Seria o excesso de amortecimento?

Liguei o sinal amarelo desde que senti o joelho direito há algumas semanas. Aparentemente não foi nada preocupante: de lá para cá já fiz longões consideráveis e me mantive ativo sem tirar quase nenhum quilômetro do planejado. Só fiz uma coisa: troquei o Merrell Ultra, tênis sem drop mas com um amortecimento de alguns milímetros, pelos Vibram Fivefingers ou Merrel TrailGloves – ambos minimalistas ao extremo.

Hoje saí com o Ultra. Resultado: nova fisgada no joelho em menos de 2km! Não forcei: dei meia volta.

Não costumo colocar a culpa em tênis ou acessórios quaisquer: a “culpa”, por assim dizer, é sempre da biomecânica. Mas talvez… talvez esteja tão habituado ao minimalismo que amortecimentos simplesmente atrapalham, machucam, enganam os pés e o corpo quanto à tactilidade do solo.

Enfim, é uma teoria que será testada no longão de sábado. Sem amortecimento, claro!

  

‘All systems go’!

Acordei com aquele medo natural que, psicologicamente, “gera” dor justamente onde mais se teme tê-la. Me revirei, pensei, calculei e concluí: não seria inteligente rodar 4 horas hoje.

Por outro lado, também não seria inteligente sucumbir ao medo.

Escolhi uma rota menor: Sumaré, Jardim das Perdizes, Parque da Água Branca, Pacaembu, Brasil e Ibirapuera. Na rota, uns 25km rodados em todos os ritmos possíveis e aproveitando subidas e descidas.

No segundo km, confesso que um pequeno incômodo realmente apareceu para me apavorar. Mas foi só deixá-lo de lado e, como sempre, prestar mais atenção na biomecânica. Aquele foi o último momento que senti dor.

Dali para a frente foi só treino natural, normal, como um sábado qualquer. 25km, pace de 5m54s/ km lisos, fluidos.

E com mais um bônus: a possibilidade de fechar a quilometragem semanal como originalmente planejado, dobrando a carga de amanhã para 3 horas. Melhor que a encomenda.
De toda forma, seja como for, o ponto alto do dia foi concluir que estou já normal, intacto. E pronto para a Bertioga-Maresias!

Ufa!

  

Inteiro de novo?

Foi uma espécie de “hora da verdade”. Com um pouco de medo, saí na noite de ontem para testar se meu joelho estava intacto ou não. Mas não saí como em um dia qualquer. 

O que mais me chamou a atenção ontem foi que, quando acelerei, a dor diminuiu. Tentei entender melhor algo que não fazia tanto sentido. Concluí o óbvio: não era mesmo a velocidade mas sim as mudanças na biomecânica naturalmente gerados pela aceleração. 

Tentei um pace mais rápido para ver como eu corria. Na prática, acabava alongando mais a passada. Não para a frente, mas para trás. Sempre que estava mais rápido, o pêndulo feito com a perna ia mais alto, fazendo o joelho dobrar mais e, assim, de alguma maneira, relaxar. 

Fiz 10km em um pace médio de 5’13”, com velocidade maior principalmente na metade final. 

No começo, confesso que senti um levíssimo incômodo. Depois d primeira meia hora, no entanto, nada. Estava perfeito. 

Bom… não dá para dizer que esteja “curado”, claro. Mas já é um bom sinal. 

Hoje é dia de descanso. Vamos ver como será o longão do sábado. 

  

A dor que veio de penetra

De repente, no meio do Ibirapuera, uma dor difusa começou a se espalhar pelo joelho direito.

Ignorei. 

Segui em frente, confiante de que não haveria de ser nada. Por via das dúvidas, conferi e endireitei a postura. 

A dor passou. 

Maravilha: continuei. Fechei a volta no Parque, cruzei a República do Líbano, adentrei a Groenlândia. 

Até que ela voltou – só que mais forte. Diminuí o pace. Melhorou.

Depois piorou. 

Caminhei.

Passou.

Trotei.

Voltou.

Àquela altura, a angústia já estava mais forte do que a dor em si – o que não significa que ela fosse de se ignorar. Em ritmo mais lento que o de um cágado, segui caminhando por quase 1km. Metas passaram pela cabeça, lembranças posturais pelo corpo, paces lerdos pelo Garmin. 

Em um determinado momento, percebi que não havia mais dor. Queria tentar de novo, trotar, correr, perguntar ao corpo se ele havia melhorado daquele esquisitíssimo “mal súbito”. Dessa vez fiz diferente: decidi voar tal qual o Usain Bolt na expectativa de que velocidade e biomecânica encontrassem algum tipo de equilíbrio. Acelerei, voando pela Estados Unidos e cortando as ruelas do Jardim Europa como raras vezes fiz no passado. A cada segundo fazia uma auto-análise: estava bem. A difusão da dor estava quase imperceptível de tão leve e, se muito, diminuía a cada passada.

Quando cheguei em casa estava quase intacto. Quase: alguma coisa esquisita, afinal, havia acontecido.

Ainda é cedo para saber o que foi – mas talvez valha uma corrida hoje à noite, em algum ambiente mais controlado, para que eu consiga entender se foi apenas um susto de mau gosto ou um sinal de algum mal maior.

Torçamos para que tenha sido só um susto.

  

Deslesionando-me

Saí para correr ontem à noite. Sem tiros, sem tempo runs, sem intervalados: apenas uma horinha leve, de acordo com o plano da semana, para sentir o corpo.

Já havia acordado melhor, sem dores e me sentindo inteiro. Ainda assim, dei algumas horas a mais para o joelho e me programei para ir ao parque à noite. A adrenalina acumulada de um dia de agência, afinal, serve para turbinar qualquer recuperação.

Quando dei os primeiros passos veio aquele medo: e se estivesse forçando? E se ainda não esivesse pronto e aquela hora fosse toda a diferença entre ficar inteiro e quebrar de vez? O pior de uma lesão, por menor que seja, nunca é a musculatura ou a articulação em si: é o medo de não estarmos bem no momento dos primeiros passos.

Mas segui.

Não digo que não senti absolutamente nada: em uma ou outra ocasião, quando o escuro excessivo ou um desnível exagerado impôs uma quebra na postura, o joelho deu uma reclamada básica. Só isso.

Foi o tempo de me cobrar um acerto na biomecânica e a mesma pontada evaporou como se nunca tivesse existido. No final das contas, concluí que tudo o que aconteceu foi pura biomecânica estragada por desleixos temporários – e que espero já ter corrigido.

Agora, pelo menos, estou como novo. E assim espero continuar!

  

(O joelho dói)

Espero, do fundo do coração, que não seja nada. Não estou habituado a lesões – nunca tive nenhuma que me afastasse das ruas por mais que um ou dois dias, sendo isso algo que me traz um orgulho até um pouco excessivo.

Mas desde o regenerativo de ontem – que funcionou mais como um “degenerativo” – a parte da frente do joelho direito, logo atrás da patela, começou a doer. Pelo sintoma, parece algo bem clássico mesmo, chamado de “joelho de corredor”.

Bom… hoje é dia de descanso e essa semana será mais light. 

Hora de colocar o Arnica Ice que comprei lá na Africa, colocar uma joelheira pra comprimir a região e prestar uma ultra atenção em qualquer sinal do corpo.

Espero que passe logo!

  

Uma história de desistência e autoconhecimento na Comrades 2015

Quando alguma prova grande termina, é normal vermos a Web recheada de casos de sucesso e de “lendas” formadas pelos quilômetros amontoados. É muito raro, no entanto, lermos relatos de desistências, de abandono de provas e metas. 

Nessa Comrades, um grande amigo meu abandonou a prova no km 65 depois (da insanidade) de chegar em Durban apenas às 17:00 do dia anterior, com 5 horas de fuso na cabeça e todo um cansaço mesclado à ansiedade que fez da sua mera presença na linha de largada algo difícil de se conceber. 

Ele escreveu um relato, que reproduzo abaixo, que acaba narrando uma história de autoconhecimento e humildade – ambos conhecimentos tão (ou até mais) essenciais para corredores de ultra quanto saber comemorar as vitórias. 

Para vencer, preparação e autoconhecimento

Decidi que faria a back-to-back logo após a primeira Comrades, em 2014. Devido a fatores diversos, os treinos não foram tão fortes quanto deveriam, mas persisti, fiz a maratona de Santiago como qualify e, mesmo com a panturrilha estourada, me senti pronto. 

Devido ao trabalho viajei um dia antes para Durban, ou seja, embarquei às 23h da sexta, após uma semana bem puxada na empresa. Cheguei no sábado às 17h, depois de 24h de avião com 2 conexões. Entre jantar e jet lag, consegui descansar umas 6h, pois o frio na barriga me fez perder o sono e às 4 da manhã já não consegui mais dormir.

Às 5:25 estava na baia F ouvindo o hino africano, shosholoza, carruagens de fogo. O galo cantou 3 vezes e o tiro da largada anunciava 87 Km. Como neste ano havia mais corredores que o habitual, os primeiros Km’s foram bem tumultuados, lotados e com alguns trechos em que você era obrigado a caminhar e seguir o ritmo da grande massa.

Após alguns tropeços aqui e acolá, perdi minha água batizada com uma “vitamina” anti-fadiga que havia até treinado para tomar a cada 15km, (e combinado com a minha noiva Cláudia para repor no km 60). Quando percebi fiquei um pouco assustado e chateado, mas não tinha outra opção há não ser “keep running”.

Os primeiros 45km foram de subida, o calor era esperado e, por volta das 10h, já dava para sentir que ele seria forte. No Km 30 comecei a sentir muito meu tornozelo (pela primeira vez na vida). O calor me obrigava a passar em todos os postos e já recorrer à Coca-Cola desde cedo em busca de açúcar. Precisava comer algo, mas só percebi que havia comida no caminho depois da metade da prova. Dores nas costas apareceram em uma intensidade maior do que imaginava ser possível.

Sabia que o momento mais difícil viria entre os 45km e 70km (entre 11 e 14h) e que deveria tentar fixar um pace razoável, lidar com as dores, manter hidratação e me alimentar. Cheguei a beber mais água que deveria – mas o que me pegou forte foi o cansaço mental. Tentei acompanhar dois ônibus (turma que corre com uma meta específica de tempo), mas os perdi nos postos de água com o acúmulo de corredores.

Em vários momentos da prova você vê pessoas de todos os tipos e com situações diferentes da sua. A partir do km 40 já era comum ver pessoas apagadas (ao lado da estrada, em macas, nas vans médicas já lotadas de desistentes). Isso vai minando a sua mente e, ao mesmo tempo, mostra que humildade e preparação em todos os sentidos fazem a diferença.

Consegui encontrar a Cláudia (minha noiva) no Km 58, onde ela me entregou uma nova dose anti-fadiga e fez uma boa massagem nas costas e tornozelo. Mas a parte mental estava fraca: pensava em como desistir, queria desmaiar, queria que o carro do corte me alcançasse, enfim, procurava algo maior do que eu mesmo para me derrubar. Não encontrava e, com isso, as lágrimas vieram umas 3 ou 4 vezes.

Comecei a fazer contas e pensei: “se mantiver um pace de 8, 9 ou 10, será que consigo?” 

Mas eu não conseguia: me perdia nos resultados. Usei o celular e mesmo com a conta feita não conseguia raciocinar se era ou não possível.

Após o km 60 percebi que o anti-fadiga não ia mais funcionar: estava além do meu limite.  Fisicamente o tornozelo me impedia de correr mais de 400m; o excesso de líquido me forçava a tentar vomitar, gerando dores adicionais; a mente ficava mais fraca.

Até que, no km 65, joguei a garrafa de água fora revoltado com a derrota que sofria para mim mesmo. Mãos no joelho, uma longa subida e muitas lágrimas encerraram ali meu sonho da back-to-back, mesmo com várias pessoas de fora gritando para que eu não parasse, entoado frases como “you are a hero, keep moving, well done, don’t stop”. 

Mas não encontrava mais forças.

Meu último pensamento: “estou a ponto de apagar ou me lesionar mais a qualquer momento, eu preciso saber diferenciar a persistência da burrice, sou atleta de fim de semana e não profissional”. Enquanto esperava a van para ser “resgatado”, esses 30min foram de lágrimas e imaginação sobre como seria entrar no corredor da chegada pela segunda vez, com tanta gente incentivando e comemorando. Esse sonho, ao menos por enquanto, foi adiado.

Eu não consegui completar a segunda Comrades. Lidar com isso após a corrida é difícil, mas ao mesmo tempo é motivador para continuar treinando, conhecendo melhor meu corpo e cuidando tanto do físico quanto do psicológico: a vitória vem na preparação. Corrida, afinal, é algo que faz parte de mim e me ajuda em vários momentos da vida.

I love running <3.  


– João de Andrade