Nos calcanhares da história paulistana

Ainda não entendi como, mas o fato é que, já desde o domingo, não sentia nenhum tipo de cansaço físico no corpo. Tinha episódios de sono súbito – mas essa foi a única consequência de ter intercalado um total de 84km em 46h36m diretas, sem dormir por mais que um punhado de minutos encaixado no banco da frente do carro de apoio na BR135+.

Longe de mim querer questionar o próprio corpo: aproveitei o feriado e, claro, saí para correr. 

Desta vez, no entanto, uni a vontade à curiosidade histórica: tracei uma rota que saiu do MASP, e cruzando a 9 de Julho, chegou no Obelisco de Piques. Explico: ontem, 25 de janeiro, foi aniversário de São Paulo – e esse obelisco é considerado o primeiro monumento inútil de São Paulo. A importância disso? 

Foi a primeira vez que a cidade decidiu construir algo com o único propósito de se embelezar e preservar a sua história. Foi, portanto, a primeira vez que a cidade se enxergou com algum tipo de “vaidade urbana”, de orgulho, até mesmo de sensualidade. E isso em 1814, quase 300 anos depois de ter sido fundada, período em que era apenas uma vila bruta, feita de gente brava em todos os aspectos dessa palavra. 

Em minha opinião, a história da São Paulo moderna começou nesse obelisco – que eu ainda não conhecia. 

Bom… o obelisco era melhor na minha memória do que na realidade. Hoje, é um pequeno monumento pichado, imundo e servindo de latrina pública para todo um mar de mendigos que se estendem pelo local. 

O primeiro marco do orgulho da cidade, infelizmente, se transformou em um símbolo perfeito do descaso para com ela mesma, sua história e sua feição. 

  
Saí de lá. 

Decidi rodar um pouco pelo centro, cortando o Vale do Anhangabaú, passando pelo Mosteiro de São Bento, pela Praça Antônio Prado e outras, cada uma com algum pedaço incrível de história dessa cidade que tanto amo. Algumas, ainda bem, ainda preservadas – como o primeiro “arranha-céu” da cidade, com apenas 7 andares próximos ao atual Edifício Martinelli. 

  
O velho centro começou a ser abandonado quando a elite decidiu literalmente subir a serra em busca de ares melhores. Com o Viaduto do Chá, ela cruxou o vale e se instalou nos Campos Elíseos – um dos lares da Cracolândia de hoje. Alguns palacetes de lá ainda persistem, usando a grandeza para combater os ares de decadência. 

Subi mais. Até o segundo dos bairros nobres pós-centro, Higienópolis. Subi a Nothmann até a Angélica, passando pela majestosa catedral que herdou a função do Pátio do Colégio depois que os jesuítas foram expulsos. Cheguei a entrar na igreja apenas para vê-la de perto, por dentro, para respirar os ares da história. 

E, de lá, terminei no terceiro dos bairros nobres, a Paulista dos barões do café e dos primeiros industriais. Foi onde terminei essa homenagem minha a São Paulo, seguindo uma espécie de “caminho da riqueza” ao longo de seus quase 500 anos de vida. 

E por que escrever tudo isso aqui, em um blog de corrida – e não de história? 

Porque uma das maiores preciosidades de correr, para mim, é poder se desligar do presente e atravessar o tempo, imaginando o passado e projetando o futuro. É um tipo de corrida diferente, claro – mais metafísica do que física, mais espiritual do que muscular, mais intensa do que cotidiana. 

E, de vez em quando, é o tipo mai perfeito de corrida que pode existir. 

Tomara que um dia São Paulo volte a se cuidar melhor e deixe de ficar tão abandonada quanto está hoje. 

Enquanto isso, permanecerei correndo e, claro, sonhando.

   

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Brigando contra o sono

Era uma das batalhas que eu mais ansiava por ter. De todas as principais autodescobertas que fazemos com ultras – e digo principais porque, na prática, elas nunca cessam de vir – confrontar o sono era algo inexplorado. Já corri varando a madrugada antes – na Indomit, por exemplo. Mas foram 21 horas de prova e, em uma situação dessas, a própria adrenalina se encarrega de eliminar a vontade de dormir. 

Neste caso, na BR, foi diferente. Minha última perna foi de cerca de 32km que se iniciaram às 10 da noite e se encerraram às 6:30 da manhã. E quando digo “se iniciaram”, refiro-me a já partir para a rua com um 38 horas sem dormir e intercalando trabalhos de pacer (portanto, correndo) com os de apoio (como organizar hidratação e nutrição, acompanhar a atleta com o carro etc.).

Quando o sono bateu ele foi severo. As pernas obedeciam a mente, mas esta cismava em travar uma verdadeira guerra contra as pálpebras. Os olhos ardiam como nunca, o pensamento ficava lerdo, os golpes de olhar tardios. Era como se estivesse correndo em um pesadelo em câmera lenta. Muito lenta. 

O que eu fiz? O que se há de fazer quando dormir não é uma possibilidade? Continuei dando um passo atrás do outro. 

Tentei puxar assuntos diferentes com a Zilma e com os outros membros do time, tentei manter-me aceso, tentei ignorar o inignorável. Nada, absolutamente nada funcionou. 

Até que decidi me entregar ao efeito placebo que cafeína teria em mim. Digo placebo por um motivo simples: no dia-a-dia, costumo tomar algo entre 1 a 2 litros de café – incluindo uma caneca antes de dormir. Chega a ser óbvio que os efeitos energético em mim são, para usar de um eufemismo, mínimo. 

Mas é incrível o que ocorre quando o desespero nos força a confiar (e desejar) cegamente por um milagre. A mente, fraca pela batalha contra o sono, cedeu. Completamente. Irremediavelmente. Ridiculamente. 

Em menos de um minuto – tempo insuficiente mesmo para efeitos reais – o sono havia evaporado pelos ares da Mantiqueira. Eu estava eufórico, adrenalinado, aceso. 

Tudo voltou ao normal e foi como se a madrugada tivesse se transformado em uma tarde (mesmo que meio escura para os “padrões normais”). 

Lição aprendida: em desespero, entregue-se a medidas desesperadas. Às vezes elas funcionam. 

   
   

Descobrindo novas cidades em trilhas urbanas

Quem corre em trilhas gosta – obviamente – de um contato mais intenso com a natureza. Não quero dizer nada exatamente “zen-zóide”, claro – mas cortar montanhas, subir pedras que desembocam em vistas quase lisérgicas, traçar caminhos em areias de praias ou em dunas… Tudo isso tem um encanto bem maior do que qualquer prova de rua. 

Só que eu moro em São Paulo.

Há trilhas por aqui? Há, claro. Consegue-se descobrir trechos de “mini-florestas” em pequenos parques como o Burle Marx ou o Alfredo Volpi, na lateral do Ibirapuera, no sensacional Parque do Carmo ou até mesmo dentro da USP. Mas, ainda assim, são circunferências protegidas, muralhadas, fechadas. 

E como juntar a necessidade de desbravar novas matas com estar em uma paisagem tão urbana? 

Aproveitando-a – claro. Há vantagens em se estar em uma cidade como Sampa: cada esquina tem sua história, tem seu motivo, tem seu contexto. Cada bairro esconde seu segredo, sua origem de nobreza ou pobreza, seu futuro incerto traçado nos rostos de seus moradores. 

E, mais, há uma infinidade de possíveis trilhas, embora todas essencialmente urbanas, que se pode fazer em São Paulo. A de ontem, por exemplo, foi diferente. Larguei da represa de Guarapiranga, em um dos extremos da capital paulista, saindo de uma avenida batizada, por ironia ou inveja, de Atlântica. Margeei a represa enquanto jet-skis, wind-surfs e veleiros a coloriam de calma. 

E, por lá, cruzei o bairro do Socorro, entrando pela Santo Amaro. Parei na estátua do bandeirante Borba Gato, imensa, meio esquisita, com um olhar meio que distante buscando novos horizontes a desbravar. Poucas cidades no mundo homenageiam genocidas tanto quanto São Paulo: ignora-se as vidas que eles ceifaram, exalta-se o espírito aventureiro com que adentraram as matas e clamaram terras. Eis a vantagens dessas trilhas urbanas: elas nos ajudam a entender melhor os tantos detalhes que fazem as grandes cidades grandes. 

  
Deixei o bandeirante para trás e segui. Aos poucos, o cenário foi mudando: casinhas com cheiro de tristeza e praças abandonadas foram ficando mais verdes; igrejas reformadas apareceram, carros se renovaram nas vias, verdes ficaram mais vibrantes. Pequenos botecos sumiram de vista e, ao pé de prédios luxuosos, bares charmosos exibiam letreiros bem desenhados e dentes bem tratados. Entrei na Hélio Pellegrino e subi até o Ibirapuera. 

Meu velho amigo, o parque de todo dia, estava lá recebendo os costumeiros visitantes de domingos ensolarados. Ao invés de cortar caminho, alonguei-o para poder pegar um pouco do solo do Ibirapuera no tênis. Fiz meio parque até sair na República do Líbano e traçar meu caminho de volta. 

Da represa até a porta da minha casa, com apenas um ou outro desvio, foram 20km. 20km, diga-se de passagem, em que toda uma série de São Paulos diferentes desfilou para mim. 20km de um mar inexistente, de bairros empobrecidos, de arranha-céus, de parque, de cidade grande. 

Quer maneira melhor de aproveitar uma metrópole assim do que fazendo uma trilha urbana por ela? 

   

Os zumbis nas trilhas noturnas do Ibiraquera

Na semana passada eu troquei o longo do sábado de manhã pela sexta à noite. Foram dois motivos: desenferrujar a headlamp, que será usada na Indomit neste próximo final de semana, e livrar a manhã do sábado para outras coisas que precisava fazer.

E, assim, saí do trabalho já com tudo escuro rumo ao parque. Não dá para dizer que o Ibiraquera é um lugar selvagem, claro: trata-se de um grande parque urbano, com trilhas absolutamente domesticadas e apenas um ou outro obstáculo pelo caminho. Ainda assim, é uma experiência sensacional para quem quer variar.

Os cheiros são outros, os sons são outros e a sensação de se estar na mata é imbatível. Só que há outras curiosidades tipicamente urbanas em uma trilha assim.

A minha primeira volta foi basicamente uma repetição de trechos que costumo fazer de dia: incluiu uma área mais deserta atrás da horta e um cotovelo perto de um dos portões principais (veja no mapa abaixo).

À noite, no entanto, concluí que esses trechos são dominados por… ZUMBIS! Não achei outra maneira de descrever os seres que lá estavam: de 5 a 10 indivíduos sem camisa, andando sozinhos de um lado para o outro na mais completa escuridão. Nenhum falava ou murmurava: eles simplesmente se afastavam de mim sempre que a lanterna iluminava o local.

Não havia movimentos agressivos e nem mesmo olhares desconfiados: estavam apenas ali, como se tivessem brotado do solo, vivendo com a mesma intensidade que uma planta. Dá para imaginar?

Bom… nenhum dos zumbis tentou me comer mas, por via das dúvidas, cortei esses trechos nas últimas duas voltas.

Para quem estiver a fim de uma aventura noturna no meio da cidade, recomendo o Ibira fortemente – mas que fique aqui o alerta. Afinal, quem sabe os zumbis não fiquem com fome e queiram te devorar em alguma oportunidade qualquer??

Vai saber…

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Voltando à selva antes da hora útil

Repeti a dose de ontem.

Às 5 da manhã estava já de pé, devidamente trajado, ajustando o relógio e olhando pra a tempestade.

A noite estava escura, meio enevoada e com água saindo tanto dos céus quanto das valetas que descem da Paulista carregando cachoeiras nervosas.

Perfeito.

Fiz a mesma rota de ontem e, ligando a lanterna presa à testa, virei à direita na trilha. Familiariza-se rápido com situações diferentes: foi só dar o primeiro passo em uma poça de lama que me senti em casa. A luz estava a mesma, o tênis era o mesmo e o local estava igualmente irreconhecível. Ainda assim, trilhei os 6km como se fosse uma criança.

Corri onde pude, caminhei em locais mais difíceis de ler, respirei cada gota de umidade e cada cheiro de floresta molhada que consegui detectar com os sentidos aguçados. Aliás, desta vez deixei o celular em casa para poder me concentrar mais na trilha e em seus sons.

Muitos sons.

Grilos, insetos, sapos e toda uma gama de espécies rastejantes transformavam o Ibirapuera à noite e sob tempestade em um tipo de festa animada até o último decibel. Fosse alguém vendado e levado até aquele local, dificilmente deduziria estar no coração da maior cidade da América do Sul: nada ali sequer lembrava uma metrópole.

E assim o tempo foi passando regado a sons, chuva, lama e a visão enevoada do fio fino de luz que emanava de uma lanterna já cansada e quase sem pilha.

Quando voltei, novamente subindo a Ministro, era outra pessoa. Parecia que havia me teletransportado de volta para a cidade, provando que estive fora por roupas encharcadas, enlameadas e absolutamente felizes.

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O lado selvagem do Ibirapuera no escuro

Dá para achar novidade, algo diferente, na mais estabelecida das rotinas. 

Em grande parte por conta da Indomit, decidi ontem tirar a poeira da minha headlamp e fazer uma corrida em alguma trilha à noite na segunda. Bom… achar uma trilha para se fazer sem a luz do sol em plena segunda-feira útil não costuma ser algo fácil, simples. Certo? 

Errado. 

Primeiro, porque à noite pode ser simplesmente antes do sol raiar. Segundo, porque qualquer trilha no escuro pode servir a estes propósitos: a sensação de familiaridade, afinal, costuma ser irmã da luz. 

Com o iPhone setado para me acordar às 4:30, dormi carregado de alguma ansiedade. Minhas roupas para a manhã seguinte mais pareciam às de uma prova: buff, headlamp, tênis de trilha (também para tirar a poeira e acostumar os dedos dos pés). Lá pela 1 da manhã, uma tempestade sem tamanho, daquelas que deixa a cidade em estado de alerta por horas a fio, se abateu sobre São Paulo. Tudo era som de chuva, estrondos de trovão, relâmpagos iluminando a noite. Cheguei a me perguntar algumas vezes se sairia assim ou não até que peguei no sono. 

Às 4:25 – antes do despertador – acordei. 

O céu estava silencioso, calmo: não havia mais tempestade. Aproveitei a janela de tempo, me arrumei e, em poucos minutos, estava na rua. 

Os parcos seres que perambulavam antes das 5 nas ruas paulistanas me olhavam como que a uma alucinação, alguém absolutamente fora de contexto e lugar. E realmente estava – pelo menos até cruzar o portão do Ibira e entrar na trilha escura já com a headlamp acesa. 

Tudo, tudo era lama. Havia me esquecido como lanternas falham em passar aos olhos a sensação de profundidade: de certa forma, correr à mercê delas é como cruzar uma tela em 2D. Há algum temor de queda nos instantes iniciais mas, logo depois, é como se o corpo se adaptasse ao novo cenário. 

Aliás, tudo era tão novo, tão diferente que, por vezes, eu até me esquecia onde estava. A chuva, por exemplo, havia pintado um lago no meio do caminho que precisei cruzar; raízes de árvores e folhas formavam pequenas armadilhas que precisavam ser evitadas e uma leve garoa misturada a fumaça da respiração formava um clima meio onírico, afastado da realidade. 

Não fosse o tempo passando e o sol que estaria dominando os céus em pouco tempo eu certamente daria mais uma ou duas voltas. Ou três. 

Mas voltei para casa, não sem antes subir a ladeira da Ministro para somar alguma altimetria mais intensa. 

Hoje é uma segunda-feira como outra qualquer: começo de semana de trabalho, repleta de reuniões e tarefas, com prazos apertados e tudo aquilo que caracteriza a vida de quem habita esta grande urbe. Ainda assim, posso dizer que comecei o dia cruzando uma trilha noturna, atravessando um lago improvável, deslizando por lamaçais esparramados pelo chão e movido pelo som isolado dos pulmões e testemunhando o encontro de névoas que saíam da boca e das núvens. 

Tirei uma foto antes de voltar para casa para me assegurar de que tudo aquilo realmente acontecera. Olhe bem… não é incrível o que podemos extrair mesmo da maior das cidades quando se tenta algo diferente? 

  

Mooca: Correndo pela Era Industrial de Sampa

Tudo bem que o plano era fazer 30km em 3 horas… mas quem se importa?

A ideia mesmo era desbravar a pé uma região de São Paulo que, exceto por uma ou duas incursões de carro no passado, permanecia um mistério para mim: a Mooca.

E, assim, saí Paulista afora programando um giro antes pelo Parque da Aclimação. Os objetivos lá eram três: aproveitar os primeiros raios de sol cortando um céu azulíssimo em um lugar realmente lindo; acostumar os olhos às pequenas casinhas da região, já com ares da década de 50 ou 60; e evitar passar pelo Glicério, perigoso demais mesmo pra aquelas horas.

De lá, entre uma e outra ladeira, passei pela D. Pedro I, já próximo do Ipiranga, Cambuci e, de repente, estava atravessando trilhos de trem. Uma avenida imensa de trilhos, diga-se de passagem, o que alertava para a chegada na Era Industrial de São Paulo. 

  
Estava na Mooca.

De lá, cruzei algumas ruas e me deparei com o Teatro Arthur Azevedo – uma construção com ares de 1960, meio acinzentada e ainda sólida.  

 
Segui pela Paes de Barros. Havia uma rua ali famosa por ter mantido as típicas casas de operários e imigrantes italianos, a Henrique Dantas. Cheguei nela no exato instante em que velhas moradoras, provavelmente amigas de décadas, se despediam na porta de casa. 

   
   
Perfeito. A rua parecia sair de um filme de época, intocada, colorida, meio enferrujada. 

Mas precisava seguir. De lá, passei no velho e tradicionalíssimo estadio do Juventos na Rua Javari, outro símbolo da imigração italiana, e por incontáveis galpões industriais.

   
   
Tudo ali, incluindo um museu destinado à imigração à beira de outro conjunto de trilhos que ainda contavam com uma Maria Fumaça, respirava décadas de 40, 50, 60. Era a base, por assim dizer, da origem das fortunas modernas paulistanas. 

  
E correr por ali foi cruzar o tempo.

Voltar, ainda por cima, me faria refressar o calendário ainda mais. Segui pelo centro, atravessando um viaduto que deixava à mostra, lá em baixo e de longe, a Baixada do Glicério. Colorida, perigosa, mendigada, traficada, populosa. Até deu vontade de mergulhar naquele caos por alguns instantes – mas preferi escutar o juízo e voltar.

Tomei o caminho da Sé, passando pelo Centro Histórico, cortando a Avanhandava e tomando a Augusta.

   
 
Estava em casa e 3 horas já haviam se passado. Mas a quilometragem? Bem…. entre pausas para fotos e para conferir o Google Maps, mal cheguei aos 21km!

Sem problemas: a distância se compensa amanhã. Hoje, no entanto, foi dia de deixar entrar pálpebras adentro memórias de uma São Paulo que nunca vivi, em tempos passados e lugares distantes, mas que me deixarão fascinados por muitos e muitos anos.

Há que se amar essa metrópole.

(Clique para acessar o mapa interativo)

  

O pico

Não é (só) pelo fato de ser o ponto mais alto de São Paulo, o que garante uma vista fora de série da terra da garoa e um treino em subida fortíssimo.

Correr no Pico do Jaraguá tem algo de mágico.

Começando pela chegada, logo antes das sete, quando carros se avolumam na portaria aguardando que seja aberta. Depois vem aquele mar de preparações: ciclistas mais aventureiros montando suas bikes, corredores se equipando com água e escolhendo entre trilha e asfalto, curiosos apenas admirando o oásis verde no meio da metrópole.

Depois, o caminho. Pelo asfalto, 4,5km serpenteando a montanha e dando margem a vistas incríveis a cada curva. Paredões rochosos, verdes intensos contra um céu em processo de azulação, cheiro de mato acordando, suor e ácido lático denunciando o esforço. Cansa subir lá – e como.

Mas, no topo, a vista final compensa com a cidade se espalhando pelos seus pés como uma pintura meio neo-impressionista. 

Vista, aliás, que melhora ainda mais pela descida da trilha do Pai Zé, mais técnica e intensa. Corta a mata, demanda mais atenção a cada passo, libera doses cavalares de ácido lático. E compensa.

Quase 20km se passam entre duas subidas e descidas alternando asfalto e trilhas pelo Jaraguá. Passam marcando o cansaço, claro – mas aliviando o peito com esse presente que é respirar com os olhos, por assim dizer.

Poucos lugares são tão maravilhosos pra se correr na capital paulista quanto o Pico.

  

Trilha urbana: Morros de Perdizes e Pompeia

Treinar subidas em São Paulo? Não é preciso buscar refúgio no Pico do Jaraguá ou nos extremos da capital paulista. Aqui mesmo, bem no centro, há um local perfeito para se brincar com a altimetria e fazer uma corrida com perfil de eletrocardiograma: os bairros de Perdizes e Pompeia.

Comecei por uma rota mais habitual: desci até a Sumaré, segui pela ciclovia até a Barra Funda, dei uma volta no Jardim das Perdizes e duas no Parque da Água Branca.

Foi lá que a brincadeira efetivamente começou.

Depois do já levemente acidentado Parque da Água Branca, virei antes do Minhocão e subi a Cardoso de Almeida. E subi. E subi.

A partir daquele ponto tomei uma decisão: como tinha ainda mais que uma hora de treino programado, sairia simplesmente caçando ladeiras.

E assim fui cruzando por Perdizes, subindo e descendo escadarias imensas entre ruas, chegando a mirantes escondidos e brincando de contar torres de TV. Entrei por becos, saí em avenidas, mergulhei em pequenas praças com um verde reluzente, descobri casarões incríveis ao lado de casinhas bucolicamente perdidas.

Saí de Perdizes e, por entre ruas sombreadas por árvores imensas, cheguei na Pompeia. Subi e desci, fui e voltei e cruzei por tantas ruas que cheguei a realmente não fazer ideia de onde estava.

Depois de um tempo percebi que a Heitor Penteado estava logo ali no alto. Subi, cruzei e, de repente, estava de novo na Sumaré, embora no sentido oposto. Corri até a Brasil, rodei mais alguns quilômetros e pronto: cheguei em casa.

Fartlek é um estilo de treino onde se brinca com velocidades intensas por curtos períodos de tempo. Não fui rápido em nenhum momento hoje: a própria planilha já continha a clara instrução para eu evitar velocidade.

Mas esse treino foi, sim, uma brincadeira como em poucos outros. Não sei que palavra existe para isso – ou mesmo se existe alguma – mas, ao invés de perseguir velocidade, acabei brincando de gangorra pelos morros de uma das regiões mais acidentadas e deliciosas desta incrível cidade.

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Os 3 Ibirapueras

Por mais que eu goste de explorar lugares novos e sair por aí desbravando trilhas, urbanas ou não, é sempre bom ter um lugar para chamar de casa. E, aqui em Sampa, esse lugar é o Ibirapuera.

É o ponto principal de meus treinos durante a semana, seja nas primeiras horas da manhã, às noites ou, em alguns raros momentos, no intervalo do almoço. É onde me sinto mais à vontade por conhecer cada uma de suas travessas e cada esconderijo e, claro, onde posso variar por diferentes percursos.

O Ibira, na verdade, pode ser dividido em três.

Primeiro, há a tradicional pista no interior do parque, totalizando 3km e que costuma ficar coalhada de corredores nos horários de pico ou finais de semana. Quer treinar velocidade? É perfeito. Desde que se tenha cuidado com ciclistas que, volta e meia, voam cortando caminho.

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A pista não é o meu lugar preferido. A trilha é.

Ela vai mais discreta, logo dentro da grade, e soma cerca de 5km entre zigues e zagues. Não é uma trilha técnica, obviamente: salve uma ou outra ladeirinha, o Ibira é relativamente plano. Mas, ainda assim, é uma trilha: tem pontos com lamas, árvores caídas servindo de obstáculos em alguns pontos, cheiros de floresta, silêncio e muito, muito menos corredores. Dá para sair muito mais livre, sentindo a corrida como ela realmente deve ser.

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Finalmente, há o percurso fora do parque, margeando a grade pela calçada. Tecnicamente, a distância não é muito diferente da trilha – mas há mais asfalto e, dependendo do ponto (principalmente na IV Centenário), ainda mais isolamento. A corrida por fora é uma espécie de mescla dos dois mundos: tem o asfalto do circuito e a distância da trilha, com trechos cheios (nos arredores dos pontos de ônibus) e vazios (nas zonas mais residenciais). E, claro, há iluminação – algo que falta na trilha por um motivo óbvio: é uma trilha.

Dia desses decidi fazer os três percursos no mesmo treino. Variar, afinal, faz bem – mesmo quando se está no percurso mais repetido de todos. Quer saber? Gerou uma sensação de “patrulha em torno da própria casa” quase inédita, como se eu estivesse oficialmente conferindo as “condições” do Ibira. Senso de propriedade é bom, faz bem – principalmente quando se está falando de um lugar tão importante para mim (e para tantos corredores paulistanos).

Fora isso, há ainda as surpresas que o parque prepara por ficar no coração de Sampa, como a iluminação incrível de Natal, os shows com as águas, os concertos que emanam música clássica cortando qualquer headphone aos domingos etc.

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Tem como não amar esse parque?

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