Quebrando no treino

Ignorar o bom senso nunca foi uma boa ideia.

Quando saí ontem para treinar, sabia que estava bem pela metade. A corrida da noite anterior, de alta intensidade, ainda estava marcada na musculatura e gerando mínimas – porém existentes – pontadas a cada passo mais apertado.

Ainda assim, saí. E para um treino de intensidade ainda maior: dez tiros insanamente rápidos de 3 minutos cada.

Some ainda uma ladeira até o Parque Villa-Lobos e pronto: a receita da quebra estava dada.

O aquecimento foi tenso, lento, dolorido.

O primeiro tiro veio quase como um alívio pois, evocando músculos diferentes dos do trote, acabou relaxando as pernas. Pelo menos por algum tempo.

1’30” de trote leve. Segundo tiro. Doeu mais.

O trote leve seguinte virou uma caminhada.

Terceiro tiro. Ritmo bem mais lento e dor bem mais intensa.

No quarto tiro estava um caco.

No quinto, resolvi assumir a quebra.

Voltei ladeira acima, trotando leve.

No final das contas, acabei conseguindo realizar meio treino.

Valeu por lembrar que é sempre melhor ouvir o bom senso antes do que durante – afinal, certamente a história seria outra se eu tivesse deixado um dia inteiro para descanso ao invés de tentar desafiar a mim mesmo tão desnecessariamente.

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5 lições aprendidas no primeiro treino às escuras

Hardcore: assim foi a noite de ontem.

Saí por volta das 18:30 para o Ibira com algumas missões, incluindo 2 horas de treino, dois blocos de tempo runs com 20 minutos cada e uma primeira experiência usando iluminação artificial presa à testa.

Estava desacostumado a fazer 2 horas em dia útil – algo dificultado por não ter almoçado nada (além de muitas xícaras de café). Mas fui – e bem.

Fiz os blocos de tempo runs bem encaixados, a um pace sub 5′ e sem me matar tanto. Foi a primeira vez que senti, aliás, que o ritmo puxado de treino imposto pelo Ian está realmente fazendo efeito.

Mas o ponto alto mesmo foi experimentar a lanterna na cabeça. É claro que o Ibirapuera não é exatamente uma floresta perdida: há muita iluminação na pista e alguma rente às grades que o delimitam. Mas há, sim, muitos trechos que ficam totalmente às escuras. E nesses eu me diverti.

Lições aprendidas:

1) É difícil – mas fundamental – manter os olhos fixos a alguns metros à frente do corpo para evitar surpresas escondidas (como raízes ou desníveis mais abruptos).

2) Nos momentos mais seguros da trilha vale esticar os olhos mais à frente para entender o que está por vir. Quando necessário, desacelerar não é nenhum crime.

3) É também recomendado elevar mais os pés durante as passadas. Descobri isso no primeiro tropeço: quanto mais alto eles estiverem e mais tempo passarem distantes do solo, menor é a chance de se arrastarem e se “confundirem”, por assim dizer.

4) Equipamento bom é importante. Estava com uma lâmpada simples, meio pesada à frente e que volta e meia escorregava pela testa. Aguentar isso por um punhado de minutos não é um problema – mas não dá nem para imaginar o grau de irritação que viria depois de algumas horas.

5) Música é inimiga. Quanto menos distrações no escuro, melhor: mais a mente conseguirá se concentrar em decifrar o terreno com pouca iluminação e com o baixo senso de profundidade que vem do uso de lanternas.

Bom… Foi a minha primeira experiência, o que significa que estou longe de ser um especialista no assunto. Mas devo dizer que estou bem satisfeito com essas cinco lições aprendidas.

Afinal, o próprio fato de voltar de uma corrida sabendo mais do que se sabia 2 horas antes já é, sem dúvida, algo a se comemorar.

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Reunião comigo mesmo na Sala Zero (a rua)

Terça-feira, 7 da manhã.

Agosto começou preocupado, com aquela estática no ar que emula a mais nítida tensão do cotidiano. Sem Copa, o mundo finalmente começa a voltar ao seu ritmo cotidiano, muito embora os quase dois meses perdidos tenham feito um belo grau de estrago.

O final de julho e o começo de agosto estão sendo devotados, quase que na íntegra, a arrumar a casa. Otimizar processos, equipe, planos, projetos e tudo mais que desenha o dia a dia de uma empresa. E o que isso tem a ver com corrida?

Tudo.

Pelo menos para mim, tomar decisões que gerem qualquer tipo de reorganização do presente tem uma dependência quase natural da corrida.

O despertador de ontem já foi setado com isso em mente – uma espécie de reunião comigo mesmo na sala de número zero (a rua).

Saí com os mesmos Merrell TrailGloves que detonaram meus pés há algumas semanas (mas que agora estão perfeitamente adaptados) e rumei para o Ibira. Garoa fina, frio, muitas buzinas e nuvens negras do lado de fora.

Do lado de dentro, na mente, silêncio. Estava isolado do mundo, pensando, enumerando os problemas e bolando soluções. Invocando calma e afastando preocupações vazias. Antes de morrer, Churchill disse que sua vida havia sido “marcada por gigantescos problemas – a maioria dos quais nunca chegou de fato a acontecer.”

Isso virou meu mantra. Assim como a experiência de correr Comrades, com 90 km de passos calmos, planejados, mantendo sempre o ritmo e com a confiança de que o final chegará mais cedo ou mais tarde.

Experiências assim são fundamentais em tempos de turbulência. Ainda bem que elas existem.

Aliás, correr ultras traz um tipo de benefício que vai muito além da saúde física: nos ensina a manter o curso firme, fixo, em um tipo de sintonia entre mente e corpo que dificilmente se encontra em esportes que não sejam de puro endurance. Nos ensina a respeitar subidas e descidas, usando a sempre inevitável gravidade a favor de cada decisão tomada. Nos ensina a respeitar o tempo ao invés de atacá-lo. É o melhor de todos os MBAs.

Ao final, depois da subida da Ministro, estava quase aliviado. Não consegui resolver todas as questões, mas algumas.

O suficiente para levar bem o dia e ainda ter no que trabalhar durante a corrida de amanhã.

O suficiente para enxergar melhor.

Agora, portanto, está na hora de colocar em prática os raciocínios desenhados nos últimos 12km.

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Descansar sem dormir

Depois de dias seguidos nas ruas e trilhas, o corpo sente.

Hoje acordei dolorido, com o cansaço arrastando as suas unhas pelas pernas, costas e pálpebras. Por uma infelicidade de agenda arrumei uma reunião extremamente cedo, o que significa que meu “day off” teve apenas 6 horas de sono.

Suficiente para embalar o resto da semana? Difícil afirmar que sim. Mas, quando não há solução, não adianta haver também estresse pela sua falta.

Hoje o corpo precisará se recuperar em horas úteis, em meio a prazos apertados, clientes, propostas e os conflitos internos cotidianos que definem qualquer vida corporativa.

Hoje o corpo não poderá contar com horas de sono concentrando o poder mental inconsciente na recuperação muscular.

Hoje o próprio sono terá que dar um jeito de sair antes que sua falta acumule ainda mais cansaço.

A semana, afinal, será longa e está apenas começando.

Hora de trabalhar.

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Checkpoint 7: Montanhas e trilhas

Semana com viagem a trabalho nunca é fácil: no mínimo, há uma semi-impossível conciliação entre uma infinidade de tarefas novas, locais, com o cotidiano que nunca dá trégua.

Mas, mimimis à parte, há também a possibilidade de explorar novos caminhos. Esse foi o ponto alto da semana: desbravar as trilhas de Paraty, com ou sem vistas, mata adentro, bebendo paisagens que deixam claro o motivo de toda essa transição do asfalto para a terra.

Aliás, é impressionante como a rua fica perde parte de seu encanto já depois das primeiras montanhas que se sobe.

Falando da semana em si, a quilometragem foi menor do que a média das anteriores – mas nada que não estivesse planejado. Depois de uma espécie de escadinha na volumetria, esses dias estavam programados para dar uma aliviada nas pernas e permitir que a musculatura digerisse melhor o que havia enfrentado. Não sei o quão efetivo isso foi dadas as mudanças de cenário (e altimetria), mas veremos nos próximos capítulos.

Esse mês tem prova nova: a Indomit, em Bombinhas, e já devo me focar mais para ela. Terei um papo com o Ian na terça sobre isso, ajustando as planilhas e fazendo um checkpoint geral de todo o processo de treino até agora.

Enquanto isso, amanhã é dia de descansar um pouco para começar uma semana que promete ser bem agitada!

Gráficos abaixo:

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A vista do alto da montanha

Cruzar uma montanha é revigorante em qualquer circunstância – destacando dias de céu azul contrastando com o verde forte e úmido da Mata Atlântica.

Mas a trilha de ontem ficou devendo algo importante: uma bela vista de cima. Quando cheguei ao topo, afinal, estava cercado por mata fechada e alta, praticamente me impedindo de “sentir” o cume.

Quis evitar isso hoje e me informei com amigos em Paraty antes de me embrenhar pela mata de novo. Indicaram outro caminho, saindo da estrada Paraty-Cunha e cruzando a Estrada do Condado. Lá há um portão semi-aberto com uma placa dizendo “Birds Paraty”. E setas: indicações para toda uma diversidade de trilhas levando ao cume.

Segui sem pensar duas vezes. As trilhas estavam mais secas mas com trechos mais técnicos e íngremes. Não havia mais ninguém por perto – perfeito quando se quer sentir melhor um lugar.

Alternando subidas com corridas, fui seguindo indicações e bebendo cada um dos cenários, com direito a sons, cheiros e toda uma profusão de cores. Passei por uma estrutura de madeira, alta, feita para se observar pássaros; segui em frente. Me guiei pelas subidas – afinal, elas sempre levam a lugares mais altos.

Até que, de repente, uma pedra gigante se colocou no caminho com uma escada de madeira indicando que ali era o ponto de chegada.

Subi.

E, de cima, com um suspiro de susto bem vindo, vi toda a cidade de Paraty estendida como um tapete entre o mar e as montanhas.

Impressionante.

A preocupação com pace, tempo e qualquer outra futilidade evaporou e eu simplesmente parei e fiquei lá por alguns instantes, fotografando e bebendo a vista.

Em lugares assim, o que faz alguém preferir correr no asfalto?

Difícil, quase impossível de compreender.

Na volta, diversão pura: poucas coisas são mais empolgantes do que descer uma trilha voando, saltando galhos e trotando a uma velocidade além do plausível.

Quando cheguei de volta à base estava ainda tão entusiasmado que rodei um pouco mais pela Paraty-Cunha, voltei e corri pela Rio-Santos até entrar na cidade e dar o dia por encerrado.

Comigo, trouxe imagens no IPhone e na mente que se somam no tipo de experiência perfeita que dá mais sentido ao próprio ato de correr.

Sensacional.

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O olho que enxerga as trilhas

Dizem que os nossos olhos enxergam melhor algo que já reconhecem. É verdade.

Esse é o quinto ano seguido que venho a Paraty participar da Flip e, nos últimos três, aproveitei para fazer corridas sempre bem vindas pela cidade ou por trechos da Rio-Santos. O visual dessa região nunca cansa, mesmo considerando que os pés estavam sempre sobre o asfalto (ou, no máximo, os paralelepípedos do centro).

Nunca nem pensei na possibilidade de haver trilhas legais por aqui – e, por conta disso, nunca percebi a existência de nenhuma.

Hoje foi diferente.

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Saí com o sol ainda nascendo, saindo em direção à Rio-Santos com o objetivo de caçar alguma trilha pelas montanhas do outro lado. No caminho cheguei até a me perguntar se encontraria algo, duvidando do que agora parece óbvio.

É claro que encontrei. Por todas as partes das encostas pequenas trilhas se abriam, subindo em meio ao verde úmido da Mata Atlântica. Eram tantos caminhos que, honestamente, não consegui entender como nunca os percebi antes!

Escolhi um. 50, 100, 200 metros e topei com uma pequena casa. Perguntei ao morador se havia alguma forma de subir a montanha correndo e ele logo me apontou duas opções.

Escolhi uma. Subi. Alguns pontos foram mais íngremes, outros mais escorregadios, outros mais fechados, todos incríveis. Perfeitos. Em meia hora cheguei ao fim do caminho que havia escolhido, tempo o suficiente para voltar dentro da minha programação.

Na volta, comecei a perceber, bifurcações claras, algumas inclusive sinalizadas, apontando outras trilhas que davam para outros caminhos, matas e vistas. Perfeito.

De alguma forma, senti como se estivesse descobrindo algo novo nessa corrida que nasceu de maneira tão despretenciosa. Foi como se todo um mundo que eu desconhecia decidisse se apresentar de uma vez só sob o céu azul da costa carioca e o verde abundante da mata.

Em uma palavra: inesquecível.

Não foi a trilha mais bela do mundo – mas foi a que mostrou que há todo um mundo de trilhas pronto para ser desbravado por qualquer um que estiver com um mínimo de vontade.

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Rumo a Paraty

Viajar a trabalho sempre é cansativo – principalmente quando se tem um evento para coordenar, o que geralmente significa horas sem fim de esforço, estresses súbitos sendo desenrolados etc. Isso sem contar com o tempo longe da família, que faz uma falta de arrebentar.

Quando a viagem é para um lugar paradisíaco, no entanto, o horizonte já melhora.

Neste instante estou a caminho de Paraty, no meio do abençoado litoral que separa o Rio de Sampa.

A previsão é de sol sem nuvens e temperaturas entre 15 e 28 graus até o domingo.

Trabalho? Terei muito o que fazer – mas, honestamente, a única coisa em que consigo pensar agora é nas vistas, trilhas e estradas que pegarei por lá.

Calor, umidade, montanhas e praias com tudo que tem direito: há coisa melhor para inspirar uma corrida?

O problema agora é só segurar as 24 horas que me separam dos primeiros trotes!

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Day off não programado

Há dias em que a planilha perde.

Hoje tinha uma tempo run de 20 minutos em meio a um treino de 1h programado. Tinha.

Depois de três semanas de escadinha no volume, incluindo um longão de pouco mais de 4h no domingo e uma sessão intensa de tiros ontem, meu corpo implorou por uma folga.

E, verdade seja dita, essa semana é mais leve mesmo, com aquela queda em tempo de rua desenhada para evitar a sobrecarga.

O problema é que a sobrecarga veio antes: acordei cheio de dores e com uma vontade incontrolável de dormir mais um pouco. Cedi.

Ouvir o corpo significa também saber separar a preguiça da necessidade de mais descanso. Como a de hoje.

Tirei o dia de folga e matei uma corrida da semana.

Como viajo amanhã cedo para Paraty, treino agora só na sexta. Sob o sol da serra e a vista do mar.

Tudo bem: certamente dará para compensar lá, encaixando um pouquinho mais de tempo em um cenário que faz o tempo passar desapercebido.

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Quéchua RaidTrail se desfazendo

Quando comprei a mochila de hidratação Quéchua RaidTrail 12L, o intuito era achar um equipamento prático, confortável e funcional. Não me adaptei à Salomon, que detonou as minhas costas, e nem a uma Kalenji, que feriu os peitos (e era pequena demais).

Quando testei a Quéchua por indicação de um amigo, encontrei tudo o que precisava: ela era leve, grande o bastante para ultras, colada ao corpo e ainda por cima barata. De repente, ela virou parte do meu corpo sempre que saía para ruas ou trilhas – e a adaptação foi perfeita.

O único problema é que, aparentemente (e infelizmente), sempre há algum motivo para algo ser barato.

Na prova que fiz em Campinas, um dos ganchos da bolsa de água se rompeu. Tudo bem: entendi como culpa minha que, sem fazer uma manutenção adequada, pendurava a mochila na parede sem tirar a água após os treinos, forçando o peso. Até aí, sem problemas: afinal, há uma espécie de gancho reserva que passei a utilizar e que resolveu o problema.

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Hoje, no entanto, notei que um outro gancho na frente, onde passa uma alça responsável por ajustar a mochila ao corpo, está se desfazendo. Pelo olho, aliás, não dura mais um mês.

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Nova “gambiarra” à vista: usar outra parte da mochila para prender a alça. O problema é que isso já começa a comprometer o conforto e a usabilidade de um equipamento que, afinal, foi feito para ser prático.

O que fazer? Ainda não sei.

Talvez comprar outra igual, de reserva, até essa se desfazer de verdade, para não precisar passar por uma nova curva de adaptação já tão perto da minha prova alvo.

Ou talvez já testar alguma nais resistente, entendendo que se trata de um caso onde o “batato saiu caro”.

Ainda preciso de algum tempinho para me decidir – mas a frustração está bem chata por um equipamento que está se desfazendo em menos de 60 dias.