Checkpoint: A descoberta de novas horas

Sabe quando você acorda em estado de exaustão pra ir ao trabalho e, de repente, se dá conta que está em pleno sábado? 

Pois é: hoje foi mais ou menos assim. Acordei pronto para arrumar as malas e sair até me dar conta que partiria para o aeroporto apenas às 14:30! Tempo de sobra para espremer uma última volta e fechar 100km na semana (embora, se contarmos o domingo passado, já estivesse com 110km e nem um único dia de descanso).

Esse foi o tom da viagem toda, aliás: nos 8 dias em que estive aqui não deixei de correr por nenhum. Não por falta de avisos do corpo: minhas pernas estão moídas – mais pela falta de interrupção do que pela rodagem em si – e cheguei a acordar ao menos duas vezes decidido a passar o dia inteiro no mar. Não deu: a mente comandou as pernas dunas a fora para mostrar a beleza do lugar aos olhos.

     

 E, assim, cheguei pela primeira vez ao marco de 8 dias seguidos correndo, somando neles 118km – boa parte por muita areia fofa.

Sim, tudo errado de acordo com o planejamento. Mas semana que vem descanso um pouco mais: é sempre bom, afinal, entender que saber ouvir o corpo não é a mesma coisa que ficar submisso a cada um dos seus desejos. 

Embora fisicamente exausto, afinal, estou inteiro. Pronto para uma nova fase do treino, agora mirando os 100km da Indomit UltraTrail Costa Esmeralda!
   
 

Correndo do barulho

Sair para correr às 5:30 da manhã foi difícil. Desisti por conta de pernas moídas de tanta areia fofa.

Uma hora depois, acordei. Abri a janela: mar azul e areia branca, infinita, me fizeram ficar arrependido até o último fio do cabelo. Mas, àquela altura, não havia mais tempo: estava na hora de conhecer Canoa Quebrada.

Serei sincero: chegar em uma barraca gigante esbanjando um som no talo que vomitava uma mistura de Axé com Sertanejo com Fábio Junior não é exatamente o que entendo como perfeição. A distorção criada entre aquele barulho todo e o cenário paradisíaco era péssima. 

Desisti de desistir: descalço, fui praticamente sugado pelo percurso de areia que se estendia à minha frente e comecei a correr. Não muito – queria apenas fazer uns 6 ou 7km para arejar as pernas, para regenerar a musculatura e oxigenar os ouvidos. Nenhuma decisão poderia ter sido melhor.

Poucos metros depois da barraca infernal, o vento apagava qualquer rastro de som e era tudo apenas mar azul turquesa, areia branca, dunas e céu azul.

No horizonte, torres eólicas se enfileiravam: estava na margem oposta do rio onde o cachorro avançou sobre mim no primeiro dia. Do outro lado, até o estado de espírito parece mudar.

Entre passadas e suor escorrendo pelas costas, só uma sensação de paz absoluta dominava. E mais: o calor, no final, foi rapidamente eliminado com um mergulho extremamente bem vindo no mar cearense.

Estava revigorado ao ponto em que nem o insistente barulho incomodava mais.

  

Pelo lado de dentro

Não consegui “descansar” ontem: já pela manhã troquei o day-off por 10K entre a vila e a praia, desbravando territórios e paisagens novos. Difícil convencer a mente de ficar quieta, desistindo de comandar as pernas, quando se está em cenário tão convidativo.

Mas queria variar um pouco, deixar as trilhas de areia fofa para trás nem que fosse por um punhado de tempo. Há mais para se ver no Nordeste do que areia e mar, afinal.

Hoje cedo, com 15K de meta, tomei o rumo da vila de Fortim. Peguei a pequena estrada de areia que saía do hotel e fui até o asfalto por uma reta só. Era cedo, antes das 6:30, e tudo parecia uma espécie de versão diurna, clara, da mais densa noite. Nenhuma alma atravessava o caminho e o silêncio era cortado apenas pelo assobio do vento e chacoalhar das árvores.

Na primeira vila, uma igrejinha antiga imobilizava o tempo. Sua pintura era tão caricaturalmente gasta que, somada às casinhas pobres no entorno e aos distantes latidos de vira-latas, desenhava um cenário absolutamente sertanejo.

FullSizeRender

Atravessei e segui em frente, pelo asfalto. Ainda era cedo mas, mais longe do litoral e da brisa, o calor começava a apertar. No caminho, campos abertos pontilhados apenas por árvores mais resistentes à aridez desenhavam o horizonte. Uma ou outra cedia suas preciosas sombras para casebres pobres, com as portas entreabertas deixando à mostra uma escuridão úmida com ares de eternidade.

IMG_0275

Mais adiante, os primeiros sinais da vila de Fortim apareciam em forma de menos campados e mais casas – todas, no entanto, no mesmo estilo centenário, como que inspiradas em uma arquitetura portuguesa que qualquer um ali dificilmente conhecia. As casas, a vila, as pequenas praças e as igrejas pareciam ter sido plantadas naquele cenário há tanto tempo quanto o próprio mundo.

Depois de uma praça com um busto dourado de alguém que deve ter enriquecido a partir da miséria alheia – único motivo pelo qual monumentos são erguidos no interior nordestino – um velho mirante se prostrava, igualmente abandonado. Fui até lá: a vista era de tirar o fôlego.

Dois banquinhos sentavam sob a sombra de árvores frondosas, olhando atentamente ao Rio Jaguaribe que, lá longe, cortava dunas de areia branca e desembocava no mar azul. Impressionante.

IMG_0274 IMG_0273Não sentei nos banquinhos, mas fiquei ali, parado, quase que me eternizando na paisagem.

Depois saí.

Uma velha sertaneja varria sua calçada, tirando a mesma areia que, minutos depois, certamente voltaria carregada pelo vento. Bares já começavam a abrir, juntamente com mercadinhos e portas que entregavam à vila crianças em busca de diversão.

IMG_0272

Era uma terça-feira qualquer perdida no final de julho: quente, úmida, com ares de cotidiano naqueles interiores. A vida, de uma vagarosidade impressionante, começava a andar enquanto eu corria de volta para o hotel.

Estava na hora de entrar no ritmo da metrópole ditado pela Internet e pela interminável lista de tarefas que incluíam apresentações, conference calls via Skype, pilhas de emails e Whatsapps para dar conta.

A aceleração do dia-a-dia paulistano parecia, àquela altura, impressionantemente distante da realidade – mas já me chamava em alto e bom som.

Com passos pequenos

Depois da “ressurreição” de ontem, a última coisa que eu queria era perder o “mo-jo” novamente. E, claro, é difícil argumentar contra fatos: as férias demandadas pelo meu corpo depois de ter encarado Comrades e os 50K de Atibaia tinham componentes além do psicológico. 

Mas tudo bem: reclamar também nunca resolveu o problema de ninguém. Pensar resolveu. 

Abri os olhos com esse espírito hoje de manhã cedo, depois de ter deixado roupa, tênis e mochila de hidratação prontos para encarar mais alguns quilômetros de asfalto e trilha aqui por Paraty. 

Mas foi o tempo de acordar: as pernas estavam pesadas, doloridas, e a cama parecia mais atrativa do que o normal. Desisti em 5 minutos. 

Dane-se planilha e programação: melhor dar o tempo que o corpo pede antes que ele resolva atacar a mente de novo. 

  

Como serão os 50K em Atibaia?

Sendo bem sincero, é difícil de dizer. Ao contrário de muitos circuitos de ultra no mundo, no Brasil há uma espécie de aversão tácita a prover informações aos corredores. Resultados: nos inscrevemos no escuro, sabendo apenas a distância total e deduzindo o resto pelo perfil do organizador. 

No caso de Atibaia, organizado pelo Corridas de Montanha, imagino que será algo bem técnico e possivelmente em um circuito menor que a distância, incluindo assim alguns loops. Sem problemas quanto a isso: diferente da última vez que fiz uma prova deles, agora estou preparado. 

Mas tive uma ideia essa semana: lembrei que, há algum tempo, vi alguns circuitos deles na minha timeline do Strava. Resultado: depois de uma breve caça, percebi que eles mapearam o percurso nessa semana. 

Ponto positivo: agora pelo menos sei que o percurso incluirá trechos longos em estrada (creio que de terra) e uma subida que promete ser deliciosamente intensa. 

Pelo mapa, acredito que os 50K incluirão uma soma de 4 percursos: 3 loops e um bate-volta até o topo de uma montanha. 

Do ponto de vista de elevação, a altimetria acumulada deve ser de 1.840m – um bom número para a distância – com as duas maiores subidas no final. Pelo mapa, no entanto, parece que a chegada será em um local diferente da largada. Não sei se isso procede mas, caso positivo, será bem vindo. É sempre mais empolgante seguir em uma “reta” do que em “círculos”. 

Agora é me preparar. 

E correr.  
   
 

Treino mental

Tem uma parte do treinamento – de qualquer treinamento – que é mais mental que física. 

Ontem cheguei tarde do trabalho, cansado e com uma lista de pendências grande o bastante para ser medida em anos-luz. Em noites assim só se quer uma coisa: dormir até mais tarde na manhã seguinte.

Quando digo mais tarde não me refiro a 10, 11 horas: levantar às 7 já seria um sonho! 

Mas, quando se tem uma filha pequena em casa, a hora do treino é ditada pela rotina doméstica. Quer ir ao parque? Levante às 5 ou 5:30 e chegue nele junto com o sol, a tempo de estar de volta antes da van escolar embicar no prédio!

E hoje houve ainda uma pimenta a mais no caldo: estava frio e garoando, um daqueles climas típicos de São Paulo que preferimos ler nos livros do que sentir na pele.

Não havia o que fazer. 

Desliguei o despertador.

Coloquei a roupa.

Saí porta afora rumo ao parque.

Não sei dizer se o treino foi forte para as pernas – acabei não o controlando tanto. Mas a mente, esta sim chegou de volta em casa mais forte do que saiu :-)

  
 

A incrível capacidade de recuperação do corpo humano

Para mim, pelo menos, foi surpreendente. Não sou corredor de elite, não acumulo 200kms semanais e nem somo uma ultra por semana. 

Por outro lado, é bem verdade, estudo o meu próprio corpo com o zêlo de um vestibulando neurótico: leio tudo sobre qualquer minúsculo sintoma, faço autoexames cuidadosos a cada instante, instintivamente, e tomo um cuidado extremo com biomecânica e nutrição.

Tudo isso deve ter contribuído.

Mas o fato é que desde ontem, apenas um dia depois de correr quase 90K em pouco mais de 13 horas pelas montanhas mineiras, estou me sentindo novo. 

Nada de mancar, nada de dores musculares, nada de articulações pesadas. Nada de inchaços, nada de dores de cabeça, nada nem de uma febrinha leve que costumava me acompanhar após provas mais duras. 

Nada.

Quando terminei os 56km da Two Oceans, em 2013, passei dias me locomovendo como um babuíno bêbado. De lá para cá, no entanto, esse tempo de recuperação foi diminuindo progressivamente: Comrades, Douro Ultra Trail, 50K da Copa Paulista de Montanha. 

Mas nada se assemelhou a esta Ultra Estrada Real.

Com o perdão de parecer arrogante, estou impressionado com o meu próprio corpo. E feliz – muito feliz com isso.

Agora, afinal, começo a intensificar o treinamento para a Comrades 2015, no final de maio – e é sempre bom dar a largada com um moral elevado.

Dane-se a planilha vazia: acho que darei uma trotadinha leve no parque hoje à noite.

  

Ultra Estrada Real: Trecho a Trecho (Trecho 5, final)

Hora de terminar a prova! A essa altura, a noite já deverá estar sobre as nossas cabeças (ou, pelo menos, chegando lá). Por outro lado, será o trecho mais curto e percorrido inteiramente sobre asfalto (embora quase todo em subida), na estrada efetiva que ainda hoje liga essas duas cidades.

Chegaremos enfim a Ouro Preto, finalizando a corrida na principal praça da cidade e comemorando essa viagem por um dos mais importantes períodos históricos do nosso país!

Trecho 5: 12km de Mariana a Ouro Preto

Todo o trajeto entre Mariana e Ouro Preto é feito por estrada asfaltada, o que requer uma maior atenção dos praticantes. No caminho, passa-se pela Mina da Passagem, parada obrigatória para conhecer a única mina de ouro do Brasil aberta para visitação.

O trecho termina na cidade de Ouro Preto, antiga capital de Minas Gerais. Ouro Preto une um elo de aprendizado entre o civismo e a História de Arte, reconhecido pela UNESCO como Monumento da Humanidade. Nesta esplêndida cidade, com seus magníficos casarões, belas ladeiras e muita história pra contar.

Atenção!! Neste trecho não tem marcos instalados!

Conteúdo extraído do site: http://www.estradareal.tur.br/caminhos-trechos_1_21

IMPORTANTE:

Faça download e leve consigo os mapas, perfis altimétricos e planilhas de navegação de toda a prova. O link direto para isso é https://rumoastrilhas.com/ultraestradareal/o-percurso/

Ponto no percurso:

trecho5

Ultra Estrada Real: Trecho a Trecho (Trecho 4)

Os menores povoados, pontos de descanso dos viajantes do século XVIII, já estão ficando para trás. Nesse trecho começamos a nos aproximar do primeiro grande centro, Mariana, uma das mais icônicas cidades do ciclo do ouro mineiro.

Trecho 4: 18km de Camargos a Mariana

O percurso é por estrada de terra que se encontra em boas condições, cercada por gramíneas e com um mar de morros no seu trecho inicial, sendo que, após alguns quilômetros, a mata circundante passa a ser bem densa e formada por árvores altas, deixando a estrada mais fechada e bonita. Porém, como um todo, ela pode ser caracterizada como plana de leves subidas.

O fim do percurso é na cidade Mariana, que já foi a primeira capital das capitanias de Minas e São Paulo, título que perdeu em 1740, para Ouro Preto devido sua maior importância econômica. A admirável cidade apresenta um acervo riquíssimo das mais belas obras do barroco mineiro.

Conteúdo extraído do site: http://www.estradareal.tur.br/caminhos-trechos_1_20

IMPORTANTE:

Faça download e leve consigo os mapas, perfis altimétricos e planilhas de navegação de toda a prova. O link direto para isso é https://rumoastrilhas.com/ultraestradareal/o-percurso/

Ponto no percurso:

trecho4