Descobrindo novas cidades em trilhas urbanas

Quem corre em trilhas gosta – obviamente – de um contato mais intenso com a natureza. Não quero dizer nada exatamente “zen-zóide”, claro – mas cortar montanhas, subir pedras que desembocam em vistas quase lisérgicas, traçar caminhos em areias de praias ou em dunas… Tudo isso tem um encanto bem maior do que qualquer prova de rua. 

Só que eu moro em São Paulo.

Há trilhas por aqui? Há, claro. Consegue-se descobrir trechos de “mini-florestas” em pequenos parques como o Burle Marx ou o Alfredo Volpi, na lateral do Ibirapuera, no sensacional Parque do Carmo ou até mesmo dentro da USP. Mas, ainda assim, são circunferências protegidas, muralhadas, fechadas. 

E como juntar a necessidade de desbravar novas matas com estar em uma paisagem tão urbana? 

Aproveitando-a – claro. Há vantagens em se estar em uma cidade como Sampa: cada esquina tem sua história, tem seu motivo, tem seu contexto. Cada bairro esconde seu segredo, sua origem de nobreza ou pobreza, seu futuro incerto traçado nos rostos de seus moradores. 

E, mais, há uma infinidade de possíveis trilhas, embora todas essencialmente urbanas, que se pode fazer em São Paulo. A de ontem, por exemplo, foi diferente. Larguei da represa de Guarapiranga, em um dos extremos da capital paulista, saindo de uma avenida batizada, por ironia ou inveja, de Atlântica. Margeei a represa enquanto jet-skis, wind-surfs e veleiros a coloriam de calma. 

E, por lá, cruzei o bairro do Socorro, entrando pela Santo Amaro. Parei na estátua do bandeirante Borba Gato, imensa, meio esquisita, com um olhar meio que distante buscando novos horizontes a desbravar. Poucas cidades no mundo homenageiam genocidas tanto quanto São Paulo: ignora-se as vidas que eles ceifaram, exalta-se o espírito aventureiro com que adentraram as matas e clamaram terras. Eis a vantagens dessas trilhas urbanas: elas nos ajudam a entender melhor os tantos detalhes que fazem as grandes cidades grandes. 

  
Deixei o bandeirante para trás e segui. Aos poucos, o cenário foi mudando: casinhas com cheiro de tristeza e praças abandonadas foram ficando mais verdes; igrejas reformadas apareceram, carros se renovaram nas vias, verdes ficaram mais vibrantes. Pequenos botecos sumiram de vista e, ao pé de prédios luxuosos, bares charmosos exibiam letreiros bem desenhados e dentes bem tratados. Entrei na Hélio Pellegrino e subi até o Ibirapuera. 

Meu velho amigo, o parque de todo dia, estava lá recebendo os costumeiros visitantes de domingos ensolarados. Ao invés de cortar caminho, alonguei-o para poder pegar um pouco do solo do Ibirapuera no tênis. Fiz meio parque até sair na República do Líbano e traçar meu caminho de volta. 

Da represa até a porta da minha casa, com apenas um ou outro desvio, foram 20km. 20km, diga-se de passagem, em que toda uma série de São Paulos diferentes desfilou para mim. 20km de um mar inexistente, de bairros empobrecidos, de arranha-céus, de parque, de cidade grande. 

Quer maneira melhor de aproveitar uma metrópole assim do que fazendo uma trilha urbana por ela? 

   

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