Checkpoint 12: Parada final

12 semanas. 84 dias. 63 corridas em distâncias que foram de 6 a 46km em uma transição de ruas para montanhas que incluíram um aprendizado incrível, tanto para a vida normal quanto para a de corredor.

Parece besteira, mas a passagem do asfalto para as trilhas ensina a conviver com variáveis incontroláveis; a deixar o cálculo um pouco de lado e a pensar no caminho; a considerar que uma jornada não é só uma linha entre ponto A e ponto B, mas todo um contexto tridimensional em que terreno, altimetria, clima, e foco mental se somam em uma experiência única.  

Há coisas que ficam conosco para sempre: esses três últimos meses incluem isso. Ou melhor: todo esse ano que, somando longões em treinos, já somou algo na casa de 6 maratonas e ultras, foi incrível. E isso porque estamos apenas em setembro. 

Ainda é cedo para comemorar: para fechar essa jornada, há ainda 80km pelas montanhas do Douro, cortando a Serra do Marão e passando por aldeias medievais, bebendo a paisagem das vinículas em plena época de cultivo e varrendo, com olhos e pernas, a região demarcada mais antiga do mundo. 

De toda forma, já com a linha de chegada em vista, este é o último checkpoint.

Fechado com um trote leve de 45 minutos sob uma chuva bíblica pelas ruas estreitas de Ílhavo, pequena cidade próxima ao Porto.

Agora é entrar na semana que vem apenas esquentando os músculos para o próximo sábado. 

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A estranha leveza da alta intensidade

Manhã cedo em Sampa, garoa começando a ceder, sol começando a sair por entre uma mescla de núvens e noites. 

Perfeito para a última sessão de tempo runs em solo brasileiro: amanhã embarco para Portugal, já tendo a Douro Ultra Trail como meta. 

E, saindo da fase de pico de treino, com 100km acumulados nos últimos sete dias, realmente achei que seria mais difícil. Talvez pela falta da mochila de hidratação, já devidamente guardada na mala, ou pelo clima absolutamente favorável lá fora, acabei sentindo uma leveza impressionante na rua. 

A primeira subida de ritmo veio logo depois dos 5 minutos de aquecimento: 30 minutos fixos a um pace encaixado na casa dos 4’30″/km. Fosse a dois dias atrás, seria porrada pura. 

Hoje, foi bem vindo. Não vou dizer que não deu para sentir nada – mas posso afirmar que foi bem mais light do que imaginava mesmo hoje cedo, quando levantei da cama forçado pelo despertador insistente. 

Depois uma pequena pausa para trote e mais 20 minutos de tempo

Desta vez fui por dentro do parque do Ibirapuera e não por fora de sua grade como fiz na primeira volta, buscando uma distância maior para alinhar o plano de 1h30 de treino. 

Também leve. 

Quando os 20 minutos passaram cheguei a manter o ritmo por mais alguns instantes, mas acabei desistindo ao chegar em um cruzamento. 

Aí foi administrar o trote final que, claro, incluiu a já tradicional subida da Ministro. Mesmo ela, devo dizer, foi mais fácil. 

A que devo toda essa relativa tranquilidade em um treino que deveria ser tão intenso? 

Talvez a certeza de que as fases mais duras de todo esse processo já passaram. Talvez o sentimento de que estou, de fato, preparado para a ultra trail – ao menos dentro das possibilidades. 

Talvez a proximidade da viagem, que põe uma espécie de ponto final a uma meta que começou em junho. 

Seja lá o que for, foi bom. E absolutamente reconfortante. 

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A hora perfeita para se correr em Sampa

Há um horário perfeito para sair para longões durante a semana – um horário em que se consegue testemunhar tantas fases do mesmo dia que parece que você ficou fora por praticamente todo ele. 

Ontem tinha um longo mais tenso programado, com duas horas em gás total, e acabei saindo às 6:30. 

Apesar de não ser, exatamente, madrugada, as ruas ainda estavam vazias e começando a acordar. Nem as velhinhas que costumam passear com seus cachorros logo cedo estão à vista a essa hora: apenas alguns motoristas fugindo do rodízio, operários entrando nas obras e, claro, corredores rumando silenciosa e ritmadamente até o parque. 

Assim começa uma terça qualquer em Sampa.

Uma vez no parque, pode-se testemunhar a mudança na população com o passar das horas. Os primeiros corredores, mais sérios e rápidos, começam a sair pelos portões e cruzar com os mais casuais. Nos semblantes, saem preocupações com pace e entram preocupações com saúde. 

Bikes começam a aparecer, ainda tímidas. Um ou outro casal aparece caminhando junto. 

Do lado de fora, o silêncio quase absoluto cede espaço a buzinas e freios de ônibus. O céu azul, que até então reinava sozinho sobre a paisagem, agora vira coadjuvante do barulho típico de qualquer grande urbe. 

É hora da pressa. 

O sol, irritado com o barulho, começa a queimar. Ignora que é inverno e simplesmente brilha, afastando toda e qualquer nuvem. 

Algumas horas depois, os corredores casuais também já seguem seus rumos e deixam o parque para estudantes secundaristas que, aparentemente, tentam ignorar as aulas. Sem tantas passadas e com alguns beijos escondidos, o parque fica mais só. Mais sigiloso. Escondido. Esquecido. 

Os carros abarrotados no tráfego transformam a saída em uma espécie de desafio: há que se esgueirar por ônibus, observar motos que cismam em ignorar faixas de pedestres e tapar os ouvidos para gritos de motoristas enraivados que se acham donos da cidade. 

Sampa está a toda. 

A mente já começa a se desconectar do asfalto: pouco a pouco, as tarefas do dia começam a se desenhar. Decisões a serem tomadas, reuniões a serem enfrentadas, prazos a serem cumpridos. Não há nada de zen no final da corrida: há a mais pura rotina de uma cidade grande. 

Entre um e outro passo, entre um e outro compromisso mental, imagens da família que ficou dormindo e que, agora, já estava dividida entre trabalho e escola. 

Hora de trocar de roupa e virar um daqueles motoristas atrasados. 

Há tanta vida inserida em duas horas de corrida que fica difícil não se apaixonar por cada segundo passado aqui, nesta incrível cidade tão cheia de contrastes. 

Assim como é difícil não torcer para que o dia transcorra e termine de maneira tão intensa quanto ele começou. 

Sampa é incrível.

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Checkpoint 11: Semana de pico cumprida e corpo recuperado

Foi uma semana intensa – tanto no trabalho quanto em casa e nas ruas! Nada mais apropriado, diga-se de passagem, para um treinamento para ultra.

Foram apenas três treinos, verdade – mas todos muito bem aproveitados e, em uma palavra única, intensa.

O lado bom é que estou saindo inteiro, sem praticamente nenhuma dor – nem mesmo muscular, mesmo um dia após o principal longão. Acredito que seja o corpo se acostumando à rotina de ultras, o que significa uma recuperação maior em um tempo menor. Bom: esse aprendizado físico certamente será útil no futuro!

Enquanto isso, é hora de organizar a partida para Portugal, já nesta sexta. A meta está chegando perto.

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Semana de pico, longão 1: bom dia, dia!

De todos os horários do dia, correr pela manhã sempre foi a minha preferência. Tem alguma coisa sobre o cheiro, a preguiça nas calçadas, os idosos saindo com jornais debaixo do braço e as crianças seguindo para as escolas que funciona como uma espécie de boas vindas às horas que estão por chegar.

Mas, nessa semana de pico, encaixar um longão de 2h30 em plena terça significou madrugar de verdade, saindo antes das 5:30. E, nessa época do ano, Sampa está totalmente às escuras a essa hora. 

Sem problemas: saí cortando a escuridão e o silêncio com passadas ritmadas e com o som da água balançando na mochila de hidratação. Swoosh, swoosh, swoosh, swoosh…

O plano era simples: seguir em uma corrida muito leve até completar 1h45, quando engataria em uma tempo run por 20 minutos e depois voltaria ao ritmo anterior completando o circuito.

E, por circuito, entenda-se chegar no Ibira pela Groenlândia, dar três voltas por fora do parque (com uma ou outra entrada para pegar a trilha) e voltar, subindo via Ministro Rocha Azevedo.

Antigamente, qualquer treino de mais de duas voltas já me deixava entediado: repetir percurso era tudo que eu mais odiava. Hoje, no entanto, percebi que isso mudou: o percurso em si passou a importar menos. Duas, três, quatro voltas? Sem problemas: o foco passou para o lado de dentro, para a mente e para o turbilhão de pensamentos que correm dentro dela. Correr, já há algum tempo, deixou de ser físico e passou a ser mental. A ser zen.

A paisagem, nesse caso, serve para aqueles momentos em que se quer dar um tempo de si mesmo, respirar melhor e olhar em volta para se sentir mais vivo. Simples assim. E prático – muito prático. 

Aliás, aprendemos a ser práticos quando corremos por tantas horas como parte de uma rotina. 

Mas 2h30 em uma terça, decididamente, não era rotina. Cansa pelo imprevisto, pelo esforço com cara de sábado apimentado pela aceleração entre 1h45 e 2h05. 

Ainda assim, por mais longas que sejam as corridas, elas sempre terminam. E às 8:00 estava em casa.

O dia ainda estava com cara de manhã: trabalhadores parados em bancas lendo os jornais pendurados nas laterais, babás retornando sozinhas das escolas das crianças, cachorros e seus donos entrando de volta em seus prédios. 

Hora de começar o dia: o próximo longão, também de 2h30, será apenas na quinta. 

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A reta final

Hoje se inicia um dos períodos mais cruciais de todo o processo de treinamento para a Douro Ultra Trail: as três semanas finais. E, dado o pouco tempo de treino em todo esse processo de transição, não serão três semanas fáceis (como pode ser visto abaixo).

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Essa, por exemplo, contará com três longões (dois de 2h30 na terça e quinta e um de 5 horas no sábado). Na sexta anterior, uma série de fartleks servirá para complementar a planilha com pitadas fundamentais de velocidade. Deverei chegar ao fim do último longão bem cansado – mas aí entrará uma estratégia diferente das que usei em ultras anteriores, principalmente pela inutilidade que períodos de tapering/ ajuste fino mais tradicionais tiveram para mim no passado.

Primeiro, mudarei toda a rotina começando pelo domingo, dia normalmente utilizado para regenerativos e que será, neste caso, de puro descanso. 

A semana que vem, por sua vez, começará com treinos já na segunda, emendando com terá e quarta. Em geral, serão treinos mais leves – mas ainda com alguns exercícios de velocidade. Viajarei para Portugal na sexta, dia 5 – mas o dia será aberto com um longão de 2 horas essencialmente compostos de tempo runs encavalados. Sábado será dia de descanso e, no domingo, apenas 40 minutos leves fecharam esse período que somará um total acumulado de 6 horas.

Finalmente, a semana de prova terá 4 treinos: um leve e curto na segunda, um mais puxado na terça, uma sessão de fartleks na quinta e 15 minutinhos levíssimos na sexta apenas para soltar as pernas e aliviar a ansiedade. Essa tática, aliás, me foi passada por um dos meus ídolos, o Bruce Fordyce, quando me preparava para a Comrades – e funcionou super bem. 

A partir daí é largar na DUT e torcer para que toda essa nova rotina de reta final funcione tão bem na prática quanto no papel. E, se ajustes forem exigidos pelo corpo ao longo do caminho, certamente nada me impedirá de fazê-los!

 

Lição aprendida com o Indomit: tipo de terreno importa tanto quanto distância e altimetria

Quando se faz qualquer tipo de transição, costuma-se levar em conta apenas as variáveis já conhecidas. No meu caso, a mudança do asfalto para a trilha incluiu treinos e análises sobre os dois principais parâmetros que considerava em provas: distância e altimetria.

Assim, todo percurso de prova era encarado de maneira bidimensional: contavam quanto eu correria e quanto subiria. Só.

Mesmo quando ouvia que percursos eram excessivamente técnicos o que considerava apenas eram graus mais severos de inclinação – como se isso bastasse.

Aí veio a Indomit Bombinhas e uma lição que todo corredor em transição deve ter.

A altimetria da prova não é tão severa: cerca de 1.200 metros ao longo de 42K – menos do que faço em um longão cotidiano de sábado. As subidas e descidas, em circunstâncias normais, não seriam tão tensas e até permitiriam uma visão que tendesse a esse bidimensionalismo do asfalto.

Mas, em trilhas, há sempre o elemento inesperado. No caso de Bombinhas, a chuva.

Com chuva, a terra vira lama, as descidas viram escorregadores, as subidas viram um desafio mais mental do que físico.

Com chuva, os olhos se focam no chão (e não na paisagem), fazendo o tempo se esticar para além do marcado no relógio.

Com chuva, outros corredores diminuem o pace em trilhas de uma via só, forçando uma queda talvez mais desestimulante do que o efetivamente necessário.

Com chuva, tudo muda.

E aí veio a lição, mesmo que com alguns dias de atraso: o tipo de terreno (aliado, às vezes, a imprevistos meteorológicos) é uma variável tão importante quanto distância e altimetria. A chuva é apenas um exemplo: neve, areia de praia, dunas, trechos que incluam pequenos riachos, enfim: sempre há algo que deva ser levado em consideração.

As quase 6 horas e meia que passei no Indomit – que, diga-se de passagem, foi uma prova sensacional – me deram essa dura (e muito bem vinda) lição.

Agora é digeri-la e usá-la mentalmente em outras provas.

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Checkpoint 9: Segunda meta cumprida

Não há muito o que falar além do que já comentei no post de ontem: a semana inteira girou em torno da segunda meta do meu plano rumo à Douro Ultra Trail: fazer a Indomit Bombinhas.

Neste ponto, o importante de comentar é que levei a semana como normal, sem fase de tapering ou nenhum tipo de diminuição. Ao contrário: fiz os três treinos em dias úteis, mesclando tanto volume quanto intensidade (via tempos e tiros) e cheguei em Bombinhas como se fosse um final de semana normal.

Só na largada da Indomit é que senti um pouco o cansaço ampliado pela areia fofa dos primeiros metros. Mas, ainda assim, sacudi o corpo e voltei ao normal, encarando a prova com sangue nos olhos.

Em resumo (e com alguma dose de orgulho): tudo saiu perfeito.

Segunda fase completa. A próxima agora é lá em Portugal.

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Indomit Bombinhas: Mapas, altimetria, vídeos e mais

Já cozinhando ansiedade pelo Indomit Bombinhas, resolvi juntar aqui no blog um compilado de materiais relevantes que achei pela Web. Diferentemente de outras provas de trilha, o que mais surpreende desta é o alto nível do conteúdo disponibilizado pela organização e por outros corredores, algo que certamente ajuda a manter alta a empolgação!

Bom… vamos ao que há:

Mapa do percurso, abaixo (link direto aqui):

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Vídeo oficial do percurso:

Percurso K42 Bombinhas Adventure Marathon from BOMBINHAS ADVENTURE RUNNERS on Vimeo.

Altimetria:

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Raio-X técnico:

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Especial K42 feito pelo Corrida no Ar (partes 1 e 2):

Cobertura da edição de 2013:

Pronto: material mais do que o suficiente para entender a prova. Agora só falta correr :-)

Video da Douro Ultra Trail no ar

Toda prova-alvo tem uma coisa em comum: a ansiedade de quem pretende corrê-la. E, quando a organização sabe capitalizar em torno disso, essa ansiedade cresce ainda mais.

Capitalizar, nesse caso, significa gerar imagens, posts em redes sociais e, principalmente, vídeos que deixam o corredor com água na boca, contando os dias para a largada. A organização da Douro Ultra Trail – minha prova alvo em todo esse processo de transição do asfalto para as trilhas – acabou de fazer isso com um vídeo muito, muito bem montado. Vale conferir abaixo: