O difícil planejamento do período entre provas

Quando se está entre duas provas alfa, há uma sensação de tempo. Desde que terminei Comrades e me inscrevi na Douro Ultra Trail pude organizar treinos, planejar provas de teste e preparar todo o caminho entre ponto A e ponto B. 3 meses pareciam longos o suficiente para qualquer preparo.

O problema não estava aí, entre a Comrades e a DUT.

O problema está entre a última prova teste e a alfa – principalmente quando os cronogramas são apertados.

No meu caso, entre a Indomit, no sábado passado, e a Douro Ultra Trail, em três semanas.

Hoje é quinta – e, claro, estou ainda em processo de recuperação dos danos causados ao corpo por 6 horas e meia de corrida em 42km de trilhas absolutamente encharcadas e técnicas. As pernas doem, os joelhos incomodam, os pés ardem.

Os treinos desta semana até estão mais leves do que o normal – só que, sendo franco, apenas mais dias de descanso absoluto me deixariam em forma de novo. Dias que, pela proximidade dos 80km do DUT, eu não tenho.

Então, esta semana, estou convivendo com a dor. Treinei leve na terça e quarta, com uma pausa hoje (por conta principalmente de uma viagem bate-volta a trabalho, eliminando a chance de dormir um pouco mais). Amanhã, sexta, tenho intervalados; sábado, um longo de 2 horas; e domingo, um regenerativo leve.

Se tudo der certo, a dor e a fadiga serão gerenciados de maneira a irem diminuindo levemente, aos poucos, até ficarem mais suportáveis. Pelo menos esse é o plano.

Segunda é dia de descanso e de esperança de estar “zerado” – ao menos dentro do minimamente plausível.

A semana que vem, por sua vez, será a mais chave de toda a reta final rumo à DUT, com três longões inseridos em 5 dias.

Só que descobri que, quando se está no extremo da exaustão, a mente deve se focar no curto prazo, em vencer um dia de cada vez. Semana que vem é outra história.

Por enquanto, a meta inclui me concentrar no corpo e na presença desta linha tênue entre a manutenção do treinamento e a possibilidade de lesão. Por enquanto, todo o esforço deve ser feito para me manter em um único pedaço, inteiro, saindo da zona de perigo o quanto antes (mas sem pânico ou afobações que possam prejudicar o objetivo final).

Calendários curtos entre provas alfa tem disso: afinal, são 3 meses entre correr os 90km de Comrades, transicionar para as trilhas e partir para 80Km nas montanhas portuguesas. Talvez eu realmente tenha sido agressivo demais, quase descuidado. Talvez precisasse mesmo considerar um tempo maior para este processo todo.

Mas, como chorar o leite derramado não adianta, é hora de respirar fundo, me concentrar no próprio corpo e nos desafios diários.

É hora de seguir em frente.

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Lição aprendida com o Indomit: tipo de terreno importa tanto quanto distância e altimetria

Quando se faz qualquer tipo de transição, costuma-se levar em conta apenas as variáveis já conhecidas. No meu caso, a mudança do asfalto para a trilha incluiu treinos e análises sobre os dois principais parâmetros que considerava em provas: distância e altimetria.

Assim, todo percurso de prova era encarado de maneira bidimensional: contavam quanto eu correria e quanto subiria. Só.

Mesmo quando ouvia que percursos eram excessivamente técnicos o que considerava apenas eram graus mais severos de inclinação – como se isso bastasse.

Aí veio a Indomit Bombinhas e uma lição que todo corredor em transição deve ter.

A altimetria da prova não é tão severa: cerca de 1.200 metros ao longo de 42K – menos do que faço em um longão cotidiano de sábado. As subidas e descidas, em circunstâncias normais, não seriam tão tensas e até permitiriam uma visão que tendesse a esse bidimensionalismo do asfalto.

Mas, em trilhas, há sempre o elemento inesperado. No caso de Bombinhas, a chuva.

Com chuva, a terra vira lama, as descidas viram escorregadores, as subidas viram um desafio mais mental do que físico.

Com chuva, os olhos se focam no chão (e não na paisagem), fazendo o tempo se esticar para além do marcado no relógio.

Com chuva, outros corredores diminuem o pace em trilhas de uma via só, forçando uma queda talvez mais desestimulante do que o efetivamente necessário.

Com chuva, tudo muda.

E aí veio a lição, mesmo que com alguns dias de atraso: o tipo de terreno (aliado, às vezes, a imprevistos meteorológicos) é uma variável tão importante quanto distância e altimetria. A chuva é apenas um exemplo: neve, areia de praia, dunas, trechos que incluam pequenos riachos, enfim: sempre há algo que deva ser levado em consideração.

As quase 6 horas e meia que passei no Indomit – que, diga-se de passagem, foi uma prova sensacional – me deram essa dura (e muito bem vinda) lição.

Agora é digeri-la e usá-la mentalmente em outras provas.

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Checkpoint 9: Segunda meta cumprida

Não há muito o que falar além do que já comentei no post de ontem: a semana inteira girou em torno da segunda meta do meu plano rumo à Douro Ultra Trail: fazer a Indomit Bombinhas.

Neste ponto, o importante de comentar é que levei a semana como normal, sem fase de tapering ou nenhum tipo de diminuição. Ao contrário: fiz os três treinos em dias úteis, mesclando tanto volume quanto intensidade (via tempos e tiros) e cheguei em Bombinhas como se fosse um final de semana normal.

Só na largada da Indomit é que senti um pouco o cansaço ampliado pela areia fofa dos primeiros metros. Mas, ainda assim, sacudi o corpo e voltei ao normal, encarando a prova com sangue nos olhos.

Em resumo (e com alguma dose de orgulho): tudo saiu perfeito.

Segunda fase completa. A próxima agora é lá em Portugal.

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Indomit Bombinhas: Mapas, altimetria, vídeos e mais

Já cozinhando ansiedade pelo Indomit Bombinhas, resolvi juntar aqui no blog um compilado de materiais relevantes que achei pela Web. Diferentemente de outras provas de trilha, o que mais surpreende desta é o alto nível do conteúdo disponibilizado pela organização e por outros corredores, algo que certamente ajuda a manter alta a empolgação!

Bom… vamos ao que há:

Mapa do percurso, abaixo (link direto aqui):

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Vídeo oficial do percurso:

Percurso K42 Bombinhas Adventure Marathon from BOMBINHAS ADVENTURE RUNNERS on Vimeo.

Altimetria:

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Raio-X técnico:

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Especial K42 feito pelo Corrida no Ar (partes 1 e 2):

Cobertura da edição de 2013:

Pronto: material mais do que o suficiente para entender a prova. Agora só falta correr :-)

Video da Douro Ultra Trail no ar

Toda prova-alvo tem uma coisa em comum: a ansiedade de quem pretende corrê-la. E, quando a organização sabe capitalizar em torno disso, essa ansiedade cresce ainda mais.

Capitalizar, nesse caso, significa gerar imagens, posts em redes sociais e, principalmente, vídeos que deixam o corredor com água na boca, contando os dias para a largada. A organização da Douro Ultra Trail – minha prova alvo em todo esse processo de transição do asfalto para as trilhas – acabou de fazer isso com um vídeo muito, muito bem montado. Vale conferir abaixo:

Quebrando no treino

Ignorar o bom senso nunca foi uma boa ideia.

Quando saí ontem para treinar, sabia que estava bem pela metade. A corrida da noite anterior, de alta intensidade, ainda estava marcada na musculatura e gerando mínimas – porém existentes – pontadas a cada passo mais apertado.

Ainda assim, saí. E para um treino de intensidade ainda maior: dez tiros insanamente rápidos de 3 minutos cada.

Some ainda uma ladeira até o Parque Villa-Lobos e pronto: a receita da quebra estava dada.

O aquecimento foi tenso, lento, dolorido.

O primeiro tiro veio quase como um alívio pois, evocando músculos diferentes dos do trote, acabou relaxando as pernas. Pelo menos por algum tempo.

1’30” de trote leve. Segundo tiro. Doeu mais.

O trote leve seguinte virou uma caminhada.

Terceiro tiro. Ritmo bem mais lento e dor bem mais intensa.

No quarto tiro estava um caco.

No quinto, resolvi assumir a quebra.

Voltei ladeira acima, trotando leve.

No final das contas, acabei conseguindo realizar meio treino.

Valeu por lembrar que é sempre melhor ouvir o bom senso antes do que durante – afinal, certamente a história seria outra se eu tivesse deixado um dia inteiro para descanso ao invés de tentar desafiar a mim mesmo tão desnecessariamente.

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Reunião comigo mesmo na Sala Zero (a rua)

Terça-feira, 7 da manhã.

Agosto começou preocupado, com aquela estática no ar que emula a mais nítida tensão do cotidiano. Sem Copa, o mundo finalmente começa a voltar ao seu ritmo cotidiano, muito embora os quase dois meses perdidos tenham feito um belo grau de estrago.

O final de julho e o começo de agosto estão sendo devotados, quase que na íntegra, a arrumar a casa. Otimizar processos, equipe, planos, projetos e tudo mais que desenha o dia a dia de uma empresa. E o que isso tem a ver com corrida?

Tudo.

Pelo menos para mim, tomar decisões que gerem qualquer tipo de reorganização do presente tem uma dependência quase natural da corrida.

O despertador de ontem já foi setado com isso em mente – uma espécie de reunião comigo mesmo na sala de número zero (a rua).

Saí com os mesmos Merrell TrailGloves que detonaram meus pés há algumas semanas (mas que agora estão perfeitamente adaptados) e rumei para o Ibira. Garoa fina, frio, muitas buzinas e nuvens negras do lado de fora.

Do lado de dentro, na mente, silêncio. Estava isolado do mundo, pensando, enumerando os problemas e bolando soluções. Invocando calma e afastando preocupações vazias. Antes de morrer, Churchill disse que sua vida havia sido “marcada por gigantescos problemas – a maioria dos quais nunca chegou de fato a acontecer.”

Isso virou meu mantra. Assim como a experiência de correr Comrades, com 90 km de passos calmos, planejados, mantendo sempre o ritmo e com a confiança de que o final chegará mais cedo ou mais tarde.

Experiências assim são fundamentais em tempos de turbulência. Ainda bem que elas existem.

Aliás, correr ultras traz um tipo de benefício que vai muito além da saúde física: nos ensina a manter o curso firme, fixo, em um tipo de sintonia entre mente e corpo que dificilmente se encontra em esportes que não sejam de puro endurance. Nos ensina a respeitar subidas e descidas, usando a sempre inevitável gravidade a favor de cada decisão tomada. Nos ensina a respeitar o tempo ao invés de atacá-lo. É o melhor de todos os MBAs.

Ao final, depois da subida da Ministro, estava quase aliviado. Não consegui resolver todas as questões, mas algumas.

O suficiente para levar bem o dia e ainda ter no que trabalhar durante a corrida de amanhã.

O suficiente para enxergar melhor.

Agora, portanto, está na hora de colocar em prática os raciocínios desenhados nos últimos 12km.

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O olho que enxerga as trilhas

Dizem que os nossos olhos enxergam melhor algo que já reconhecem. É verdade.

Esse é o quinto ano seguido que venho a Paraty participar da Flip e, nos últimos três, aproveitei para fazer corridas sempre bem vindas pela cidade ou por trechos da Rio-Santos. O visual dessa região nunca cansa, mesmo considerando que os pés estavam sempre sobre o asfalto (ou, no máximo, os paralelepípedos do centro).

Nunca nem pensei na possibilidade de haver trilhas legais por aqui – e, por conta disso, nunca percebi a existência de nenhuma.

Hoje foi diferente.

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Saí com o sol ainda nascendo, saindo em direção à Rio-Santos com o objetivo de caçar alguma trilha pelas montanhas do outro lado. No caminho cheguei até a me perguntar se encontraria algo, duvidando do que agora parece óbvio.

É claro que encontrei. Por todas as partes das encostas pequenas trilhas se abriam, subindo em meio ao verde úmido da Mata Atlântica. Eram tantos caminhos que, honestamente, não consegui entender como nunca os percebi antes!

Escolhi um. 50, 100, 200 metros e topei com uma pequena casa. Perguntei ao morador se havia alguma forma de subir a montanha correndo e ele logo me apontou duas opções.

Escolhi uma. Subi. Alguns pontos foram mais íngremes, outros mais escorregadios, outros mais fechados, todos incríveis. Perfeitos. Em meia hora cheguei ao fim do caminho que havia escolhido, tempo o suficiente para voltar dentro da minha programação.

Na volta, comecei a perceber, bifurcações claras, algumas inclusive sinalizadas, apontando outras trilhas que davam para outros caminhos, matas e vistas. Perfeito.

De alguma forma, senti como se estivesse descobrindo algo novo nessa corrida que nasceu de maneira tão despretenciosa. Foi como se todo um mundo que eu desconhecia decidisse se apresentar de uma vez só sob o céu azul da costa carioca e o verde abundante da mata.

Em uma palavra: inesquecível.

Não foi a trilha mais bela do mundo – mas foi a que mostrou que há todo um mundo de trilhas pronto para ser desbravado por qualquer um que estiver com um mínimo de vontade.

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Rumo a Paraty

Viajar a trabalho sempre é cansativo – principalmente quando se tem um evento para coordenar, o que geralmente significa horas sem fim de esforço, estresses súbitos sendo desenrolados etc. Isso sem contar com o tempo longe da família, que faz uma falta de arrebentar.

Quando a viagem é para um lugar paradisíaco, no entanto, o horizonte já melhora.

Neste instante estou a caminho de Paraty, no meio do abençoado litoral que separa o Rio de Sampa.

A previsão é de sol sem nuvens e temperaturas entre 15 e 28 graus até o domingo.

Trabalho? Terei muito o que fazer – mas, honestamente, a única coisa em que consigo pensar agora é nas vistas, trilhas e estradas que pegarei por lá.

Calor, umidade, montanhas e praias com tudo que tem direito: há coisa melhor para inspirar uma corrida?

O problema agora é só segurar as 24 horas que me separam dos primeiros trotes!

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Day off não programado

Há dias em que a planilha perde.

Hoje tinha uma tempo run de 20 minutos em meio a um treino de 1h programado. Tinha.

Depois de três semanas de escadinha no volume, incluindo um longão de pouco mais de 4h no domingo e uma sessão intensa de tiros ontem, meu corpo implorou por uma folga.

E, verdade seja dita, essa semana é mais leve mesmo, com aquela queda em tempo de rua desenhada para evitar a sobrecarga.

O problema é que a sobrecarga veio antes: acordei cheio de dores e com uma vontade incontrolável de dormir mais um pouco. Cedi.

Ouvir o corpo significa também saber separar a preguiça da necessidade de mais descanso. Como a de hoje.

Tirei o dia de folga e matei uma corrida da semana.

Como viajo amanhã cedo para Paraty, treino agora só na sexta. Sob o sol da serra e a vista do mar.

Tudo bem: certamente dará para compensar lá, encaixando um pouquinho mais de tempo em um cenário que faz o tempo passar desapercebido.

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