Ainda não

O despertador tocou às 5:15. 

Levantei, ainda que com algum repúdio por parte das pálpebras, me arrumei e desci. 

Ajustei o relógio.

Ignorei a garoa.

Apertei os olhos em um esforço de deixar para trás o sono.

Dei os primeiros passos.

Era pra ser algo simples, cotidiano: uma volta pela pista do Ibirapuera no piloto automático. Não funcionou: joelho direito protestou, tornozelo mostrou-se insatisfeito e toda a musculatura empacou, deixando claro que não pretendia se soltar por nada no mundo.

Não tive alternativa: desisti, dando meia volta ao chegar na 9 de Julho e transformando 11K em 5.

Placar final: motivação em 75%, disposição em 50%. 

Conclusão: ainda não estou pronto como gostaria. 

  

Checkpoint: A zona cinzenta

Há uma espécie de zona cinzenta depois que se realiza alguma grande meta. 3, no caso: Indomit, BR (ainda que como apoio) e Cruce aconteceram em um impressionantemente curto período de 3 meses. 

Nessa última semana, todas as dores e incômodos acumulados em meses de treinamento decidiram aparecer e se instalar no corpo. Sem problemas: dei a ele alguma folga, saindo apenas levemente para alguns trotes mais regenerativos. 

Nessa última semana, um sono digno de picadas da mosca de Tse-Tse dominou as manhãs; uma estranheza em testemunhar o trânsito paulistano se instalou no semblante; uma facilidade de respirar, silenciosamente, um ar meio orgulhoso, impulsionou os pulmões. 

Semanas depois do que consideramos como grandes realizações pessoais são feitas para cimentá-las no peito, para nos mostrar que a vida é feita desses momentos singulares pelos quais tanto batalhamos. São períodos sagrados que, talvez infelizmente, acabem sendo reverenciados por nós mesmos em uma silenciosa solidão. São períodos catárticos, de consolidação de mudanças de visão de mundo, em que não se deve desperdiçar um único átomo de esforço em uma direção que não seja a do autoentendimento. 

Semana que vem? Provavelmente ainda estarei na mesma zona cinzenta, aproveitando-a, cultivando-a e, sobretudo, digerindo-a. 
Enquanto isso, talvez esteja na hora de revisitar as provas de 2016 e ver em qual ou quais me encaixo. 

Daqui a pouco será hora de começar tudo de novo. 

  
  

Acúmulo: 3 meses, 3 metas e muito cansaço

Voltei da Argentina na terça passada. 

No mesmo dia, acordei para um último trote em San Martin de Los Andes, rodando 10km pela inacreditavelmente linda estrada que margeia o Lago Lácar, deixando por lá meus agradecimentos pelos chãos e montanhas que, mais uma vez, mudaram minha forma de ver o mundo. 

Apesar de ter chegado do Cruce apenas no domingo à tarde, corri relativamente solto, leve, sem dores ou nenhum tipo de cansaço muscular. Aliás, estava tão leve que nem parecia que estava terminando um ciclo que começou em novembro, com os 100K da Indomit, chegou a janeiro com 85Ks rodados na BR135 e se fechou com esses outros 100K nas 3 etapas andinas. 

A vida, no entanto, tem essa mania de nos puxar para a realidade sem dó: já na própria terça, varei o dia e a viagem inteira trabalhando, alternando ligações no celular, trocas de email e construções de projetos até as 2 da manhã da quarta, já em solo brasileiro. De lá para cá foram apresentações, reuniões nas primeiras horas do dia e todo um leque de tempestades cotidianas feitas para me relembrar que vivo em São Paulo, não em uma pequena cidade encrustrada nas montanhas. Não estou reclamando: essa dualidade, essa existência quase esquizofrênica tanto nas trilhas quanto nas artérias e arranha-céus paulistanos, é uma das coisas que mais amo da minha vida. 

Mas houve um preço. 

Com o resto da semana insanamente focada no trabalho, realmente não consegui sair para correr. Nem tentei: estava claro para mim que, depois dessas três provas, precisava de pelo menos alguns dias de folga. 

O que não podia imaginar é que o corpo desenvolveria uma vontade própria de descanso. Sem uma prova marcada para o futuro próximo, sem uma planilha montada e uma disciplina a ser seguida, ele simplesmente desabou-se em si mesmo. 

Saí para correr hoje em um despretencioso percurso de 10K pelo Ibira: quase não consegui. Dores musculares, articulações excessivamente rijas, calor e indisposição fizeram esses 10K parecerem 100. Voltei quase me arrastando para casa e sem ter aproveitado nenhum único minuto do parque. 

Conclusão: talvez eu realmente precise dar um pouco mais de tempo ao corpo, recomeçando mais levemente. Talvez ele precise mesmo de umas férias merecidas (embora curtas). 

O corpo, afinal, sente. E sente mais o acúmulo, o alto volume de treinos e provas do passado recente, as sucessivas metas batidas emendadas umas nas outras. Não tenho do que reclamar: ele respondeu perfeitamente a tudo o que a mente demandou. Nada mais justo que dar a ele uma pequena folga. Nada mais justo do que obedecer as suas demandas.

E, enquanto isso, que essas sejam as imagens guardadas na cabeça até a volta de vez aos treinos: as da minha última corrida em San Martin, também uma espécie de celebração pessoal dessas 3 grandes metas batidas em apenas 3 meses. 

   
 

Vídeo: Como foi o primeiro dia que me aguarda

O título do post pode parecer um paradoxo gramatical – mas ele está certo. Explico: há 3 levas de largadas no Cruce, todas fazendo o mesmo percurso: o primeiro dia, ontem, foiçara a elite/ avançados; o segundo, hoje, será para duplas; e o terceiro, sexta, será para amadores (me incluindo aí).

E, como eles estão filmando cada uma das etapas e disponibilizando praticamente em tempo real na web, deu para sentir como será o meu primeiro dia. E, aparentemente, apesar de ser o dia mais longo (com 40K), ele será relativamente tranquilo, sem trilhas técnicas e com um percurso tão “corrível” quanto maravilhoso. Será uma espécie de boas vindas, creio.

Veja abaixo:

 

 

Checkpoint: Rumo aos Andes

Última corridinha feita: 11K pelo Ibirapuera. 

Fora as desconfortáveis dores fantasma fruto do período de tapering, tudo normal.

Hoje de madrugada embarco para a Argentina, devendo chegar em San Martin de Los Andes por volta das 13:00 de amanhã. De então até a sexta, dia da largada, serão apenas trotes leves pelas montanhas, mergulhos no geladíssimo lago Lacar e ajustes finíssimos no preparo final – principalmente por conta da ansiedade, que já se acumula por todo o corpo.

E vambora para mais uma experiência de vida memorável!

  
  

Correndo através do tempo-espaço

Cidade vazia.

Sol ardendo no céu.

Véspera de viagem para o Cruce.

A soma dessas três variáveis: um último longo por São Paulo nas primeiras horas da manhã mergulhando na história da Barra Funda.

Tinha pouco mais de duas horas pra rodar pouco mais de 20km: comecei subindo até a Dr. Arnaldo e me despencando pela Sumaré até o parquinho do Jardim das Perdizes. Deu para uma volta lá olhando o verde e ouvindo as marteladas das construções nos arredores. Todo um bairro está oficialmente se erguendo ali.

Na saída, passei por bairros que se ergueram também subitamente no passado. Margeei os trilhos da Barra Funda, tangenciando o atual Memorial da América Latina. Ali, há muitas décadas, a nata do samba paulista nascia para agregar mais poesia à urbe.

Voltei para a avenida e entrei no Paraue da Água Branca. Pequena chácara absolutamente rural perdida no centro de São Paulo. Correr por lá significa pular galos e galinhas, deixar patos atravessarem o caminho, sentir o cheiro de cavalos descansando em suas cocheiras.

Saí. Tomei uma reta por baixo do Minhocão, virei algumas esquinas e cheguei no atual colégio Boni Consili. Consegui, sob protestos mal humorados da moça da recepção, aproveitar o portão semiaberto para tirar uma foto do palacete que hoje serve de sede pra a instituição. É provável que ela sequer faça ideia do tesouro que guarda: a casa de Antônio Prado, o mito paulistano que passou de fazendeiro escravocrata a viabilizador da mão de obra imigrante, que trouxe luz, bonde elétrico, trens e a industrialização que transformou essa cidade de povoado interiorano quase irrelevante em uma das maiores metrópoles do mundo.

  
  
Acenei um ‘tchau’ ao espírito da lenda e fui subindo a ‘serra’. Da Barra Funda fui a Santa Cecília, depois a Higienópolis. Desci até o estádio do Pacaembu: não me deixaram entrar.

Subi de novo até a Dr. Arnaldo e segui à Paulista, cruzando-a até o Parque Trianon. Esse talvez seja dos mais exóticos da cidade, com mata atlântica pura, protegida e encravada bem no meio da principal avenida da cidade.

Já aos pés de casa, foi mais ou menos onde encerrei o treino.

22km.

No total, testemunhei um novo bairro nascer, reverenciei os sambistas do passado glorioso, me perdi por um tempo rural que não existe mais, visitei o empreendedor impulsionador da metrópole, circulei o estádio, cruzei a avenida cartão postal e fechei tudo em uma mini-floresta sobrevivente.

Nada mal para 2 horinhas antes da maior parte da cidade sequer acordar…

Checkpoint: Hora de desacelerar

Depois do treino doloroso de ontem, em que 20K pareceram uma ultra à parte, ficou claro que um descanso maior era necessário. 

Hoje, portanto, nada de saída: a semana ficou fechada em 45K, com direito a dois dias sequenciais de descanso antes de uma outra semana leve. A próxima, no entanto, seguirá a mesma receita que usei para a última Comrades: será um pouco mais intensa, embora ainda leve. A ideia é fazer uma espécie de tapering inverso, com uma queda brusca seguida de um aumento gradual até o Cruce. 

Sem muito segredo, portanto. Repetirei algo que já deu certo, mesmo porque o último mês deixou bem claro que o preparo em si já existe. 

Como disse ontem, agora é tudo sobre autocontrole e preservação. 

   

   

Missão cumprida ou missão comprida?

Desde que acordei, os olhos estavam pesados. Acordar, aliás, é quase um exagero: levei horas para conseguir me arrastar para fora da cama e mais horas para me concentrar nas poucas coisas que tinha para fazer. Correr pela manhã? Impossível. 

Lá no fundo do cérebro, estava claro que o melhor que tinha a fazer era mesmo entender o sinal do cansaço e me entregar ao ócio. 

Mas quem disse que fiz isso? 

Enquanto o dia passava, fui encaixando uma programação de treino no dia. 4 da tarde: horário em que minha mulher sairia com minha filha e eu ficaria só em casa. 

Não fiquei. 

Para agregar um pouco mais de entusiasmo, tracei uma rota até a Freguesia do Ó, lá no alto de um pico do outro lado do Rio Tietê, local que já foi terra de bandeirantes e missionários e que, hoje, é praticamente uma coleção de bares em torno de uma igreja. Sagrado e profano, ao que parece, sempre conviveram bem por aquelas bandas. 

Mas, por mais que tenha realmente adorado desbravar um novo percurso nos calcanhares da história paulista, correr em si foi difícil. Tudo pesava.

Estava sem energia. 

Estava com sede, mais do que a capacidade da mochila de hidratação. 

Estava exausto. 

Estava até com um toque de sono. 

Ainda assim, deu para correr até o largo da matriz velha, onde o bandeirante Manoel Preto construiu a primeira capela, que pegou fogo há mais de um século, e o largo da matriz nova. Deu para fazer isso cruzando os trilhos de trem de uma zona que, ao menos aos sábados, continua mantendo ares bucólicos dos tempos do começo da industrialização. 

   

 Deu para subir ladeirões e voltar pela interminável Av. Pompeia. 

E, claro, deu para agradecer aos céus quando cheguei de volta ao meu quarteirão, encerrando o treino. 

Valeu a pena? 

Não sei. A sensação é de missão cumprida – mas o cansaço dá dicas de que talvez a missão tenha sido mesmo é comprida. 

Hora de começar a levar a sério a necessidade de descanso antes que o Cruce chegue.