova entrou aqui: a BR135+, que participei como apoio em janeiro passado. Não sei quando, mas um dia ainda a realizarei. E, por hora, é o momento de achar a próxima meta a ser cumprida.

A lista está assim:

 

  • Fazer a primeira ultra: Two Oceans (56K), na África do Sul (feito em MARÇO de 2013):
  • Correr Comrades (89K), também na Africa do Sul (feito em JUNHO de 2014):
  • Fazer a primeira ultra trail (Douro UltraTrail, de 80K, em Portugal, feito em SETEMBRO de 2014):
    • Organizar minha própria ultra (Ultra Estrada Real, de 88K, feita em ABRIL de 2015)
    • Fazer a Comrades no sentido inverso (up-run), ganhando a medalha back-to-back – www.comrades.com – MAIO de 2015:
    • Fazer uma prova com 100 km (Indomit Costa Esmeralda Ultra Trail, feita em 07/11/2015)

 

  • Qualquer ultra em etapas (El Cruce Columbia, feita entre 12 e 14 de FEVEREIRO de 2016)
  • El Cruce Columbia – http://elcrucecolumbia.com/ (feito entre 12 e 14 de FEVEREIRO de 2016):
  • Qualquer prova do circuito do Ultra Trail de Mont Blanc (UTMB) – www.ultratrailmb.com – AGOSTO:
  • TransArabia (Jordânia) ou TransOmania (Oman) – www.thetransarabia.com – NOVEMBRO ou JANEIRO, respectivamente:
  • Fazer qualquer ultra do circuito de Skyrunning
  • Lavaredo Ultra Trail (Itália) – www.ultratrail.it – JUNHO
  • Correr no Grand Canyon (preferencialmente fazendo o Rim2Rim)
  • Correr no Everest – everesttrailrace.com – NOVEMBRO:
  • Qualquer prova com 100 milhas
  • Qualquer ultra em percurso com neve
  • BR135+ – JANEIRO

Calendário 2016 de ultras no Brasil

Esse ano tenho o Cruce e, provavelmente, a Ultra Estrada Real no meu calendário. Duas provas, fora ser pacer na BR, com um “fim de linha” marcado para o final de março.

E depois? E os últimos três trimestres do ano? Vontade de fazer a Indomit Campos do Jordão não falta, assim como desbravar lugares mais exóticos e icônicos por aí.

Mas, embora não seja ainda hora de escolher, talvez já seja o momento de pelo menos saber o que o calendário reserva para este ano. O blog Jorge Ultramaratonista fez uma compilação de provas bem interessante e que será este meu ponto de partida.

Recomendo para quem quiser: basta clicar aqui ou na imagem abaixo. E, claro, começar o processo de escolha em meio a uma quantidade de opções que, honestamente, é bem maior que eu originalmente imaginava:

  

Por que não criamos ultras mais relevantes no Brasil?

Todas as ultras mais desejadas do mundo tem uma característica essencial: um apelo emocionalmente poderosíssimo para os corredores. E esse apelo pode ir por três lados: relevância histórica, dificuldade colossal ou beleza estonteante. Frequentemente, aliás, esses três elementos estão juntos.

Exemplos?

O percurso da Comrades não é exatamente incrível – mas seus mais de 90 anos de história, a força que exerce sobre toda uma nação e as lendas que giram em torno dela a fazem ímpar.

Spartathlon, na Grécia? Junta a dificuldade homérica de se completar 246km em menos de 36 horas – com pontos de corte no mínimo sádicos – com o peso histórico de se estar refazendo o percurso de Filípides.

El Cruce? Precisa falar alguma coisa da sua beleza estonteante? A experiência de cruzar os Andes e beber uma paisagem daquelas por dias está longe – muito longe – de ser considerada corriqueira.

A Marathon de Sables, com quase uma semana para se cruzar 254km no Saara, não é considerada tão difícil quanto outras do gênero por ter postos de corte mais generosos – mas, da mesma forma que o Cruce, permite se testemunhar cenas absolutamente inesquecíveis.

E por aí se vai. TransVulcania, Barkley, Mont Blanc (UTMB)… todas tem um ou mais destes três ingredientes.

Agora olhemos o Brasil.

Das poucas ultras que temos em nosso solo, a única que realmente se destaca é a Jungle Marathon – e que é mais famosa no exterior do que aqui. Mas há tantos locais incríveis no Brasil que, honestamente, não fazer uma ultra neles é jogar fora oportunidades. Exemplos práticos?

Começo com o que nós mesmos fizemos no começo do ano, por conta própria: a Ultra Estrada Real. Refazer o caminho dos mineiros no auge do ciclo do ouro e terminar aos pés da estátua de Tiradentes em Ouro Preto em plena Páscoa, época que toda a região fica deslumbrante, certamente é uma candidata. Dezenas de corredores participaram dessa iniciativa que começou por aqui e que, aparentemente, terá alguma continuidade.

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E outros locais?

Correr no sertão em pleno verão escaldante certamente seria um belo desafio. Aliás, o amigo André Zumzum organiza o Caminhos de Rosa que é justamente isso – com o bônus de acontecer na trilha das histórias do mestre Guimarães Rosa. Não fosse tão longa – ela tem 263km – eu participaria na mesma hora.

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Há outro sertão perfeito: Canudos. Terra de santos, beatos, guerras e de um dos episódios mais marcantes da nossa história, seria um desafio e tanto.

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E Lençóis Maranhenses? Uma prova por suas dunas seria inesquecível e atrairia gente de todo o mundo.

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Chapada Diamantina? Que me conste, há apenas uma maratona por lá – mas há terreno suficiente para se explorar distâncias maiores com pérolas espalhadas por ela.

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Falando em Chapada, há a dos Veadeiros que tem o pitoresco Vale da Lua.

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O Rio de Janeiro também poderia receber uma ultra. A cidade é inegavelmente uma das mais lindas do Brasil e conta com pontos perfeitos como o Pão de Açúcar, o Cristo, a região da Vista Chinesa. Sua cidade irmã, Cape Town, fez uma ultra pela cidade que rapidamente cresceu (Ultra Trail Cape Town).

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Lá no sul há a região das Missões ou a Serra Gaúcha. Locais PERFEITOS para se correr em trilhas animais e memoráveis.

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Isso sem contar com locais de mais difícil acesso como o Monte Roraima, o Jalapão e tantos outros.

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O fato é que vivemos em um país que, embora não esbanje praias como as do Caribe ou montanhas como as dos Alpes, tem belezas inquestionáveis. Também é fato que, senão todos, a grande maioria dos ultramaratonistas vivem para beber cenas marcantes nas trilhas ou ruas do mundo.

Por que, então, as ultras que acontecem por essas bandas cismam em não aproveitar quase nada das nossas belezas naturais?

Tomara que alguém leia esse post e tome alguma providência organizando algo mais parrudo. Uma coisa eu garanto: a minha participação entusiasmada.

Crescimento de ultras nos últimos 10 anos

Há alguns anos, eu nunca tinha ouvido falar de ultras. Aliás, eu tinha plena certeza que a São Silvestre era uma maratona (!).

De lá para cá, me descobri no asfalto e nas trilhas, fui ampliando as distâncias e concluindo que tempo passado só, em ritmo constante e em direção definida é simplesmente fascinante.

Claro: achar que só eu descobri isso nesse período seria de uma arrogância ímpar. Mas, ainda hoje, evito falar em círculos normais que curto distâncias maiores para evitar olhares tortos, daqueles que mesclam descrença a certeza de insanidade.

Dia desses vi um gráfico bem interessante sobre o crescimento de ultras no mundo. Veja abaixo: nos últimos 10 anos, a soma de eventos e corridas oficiais saltaram de 528 para 2.141 – 4 vezes mais!

Imagino que o número de participantes por corrida tenha crescido também, embora esse dado não tenha sido revelado.

Qual a utilidade prática desse dado? Bom… pelo menos deixa a nós, amantes de ultradistâncias, com uma sensação de maior de “normalidade social” – se é que isso existe :-)

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Preciso de um plano

Se tem uma coisa que não estou acostumado, é com uma absoluta falta de planos ou metas.

Nos últimos anos, sempre tive uma corrida como alvo, me permitindo traçar estratégias e me empolgar com a evolução diária.

Foi assim que entrei, pela Two Oceans, no mundo das ultras; que mergulhei de cabeça na Comrades, rompendo a barreira das 50 milhas; que transicionei para as trilhas via Indomit e me entreguei às montanhas na Douro Ultra Trail.

E isso tem sido uma jornada fabulosa.

Hoje, no entanto, há um vazio.

A última prova relevante foi a Maratona de SP, que me qualificou para a Comrades do ano que vem (no final de maio).

E daqui até lá?

A única ultra próxima planejada era em São Bento do Sapucaí – mas a data foi um impeditivo por compromissos familiares.

Provas curtas me encantam pouco – é como se não houvesse muito mais desafio nelas.

E agora?

Vasculhei, vasculhei, vasculhei e nada: não parece haver nenhuma ultra próxima entre hoje e março, data a partir da qual já preciso estar bem concentrado na Comrades.

Estou sem metas. Sem provas alvo. Sem nada que exija algum tipo de planejamento. Sem nada que me deixe empolgado de verdade.

Como correr sem ter algum lugar para chegar?

Para mim, isso é bem complicado. Está na hora de bolar alguma coisa diferente.

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Calendário das ultras mais iradas do mundo

Há alguns dias publiquei, no Rumo às Trilhas, a minha lista de desejos de provas mundo afora. Não dá para dizer que foi uma surpresa, mas a lista ficou muito, MUITO extensa. Conversei com alguns amigos, fiz algumas edições, pesquisei datas e acabei tirando umas corridas e acrescentando outras. Foi uma pesquisa difícil (embora deliciosa) devido ao grande número de provas e de informações espalhadas – mas acabei conseguindo compilar tudo e organizar em uma espécie de agenda aproximada.

E digo “aproximada” porque, obviamente, levarei provavelmente 10 ou mais anos para matar toda essa lista. Mas tudo bem: o importante é curtir e aproveitar cada passo da jornada.

Observação importante: os meses de realização foram postados com base em calendários de 2014 ou 2013. Pequenos ajustes em datas, claro, devem ocorrer em todas as provas nos próximos anos. 

CALENDÁRIO DE ULTRAS IRADAS PELO MUNDO:

JANEIRO:

FEVEREIRO:

MARÇO:

  • Two Oceans (56km – África do Sul): www.twooceansmarathon.org.za – obs.: em 2015, essa prova, sempre vinculada à Páscoa, ocorrerá em abril!

ABRIL:

MAIO:

JUNHO:

JULHO:

AGOSTO:

  • Ultra Trail de Mont Blanc – UTMB (53km, 101km, 119km, 168km, 300km – França, Suiça e Itália): www.ultratrailmb.com

SETEMBRO:

OUTUBRO:

NOVEMBRO:

DEZEMBRO:

 

Bom… tem ultras iradas todos os meses! Agora é escolher a próxima, vasculhar os bolsos e correr!!

A propósito, alguns vídeos de todas essas provas podem ser vistos compilados nesse post aqui.

O difícil planejamento do período entre provas

Quando se está entre duas provas alfa, há uma sensação de tempo. Desde que terminei Comrades e me inscrevi na Douro Ultra Trail pude organizar treinos, planejar provas de teste e preparar todo o caminho entre ponto A e ponto B. 3 meses pareciam longos o suficiente para qualquer preparo.

O problema não estava aí, entre a Comrades e a DUT.

O problema está entre a última prova teste e a alfa – principalmente quando os cronogramas são apertados.

No meu caso, entre a Indomit, no sábado passado, e a Douro Ultra Trail, em três semanas.

Hoje é quinta – e, claro, estou ainda em processo de recuperação dos danos causados ao corpo por 6 horas e meia de corrida em 42km de trilhas absolutamente encharcadas e técnicas. As pernas doem, os joelhos incomodam, os pés ardem.

Os treinos desta semana até estão mais leves do que o normal – só que, sendo franco, apenas mais dias de descanso absoluto me deixariam em forma de novo. Dias que, pela proximidade dos 80km do DUT, eu não tenho.

Então, esta semana, estou convivendo com a dor. Treinei leve na terça e quarta, com uma pausa hoje (por conta principalmente de uma viagem bate-volta a trabalho, eliminando a chance de dormir um pouco mais). Amanhã, sexta, tenho intervalados; sábado, um longo de 2 horas; e domingo, um regenerativo leve.

Se tudo der certo, a dor e a fadiga serão gerenciados de maneira a irem diminuindo levemente, aos poucos, até ficarem mais suportáveis. Pelo menos esse é o plano.

Segunda é dia de descanso e de esperança de estar “zerado” – ao menos dentro do minimamente plausível.

A semana que vem, por sua vez, será a mais chave de toda a reta final rumo à DUT, com três longões inseridos em 5 dias.

Só que descobri que, quando se está no extremo da exaustão, a mente deve se focar no curto prazo, em vencer um dia de cada vez. Semana que vem é outra história.

Por enquanto, a meta inclui me concentrar no corpo e na presença desta linha tênue entre a manutenção do treinamento e a possibilidade de lesão. Por enquanto, todo o esforço deve ser feito para me manter em um único pedaço, inteiro, saindo da zona de perigo o quanto antes (mas sem pânico ou afobações que possam prejudicar o objetivo final).

Calendários curtos entre provas alfa tem disso: afinal, são 3 meses entre correr os 90km de Comrades, transicionar para as trilhas e partir para 80Km nas montanhas portuguesas. Talvez eu realmente tenha sido agressivo demais, quase descuidado. Talvez precisasse mesmo considerar um tempo maior para este processo todo.

Mas, como chorar o leite derramado não adianta, é hora de respirar fundo, me concentrar no próprio corpo e nos desafios diários.

É hora de seguir em frente.

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Como seria treinar para uma prova de 100 milhas?

Karl Meltzer, um dos mais reconhecidos ultramaratonistas americanos, costuma dizer que 100 milhas não é uma distância tão longa assim.

Não sei se concordo e duvido que um dia queira percorrer tanto terreno – mas tenho uma certa inveja de quem consegue passar mais de 24 horas mergulhado em si mesmo e sendo levado pelo movimento das pernas. A força zen de quem completa 100 milhas – 160km – é certamente algo digno de um guru indiano.

Mas, independentemente da minha intenção em correr 100 milhas, sempre tive curiosidade em relação ao processo de treinamento. Afinal, como alguém se prepara para algo tão longo assim?

Decidi buscar informações na Web e cheguei a três pontos no mínimo interessantes:

1) Fazer uma ultra de 100 milhas inclui ficar mais de 24 horas de pé. E, para isso, é necessário se habituar ao combate do sono, como correr no meio da madrugada ou em momentos em que exaustão (por qualquer que seja o motivo) estiver dominando a mente. Não parece algo muito agradável – mas é quase uma unanimidade entre os ultra-ultracorredores.

2) 100 milhas é um esporte totalmente diferente. É como passar de uma meia para a maratona ou da maratona para as 50 milhas ou 100km. Os músculos parecem mudar, a mente passa a ser mais importante e a tolerância ao cansaço se torna a principal arma. Só que passar de 50 milhas para 100 é, de acordo com muitos, algo bem mais difícil do que passar de uma maratona para os 100km. Isso também significa que é altamente recomendável que se faça ao menos algumas provas “menores” (50 milhas ou 100km) antes de se aventurar por algo tão grande.

3) Ao contrário do que se imagina, no entanto, as planilhas de treino não são tão diferentes do que as utilizadas para provas “menores”. Veja o exemplo de uma abaixo (retirado desse post aqui): a semana mais intensa (fora a da prova) tem 75 milhas – 120km. A média em si é menor, em torno das 60 milhas (ou 95km, algo muito próximo do que eu fiz por semanas durante o treinamento para os 90km de Comrades).

Esses três pontos indicam uma coisa bem clara: 100 milhas são mais possíveis do que muitos acreditam. Mas, embora o corpo precise de um treinamento físico compatível com o tamanho do desafio, é a cabeça que precisa de preparo de verdade. A minha ainda não está pronta (e não sei se um dia ficará). Mas, até lá, imagino que permanecerei sendo assombrado por essa “instigante curiosidade”.

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