Checkpoint: Quebrado

Pequeno revés no plano: aparentemente, a carga da semana passada foi alta demais para a sua “repentinidade”. 

A semana até começou razoavelmente bem mas, quando pulei para os 20K na quarta com aumento na intensidade, as rodas simplesmente saíram.

Quinta e sexta foram dias de descanso difíceis; o sábado me estourou por completo. 

Bom… antes que seja tarde, desisti do dia de hoje. Semana que vem tentarei uma carga mais alta – mas sem exageros e dando mais tempo à evolução.

Às vezes, o mais difícil de um processo de treinamento é entender que se trata de um processo – e que, como tal, leva tempo. 

Cedamos, pois, ao tempo.

De volta

Voltar, depois de um esforço grande, sempre dói um pouco. O corpo parece meio enferrujado, os ossos reclamam, perde-se a noção de ritmo. Mas, ainda assim, faz bem.

Principalmente em um dia com quase 30 graus e um sol ardendo sobre a cabeça: sou apaixonado pelo calor. E, assim, saí hoje pela primeira vez desde a Indomit para um trote pela USP, somando pouco menos de 20K em um ritmo leve, confortável (dentro do possível) e feito para realinhar o corpo.

Funcionou.

Primeiro, porque cheguei mais tarde à USP, por volta das 10 da manhã, quando a maior parte dos corredores já estava de saída. Tinha o percurso mais livre e o dia mais quente para eu aproveitar.

Pude também rodar solto pela pequena trilha perto da subida do Matão, matando um pouco das masoquistas saudades que confesso que senti de lá de Bombinhas. A trilhinha da USP, no entanto, é bem, BEM mais leve. Carrega o ar fechado e abafado da mata atlântica, tem todos os sons de insetos que se pode esperar em uma floresta, um piso levemente úmido e feito de terra com folhas – mas sem nenhum trecho técnico.

Foi, em uma palavra, perfeito para que eu pudesse fazer as pazes com as trilhas que tanto me castigaram no sábado passado.

  

Depois disso, a subida do Matão me aguardava camuflando o calor com fios refrescantes de brisa enquanto fluxos bem vindos de pura endorfina atenuavam a percepção de esforço.

Foi um daqueles momentos em que nos sentimos no lugar perfeito e na hora exata.

Aquela subida foi precisamente o que eu estava buscando quando saí de casa hoje: a sensação de fluidez do corpo, a brisa acalmando o suor, os sons de passos esforçados contra o absoluto silêncio da mata que circunda tudo, o céu azul fazendo o chão brilhar.

Perfeito.

Não poderia ter pedido nada a mais desse dia.

Estou de volta.

  

O que acontece com o corpo durante uma ultra?

Força e fraqueza, euforia e depressão, sorrisos e lágrimas.

Ao menos no meu caso, cada ultra que corro me faz reviver o Carnaval de 2011. Àquela época, minha mulher estava grávida e eu, mesmo alguns anos depois de ter passado por uma cirurgia complicadíssima que me custou metade do fígado, estava com 100kg e mais sedentário que uma samambaia. Naquele Carnaval, peguei os resultados de um exame clínico que apontaram que eu estava na rota do desastre, com indicadores hepáticos descendo para os mesmos níveis que estavam no pior momento da minha vida.

Olhei para a barriga da minha mulher e tive a nítida sensação de que, se não mudasse de vida radicalmente, não viveria para ver a minha filha crescer.

E mudei.

Comecei a dieta naquela mesma hora, ainda com os resultados na mão.

Quando o Carnaval terminou, comecei a caminhar passos lentos, mas decididos.

Baixei aplicativos de controle de peso.

Comprei revistas de corrida.

Mudei a rotina.

2 meses depois consegui correr meu primeiro quilômetro sem pausa para caminhar.

3 meses depois fiz uma prova de 2 milhas da Mizuno.

1 ano depois já havia perdido 30kg.

Daí para frente vieram provas de 5K, 10K, 16K, uma meia, maratonas e, de repente, ultras. Gostei delas – principalmente de seus altos e baixos.

Cada vez que me deparo com um percurso de 50 ou mais quilômetros, sei que vou reviver com o corpo os vales que enfrentei em 2011 e os picos que vieram depois. É como se o corpo forçasse a mente a metaforizar os tantos desafios que ficaram para trás, a “morrer” e a “ressuscitar” uma, duas, três, n vezes. Sentir essa batalha me revigora como poucas coisas no mundo e é, em resumo, precisamente isso que sinto a cada ultra, motivo pelo qual amo tanto esse esporte.

Mas, me deixando de lado um pouco, parece que há muito mais acontecendo no corpo de ultramaratonistas do que eu mesmo já presenciei. Li uma matéria interessantíssima no Washington Post que decidi compartilhar aqui no blog com um relato completo das mudanças fisiológicas que ocorrem em percursos que podem variar de 50km a 100 milhas (ou mais). Infelizmente, o texto está apenas em inglês – mas, se puder, aconselho muito a leitura!

Link: https://www.washingtonpost.com/graphics/health/ultramarathon/

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Reconstrução

Uma ultra não termina na linha de chegada. Verdade seja dita, toda uma outra prova de endurance começa a partir daí. 

Primeiro, é necessário acalmar o corpo, deixá-lo entender que ele fez o seu papel e que agora é hora de descansar. Com calma. 

Friso isso porque, por mais que músculos e mente estejam a milhão e em ritmos incessantes, basta cruzar a linha de chegada que eles ficam muito próximos de um estado de colapso. É parar de correr e pronto: pernas ficam duras, musculatura trava, um frio polar arrepia até a espinha e um cansaço bíblico toma conta do corpo. 

A cabeça pesa mais nas horas imediatamente seguintes à chegada. Desidratação e nutrição de guerra fazem-na ressoar mais que o normal, algo que vai passando a cada garfada de um jantar mais caprichado. Ainda assim, é necessária uma noite de sono e todo o dia seguinte para que ela realmente volte ao normal. 

Juntamente com a cabeça, os músculos – claro – doem. Por fases, pedaços, quase que de maneira compartimentalizada. Esse ponto é curioso: todo o corpo pode estar dolorido mas, se a coxa esquerda carregar a dor mais intensa, é nela que a mente se focará. As demais parecerão apenas um leve e distante incômodo. Com a experiência, as dores musculares são as primeiras que passam: em uns dois dias não há mais nem lembrança delas. Pode-se inclusive dar um trote pelo parque para forçar uma reanimação geral que músculo algum será barreira. 

Musculatura, no entanto, não é tudo. Enquanto coxas, panturrilhas, pés e torso ficam bons, o organismo começa a se refazer em seu próprio ritmo. 

Estômago, ainda inconformado com a provação, tenta voltar ao seu normal – algo que levará alguns dias ainda.
Rins e bexiga parecem tentar se reconhecer: o ato de urinar em si carrega alguma dor na medida em que se vai eliminando as toxinas do corpo. Não é uma dor lascinante: é apenas presente e incomoda na medida em que, aos poucos, se vai mais e mais ao banheiro. A cada ida, pequenas mudanças são sentidas: o incômodo vai diminuindo e a coloração muda de laranja escuro para amarelo claro. Dois, três, talvez quatro dias se passam até que tudo volte ao normal.

No total, a recuperação de uma ultra pode levar até uma semana a depender da experiência do corredor e do próprio estilo da prova. Esse ponto é importante: ultras de montanha, com mais ajustes de ritmo em que trocas por caminhadas e corridas são constantes, costumam imprimir danos menores; ultras mais rápidas, onde se corre por quase todo o tempo, são mais severas. 

Severas ou não, todas passam. De lembrança, deixam apenas algumas bolhas nos pés, lembranças fortes e aquela sensação de missão cumprida que costuma vir acompanhada de alguma outra meta. 

E já é hora de começar tudo de novo. 

Definitivamente, entender esse mundo de ultras que tanto amamos não é das tarefas mais fáceis!

  

LCHF: Resultados depois de 5 meses

A última vez que fiz exames foi no final de maio, já faz bastante tempo. Junho se foi, depois julho e, agora, boa parte de agosto. De lá para cá apliquei duas mudanças simples:

  1. Cortei quase que de maneira total a carne vermelha da dieta com o objetivo de diminuir a absorção de ferro. De todos os indicadores, a Ferritina era o mais preocupante por ter crescido de maneira singular desde que iniciei o low-carb e, se não caísse, precisaria voltar à dieta anterior.
  2. Diminui levemente o controle, aumentando o volume de carboidratos diários para algo na casa dos 100g-120g (ao invés de me fixar nos 20-30g). O objetivo era parar de perder tanto peso – estava já quase caindo para a casa dos 66kg e, embora o corpo estivesse respondendo bem sob todos os aspectos, começava a me sentir esquisito demais ao olhar no espelho.

Os resultados depois deste período foram um alívio.

Estado físico geral

Bom… antes de entrar nos indicadores médicos em si, cabe uma avaliação geral do estado físico. Continuo com uma disposição incrível, muito maior do que a que estava habituado pre-LCHF. A capacidade de concentração permanece maior, a energia está sempre em alta e os níveis de endurance estão melhores que sempre estiveram. Para mim, o melhor parâmetro nisso é o tempo que consigo correr confortavelmente sem comer nada (e sem sentir fome também, claro). Esse indicador por si só está incrível: consigo fazer tranquilamente uma ultra de até 60K sem nada e levo até os 90K com uma barrinha de amendoim. Em linhas gerais, isso indica que o corpo está conseguindo utilizar bem a gordura como fonte de energia, uma das principais metas que eu tinha.

Indicadores hepáticos:

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Os indicadores hepáticos, com peso dobrado para mim (uma vez que tive já problemas sérios no fígado) estão estáveis. Na prática, eles já estavam sob controle desde antes da adoção do LCHF, então bastaria mesmo que permanecessem assim.

Colesterol:

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Houve um aumento no colesterol, possivelmente por eu ter ampliado levemente o consumo de carboidratos nas últimas semanas. Ainda assim, o total está dentro dos parâmetros e os outros dois tipos apresentaram melhora.

O HDL, considerado “colesterol bom”, passou pela primeira vez o nível mínimo desejado (60) e foi para 64. O LDL, por sua vez, caiu de 120 para 116, também mostrando melhora.

Aqui vai uma curiosidade: de acordo com a literatura, níveis de LDL costumam aumentar logo que se inicia uma dieta LCHF (principalmente entre os meses 3 e 4). Depois, entre o sexto e o oitavo mês, esses níveis tendem a cair – que é o que já está ocorrendo comigo.

Outro ponto importante: o LDL pode ser dividido em dois padrões de partículas: o padrão A, maior e menos denso, e o padrão B, menor e mais denso. A partícula perigosa mesmo é a de padrão B.

Um exame laboratorial normal não dá essa divisão mas, também de acordo com a literatura médica, pessoas que fazem o low-carb tendem a ter mais partículas do padrão A. Isso significa que um LDL alto não seria necessariamente preocupante, demandando antes um exame mais minucioso para entender a sua composição. Ainda assim, é um alívio também o meu estar caindo.

Ferritina:

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Para mim, era o mais preocupante. Em linhas gerais: a ferritina é uma proteína produzida pelo fígado que regula a quantidade de ferro no organismo e media o processo de inflamação. O motivo da preocupação: níveis excessivamente elevados podem indicar uma sobrecarga de ferro, com efeito tóxico. Ou, em resumo, altos níveis de ferritina podem gerar câncer.

Há alguma literatura sobre níveis elevados de ferritina em ultramaratonistas, relacionado a sobrecarga de ferro a inflamações causadas pelo esporte. Vale conferir aqui. No entanto, o estudo mostra que os níveis voltam ao normal depois de 6 dias, o que significa que tem impacto de curtíssimo prazo.

Ocorre que, por coincidência, os últimos dois exames que fiz foram cerca de 1 semana depois de provas que demandaram bastante (Ultra Estrada Real e Maratona de SP), o que pode ter prejudicado os resultados. Se prejudicaram mesmo, nunca saberei: mas o fato é que – ainda bem – os níveis da proteína caíram bastante.

IMC:

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Há pouco a se falar aqui, exceto pelo fato de que estava perdendo peso demais. O “demais”, no entanto, era uma constatação muito mais estética do que clínica uma vez que tinha um “espaço” razoável ainda de peso a queimar.

Cheguei a ficar com menos de 67kg por um bom tempo e, aos poucos, estou recuperando mais peso pelo menos para me sentir melhor. Mas reforço: isso é puramente estético uma vez que não há nada de errado com nenhuma das medições.

Glicose e Insulina:

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Por fim, há a glicose e a insulina. Ambos estão estáveis, reflexo total da LCHF – mesmo considerando o leve aumento recente de carboidratos na dieta.

Conclusões finais:

Como disse no começo: alívio. Queria muito poder continuar na LCHF por conta dos benefícios físicos que estava já sentindo, mas a Ferritina alta era uma ameaça grande. Esse último exame, aliás, foi um veredito – e me “autorizou” a continuar.

Agora é seguir a vida :-)

Longos nem sempre são longos

Havia compromisso hoje cedo: o longão teria que ficar para depois das 10. 

Sem problemas: já saí pronto e equipado para o que deveria ser mais um dos percursos de desbravamento da selva urbana, iniciando pelo centro e cruzando Memorial da América Latina, passando pela casa do Mário de Andrade, subindo e descendo ladeiras de Perdizes. 

Em um dia de sol a pino e com um calor daqueles que amo, poucos prospectos seriam melhores. 

Só que algo estava errado. 

O primeiro sinal veio pelo ouvido: o fone que usava quebrou de vez, me impedindo de ouvir as instruções de rota sussurradas pelo Google Maps. O percurso teria que mudar, saindo do centro e indo para algum lugar com o qual estaria mais familiarizado. 

Sem problemas. Joguei fora o fone e segui. 

Olhei o Garmin como faço instintivamente, já sem perceber. Segundo sinal: ele estava travado, reiniciando. O mundo digital estava sendo claro comigo: eu estava perdido, ao menos “espiritualmente”. 

Respirei fundo e notei que um cansaço extremo subia pelo corpo: pernas doíam, joelho direito simulava uma pontada, pálpebras pareciam ter sono. 

Me lembrei da semana anterior, onde acumulei talvez mais do que deveria de quilômetros sobre dunas. Olhei para cima: o sol, que sempre me inspirou excelentes corridas por mais ardido que estivesse, parecia severo, quase malvado. 

Olhei para trás: havia praticamente acabado de começar. 

Olhei para a frente: o mais sensato seria seguir uma reta até em casa e dar o dia por encerrado. 

Foi o que fiz. 

O menor longão da história acabou com pouco mais de 3km em 18 minutos. 

Hoje, o corpo queria descanso – e ignorá-lo realmente não parecia boa ideia. 

  

Sobre dores e medos

OK, hoje já era para eu fazer um trote leve de uma hora pelo parque. 

Afinal, é quarta, terceiro dia depois da ultra em Atibaia e período no qual, normalmente, o corpo já está inteiramente recuperado. Foi assim com Comrades, afinal… 

Só que a realidade está diferente. Bem diferente. 

A sola do pé direito ainda dói, as coxas cismam em dar pontadas e as pernas meio que falham de leve no simples ato de caminhar do ponto a ao ponto b. 

Há um nome para essa dor: altimetria. 

Os 90km de Comrades, afinal, não chegam nem perto do tanto de subida técnica que enfrentei nos últimos quilômetros do domingo, terminando a prova no topo da Pedra Grande. 

E olhe que até subi bem. Subir em trilhas técnicas é algo que faço com relativa tranquilidade – bem mais, pelo menos, que descer, quando uma onda desnecessária e meio constrangedora de medo de cair parece dominar cada um dos meus instintos. 

O instante em que tive que descer um trecho do percurso de volta, quando me perdi, para apenas depois prosseguir com a escalada, foi algo próximo do vergonhoso.

Mas vamos por partes. 

Primeiro, dando mais tempo ao corpo para que ele se cure e sem forçar nada: a última coisa que quero é algum tipo de lesão. 

E, segundo, dando algum jeito de treinar melhor as descidas. 

Como, ainda não sei. Os parques de São Paulo não são exatamente terrenos técnicos. Mas algum jeito há de ser dado. 

  

Checkpoint: Corpo vencendo o Garmin, 50K de Atibaia se aproximando

Até o começo desta semana, minha maior preocupação era em voltar ao normal. Bom… preocupação talvez seja uma palavra forte demais, dado que eu não estava sequer pensando muito sobre o assunto…

Mas o fato é que algo ainda não estava tão certo com o corpo desde que voltei da Comrades. 

Foi uma questão de dar ouvidos e tempo ao corpo. Passadas as primeiras semanas, o único efeito residual, meio que fruto de um rebote, tem sido um aumento na velocidade. 

Fora um único treino mais complicado na quarta de manhã, quinta, sábado e domingo foram rodados em uma velocidade de cruzeiro absolutamente suave. Por suave, entenda mais rápido e com bem menos esforço que o normal. 

O longão de sábado foi especialmente curioso neste sentido, até porque costumo rodar propositalmente mais devagar quando o volume cresce. E até tentei no começo, mas o corpo começou a estranhar o pace de 6’30″/km de tal maneira que decidi ignorar o relógio e simplesmente obedecer as pernas. 

E assim foram 30km na casa dos 5’50”, um ritmo que eu, pelo menos, considero forte para este tipo de rodagem – especialmente considerando que boa parte dele foi feito na escuridão da madrugada paulistana, com direito a alguns tropeços e atenção redobrada no caminho. 

Mais curiosa ainda foi a reação do corpo: nada de dores, de incômodos, de reclamações. Estava bem. Simples assim. 

Decidi tirar a prova hoje pela manhã, aproveitando o dia incrível para fazer a trilha do Ibirapuera e a mega-íngreme subida da Ministro Rocha Azevedo que, aliás, já se incorporou ao meu cotidiano. Zero de problema. Foram 13km em um ritmo mais rápido que o de sábado, inclusive – e também com zero de esforço. 

Semana que vem tem novidade: a ultra de Atibaia, com 50K mais “roots” para auxiliar na preparação da Indomit Costa Esmeralda em novembro. Ajudar, claro, do ponto de vista mais de preparação mental que qualquer coisa: o percurso, que nem aparece no site do evento, deve ser daqueles pesados, técnicos e com subidas capazes de fazer jorrar o ácido láctico. 

O plano é simples: me acostumar a ambientes mais técnicos. Assim, nada de preocupação com pace, com horário ou coisa alguma. No meu entendimento, a missão estará cumprida apenas se eu cruzar a linha de chegada com a sensação de ter me divertido. 

Esperemos que funcione.

  

Checkpoint: Mente e corpo se desencontrando

É curioso como o corpo tem o seu próprio tempo, por vezes desconectado do que se espera a partir de teorias ou mesmo experiências alheias. 

Voltei bem da África, pronto para ganhar as ruas de volta já na quarta imediatamente após a Comrades. Fiz outro treino na quinta, outro no sábado. 

De repente, depois do longão (que, na verdade, não chegou a ser tão longo assim), a musculatura começou a reclamar. Alto. 

Sem problemas: desisti das ruas na terça – mas segui adiante na quarta, já devidamente motivado. 

Não consegui me segurar: na quinta, ao invés de 1h leve, fiz 1h30 com direito a dois tempo runs de 30 e 20 minutos cada. Mas estava inteiro e segui com alguns amigos para o Pico do Jaraguá, onde fiz duas subidas e descidas somando pouco menos de 900m de ganho altimétrico. Curiosamente, voltei muito, mas muito inteiro. Nada de dores e uma sobra de energia impressionante. 

Até hoje, pelo menos. 

Acordei com os músculos meio colados, tensos e fui para 13k na trilha em torno do Ibira – não aproveitar o céu azul em um domingo cedo me parecia criminoso. 

Resultado: agora à noite, enquanto escrevo este post, o corpo todo parece reclamar. 

O momento que estou agora é esquisito: hiper motivado e com uma ansiedade monumental de passar horas em qualquer que seja a trilha, mas com uma fadiga poderosíssima. Uma espécie de descolamento de mente e corpo, creio. 

Hora de dar tempo ao tempo. 

Amanhã é dia de descanso: vamos ver se o corpo alcança a mente para uma sessão com 15 minutos de tempo run na terça. Se não alcançar, rearrumo a programação – mas nada de forçar. Se conseguir, pelo menos. 

No final do mês, afinal, tenho 50K em Atibaia para os quais quero estar absolutamente em forma! 

  

Parando antes que mais virasse demais

Já nos primeiros passos, os tornozelos começaram a pedir clemência.

O corpo parecia duro, tenso, quase um robô enferrujado. Na esperança de que fosse apenas um processo natural de aquecimento, persisti.

Teria uma hora e meia de treino em intensidade relativamente alta antes de um dia de descanso e do ultra longão do sábado. Teria.

Em apenas mais um quilômetro deu para ver que o corpo realmente não estava a fazer birra. Não havia sinais assimétricos indicando alguma lesão ou nenhum tipo de dor mais aguda em um ponto específico: mas algo estava realmente errado.

A cada passo, o corpo parecia piorar: os tornozelos ficavam mais rijos, panturrilhas e coxas davam pontadas, abdômen ensaiava reclamações mais agudas. A voz interna que sempre pede para ouvir melhor as próprias dores ficou mais alta, mais estridente e imperativa: era hora de parar.

Não sei se persistir me quebraria de alguma maneira mais drástica – mas preferi não descobrir da pior forma. 

Antes que mais virasse demais, dei meia volta e retornei à minha casa fechando apenas 5km a um ritmo médio de cerca de 5’40″/km. 

Agora, enquanto escrevo este post uma hora e meia depois de decidir dar o dia por encerrado, ainda sinto o corpo reclamar relativamente alto. Tudo bem: a esta altura, não há nada que eu possa fazer.

Pelo menos até amanhã me focarei no bom e velho descanso, sem nenhum remédio ou medida mais drástica. Para as ruas agora, apenas no sábado!