Checkpoint: Mudanças no treino

O corpo nem sempre obedece o calendário gregoriano.

Na prática, meu mês de descanso foi novembro, pontuado por corridas leves e até mesmo desleixadas para compensar uma temporada dura, pontuada por Comrades, Indomit Bombinhas e Douro Ultra Trail e fechada com a duríssima Maratona de São Paulo em outubro.

Pois bem: descansei.

Dezembro é mês de sol, de calor e de algum alívio no trabalho: meu treinador tem aproveitado isso ao máximo agora. De maneira geral, as rotinas se dividem em duas:

  1. Treinos de qualidade, como tempos, intervalados e tiros, 3 vezes por semana
  2. Longões leves, mas cada vez mais longos, nos finais de semana

E devo dizer que estou achando a rotina perfeita: ela aumenta minha velocidade e, ao mesmo tempo, me permite passar as horas em trilhas que tanto amo em dias onde o tempo costuma passar mais devagar.

Foi por conta desse roteiro que comecei a desbravar São Paulo, percorrendo a região da Pinacoteca, o Ipiranga, o Jardim Botânico e o Horto, para ficar apenas em algumas. Na prática, é como se uma nova cidade se apresentasse cada sábado e domingo para mim. Perfeito.

Nesse final de semana, especificamente, correr o Horto e fazer novamente o Ipiranga acabou acrescentando uma altimetria maior do que a média, superando os 1.000m. Ultimamente, ganho altimétrico tem sido uma métrica quase tão importante quanto distância e pace para mim: é o maior teste de resistência para ultras que, afinal, costumam ser corridas em montanhas. Mil metros pode não ser nada, por exemplo, perto dos 4,5 mil da Douro Ultra Trail e de tantas outras – mas é um bom treino.

E, no total, essa soma de bons treinos em locais impensavelmente novos tem dado um gás novo para mim nesse final de ano.

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As luzes do Ibirapuera

Fazia algum tempo que eu não corria à noite: a última vez já deve fazer pelo menos um mês, antes das luzes de Natal se instalarem no Ibirapuera.

Ontem, no entanto, foi dia de intervalados – e a manhã atribulada acabou empurrando a planilha para depois das 20:00.

Para falar a verdade, eu nem me lembrava que o Ibira estava iluminado: o sol do verão, às vezes, nos faz esquecer que a noite sequer existe. Mas foi só eu me aproximar do parque e, de repente, músicas começaram a ecoar pelos céus, animando um show de águas nas fontes para uma plateia que persistia presente, teimosa, ignorando a garoa fina que caía. E isso tudo com milhares de luzes pintando as árvores ao fundo.

Na mesma hora eu desliguei o podcast e fiquei ali, absorvendo o clima a cada passo. Normalmente eu gosto do silêncio que acompanha corridas nas horas extremas do dia, seja no começo da manhã ou noite adentro – mas o barulho bem orquestrado de ontem foi muito, muito bem vindo.

O ano – ainda bem – está acabando.

Ele está levando consigo, sem dó, cada gota de energia que eu havia reservado para 2014: mas a cena de ontem ajudou a me dar pelo menos mais algum impulso para chegar inteiro ao dia 31.

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Update da Ultra Estrada Real

Estamos já oficialmente no final do ano – momento perfeito para planejar o calendário de corridas do ano que vem.

E, nesse espírito, a Ultra Estrada Real – uma corrida não oficial e autosuficiente – já está com quase 30 corredores “inscritos”, dispostos a percorrer os 88km que separam Santa Bárbara de Ouro Preto, em Minas Gerais.

Nunca é demais repetir: essa não é uma prova oficial, o que significa que não conta com postos de apoio, staff médico, medalha ou qualquer outra “regalia”. É apenas um encontro entre apaixonados por ultras que estão buscando desafios um pouco diferentes dos tradicionais. Isso está postado aqui no blog, na área específica que fala sobre a corrida, e também espalhado por posts diversos – e não é por outro motivo, claro, que a participação é inteiramente gratuita. Todos nós cuidaremos dos nossos próprios gastos, afinal.

Mas parte da aventura inclui conhecermos uns aos outros – tarefa que será desempenhada aos poucos, ao longo do tempo. Por hora, vale dar uma olhada na origem desse grupo que está se formando e no tempo de conclusão que cada um está prevendo para si:

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Primeira observação: há uma concentração grande de corredores com tempos entre 9 e 12 horas. Faz sentido: considerando que o terreno não é exatamente tenso como Chamonix, são os que já tem alguma experiência nas pernas.

O que me preocupa um pouco é o grupo de corredores que pretende passar mais de 18 horas no percurso. Honestamente, eu os desaconselharia a fazer a corrida e recomendaria uma mais oficial, com infraestrutura à disposição. 18 horas de prova significa largar e sair em plena escuridão, algo especialmente complicado para trilhas sem postos de abastecimento.

Mas, claro, a estrada real é livre e todos podem percorrê-la desde que tenham vontade – e é essa palavra a que mais importa em uma ultra como essa!

O Tempo

Levou algum tempo para que eu percebesse o motivo real de passar tanto tempo correndo nas ruas e trilhas.

A grande maioria dos corredores que conheço deu os seus primeiros passos por saúde, originalmente amaldiçoando cada instante em que o despertador gritava pela manhã. Mas saúde, por mais importante que seja, é insuficiente para manter alguém nas ruas – principalmente quando as longas distâncias vão ficando cada vez mais longas.

Quando me inscrevi em minha primeira prova de 5K, um passado inteiro de más notícias e sobrepeso pareceu ter ficado para trás, como se eu tivesse me transformado em um outro ser que, até então, existia apenas no imaginário.

Mas aí os 5K viraram 10; os 10, 16; os 16; 21; os 21, 42; e os 42 se perderam em distâncias maiores por terrenos que nem sabia possíveis.

As distâncias foram me dando tempo livre, tempo para mim mesmo e para a minha própria solidão. Foram me ensinando calma, perseverança e mostrando aos olhos paisagens que não imaginava que existissem fora da TV.

E assim, de repente, comecei a me entender melhor.

Saúde? Não dá para dizer, honestamente, que correr 16 horas sem parar pelas montanhas, sentindo náuseas e dores em músculos que sequer se conhece, seja algo saudável. Ao menos não para o corpo.

Mas depois de 3 anos e 10 mil quilômetros rodados, depois de ter perdido meio fígado em uma cirurgia mais longa que a minha mais longa ultra, depois de virar pai e de enfrentar tantos desafios na vida pessoal e profissional… bem… tudo pareceu mais claro.

E, hoje, tudo se traduz em uma só palavra: Tempo.

Afinal, é ele que mais aproveitamos ao nos enfurnarmos em nossa própria mente por horas a fio durante corridas; é ele que parece se ampliar a cada nova experiência que temos, a cada nova paisagem nas trilhas ou cidades; é com ele que aprendemos a lidar melhor com cada nova dificuldade imposta ao corpo, seja por lesão ou puro cansaço, e à mente.

Não temos, afinal, como prolongar os nossos relógios e fazer dias virarem meses para que vivamos indefinidamente; mas temos, com certeza, como aprender a extrair de cada minuto toda a intensidade que ele pode carregar.

E correr, no mínimo, nos vicia isso.

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Parque Estadual da Cantareira?

Na busca pela aventura do próximo sábado, me deparei com fotos do Parque Estadual da Cantareira.

A 10km da Sé, aproximadamente, o que faz dela perfeita para um longão de 3 horas. Ainda não sei se vou correndo de casa ou se vou de carro até lá e aproveito mais tempo no verde – tudo depende da segurança do percurso.

Mas, pelo que li, há trilhas incríveis, vistas deslumbrantes, cachoeiras, mata atlântica preservadíssima e tudo o que se pode desejar em um treino mais aventureiro. Aliás, os elogios na rede são tantos que fiquei pensando como a Cantareira nunca sequer cruzou a minha mente!

Bom… agora é planejar um pouco mais. E torcer para me esbarrar em cenas como as das fotos abaixo:

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Checkpoint semanal: 80K com explorações pela cidade

Na semana retrasada eu combinei comigo mesmo que me dedicaria mais a treinos de velocidade do que a passar longas horas na rua, o que estava nitidamente comprometendo meu pace. E não pretendo descumprir isso, claro – mas minha planilha para essa semana, ironicamente, estava inteiramente tomada por longões.

Verdade seja dita, terça, quarta e quinta continham intervalados e tempo runs que foram devidamente cumpridos. O da quarta, que tinha dois tempos de 20 e 30 minutos cada em meio a duas horas de corrida, foi especialmente perfeito por mesclar objetivo com prazer.

Na quinta, porrada pura que me exauriu por completo… até o sábado.

Ontem foi dia de desbravar São Paulo e o percurso pelo Jardim Botânico foi inspirador. Devo confessar que essa onda de marcar um ponto relevante diferente da cidade toda semana e inserir o longão em torno dele está mudando a forma com que treino. Sim: a pausas para fotos que decididamente comprometem os meus indicadores; mas, por outro lado, isso traz um ar de exploração inerente a esse esporte que, até então, eu achava impossível de encontrar em percursos urbanos.

Ainda não vi as planilhas da semana que vem mas tenho duas certezas: elas provavelmente serão mais intensas e menos extensas e conterão algum lugar novo, ainda a ser definido, que me aguarda aqui em Sampa.

Até lá, hora de descansar desses 80K que rodei desde a terça – algo que, independentemente de qualquer planilha, estava já com saudades de fazer.

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Trilha Urbana: da Paulista ao Jardim Botânico

Há cerca de 1 ano, levei minha filha para o zoológico de São Paulo. Ela, obviamente, amou – mas o que mais me chamou a atenção foi o vizinho Jardim Botânico, que desfilava ao lado da avenida um corredor gigante de palmeiras imperiais guiando os olhares para lagos e bosques aparentemente infinitos.

Com essa cena em mente, me mandei hoje até lá, correndo desde casa. O caminho não é exatamente belo: depois da subida da Bela Cintra e virada à direita na Paulista, é praticamente uma reta. Com pessoas apressadas já no sábado cedo, desviar os obstáculos humanos era o mais complicado.

Lá pela região da Praça da Árvore desci uma transversal e comecei a cortar por dentro, rumo à Rodovia dos Imigrantes. Não é a região mais atrativa, mas o pace aperta naturalmente quando passamos por favelas e sob pontes usadas como pontos de crack. Corri bem nesses trechos.

E, em meio ao que mais parecia grupos de zumbis, pichações e muito cinza, de repente aparece o majestoso Jardim Botânico.

Grande, imponente, verde e já com uma pequena fila de japoneses municiados com suas câmeras ansiosos por desbravar o oásis paulistano.

Certamente conseguiram o que foram buscar: já na entrada, uma passarela suspensa de madeira abre caminho para uma multidão de espécies de plantas, algumas habitadas por aves diferentes e macacos.

Saí caçando algumas trilhas que encontrei facilmente, margeando lagos e cenas que mais pareciam de filme.

Em um dado momento, me vi na nascente do Ipiranga – ponto que, mesmo seco por conta da estiagem, tem um valor simbólico importante.

Segui pela trilha, entrei mata adentro, subi e desci. Só beleza.

No caminho da saída, me deparei com a avenida de palmeiras imperiais que estava presa em minha memória e a percorri inteira. Perfeita.

Mas, como tudo na vida, há hora para acabar.

Tomei o caminho de volta para casa tomando o cuidado de cortar os trechos mais tensos de favela, o que acabei conseguindo. No caminho, apenas uma pausa para foto de uma igreja em estilo gótico no meio da Jabaquara e pronto: foi só descer à região do Ibirapuera, pegar a Brasil e voltar para casa.

Essa trilha urbana foi diferente das últimas no sentido de que só o ponto de destino foi realmente bonito. Diferente de cortar o centro, pontilhado por surpresas arquitetônicas e históricas em cada esquina, o caminho até o Jardim Botânico foi essencialmente feio e com alguns pontos perigosos.

Mas oásis são isso mesmo, certo? Pontos paradisíacos cercados por paisagens áridas. E, no final das contas, foram 30km que valeram muito, muito a pena!

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Entrada do Jardim Botânico

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Lago no Jardim Botânico

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Lago no Jardim Botânico

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Escadaria em uma das laterais do Jardim Botânico

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Alameda Von Martius, no Jardim Botânico

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Lago com trilha ao fundo, Jardim Botânico

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Lago em uma das extremidades do Jardim Botânico

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Trilha próxima à nascente do Ipiranga, no Jardim Botânico

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Vista da Alameda Von Martius, Jardim Botânico

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Igreja Nossa Senhora da Saúde

Percurso no Strava

Percurso no Strava

Badwater e Carlos Sá

Badwater me fascina. Não sei se ao ponto de me fazer corrê-la algum dia, mas há que se admirar corredores que topam enfrentar um calor que passa dos 50 graus célcius ao longo de 135 milhas – ou 217km. E tudo, claro, atravessando o Death Valley, um deserto que não poderia ter um nome mais apropriado, e terminando no topo de uma das maiores montanhas dos EUA (Mount Whitney, com 2,5 mil metros de altitude).

Em 2013, o português Carlos Sá venceu a prova. Empolgado com isso, ele gravou um documentário BEM interessante em sua volta ao percurso em 2014.

Vale ver. Se tiver neurônios a menos, inclusive, esse filme certamente te inspirará a participar em algum dia.


 

Os primeiros 10 mil quilômetros

Uma volta ao mundo, seguindo a linha do equador, tem precisos 40.076km. Pelos pólos, a distância cai um pouco, para 40.009km.

Hoje bati um marco que imaginava desde os meus primeiros passos: os primeiros 10 mil km. Sendo mais exato, fechei o longão inserido no meio da semana (de 20K) com exatos 10.019,70 km corridos desde março de 2011 quando, lá do alto dos 100kg, olhei com um misto de medo e empolgação para a voltinha do Parque do Povo.

À época, conseguia correr mesmo pouco mais de 200m – e praticamente me esguelando. O tempo foi passando, os treinamentos se intensificando, técnicas foram lidas e aprendidas e as pernas foram aprendendo com provas de 5K, 10K, meias, maratonas e ultras.

Esses 10 mil km, na prática, mudaram a minha vida sob todos os sentidos ao transformarem em alguém (muito mais) saudável, ponderado nas tomadas de decisão, calmo e com um acúmulo de experiência de vida por conta de muitas viagens em busca de diferentes linhas de largada.

Começar a correr foi uma das melhores decisões que tomei em minha vida. E hoje, com o perdão pelo post totalmente auto-indulgente, passarei o resto do dia orgulhoso e comemorando a mim mesmo por ter corrido o equivalente a 25% do planeta.

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