Na gangorra da gripe

Está difícil ficar realmente curado. 

Não que esteja com nada grave, claro: estou apenas com uma gripe que se instalou quando pisei nos Estados Unidos sob o efeito do furacão Erika, fazendo ar e água virarem praticamente o mesmo elemento. Mas isso foi há mais de uma semana. 

Melhorei logo depois e saí para correr. Piorei. 

Repeti a receita. O resultado – pasmem – também se repetiu. 

E, desde que voltei a Sampa, o tempo tem estado da mesma forma. Assim:

  

De manhã, lá no começo da semana? Saí já debaixo de toró, algo que me arrependo bastante.

De noite: pego de surpresa com aquela garoa fina e fria. Péssima. 

Enquanto isso, a gripe segue em uma gangorra insuportável. Hoje, pelo menos, estou melhor. 

Tomara que permaneça assim amanhã. Uma coisa é certa: é bom o tempo colaborar com o corpo, pois a mente continuará levando-o até a rua faça chuva ou faça sol! 

Correria pura

Lá fora, um dia ainda escuro convidava os lençóis a ficarem mais pesados e confortáveis. O barulho da chuva ninava crianças e adultos e a temperatura meticulosamente ajustada do ar gerava uma sensação de paz quase uterina. 

Até que o despertador tocou. 

Cenário quebrado, era hora de enfrentar a chuva em busca de 15km com direito a três sessões de 15 minutos cada de tempo runs. Perfeito para começar a semana. 

Já saí do prédio ensopado, tomando banho de cima e dos lados quando os poucos carros que atravessavam a urbe às 5:15 da manhã decidiam surfar. Pulei poças, desviei aguaceiros e cruzei o que mais parecia um rio de lama até entrar no bom e velho Ibira. 

Lá, a chuva apertou. Muito. 

Tudo bem: gente não derrete. 

Apertei o passo, quase emendando um tempo no outro e aproveitando que a tempestade havia deixado todo o Ibirapuera para mim. Uma volta, duas voltas, retorno. 

As sessões de 20km da semana passada fizeram efeito: cheguei com a sensação de que ainda tinha muito gás para rodar. Nada de exageros: era hora de subir e tocar o dia que prometia ser bem mais intenso que eu imaginava. 

Tomei banho. 

Acordei minha filha e a arrumei para a escola. Fiz café. Me arrumei.

Desci para esperar a van escolar até perceber que não havia avisado que estava de volta a São Paulo e, portanto, ninguém passaria no prédio para pegar minha filha. 

Subi de volta e peguei a chave do carro. Olhei para o relógio: tinha meia hora para um call inadiável. 

Desci com ela no colo e, em tempo recorde, a coloquei na cadeirinha. Voei até a escola. Cheguei em 8 minutos, ao que se somaram mais 2 ou 3 até que alguém a pegasse do carro e a levasse para dentro da escola. 

Voltei: mais 12 minutos. 

Subi voando pelas escadas para não perder tempo: faltava ainda 3 minutos. 

Abri a porta esbaforido e ligue o Skype no exato instante que meu call começou a me chamar. Ufa! 

15 minutos depois, estava liberado. 

Para começar o dia, claro. Afinal, ainda nem eram 9 da manhã!

  

Iniciando o vôo com um bem vindo descanso

Faz bem voltar ao normal. 

Olhei minha planilha ontem à noite: nada de treino hoje, segunda, e nada de sessões seguidas de 20km. Apenas 1 de 15km e duas de 10 com cargas extras de intensidade. 

No sábado, 3h30: estava com saudade de corridas mais longas assim.  

E mais: hoje, as pernas parecem estar adorando este descanso, recuperando-se mais a cada hora. A partir de agora, exceto caso alguma coisa diferente ocorra, será um “vôo único” até a Indomit, com escala apenas na Bertioga-Maresias. Nada mais de improvisos e malabarismos.

Hora de me focar no treino. 

  

Checkpoint: Semana estranha, missão cumprida

Teve de tudo: insolação, febre, gripe, falta de acostamento para correr, 40 graus, umidade maior que o Oceano Atlântico. Me senti até um velho rabugento de tanto que xinguei Walt Disney por ter escolhido um pântano infernal para erguer o seu parque.

Em cima de tudo isso, claro, tinha que trabalhar “normalmente” e encaixar, nas madrugadas, 75km. Ou 55, já que os 20 finais foram feitos hoje, já de volta a Sampa.

Nem acreditei quando dei os passos finais do dia de hoje, depois de ter rodado pelo nosso centro decrépito e pelo sempre maravilhoso Ibirapuera: missão cumprida. 

No total, foram 3 sessões de 20km e 1 de 15km, preenchendo a semana com pequenos longos antecedendo verdadeiras ultras diárias pelos parques da Florida. Mas isso é outra história para algum outro blog.

Por enquanto e por aqui, é hora apenas de encerrar a semana com aquela sensação de incredulidade por ter realmente conseguido executar o planejado.

Agora é voltar à rotina.

   
 

Queimado pelo calor do sul dos Estados Unidos

35-40 graus com umidade acima dos 90% intercalados com períodos em locais com ar condicionado digno da Sibéria: não há corpo que aguente.

Ou até pode haver – mas não é o meu. Já fui dormir ontem sem voz, com dor de cabeça e um teco de febre. Acordei às 5 para correr… mas desisti. Há dias em que o melhor a fazer é ceder ao corpo, dando tempo para que ele se recupere. 

Passei o dia com idas e vindas do mal estar… mas melhorando. A cada olhada no céu azul, um arrependimento de não ter aproveitado o asfalto logo cedo; a cada tosse ou incômodo na garganta, um alívio pelo mesmo motivo.

Asfalto, de amanhã você não me escapa.

  

33 graus, 92% de umidade relativa

O problema definitivamente não foi o sol. Tanto hoje quanto anteontem saí com o dia ainda escuro, às 5:15 da manhã aqui na região central da Florida. 

O problema foi o calor perfeitamente temperado pela umidade. 

Saí por uma rota improvisada pela estrada, buscando me fazer visível na contramão dos carros com uma camisa mais brilhante que a luz do dia. Funcionou. 

Se alguém visse a cena a distância – incluindo um céu azul escuro com uma lua imensa reinando absoluta – imaginaria um clima ameno, gostoso. Não era o caso: mesmo no final da madrugada o calor castigava como em poucos outros lugares em que já estive. 

Quando o dia em si nasceu, lá pelas 6:30, sem uma única nuvem, tudo piorou. 

Cada passo vinha acompanhado de jorros próprios de suor.

Por algum motivo, tanto a braçadeira com o IPhone quanto a garrafinha d’água que carregava pareciam mais pesados, quase insuportáveis. 

Nos momentos em que tinha que correr sobre a grama, a umidade nas solas dos pés davam aquela sensação de talho dolorido, rivalizando com o ardor dos olhos por conta das gotas de suor que insistiam em entrar pelas pálpebras para queimar as pupilas. 

A estrada vazia à frente, rodeada de pântanos, mostrava as ondas de calor que o corpo, absolutamente pegajoso, denunciava. 

Tudo estava grudento, molhado, pesado. 

Entrei por caminhos diferentes para variar a paisagem: a sensação de estar no passado confederado americano trazia algum conforto – sempre curti a percepção de correr pela história. Casas e hotéis com a arquitetura sulista se erguiam em frente a lagos com ares de pântano enquanto a trilha sonora, quase que inteiramente feita de sapos e pássaros, completava a paisagem. 

Mas era o calor quem falava mais alto. Muito mais alto.

Na prática, estava fazendo 33 graus com umidade de 92%. Não faço ideia de como calcular a sensação térmica disso, mas certamente não é coisa bonita. 

Ainda assim, depois de 20km nesse cenário novo que mesclava Saara a Amazônia, as reclamações do corpo cederam espaço a uma espécie de alegria esquisita: estava, afinal, experimentando uma espécie de novidade na corrida, cruzando lugares novos e em condições absolutamente diferentes do que esotu habituado. 

Incomodou? Sem dúvidas. 

Doeu? Sim. 

Mas mal posso esperar para repetir tudo amanhã. 

  

 

Checkpoint: Descobrindo a distribuição

Em tese seria uma semana light: sem intensidade, com volume reduzido e focado em recuperação. 

Mas, por conta da viagem essa semana, acabei mudando a agenda de treinos – e concluí que isso faz toda a diferença.

Fechei a semana com pouco mais de 60K – algo que deveria ser bastante regenerativo dado o meu cotidiano. Não foi.

A corrida de hoje, feita toda na escuridão da madrugada, acabou sendo interrompida pela metade dado o estado mastigado que minhas oernas estavam. O que fez isso?

Distribuição. 

De nada adianta – ao menos quando se busca recuperação – encaixar treinos sequenciais longos. 

Por outro lado, é um tipo diferente (e possivelmente bem útil) de treino de endurance.

Abri a segunda – já depois de um fim de semana intenso e sem descanso – com 10K. Matei o dia que costumo usar como intervalo de descanso. 

Passei para terça. O cansaço acumulado, no entanto, era demais para um dia só. 

Abri a quarta dolorido mas, ainda assim, fiz uma média de 15K por dia por 3 dias seguidos. No final da sexta estava exausto e com o prospecto de encarar o sábado inteiro dentro de um avião.

Veio o domingo e, apesar da empolgação de correr em um lugar novo, mal consegui fazer 7K.

Pelo menos houve um aprendizado importante aqui, embora tardio: distribuição de volume é tão importante quanto o volume em si e a intensidade.

Houve também uma decisão: preciso repetir esse modelo mais vezes, principalmente considerando que provas em estágios como a Cruce e outras estão nos planos para o futuro próximo.

Algumas das descobertas mais interessantes quando se treina solo vem dos improvisos mais inesperados.

   
 

Brigando contra os demônios da manhã

O problema com as longas quilometragens em dias úteis – qualquer coisa a partir de 15km – não são as distâncias: são os horários. 

Não discuto que, quando se está atravessando a trilha do Ibirapuera junto com os primeiros raios de sol que parecem pintar de ouro os troncos e a terra ocre, a endorfina parece explodir pelo corpo. Poucas são as sensações tão gratificantes quanto se ver quase que inteiramente só em meio ao cheiro de orvalho, com tempo e silêncio para mergulhar na própria cabeça e sem se preocupar muito com a pressa. A cidade dorme a essa hora. 

A sensação de ser o único acordado é revigorante. 

Não é aí que mora o problema. Este vem antes – poucos minutos antes, quando o despertador começa a gritar no meio do quinto sono. Aí os demônios aparecem: “durma mais”; “deixe para o final do dia”; “talvez as pernas queiram descanso”.

Os demônios começam a discutir: “no final do dia não dá: tem aquela reunião que deve entrar pela noite”; “a previsão é de tempestade torrencial a partir do meio dia”; “hoje você precisa chegar cedo para liberar a babá”. 

A essa altura o sono em si já se foi. A discussão interna, no entanto, está a pleno vapor, movida à preguiça de se levantar e encarar os dias. Às vezes são poucos minutos até um veredito; às vezes, quase meia hora inteira. Até que, em um determinado momento, alguém vence. 

Normalmente, este alguém é a corrida em si: resignado, me levanto, troco de roupa e parto para abrir o primeiro sorriso apenas depois que o GPS é encontrado pelo relógio e que os primeiros metros são digeridos. Nesses momentos eu chego a me questionar o que me levou a pensar em ficar na cama: “que ideia mais sem pé nem cabeça”! 

Esses dias, com sequências de mini-longões no meio da semana, tem sido inteiramente dominados por essas batalhas. Todas sendo vencidas pelas trilhas, ainda bem – mas seria muito, muito bom que alguém inventasse algum remédio contra esses demônios internos intrusivos.

  

Mais uma adaptação à planilha

Pego o avião neste sábado cedo para passar uma semana viajando. 

Da mesma forma que no Ceará, isso significa mexer na planilha e, de alguma maneira, fazer ajustes que permitam manter volume e intensidade cortando dois sábados de longos. 

Só há uma maneira de fazer isso: distribuindo o tempo pela semana. De acordo com o Kilian Jornet, longões realmente longos importam pouco: o que vale mesmo é o volume semanal total. Espero que ele esteja certo. 

Enfim: fora os 10km da segunda, tenho 1h30 para fazer em 3 dias seguidos (quarta, quinta e sexta) e mais uma sessão igual no domingo. O plano é pegar leve, eliminando a intensidade e fazendo a semana se encaixar como uma espécie de vale na minha planilha. 

Depois dela, tudo muda de figura: começarei a subir novamente em volume e intensidade, distribuindo a programação pelas manhãs em que estiver viajando. Cansativo, mas viável. 

Vida de atleta amador é assim mesmo: a planilha sempre tem que se adaptar à vida :-) 

  

Desobediência gerando endorfina

O dia passou. 

À noite, entrando no hotel, nenhuma dor muscular falava mais alto do que a vontade de cruzar a cidade a pé.

Gosto de correr em cidades pequenas: há um vazio nas ruas, uma rápida familiarização com as esquinas, uma sensação singular de calmaria que não se conhece em São Paulo.

Atravessei Joinville no breu, iluminada apenas por meia dúzia de postes que teimavam em funcionar, seguindo até o Batalhão, lugar que vira pista de corrida às manhãs e noites.

Acho curioso que um dos locais que a cidade elegeu como point de corrida seja um quarteirão de pouco mais de 1km. Mas fui, ora desviando de idosos, ora cortando troteiros mais calmos, ora me emparelhando com outros corredores. De ponto a ponto foram 10km cravados, incluindo neles algumas subidas que encontrei no caminho e ruelas com casinhas bucolicamente cuidadas, do tipo que se encontra apenas aqui pelo sul.

O frio leve ajudou a fazer o pace deslizar mais leve, bem como a absoluta falta de movimento por todos os cantos em que aportava. Estava, de fato, uma noite perfeita para correr.

Em pouco mais de 50 minutos estava de volta, ofegante, na porta do hotel. Ainda era cedo, antes das 21, e essa estranha sensação de tempo livre foi bem vinda. Cheguei até a pensar em dar uma outra volta – mas seria demais. 

Subi para o quarto e fiquei lá olhando o teto, imóvel, apenas respirando. 

Sem absolutamente nenhuma dor do tipo que estava pregando minhas pernas.

Correr foi mais analgésico que eu imaginava. Acho que, às vezes, uma boa dose de desobediência pode gerar uma medida exata de endorfina.