Vídeo: Sobre uma prova que nunca farei

Nunca gosto de dizer nunca. Há uns 10 anos, do alto do meu sedentarismo, jamais poderia imaginar que estaria aqui, hoje, escrevendo um blog sobre um esporte que nunca sequer tinha ouvido falar.

Ainda assim, arrisco-me desta vez a pregar o “nunca” em relação à Hurt 100, uma prova de 100 milhas extremamente técnicas e perigosas sobre uma das ilhas do Havaí. A dificuldade é tamanha que, ao menos na minha concepção, a diversão acaba ficando de lado. E qual a graça da vida se ela não puder nos divertir?

Ainda assim, dificuldades e agruras assim são sempre divertidas em filmes. São os extremos vividos pelos outros que nos fazem curtir ainda mais as amenidades às quais nos lançamos com algum tempero de aventura.

Eis Hurt 100:

 

 

Vídeo: História completa de Comrades

Para quem ama a rainha das ultras, esse vídeo é um achado.

Sim: os primeiros 1:45 são meio chatos, com uma introdução desnecessária – recomendo que pulem.

E sim: ele é infelizmente todo em inglês, sem legendas.

Se isso não for um problema, recomendo fortemente. Dá para entender quase toda a magia dessa corrida (e digo “quase” porque, para entendê-la por completo, só correndo os 89km que separam Durban de Pietermaritzburg).

Checkpoint: As estranhas dores do pico

Em tese, a semana passada deveria ter sido de férias para o corpo: depois de três séries intensas, com direito a back-to-backs, pequenas ultras e tudo mais, baixar a volumetria seria quase que uma bênção. 

Só que não. 

Quando nos aproximamos de fases de pico no treino, o corpo parece ficar já tão habituado ao estresse dos altos volumes que a falta de estímulos parece não ser compreendida pelos músculos. Ao contrário: estes parecem aproveitar a “oportunidade” para reclamar de qualquer coisa, gritando pelas articulações, panturrilhas, coxas e mesmo core. 

Tudo doeu nesta fatídica semana de descanso ao ponto de me fazer desejar o reinício das sessões de intensidade. E eis que elas chegaram. 

A conclusão disso tudo? Estou chegando próximo ao pico, já com o corpo grelhado no ponto certo para enfrentar a meta. 

O treinamento mental

Dividi meu treinamento para o Caminhos de Rosa em dois grandes blocos: um físico e outro mental.

O físico não tem muito segredo: é planilha tradicional montada com um método prático e que tenho seguido de maneira minuciosa.

O mental é que é uma espécie de novidade para mim. E veja: para esta prova, o Caminhos de Rosa, treino mental não é apenas se preparar para passar horas e mais horas furando o tédio com a persistência. É puxar companhias a partir da poeira que se deita sobre o sertão mineiro onde a prova acontecerá.

Que companhias? Riobaldo, Diadorim, os Hermógenes, Miguilim, Manuelzão, Pedro Orósio, Grivo, Cara-de-Bronze e toda uma leva de jagunços, vaqueiros e buritis criados por Guimarães Rosa em toda a sua obra.

O que acontece é que as histórias do Rosa são de uma densidade tão intensa, tão incrível, que lê-las com a devida atenção tem sido uma ultra à parte.

Neste ponto estou nos dois picos: no do treino físico, já fazendo levas e mais levas de semanas com 100 a 100Ks, e no do mental, já chegando no último dos livros do Rosa que pretendo devorar.

E ambos os treinos, confesso, estão me deixando tanto exausto quanto ansiosíssimo para os 140K.

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USP deliciosamente vazia

Havia algo de estranho quando entrei na USP no sábado passado para fazer os meus 50K.

Normalmente, toda aquela região é tão coalhada de corredores e ciclistas que se tem a sensação de se estar em uma espécie de versão esportiva das ruas de Mumbai: o trânsito é caótico ao ponto de não se entender como ele chega a funcionar.

E – apesar de notícias de um ou outro atropelamento de vez em quando – ele funciona.

No sábado, tudo estava diferente. Não sei se por alguma regra nova que desconhecia ou por fechamento de ruas devido à Volta Ciclística 9 de Julho, a USP estava fechada para carros.

Sem carros, sem assessorias.

Sem assessorias, sem pessoas.

Como eu corro solo, levando minha própria água e sem depender de nenhuma estrutura, confesso que amei. Foi como se a USP estivesse inteiramente fechada para mim (e talvez para outros 2 ou 3 perdidos que dividiam os seus mais de 10K de percursos livres a arborizados comigo).

Some a isso um dia de sol perfeito com uma temperatura apenas levemente fria e foi como se os Deuses tivessem desenhado aquele dia com o máximo de esmero.

Como comentei, não sei se a USP permanecerá assim, fechada para carros e aberta para pedestres – mas, apesar de gostar do clima de esporte que costuma (ou costumava) dominar a região, confesso que não reclamarei tanto se essa mudança se perenizar.

  


 

 

 

50K perfeito por São Paulo

A maior dificuldade, a meu ver, para treinos focados em ultras, é a inserção dos longões de pico na rotina.

Como nem sempre dá para encaixar provas de montanha na planilha, às vezes é necessário improvisar e gastar o tênis no asfalto da cidade. A questão é: por onde? Ficar dando voltas e mais voltas no mesmo circuito é, na melhor das hipóteses, tão eficiente quanto entediante.

Atravessar os extremos da cidade também é complicado uma vez que a distância entre alguns dos pontos praticamente puxa a preguiça.

O percurso ideal, portanto, tem que ser circular (evitando ao máximo se repetir trechos por muito tempo) e com metas praticamente equidistantes, deixando uma sensação constante de proximidade de linhas de chegada imaginárias.

No último sábado acabei forjando um percurso circular de 50K que considerei perfeito para isso – tanto que, embora tenha chegado obviamente cansado, ainda tinha gás para rodar mais.

O percurso está aí, abaixo, bastando que se clique neste link ou na imagem para acessar mais detalhes.

Screen Shot 2016-07-11 at 11.00.25 AM

Pontos importantes:

  • Saí, claro, de casa. Todo percurso de treino tem que largar de onde moramos, pois isso facilita (e muito) todo o processo.
  • O Google Maps é essencial: basta dizer onde quer ir, colocar o fone e ouvir as suas instruções enquanto se corre. Perfeito para pessoas perdidas como eu.
  • Um percurso desses tem ainda pontos em que se pode ampliar o trajeto, caso necessário. Dá para se somar mais uns 10K, por exemplo, passando a Ponte do Morumbi e esticando até o Parque Burle Marx, fazendo algumas voltas nas trilhas de lá e voltando; da mesma maneira, voltas maiores pelo Ibirapuera podem garantir mais alguns quilômetros e uma outra esticada até o Parque da Água Branca pode somar uns 5K.
  • Para o trajeto, marquei os seguintes pontos: Jardim das Perdizes – Parque Villa Lobos – USP – Parque Burle Marx via Av. Morumbi (sendo que cortei antes, na Ponte do Morumbi) – Parque Ibirapuera – Jardim das Perdizes.

Será provavelmente este o trecho que repetirei ao menos para os próximos dois longões que tenho.

 

Checkpoint: Primeira ultra no treino feita

Foi uma semana complicada. Depois de duas com alto volume, depois de duas maratonas e com o bônus de eu ter me mudado de apartamento e viajado por 3 dias a trabalho na sequência, o corpo pedia descanso. 

Recebeu o oposto: na planilha, a semana passada, última do ciclo de 3 pesadas, seria fechada com 50K. 

De todos os dias, consegui levantar disposto apenas na terça, para os 20K na escuridão das primeiras horas da manhã paulistana. Depois disso, a força de vontade necessária para me erguer da cama foi tamanha que tive que inserir mudanças de planos. 

Na quarta acordei decidido a desistir. Desdesisti, como diria Guimarães Rosa, e corri à noite. 

Na quinta me senti seguro o bastante para ignorar o dia. Mudei de ideia e voltei correndo do trabalho para casa, fechando os 15K. 

Mesmo no sábado, que tende a ser um dia sagrado, foi necessária uma hora inteira para convencer o meu corpo de completar as 6 horas planejadas. 

A prova vai se aproximando na medida em que o corpo já começa a se desesperar por descanso. 

Tudo bem: esta semana, pelo menos, é mais leve. Bem mais leve. 

Ela precede um outro ciclo de alto volume – o último antes da prova – que me trará mais 3 pequenas ultras e será fechado na São Paulo City Marathon, se minha memória não me falha. 

Falta pouco.

Vídeo para matar saudades das trilhas do Cruce

Mesmo com parcos anos correndo em trilhas, posso dizer que poucos são os percursos tao deliciosos quanto os do Cruce. Claro: todo ano os percursos mudam – mas a região é sempre a mesma. 

E isso inclui trilhas lisas e absolutamente corríveis, montanhas belíssimas emoldurando lagos sensacionais ao fundo em três dias de pura endorfina. Quem não foi ainda, recomendo seriamente. 

Para quem foi, eis um vídeo que achei agora na Web com um programa gravado na edição deste ano para a TV espanhola:

Achando a roça no meio da cidade

Já no começo da corrida percebi um galo cantando alto, cortando toda e qualquer possibilidade de concentração no audiolivro. 

Um pouco mais adiante, galinhas se certificavam que seus pintinhos não se perdessem pelo êrmo da roça, sempre aterrorizado por gatos e seus olhares famintos. 

O cheiro de estrume de cavalo era quase onipresente, resultado dos estábulos encostados em um dos cantos da fazenda.

Fazenda? 

Quem lê essas primeiras frases imediatamente imagina que essa corrida se passou em alguma cidade do interior. Negativo.

Esse é o cenário do meu novo “lar”: o Parque da Água Branca, um parque absolutamente urbano encrustrado no meio de São Paulo. É também um dos motivos que tanto amo essa cidade: poder correr alguns metros e já se sentir em outra dimensão é, sem dúvidas, sensacionalmente incrível!