Baqueado

Como se não bastasse, logo agora que estava voltando ao normal, uma gripe do tamanho do medo me tomou de assalto. 

Correr? Só se fosse louco. Febre, dores no corpo, moleza. Tudo.

Talvez seja tudo parte da mesma reação ao cansaço mental e físico, que soma um possível excesso de provas a um ano realmente caótico. Talvez. 

A única certeza que tenho é que estou bem cansado desse cansaço. 

  

Checkpoint: Tentando me livrar da angústia

Quer irritar alguém que tem como principal remédio mental passar horas a fio correndo por ruas e trilhas? Deixe a sua mente motivadassa e as pernas mastigadas de tanto cansaço. 

Pouca coisa resume melhor esse meu fim de novembro. Exausto sem “motivo de curto prazo”, já que acumulei apenas 40 míseros quilômetros na última semana, cheguei a cancelar meu longão de ontem por pura incapacidade física. A dor, embora não lascinante, era de uma constância insuportável. 

Em comparação, era como estar com uma permanente febre de 37: nada que prendesse o corpo à cama mas, ao mesmo tempo, o suficiente para barrar qualquer atitude mais “viva”. 

O que fazer em situações assim? Dar tempo ao tempo e tirar uma espécie de férias pode, afinal, curar o corpo e afundar a mente na areia movediça do sedentarismo conformista, preguiçoso. Para alguém com a minha história, que teve a vida literalmente salva pela corrida, isso assusta demais. Forçar a barra, então? E se o que está ruim piorar? Que alternativa será deixada? 

Em meio a esses conturbados pensamentos, calcei o tênis, desliguei a angústia munchiana e saí.

A meta: um “longuinho” de 20km por um dos meus roteiros preferidos, o centro de SP. 

Por um tempo, devo dizer que foi uma boa decisão: sempre se pode confiar no inspirador contraste entre a imponência neo-clássica do Martinelli e a podridão dos mendigos da Sé. Há tanta beleza decadente, tanta promessa de futuro chafurdada no mais abandonado dos passados, que se consegue praticamente sentir o tempo em cada passada. 

O longuinho ajudou – mas também cansou mais do que deveria, um lembrete do péssimo estado geral em que o corpo está. Não vou dizer que me arrastei até em casa: o descanso de ontem fez algum bem, afinal. 

Mas o roteiro do centro à Liberdade ao Parque da Aclimação e de volta via Paulista, que poderia ter sido bem mais incrível, acabou mais sofrido que o esperado. 

Mas quer saber? Pelo menos encheu o peito com uma dose de endorfina a mais. 

Que essa dose dure e inspire a próxima semana. 

   
 

No running day

Hoje era dia de longão. Dia de rodar uns 30K e fechar os 70 programados para a semana. 

Dia de experimentar a mochila de hidratação nova. 

Dia de passar algumas horas imerso em mim mesmo e cruzando as trilhas que se escondem por São Paulo. 

Não deu. 

Acordei com a perna absolutamente dolorida, como se tivesse sido mastigada por um monstro inesperado durante a noite. Motivo? Em tese, nenhum: desde o final da Indomit, minha semanas tem sido conservadoras: uma de 30K, outra de 50 e, nesta, havia acumulado apenas 40. Pouco para quem está acostumado a uma média de 75-85…

Mas, ao que parece, o corpo ainda não está plenamente recuperado do acúmulo de esforço do ano, incluindo não apenas os 100K da Indomit no começo do mês como também os 75 de Bertioga-Maresias 3 semanas antes, os 50K de Atibaia antes dessa, os 87K da Comrades, os 88K da Ultra Estrada Real, os 50K pela Serra do Mar. 

Ao que parece, o cansaço bateu todo junto. 

Forçar a barra não me pareceu uma boa ideia. Apesar do dia estar lindo, da motivaço estar alta e da sensação de não sair para as ruas em um sábado ser quase assustadora, não havia muito o que fazer: saída cancelada.

Talvez eu precise de algum período a mais de descanso do que o originalmente previsto. 

Descobrir que não somos super-heróis é um saco. 

  

De volta

Voltar, depois de um esforço grande, sempre dói um pouco. O corpo parece meio enferrujado, os ossos reclamam, perde-se a noção de ritmo. Mas, ainda assim, faz bem.

Principalmente em um dia com quase 30 graus e um sol ardendo sobre a cabeça: sou apaixonado pelo calor. E, assim, saí hoje pela primeira vez desde a Indomit para um trote pela USP, somando pouco menos de 20K em um ritmo leve, confortável (dentro do possível) e feito para realinhar o corpo.

Funcionou.

Primeiro, porque cheguei mais tarde à USP, por volta das 10 da manhã, quando a maior parte dos corredores já estava de saída. Tinha o percurso mais livre e o dia mais quente para eu aproveitar.

Pude também rodar solto pela pequena trilha perto da subida do Matão, matando um pouco das masoquistas saudades que confesso que senti de lá de Bombinhas. A trilhinha da USP, no entanto, é bem, BEM mais leve. Carrega o ar fechado e abafado da mata atlântica, tem todos os sons de insetos que se pode esperar em uma floresta, um piso levemente úmido e feito de terra com folhas – mas sem nenhum trecho técnico.

Foi, em uma palavra, perfeito para que eu pudesse fazer as pazes com as trilhas que tanto me castigaram no sábado passado.

  

Depois disso, a subida do Matão me aguardava camuflando o calor com fios refrescantes de brisa enquanto fluxos bem vindos de pura endorfina atenuavam a percepção de esforço.

Foi um daqueles momentos em que nos sentimos no lugar perfeito e na hora exata.

Aquela subida foi precisamente o que eu estava buscando quando saí de casa hoje: a sensação de fluidez do corpo, a brisa acalmando o suor, os sons de passos esforçados contra o absoluto silêncio da mata que circunda tudo, o céu azul fazendo o chão brilhar.

Perfeito.

Não poderia ter pedido nada a mais desse dia.

Estou de volta.

  

Checkpoint: Sistemas reiniciados e novos em folha

Nada como uma semana depois da outra.

Estafa, desmotivação, sonolência: esses foram apenas três dos adjetivos que marcaram a semana passada. Mas, às vezes, basta identificar um problema pra resolvê-lo.

No domingo passado, respirei fundo. Revi metas, mergulhei em sites e vídeos sobre os próximos desafios para dar uma carga extra à motivação – base de tudo – e recomecei. Simples assim.

Aliás, simples como nas ultras. Nelas, sempre há aquele momento esquisito, escuro, em que tudo parece estar errado e desconectado. O cansaço se acumula, a linha de chegada parece mais distante, o corpo faz de tudo para desistir.

Mas aí basta afastar a negatividade da mente e prosseguir com um passo depois do outro, sem parar. Com o tempo, as nuvens negras cedem, o ar melhora e tudo fica impressionantemente bem. 

Bem até demais, se poderia dizer.

Nesta semana fechei 90km, mais que o planejado originalmente. Uma surpresa, diga-se de passagem, dado que na semana passada mal estava conseguindo caminhar de tanto cansaço.

Adicionei mais subidas, redescobri rotas que estavam esquecidas e aproveitei cada segundo ao ar livre – tanto no sol escaldante quanto na garoa insistente desse clima híbrido e esquisito que tem caracterizado nossos tempos.

Semana que vem a pegada será mais forte: estou, afinal, no pico do treino para a Bertioga-Maresias. Mas quer saber? É sempre inusitadamente perfeito quando picos de treino vem acompanhados mais de sorrisos do que de suspiros.

   
 

Checkpoint: Cansaço além do normal

Ultimamente tenho a sensação de que virei um velho rabugento. De 3 palavras que saem da minha boca, pelo menos uma é ‘cansaço’. Ou ‘exaustão’. 

Isso não costuma ser bom sinal. 

Olhei para a minha planilha de treino: honestamente, não me parece que o problema esteja nela. Estou ritmado, encaixado, rodando pequenos ciclos de duas semanas puxadas e uma mais leve. Mas ainda assim há algo que não está fazendo sentido. 

Nesta semana que se encerra hoje – a ‘leve’ – deveria ter feito 75km. Não consegui. 

Transformei as 3 horas de longão de ontem em 1 e estendi apenas um pouco o que tinha originalmente programado para hoje. Fechei 65. 

Permaneço cansado, tanto quanto antes. 

Ao longo desta semana, acordar cedo tem sido difícil, quase impossível. Levantar da cama, pior ainda. 

À noite, luto como um gladiador para manter as pálpebras abertas por alguns minutos depois das 22. 

Trabalho? Sim, está exaustivo como poucas vezes antes. Mas não acho também que seja por aí até porque, no frigir dos ovos, tudo vai relativamente bem. 

Talvez não seja ‘só isso’, mas sim ‘também isso’. Talvez seja um acúmulo de coisas que decidiram reclamar de dentro para fora. Bom… os sinais da reclamação estão claros. 

Também está claro que a nutrição pode estar ajudando a piorar o quadro: faz meses que diminuí bruscamente meu consumo de ferro para baixar a Ferritina. Baixei – mas talvez o preço de um possível exagero esteja sendo uma anemia. Talvez.

Não sou médico, então me resta fazer novos exames e considerar tudo, todo o quadro que se pinta à frente. Considerar e entender. 

Há, todavia, o lado bom: se já está claro que algo está errado, então basta investigar e resolver. O primeiro passo, pelo menos, já foi dado. 

   
 

Recuperação

Todo ano há aquele período em que o cansaço se acumula e se apresenta de maneira quase intolerável. São dias em que acordar se torna tarefa hercúlea, longões soam como ultras por si só e tudo o que a musculatura mais deseja é uma trégua.

É como se fosse uma depressão do corpo. 

Contra ela, há horas que pedem combate, que exigem que se force as pernas até as trilhas. Há outras, no entanto, que sopram a necessidade de cautela para que o cansaço não gere lesões.

É onde entra o overtraining, aquela palavra que volta e meia aparece na porta de casa.

Essas semanas tem sido exaustivas além do normal. A pressão no trabalho tem moído as forças célula a célula e, de fato, cada soar do despertador tem sido uma tortura.

Hoje, para o bem do próprio treinamento, preciso de um descanso.

Desliguei o despertador.

Virei de lado.

Cancelei o longão da manhã.

Preciso me recuperar um pouco mais antes de seguir em frente.

  

Checkpoint: Recuperação e teimosia

Foi, sem dúvida alguma, uma semana de conflitos. 

Semana que já começou com o contraste das deliciosas corridas em dunas cearenses de dias anteriores versus o concreto e o cinza de São Paulo. 

Na semana passada, estava inteiro e voando sobre terrenos difíceis; nesta, dolorido até a alma no mais liso dos asfaltos. Na semana passada, acordava sozinho às 5:30 da manhã sedento pelo sol e os novos percursos; nesta, me senti quase como um viciado em crack, espremendo uma corrida entre as 20 e as 21 horas na mais pura fissura.

Fiz 55km nos últimos sete dias – exatamente metade dos 7 anteriores. E não estou em perfeito estado. 

Verdade seja dita, fui alertado repetidas vezes pelo corpo de cancelar uma ou duas corridas para evitar problemas mais sérios. Ouvi apenas parcialmente: ontem de manhã, por exemplo, cortei o longão ao cabo de 3km; mas, à noite, acabei fazendo mais 12 apenas para sentir a rua.

Por sorte, 55km não é lá tanto assim – e quem sabe não tenha que pagar o preço pela óbvia teimosia.

Pelo menos é o que espero. 

Teimosia, aliás, é exatamente isso: a forma mais desesperada e tola da esperança.

   
 

Longos nem sempre são longos

Havia compromisso hoje cedo: o longão teria que ficar para depois das 10. 

Sem problemas: já saí pronto e equipado para o que deveria ser mais um dos percursos de desbravamento da selva urbana, iniciando pelo centro e cruzando Memorial da América Latina, passando pela casa do Mário de Andrade, subindo e descendo ladeiras de Perdizes. 

Em um dia de sol a pino e com um calor daqueles que amo, poucos prospectos seriam melhores. 

Só que algo estava errado. 

O primeiro sinal veio pelo ouvido: o fone que usava quebrou de vez, me impedindo de ouvir as instruções de rota sussurradas pelo Google Maps. O percurso teria que mudar, saindo do centro e indo para algum lugar com o qual estaria mais familiarizado. 

Sem problemas. Joguei fora o fone e segui. 

Olhei o Garmin como faço instintivamente, já sem perceber. Segundo sinal: ele estava travado, reiniciando. O mundo digital estava sendo claro comigo: eu estava perdido, ao menos “espiritualmente”. 

Respirei fundo e notei que um cansaço extremo subia pelo corpo: pernas doíam, joelho direito simulava uma pontada, pálpebras pareciam ter sono. 

Me lembrei da semana anterior, onde acumulei talvez mais do que deveria de quilômetros sobre dunas. Olhei para cima: o sol, que sempre me inspirou excelentes corridas por mais ardido que estivesse, parecia severo, quase malvado. 

Olhei para trás: havia praticamente acabado de começar. 

Olhei para a frente: o mais sensato seria seguir uma reta até em casa e dar o dia por encerrado. 

Foi o que fiz. 

O menor longão da história acabou com pouco mais de 3km em 18 minutos. 

Hoje, o corpo queria descanso – e ignorá-lo realmente não parecia boa ideia. 

  

Moído

A semana está leve. Levíssima, dado o volume que vem pela frente e os quilômetros que deixei no Ceará. Ao todo, fiz 32km nos últimos 3 dias e terri mais 33, aproximadamente, no final de semana.

O problema é que, aparentemente, os quilômetros cearenses vieram comigo de volta para São Paulo. O exagero de fazer 8 dias sequenciais recheados com dunas e mais dunas de areia fofa parecem ter deixado um legado semelhante ao que apareceu depois de emendar Comrades com os 50K de Atibaia. 

As pernas doem, como se estivessem moídas, e o cansaço geral está além do que deveria. Não há nenhuma dor mais preocupante – ligamentos, joelhos, articulações e ossos estão perfeitos, o que deixa afastado algum risco maior de lesão. Mas, claro, há uma luz amarela acesa.

Veremos como o corpo reagirá ao descanso de amanhã e à conclusão mais leve, com menos volume e menos intensidade, dessa semana. 

E torçamos para que a recuperação venha com um pace mais rápido que o que estou conseguindo manter!