Checkpoint: No ponto

Último checkpoint antes da largada, que ocorrerá nesta sexta.

Diferentemente das últimas provas, essa fase de tapering (ou polimento) foi suave – muito suave. O que fiz? Deixei a ansiedade de lado, quase ignorei a planilha e fiz minhas últimas dias semanas focando um descanso cauteloso.

Não fiz os 60 previsto na semana retrasad0 – fiz 43; e, nessa última, acabei cumprindo naturalmente os 35, com os últimos 16K percorridos no mais puro e endorfinado êxtase em torno da Lagoa e do trecho entre Leblon e Arpoador, no Rio.

Terminar o preparo para uma prova imerso no clima de Olimpíadas é, sem dúvidas, algo único.

Bom… agora é administrar esses últimos dias. O corpo está perfeito, a gripe já se foi, a ansiedade está bem controlada e mesmo as dores fantasma, que costumam aparecer nesses períodos, sequer deram sinal.

Perfeito.

No ponto.

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Checkup de véspera: momentaneamente abaixo das expectativas

Quando um escritor pensa em começar um livro, ele sonha com uma folha lisa e branca de papel; quando um corredor está prestes a encarar um novo desafio, ele sonha em chegar na largada em perfeitas condições.

Hoje, véspera da Douro Ultra Trail, não posso dizer que estou assim.

Ao contrário: ganhei alguns quilos na viagem, estou inchado, com dores nas costas de levar 13kg de filha no ombro para cima e para baixo, com um pouco de dor de garganta e aquela sensação tenebrosa de princípio de gripe.

Para piorar, são 6 da manhã aqui e estou acordado por total falta de sono. Na somatória, aliás, dormi por menos de 4 horas esta noite.

Prospecto meio ruim, certo?

Pois é.

Mas se tem uma coisa que aprendi correndo ultras é que o corpo aguenta sempre mais do que a mente imagina – e que tem uma capacidade incrível de recuperação.

Ainda tenho um dia inteiro antes da largada e, por mais que isso inclua um vôo de Barcelona ao Porto e uma rápida viagem de carro até a Régua, dá para tirar algum descanso.

Aliás, é fundamental que tire descanso de cada segundo dessas próximas 24 horas, me refazendo e me “reposturando”, mesmo que por meio de mantras mentais constantes e muita concentração.

De agora até amanhã o princípio de gripe precisa ter passado; a garganta precisa estar perfeita; o inchaço, desaparecido; as costas, nova; e o ânimo, revigorado.

Já está amanhecendo aqui na Espanha: é hora de descansar.

É hora de desamassar o papel e deixá-lo lisinho para esse novo capítulo de amanhã.

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Correndo pela história em Barcelona

Há algo de diferente entre correr em uma cidade como Sampa – por mais que eu a ame – e em um local como este aqui, em Barcelona. 

Aqui, há uma espécie de rio de sangue derramado história afora, desde os tempos em que a cidade era uma aldeia fundada por Hamilcar Barca, pai do lendário general de Cartago Hannibal que, ao perder para os romanos em uma guerra lendária, permitiu que Roma virasse o que virou. 

De Cartago, a cidade passou para os romanos, depois para os visigodos, para os árabes, para Carlos Magnum, para os catalãos, para os espanhóis. Com tantas guerras, as ruas tremem de memória histórica, abrindo caminho para catedrais incríveis, castelos, palacetes e até mesmo as famosas escadarias onde os reis espanhóis receberam Cristóvão Colombo tão logo ele retornou das américas. Isso sem falar, claro, nas maravilhas de Gaudí, cuja alma se espalha por toda a cidade.

Hoje foi o último treino antes da Douro Ultra Trail e fiz algo diferente: contratei um “guia corredor” pelo Running Tours Barcelona – algo que já havia feito no passado em outras cidades e que recomendo fortemente aos que curtirem história.

O conceito é simples: um guia corre junto com você e vai contando sobre a cidade e seus pontos ao longo de uma rota traçada por ele. Simples e fascinante pois, assim, consegue-se ter uma visão mais intensa de um lugar tão diferente quanto este. 

Foram, no total, pouco mais de 12km – e em um ritmo mais forte que eu imaginava uma vez que o guia certamente tinha algum sangue queniano. Mas valeu para soltar as pernas, para forçar o pulmão e para já entrar no ritmo. 

Valeu pela inspiração e pelo treino mental, ingredientes essenciais nessa fase de polimento catalão que acabei fazendo. 

Agora é curtir o restinho de Barcelona, equilibrar turismo com o trabalho que chama daí do Brasil e, amanhã, voltar para Portugal e me preparar. 

Sábado é o dia.

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Polimento catalão

Qual a melhor maneira de fechar a fase de tapering, ou polimento, de um treino para uma ultra de 80K? 

Se perguntar para qualquer treinador, a resposta provavelmente será “alternando treinos intensos e curtos com longos períodos de descanso”. Pois é…

É o oposto do que devo fazer. 

Ontem à noite deixei Portugal e estiquei um pouco a viagem, cruzando a Espanha e aterrissando em Barcelona, minha nova casa pelos próximos três dias. E, depois de um sono de 4 horas, já acordei pronto para devorar – com os pés – a terra de Gaudí.

Estou próximo à Cidade Velha, então rumei para lá e, entre ruelas e obras de arte arquitetônicas, acabei de frente para o mar. 

Acelerei. Fiz uma tempo para curtir a brisa quente do Mediterrâneo reforçada pelo sol que já saía ardendo. Voltei. Circulei pela Rambla, tangenciei o Bairro Gótico, conferi o morro de Montjuic. 

Subi um outro morrinho na praia para ver mais o mar. 

Voltei, circulando sem rumo. E depois tomei o caminho de casa um pouco preocupado com o relógio que já brigava comigo pelo excesso de tempo nas ruas.

Está quente aqui: quando chegamos, já depois da uma da manhã, os termômetros marcavam 28 graus. 

Mas temperatura alguma consegue fazer frente para a inspiração que vem desse museu ao ar livre tão vivo quanto é Barcelona. Museu, diga-se de passagem, que ainda percorrerei em longas caminhadas para cima e para baixo pelos próximos dias, pondo os pés à prova antes mesmo da prova.

Talvez isso – mesmo considerando a total inversão lógica – é que faça valer a fase de polimento.

Nada de preparar o corpo depois de meses de treinamento intenso: esse tipo de estratégia funciona melhor, acredito, para provas mais curtas.

Em ultras, é a mente que precisa estar melhor preparada, focada, oxigenada, inspirada. E inspiração se consegue deixando-a voar mais livre por cenas e momentos novos, bebendo vistas, vozes e ecos de histórias milenares que sempre encantam os ouvidos. Provando novos sabores, sentindo novos ares e testemunhando outros hábitos. 

Dando um tratamento de choque para que ela – a mente – já comece a semana em um estado de êxtase forte o bastante para que consiga encarar bem as trilhas no Douro, um lugar igualmente magnífico (embora absolutamente diferente daqui).

A melhor estratégia de polimento, portanto, é se focar na mente e deixar o máximo possível de vida entrar para oxigená-la. A partir daí se estará pronto para encarar qualquer desafio.

Agora, 9 da manhã daqui – 4 no Brasil – é hora de aproveitar as horas antes das ligações e dos emails de trabalho e curtir a cidade. 

A pé, claro. 

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Um novo tipo de polimento

Já comentei aqui que a fase de tapering, ou polimento, nunca foi muito fácil para mim. Pelas tantas receitas espalhadas pela Web, considerando principalmente variações do período em que a fase deve começar, ela é composta basicamente de uma diminuição (mais ou menos abrupta) do volume de treino para que as pernas cheguem mais frescas na linha de largada. 

Em tese, pouca coisa pode fazer mais sentido. Mas seja em maratonas ou ultras, essa tática sempre me trouxe mais problemas do que benefícios. 

Primeiro, as gripes. Simples assim: com uma queda grande no volume, parece que a resistência do corpo despenca junto – e isso sempre me trouxe resfriados bem, bem inconvenientes. 

Depois vêm as dores fantasmas. Quando se treina muito, a musculatura fica em uma espécie de estado constante de tensão, pronta para a próxima “carga” que pode vir a qualquer momento. Quando a quantidade de horas nas ruas diminui, essa tensão vai diminuindo ao ponto de fazer o corpo perceber dores esquisitíssimas que, até então, estavam escondidas. Os efeitos disso podem ser péssimos: no polimento que fiz para a Comrades, por exemplo, uma dor bem chata apareceu no meu tornozelo direito. Ela persistiu até a hora da prova e, inconscientemente, acabei correndo de maneira a forçar mais a perna esquerda (“supercompensando”, digamos assim, o sintoma). Resultado: ao final de 70km, o líquido de uma das articulações do tornozelo esquerdo – o que estava bem – acabou vazando e fazendo uma bolha bem inconveniente. Foram 20km correndo sem conseguir mover direito o pé em um teste de resistência mental e física impressionante (ao menos para os meus parâmetros). 

Finalmente, há a angústia. Sim, porque ficar sem treinar às vésperas de uma ultra pode ter benefícios óbvios – mas nem sempre a mente acredita em obviedades. Às vezes ela simplesmente se desfaz em agonia pura, insistindo na teoria (absurda, diga-se de passagem) de que estamos perdendo o preparo construído ao longo de meses. Há como combatê-la? Sim, claro: mas o custo pode ser alto. 

Com todas essas armadilhas, acabei construindo uma fase de polimento diferente com o Ian, meu treinador. 

1) A semana de pico, espremida entre a Indomit Bombinhas (que não teve polimento algum) e a Douro Ultra Trail, foi na semana passada – portanto, deixando 14 dias para a prova alvo. 

2) Não há como não diminuir o volume – até mesmo porque estou bastante cansado. Mas há como trocar a carga muscular, alternando distância por intensidade. Hoje, por exemplo, fiz 2 horas de treino bem cedo, sendo 1h10 na casa dos 5min/km, 20 minutos abaixo disso e o restante apenas para recuperação. Um baita esforço considerando que no sábado anterior fiz 5h22 de longão e ontem corri por mais 1h20. Os demais dias também serão assim: porrada pura com distância menor. 

3) Logo na véspera da prova farei apenas 15 minutinhos de trote – só para soltar as pernas, de leve, sem muito comprometimento. E aí é partir para as montanhas. 

Se vai funcionar, não sei. Mas vale o teste. 

A meta em si é enganar tanto corpo quanto mente, fazendo ambos acreditarem estar trabalhando com a mesma carga de antes quando, na prática, estão preparando músculos mais ágeis e descansando um pouco os mais resistentes (e, portanto, mais importantes para uma ultra). 

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Checkpoint 8: Tapering para o Indomit K42?

Tapering (ou polimento)? Apesar dessa ter sido a semana anterior à Indomit K42, raras vezes tive períodos tão puxados de treino!

Não só pela meia com tempo runs na quarta, logo após uma sessão de tiros na terça e antes de outra de fartleks na quinta – quando, aliás, tive a minha primeira quebra em treino. Mas o próprio longão, com direito a 3 subidas e descidas no Pico do Jaraguá alternando entre estrada e trilha, foi intenso.

Hoje, mesmo depois de um regenerativo bem leve, estou bastante dolorido e sentindo cada milímetro da musculatura. Por um lado, há a natural preocupação com a recuperação antes da prova, no sábado; mas, por outro, há também o fato de que nunca soube lidar bem com esse negócio de tapering, diminuindo volume às vésperas de uma prova para deixar os músculos mais frescos. A bem da verdade, todos os taperings que fiz foram pontuados por dores esquisitas, gripes súbitas e toda uma leva de inconveniências que me deixaram bem pior do que estava mesmo no auge do cansaço.

Assim, correr o Indomit lá em Bombinhas será uma espécie de teste. Pegarei mais leve ao longo da semana – mas bem pouco, apenas para não forçar os limites desnecessariamente. A ideia é encarar a maratona como se fosse um treino normal e ver como me sinto, calibrando melhor o treino pre-prova para a meta final desse processo todo (a Douro Ultra Trail, em setembro).

Tomara que funcione bem!

Em paralelo, apenas uma nota importante (para mim): essa semana passei dos 2 mil metros de altimetria acumulada, uma espécie de marco psicológico para mim e pico de treino até agora! Gráficos abaixo:

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