Olhando para a frente

O longão hoje foi de sono. Pela primeira vez em nem sei quanto tempo, dormi por (merecidas) 10 horas seguidas, acordando ainda com bocejos e sem pressa para correr. Havia me esquecido do quão maravilhoso é colocar o sono em dia :-)

Ainda assim, tinha uma missão para hoje: uma corrida relativamente leve, de 15K, para sentir a quantas andava a recuperação das pernas e, principalmente, da região da bexiga que estava doendo a cada passada.  Não há muito tempo para “zerar” o corpo: a Indomit acontece em duas semanas, mais ou menos. 

Felizmente, o dia foi de boas notícias: as pernas apenas “simularam” alguma dor muito, muito de leve – e a bexiga estava quase perfeita. Havia, verdade seja dita, alguma “pressão interna” – mas nada de preocupante. Ao que parece, tudo está se normalizando. 

Amanhã tem mais uma corrida ao mesmo estilo da de hoje e, a partir da semana que vem, começa o treino normal. 

No horizonte, uma só palavra: #Indomit. 

  

A volta

A primeira corrida depois de uma prova intensa é sempre um conjunto de interrogações. O corpo responderá bem? Como reagirão os joelhos? E a fisiologia como um todo?

Normalmente, procuro já encaixar um ritmo próximo do normal no terceiro dia depois da prova. Há algo na linha de “lavar” o corpo, de expurgar logo os demônios, que funciona bem. Como, desta vez, tenho a Indomit em poucas semanas, fui mais conservador.

Depois da Bertioga-Maresias no sábado, esperei até as dores musculares evaporarem por completo e apenas ontem, quarta, saí para a rua. Ainda assim, fiz apenas 6K em um ritmo bom, de 5’40”. 

Já saí também com o tênis que usarei na Indomit, um Salomon SenseLab com um grip excelente, mas que tem como defeito um drop desnecessário e um cabedal que briga bastante com os dedos e unhas. Mas, se é o que temos, é o que devemos nos acostumar. Daqui até novembro, o plano é ficar amigo íntimo dele.

Ainda haverá mais corridas na semana – incluindo hoje e o final de semana. A estratégia é simples: transformar essa semana de recuperação em uma espécie de tapering invertido, somando volume de rodagem de maneira gradativa até o pico na semana de prova. 

Fiz essa estratégia no ano passado, na Douro Ultra Trail, e ela fucionou perfeitamente bem. Que a mágica se repita!

  

Bertioga-Maresias 2015

Não fazia ideia do que esperar. Era a primeira vez que estava na largada da Bertioga-Maresias e sequer havia calculado o montante do percurso que seria na areia versus em asfalto. 

A meu lado, um velho e grande amigo que havia aceitado o convite para ser meio apoio de bike tampouco conhecia algo da prova. Do outro lado, os amigos Cordeiro e Leandro – este último que acabou chegando em terceiro lugar geral – davam uma aula de organização e disciplina. 

Tudo bem: não estava ali para buscar podium, então que viesse o que estivesse por vir. 

Saímos da casa do Leandro, na Riviera, às 4:40 da manhã, e chegamos na largada, ao lado do Forte de Bertioga, faltando 5 minutos. Tempo o suficiente para um começo correto, embora atribulado. Começamos. 

No começo, o areião sem fim da praia de Bertioga assustava. Não pela areia em si, dura e perfeita para correr, mas pela sua extensão. Sem paisagens muito exuberantes – aquele pedaço não é exatamente uma pérola do litoral – e com uma reta a perder de vista, o desafio já começava como sendo mais mental do que físico. Me lembrei do motivo pelo qual curto corridas em montanha. Não é pelas trilhas em si, mas pela quantidade de surpresas que se escondem em cada curva, em cada cume, em cada vale. Nas montanhas, é impossível passar mais de 2 ou 3km sem se surpreender com alguma paisagem diferente. Surpresas empolgam, recarregam a adrenalina e a endorfina. 

Não há surpresas em uma praia de quilômetros e mais quilômetros de extensão reta. Ali havia apenas o mar da mesma cor da areia sujado de vez em quando por uma série de canais, casas pontilhando o lado esquerdo, urubus comendo carcaças abandonadas e uma garoa insistente que nos acompanharia até o final da prova. 

Bom… se não há surpresas, há espaço para correr. E corri. Ao poucos, no entanto, a paisagem foi cansando e sentia o meu pace diminuir gradativamente, com direito inclusive a uma pausa para caminhada não planejada em um ponto em que cruzei um pequeno rio. Ainda assim, fechei os 42km regados a chuva, conversas jogadas ao vento com o Zé, meu apoio, e alguns novos conhecidos pelo caminho. 

Depois, quando começamos a sair dos areiões para desbravar a parte mais bonita do litoral, uma quebra: a monotonia havia operado seus danos no corpo e a coxa esquerda começava a doer. Dai até o final fiquei alternando entre correr e caminhar, parando apenas para comprar alguma Cocas, para visitar alguns banheiros e agradecendo sempre que alguma trilha se colocava no caminho entre uma praia e outra. 

Em tese, os 25km finais deveriam ser os mais difíceis. E, a julgar pela altimetria, certamente o foram: mas paisagem faz toda a diferença. As serras cansaram, claro: mas os trechos passando pela Barra do Una, Juquehy, Praia Preta, Barra do Sahy, Baleia, Camburi, Boiçucanga e, claro, Maresias, foram absolutamente sensacionais. Mesmo com tempo fechado e chuva, as vistas dos altos das serras eram inesquecíveis. 

Nos postos de controle, o apoio do público era absolutamente estimulante, fazendo com que a endorfina surgisse em ondas poderosíssimas. Nas areias das praias, banhistas olhavam meio incrédulos para os grupos de corredores que vinham da já distante Bertioga e até o calor decidiu aparecer para mudar o visual. 

Mas, de todo o percurso, o mais empolgante foi justamente a subida da Serra de Maresias, com 3km de subida íngreme pela Rio-Santos. Não era um trecho de praia mas a soma de chuva, neblina e Mata Atlântica dava uma sensação de desafio intensa, reforçada ainda sempre que se via algum ciclista parado, recuperando o fôlego, à frente. 

Alternei caminhada com um trote leve, usando a empolgação para matar o cansaço. 

Cansaço. 

Não havia antecipado o quão dura essa prova seria. Se a altimetria fosse mais espalhada, se houvesse menos retões infinitos, se as praias do começo fossem mais bonitas, talvez a prova em si fosse diferente. “Se’s”, no entanto, tem pouco lugar em ultras. Enquando chegava no topo da Serra me dava conta de que o desafio era justamente esse: uma prova que, diferentemente da maioria, inverte o desafio: começa testando a mente, depois força o corpo e, ao final, exige sacrifício de ambos. 

Nunca havia feito uma prova com essas características – uma experiência bem vinda por ser diferente, inusitada. Experiências assim só somam. 

Estava pensando nisso quando, depois de ter descido a Serra em uma alternância de pace por conta de dores no estômago, entrei na praia de Maresias. 

Faltavam menos de 15 minutos para que eu fechasse 9 horas de prova e os últimos 2km eram de areia sadicamente fofa. 

Olhei para o relógio. 

Olhei para a frente. 

Respirei. E corri. 

Usei cada gota de energia restante para atravessar o areial, ora preferindo o trecho inclinado rente ao mar (com direito a ondas que chegavam aos joelhos), ora subindo pelo trecho mais fofo porém reto. Vi o relógio da linha de chegada bater cada segundo com força sonora. 

Pensei nas pausas que fiz. Tivesse meu estômago se comportasse melhor, tivesse parado menos para comprar Coca, tivesse treinado mais para o trecho monótono do começo… Hipóteses se acumulavam, pesavam. 

As pernas, no entanto, ignoravam cada uma delas. Dei tudo de mim nos quilômetros finais e cruzei a linha de chegada com o Garmin apontando 8:59:55. 

Ultra Bertioga-Maresias terminada. 

Ao final, abraços nos companheiros de prova e, claro, um agradecimento todo especial ao Rogério “Zé” Augusto, que seguiu de bike como meu apoio, e aos amigos que me deram abrigo: Leandro, Cordeiro, Daniel e Carol. 
Que venha agora uma semana com merecido descanso!

   

  

  

   

Checkpoint: Joelho melhor, velocidade subindo e ultra à vista

Poucas palavras definem melhor esta semana.

Depois de idas e vindas das dores, descobri que um tênis velho havia, aparentemente, perdido o seu “mo-jo” e estava quebrando a minha biomecânica.

Como parte da “recuperação”, optei por trechos com menos inclinação e turbinei a velocidade. Funcionou: fechei bem a semana e ainda pude contemplar gráficos de pace nos seus melhores dias. 

Finalmente, foi o fechamento da última semana pre-prova. Foi-se o pico, somaram-se 78km nos últimos 7 dias e, embora com a musculatura meio cansada, me sinto em uma das melhores formas que já estive. 

Agora é descansar nos próximos dias, diminuindo volume (e compensando de leve com mais intensidade) e largar para as areias do litoral norte paulista.

   
 

Seria o excesso de amortecimento?

Liguei o sinal amarelo desde que senti o joelho direito há algumas semanas. Aparentemente não foi nada preocupante: de lá para cá já fiz longões consideráveis e me mantive ativo sem tirar quase nenhum quilômetro do planejado. Só fiz uma coisa: troquei o Merrell Ultra, tênis sem drop mas com um amortecimento de alguns milímetros, pelos Vibram Fivefingers ou Merrel TrailGloves – ambos minimalistas ao extremo.

Hoje saí com o Ultra. Resultado: nova fisgada no joelho em menos de 2km! Não forcei: dei meia volta.

Não costumo colocar a culpa em tênis ou acessórios quaisquer: a “culpa”, por assim dizer, é sempre da biomecânica. Mas talvez… talvez esteja tão habituado ao minimalismo que amortecimentos simplesmente atrapalham, machucam, enganam os pés e o corpo quanto à tactilidade do solo.

Enfim, é uma teoria que será testada no longão de sábado. Sem amortecimento, claro!

  

Cruce……..

De todas as provas que tenho alinhadas no meu futuro próximo, o Cruce é sem dúvidas a quem mais tem me deixado empolgado. 

Só o prospecto de voltar a correr na região dos lagos andinos – uma das mais belas que já vi na vida – cruzando montanhas e passeando por dois países já faz a endorfina arrepiar cada pelo do corpo. 

Ver um vídeo assim, então, é de matar…

Que chegue logo fevereiro!!! 

El Cruce 2014 | Kailash Team Neptunia from Morfina Filmes on Vimeo.

Checkpoint: Semana de pico com susto

Tudo começou bem: planilha calibrada, motivação alta, pernas ansiosas. Seria a minha semana de pico, período em que superaria os 90km para depois diminuir gradativamente até chegar mais descansado, inteiro, na largada da Bertioga-Maresias. 

Aí veio a quarta. Do nada, uma fisgada esquisitíssima no joelho me fez voltar andando boa parte do caminho de volta para casa, mancando com o corpo e com a mente. Todas aquelas dúvidas que corredores mais temem às vésperas de uma prova apareceram como um tufão. As certezas metronômicas da segunda, em dois dias, viraram uma mescla de medo com insegurança juvenil. 

Acho que é nesses pontos que entra a experiência. Tenho para mim como verdade absoluta que dores articulares só aparecem quando estamos cometendo alguma falha biomecânica qualquer. Passei o resto da quarta me examinando meticulosamente, refazendo meus passos, minha postura, meu centro de gravidade. 

Guardei o Merrell Ultra, tênis que, apesar de minimalista, tem algum amortecimento. No lugar dele, tirei o Vibram FiveFingers, ideal para forçar uma postura adequada. 

Com ele, saí na quinta à noite pelas (ou melhor, pela) rua de Maresias. Rodei 10km voando baixo e, apesar de um desconforto inicial, termine bem. 

No sábado, troquei o longão de 4h por um menor, de 2h30. Fechei 25km bem, inteiríssimo. Repeti a dose hoje, adicionando mais algumas ladeirinhas em um percurso improvisado pelos becos da Vila Madalena e Parque Villa Lobos. Um adendo: fazer sequências de longos é algo que tinha ficado meio de lado, mas que sempre ajuda bastante no preparo. 

Terminei em perfeitas condições. 

Verdade seja dita, os temores de que a dor evoluísse para uma lesão me impediu de fechar os 90 ou mais km: fiquei em pouco mais de 88, levemente abaixo da semana passada. Mas tudo bem: foram duas semanas fortes, batendo praticamente na mesma quilometragem e ainda com correções posturais perfeitas. 

Agora é manter o ritmo mais uma semana, entrar em um brevíssimo tapering de alguns dias e encarar as praias do litoral norte! 

   
 

‘All systems go’!

Acordei com aquele medo natural que, psicologicamente, “gera” dor justamente onde mais se teme tê-la. Me revirei, pensei, calculei e concluí: não seria inteligente rodar 4 horas hoje.

Por outro lado, também não seria inteligente sucumbir ao medo.

Escolhi uma rota menor: Sumaré, Jardim das Perdizes, Parque da Água Branca, Pacaembu, Brasil e Ibirapuera. Na rota, uns 25km rodados em todos os ritmos possíveis e aproveitando subidas e descidas.

No segundo km, confesso que um pequeno incômodo realmente apareceu para me apavorar. Mas foi só deixá-lo de lado e, como sempre, prestar mais atenção na biomecânica. Aquele foi o último momento que senti dor.

Dali para a frente foi só treino natural, normal, como um sábado qualquer. 25km, pace de 5m54s/ km lisos, fluidos.

E com mais um bônus: a possibilidade de fechar a quilometragem semanal como originalmente planejado, dobrando a carga de amanhã para 3 horas. Melhor que a encomenda.
De toda forma, seja como for, o ponto alto do dia foi concluir que estou já normal, intacto. E pronto para a Bertioga-Maresias!

Ufa!

  

Inteiro de novo?

Foi uma espécie de “hora da verdade”. Com um pouco de medo, saí na noite de ontem para testar se meu joelho estava intacto ou não. Mas não saí como em um dia qualquer. 

O que mais me chamou a atenção ontem foi que, quando acelerei, a dor diminuiu. Tentei entender melhor algo que não fazia tanto sentido. Concluí o óbvio: não era mesmo a velocidade mas sim as mudanças na biomecânica naturalmente gerados pela aceleração. 

Tentei um pace mais rápido para ver como eu corria. Na prática, acabava alongando mais a passada. Não para a frente, mas para trás. Sempre que estava mais rápido, o pêndulo feito com a perna ia mais alto, fazendo o joelho dobrar mais e, assim, de alguma maneira, relaxar. 

Fiz 10km em um pace médio de 5’13”, com velocidade maior principalmente na metade final. 

No começo, confesso que senti um levíssimo incômodo. Depois d primeira meia hora, no entanto, nada. Estava perfeito. 

Bom… não dá para dizer que esteja “curado”, claro. Mas já é um bom sinal. 

Hoje é dia de descanso. Vamos ver como será o longão do sábado.