Indomit Bombinhas e “as coisas” do trail running

Tem coisas no universo do trail running que são impressionantes.

Ficar com (tanta) vontade de correr essa prova de novo, depois do perrengue enlameado que foi a edição desse ano, é uma delas:

7ª Edição Vila do Farol INDOMIT Bombinhas – 15 de Agosto de 2015 from BOMBINHAS ADVENTURE RUNNERS on Vimeo.

Plano Estrada Real: Definindo a data

Hora de voltar ao Plano Estrada Real!

De todas as decisões, a mais difícil já foi tomada: o percurso. Serão 88km entre Santa Bárbara e Ouro Preto, preferencialmente com largada bem cedo e chegado ao cair da noite.

Tenho dois parâmetros para uma distância dessa: Comrades, com 89km, que fiz em pouco menos de 11 horas, e a Douro UltraTrail (DUT), de 80km, que fiz em pouco mais de 16 horas. E há uma diferença fundamental entre essas duas referências: por ser feita em asfalto, Comrades permite uma velocidade maior e, consequentemente, uma chegada ainda sob a luz do dia.

A DUT foi feita quase que inteiramente em montanhas, com um ganho altimétrico de 4,5 mil metros. Saí antes do sol nascer e cheguei bem depois dele se por.

Como não estarei em uma prova organizada, com fitas de marcação de percurso estabelecidas etc., chegar ainda com alguma luz do dia é importante. Estou considerando essa nova ultra com uma dificuldade intermediária entre as minhas duas referências – o que deve representar algo como 13 ou 14 horas de corrida.

Isso significa que, se sair às 5 da manhã, chegarei às 7 da noite. Não dá para dizer que contarei com a claridade absoluta – mas será o suficiente para me guiar em segurança até a “linha de chegada”.

Esse é o primeiro elemento importante na decisão da data de partida: quanto mais próxima do verão, mais tempo poderei contar com a luz do sol. Em tese, isso deixaria os meses de janeiro e fevereiro como ideais.

No entanto, fiz um levantamento climatológico e cheguei às tabelas abaixo:

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Os meses de novembro a março são os mais úmidos na região, com um acumulado que varia de 200mm a 320mm de chuva. E, considerando o nível da seca em que estamos agora aqui no sudeste, tudo indica que a chuva virá com fé.

Há um outro elemento nessa tabela acima que fica mais claro aqui:

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Apesar do calor não ser tão forte na região, ela começa a cair mesmo no mês de abril (variando entre 13,4 e 24 graus). Março é um pouco mais quente – mas a mínima de maio despenca para a casa dos 10 graus. Veja a flutuação aqui:

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Apenas para contextualizar, a situação ideal de uma ultra assim é:

  • Temperaturas mais amenas, suportáveis
  • Período com dias maiores do que noites
  • Clima mais seco, com uma probabilidade menor de chuvas

O período ideal, portanto, fica entre o meio de março e o meio de maio. Simples assim.

Mas falta uma outra coisa na análise: um feriado. Sim, porque abandonar o trabalho para correr no meio de Minas não é exatamente uma coisa simples!

Pelo calendário, no entanto, há um feriado que cai no começo de abril – e que pode ser PERFEITO: a sexta-feira santa, no dia 3 de abril. Não é exatamente o meio do mês, mas com certeza dá para o gasto.

Aliás, é até melhor do que a encomenda: as cidades da região costumam ficar incríveis nessa época por conta das celebrações religiosas mais tradicionais.

Resumo da ópera: data definida.

O Plano Estrada Real será executado no sábado, 4 de abril de 2015.

Dia 3 será destinado à organização local; dia 4, ao retorno para Sampa.

Perfeito.

Atualização de 13/11/2014: Percurso e informações gerais estão já plenamente organizados em uma página única: www.rumoastrilhas.com/ultraestradareal . Para saber mais e se inscrever, clique aqui.

Correndo dentro do silêncio

Um amigo uma vez me disse que a melhor maneira de representar o silêncio no teatro era inserindo pequenos barulhos em cena: cantos de grilos, sopros do vento, passos cortando o vazio. Curiosamente, são os pequenos sons – e não a ausência deles – que definem o silêncio a partir do contraste.

Silêncio.

Quando se está buscando algum tipo de recuperação, quando se quer sair de um estado de estafa física e mental, poucos remédios são mais perfeitos que ele. O problema é que costuma ser algo difícil de se conseguir: quando não há tarefas do dia gritando em alto tom a sua existência, há preocupações do dia seguinte ecoando entre as orelhas.

Nesse constante zunido, qualquer tipo de calma, de paz de espírito, se faz quase impossível.

Quase.

Na segunda-feira saí para uma corrida diferente. Era fim de tarde, ainda claro devido ao horário de verão, e com o tempo carregado da eletricidade que costuma preceder a chuva.

Saí sem telefone, sem música, sem podcast ou audiobook. Fui absolutamente só, ignorando a leve garoa que já começava a cair.

Estados Unidos, Brigadeiro, Ibirapuera. Os carros viraram vultos semi-silenciosos navegando, nervosos, pelas ruas úmidas. Tudo ficou distante, meio apagado – exceto pelo ritmo das passadas amassando poças e folhas e pela pulsação carregando o sangue corpo afora.

Passos ritmados. Pulso. Buzinas distantes. Folhas. Brisas súbitas soprando contra os ouvidos. Pássaros cantando. Suor pingando.

Noite caindo.

Para o mundo, a cena provavelmente carregava toda uma orquestra de sons desconexos, desafinados, fora de foco.

Para mim, era o mais perfeito silêncio.

Pela primeira vez em muito tempo senti a bênção desse silêncio curando os sintomas do overtraining a cada passo. Aos poucos, mas de maneira persistente.

Forte, mas não súbito; constante, mas não irritante.

Em um dado momento, foi como seu eu não estivesse correndo no parque e sim dentro de mim mesmo. De um sonho afônico.

De repente, uma solidão sem tamanho pulou sobre o meu ombro, forçando uma autopiedade que beirou a tortura. Durou alguns minutos e, em uma espécie de efeito catártico, quase me fez chorar. Quase.

Foi o tempo de respirar fundo e, no instante em que o cansaço mental foi exalado juntamente com algumas gotas de suor e chuva, a endorfina entrou pelo pulmão e se espalhou. Livre, inteira, intensa.

O ar que faltava nos dias anteriores veio. O mau humor se foi. O cansaço foi transferido da alma para as pernas que, de repente, sentiram os quilômetros que estavam percorrendo. Tudo foi substituído por uma sensação de pura paz.

A essa altura, estava encharcado de chuva e suor. Estava fisicamente pela metade – mas mentalmente inteiro.

Pela primeira vez em dias, estava bem.

Os problemas não sumiram, as preocupações não evaporaram, o mar de coisas para fazer se manteve intacto.

Mas, de alguma forma, o silêncio me deu de presente a sensação de que tudo dará certo.

Já não era sem tempo.

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Nadando pelas ruas de outros tempos

A ideia era fazer um trote leve, de 45 minutos. 

Saí cedo, antes da pequena Ílhavo, ao norte daqui de Portugal, acordar, e segui rumo ao centro velho. Há uma pequena ciclovia que margeia um riacho até as proximidades da Câmara Municipal – caminho perfeito para quem não quer se perder – e que segui. 

Fluindo bem, quase flutuando. 

Até que a garoa que apenas ameaçava aparecer se transformou em uma tempestade de proporções bíblicas! E onde se esconder? Pelas ruelas medievais do centro, a opções são nulas.

Assim, preferi me entregar aos humores de Iansã e praticar um esporte entre a corrida e a natação. 

No começo, um leve medo de pegar alguma gripe logo às vésperas da DUT chegou a passar pela cabeça. Mas, depois de tanta corrida sob chuva – a última tendo durado 6 horas e meia – me liguei que esse medo era no mínimo desnecessário. 

E saí cidade afora, fazendo ainda algumas voltinhas a mais para conferir áreas mais antigas com aquelas casas típicas portuguesas enfileiradas ao lado de igrejas dos séculos XVI e XVII. 

Quando voltei, estava encharcado – mas revigorado.

No final, não é a extensão de uma corrida ou o tempo sob os pés que faz as endorfinas agirem: é a capacidade de se extrair o máximo de cada passada, de cada minuto entre o céu (esteja ele seco ou molhado) e o solo (seja de asfalto ou de terra). 

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Lição aprendida com o Indomit: tipo de terreno importa tanto quanto distância e altimetria

Quando se faz qualquer tipo de transição, costuma-se levar em conta apenas as variáveis já conhecidas. No meu caso, a mudança do asfalto para a trilha incluiu treinos e análises sobre os dois principais parâmetros que considerava em provas: distância e altimetria.

Assim, todo percurso de prova era encarado de maneira bidimensional: contavam quanto eu correria e quanto subiria. Só.

Mesmo quando ouvia que percursos eram excessivamente técnicos o que considerava apenas eram graus mais severos de inclinação – como se isso bastasse.

Aí veio a Indomit Bombinhas e uma lição que todo corredor em transição deve ter.

A altimetria da prova não é tão severa: cerca de 1.200 metros ao longo de 42K – menos do que faço em um longão cotidiano de sábado. As subidas e descidas, em circunstâncias normais, não seriam tão tensas e até permitiriam uma visão que tendesse a esse bidimensionalismo do asfalto.

Mas, em trilhas, há sempre o elemento inesperado. No caso de Bombinhas, a chuva.

Com chuva, a terra vira lama, as descidas viram escorregadores, as subidas viram um desafio mais mental do que físico.

Com chuva, os olhos se focam no chão (e não na paisagem), fazendo o tempo se esticar para além do marcado no relógio.

Com chuva, outros corredores diminuem o pace em trilhas de uma via só, forçando uma queda talvez mais desestimulante do que o efetivamente necessário.

Com chuva, tudo muda.

E aí veio a lição, mesmo que com alguns dias de atraso: o tipo de terreno (aliado, às vezes, a imprevistos meteorológicos) é uma variável tão importante quanto distância e altimetria. A chuva é apenas um exemplo: neve, areia de praia, dunas, trechos que incluam pequenos riachos, enfim: sempre há algo que deva ser levado em consideração.

As quase 6 horas e meia que passei no Indomit – que, diga-se de passagem, foi uma prova sensacional – me deram essa dura (e muito bem vinda) lição.

Agora é digeri-la e usá-la mentalmente em outras provas.

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Clima animador para a Indomit?

Já fiz algumas provas sob chuva pesada (como a Maratona do Rio de 2012) e sob ventos de mais de 50km/h (Ultra de Two Oceans, 2013). Mas todas elas foram sempre no asfalto, o que ajuda a ter um tipo de controle maior do ritmo e das circunstâncias como um todo.

Em trilha, claro, isso muda. Para começo de conversa, há lama. Muita lama, dependendo da água que vier de cima.

Há trechos escorregadios, poças que podem ficar do tamanho de pequenas piscinas e assim por diante. Na minha cabeça, aliás, passar por uma prova de trilha com condições pouco convidativas é uma experiência que todos deveriam ter.

Mas poxa…. não precisava ser exatamente na minha estreia em corridas de trilha mais longas!

Ontem à noite olhei a previsão para Bombinhas no sábado, data da Indomit: 90% de chance de chuva!

Parece que os 42km serão (literalmente) regados de mais emoção e com mais dificuldades! Não vou dizer que fiquei entusiasmado com isso não… mas, também, não dá para negar que essa falta maior de controle sobre fatores externos faz parte da graça de se correr em trilhas.

Tendo dito isso, que venham o sábado e a Indomit! E que cheguem com toda a ira que uma trilha insana tiver para mostrar!

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