Niterói, dia 2: Caçando trilhas

Com a cidade devidamente desbravada, estava na hora de me embrenhar por alguma trilha mais próxima. 

Seguindo indicações de amigos, o plano era ir à Trilha do Costão, no Parque Estadual da Serra da Tiririca. Descoberta do dia: o Google Maps não entende muito de trilhas ou de entradas de parques. 

Infelizmente, a descoberta veio tarde. Segui pela estrada principal saindo de casa e entrei no sentido de uma serra imensa, ainda crente que estava no caminho certo. Mais tarde, descobriria que havia errado por uma entrada. 

Seguro que estava na rota, segui. Subi, subi e subi até um ponto chamado de Mirante de Itaipuaçu. Não nego: o lugar era absolutamente incrível, com uma praia de areia branca esparramada aos pés da serra iluminada pelo sol que, novamente, parecia anabolizado. 

Parei, tirei fotos e desci. Tudo, até a praia de Itaipuaçu. Foi lá que me toquei que algo estava errado: não havia nada perto de uma entrada para a Trilha do Costão. 

Bom… com quase 8km rodados e a volta inteira por vir, decidi retornar. Subi novamente a serra e, na boca do mirante, vi uma placa indicando a entrada de uma outra trilha, a do Elefante. Já tinha lido sobre ela: era maior, mais bonita e mais dura. 

Olhei para o relógio: já estava na hora de retornar. Olhei para a trilha: “puxa, como desistir de algo assim?”, me perguntei. 

Fiz um acordo comigo mesmo: aproveitaria um trecho dela, sem ir até o final, apenas para sentir aquele cheiro sensacional de mato. Subi como se não houvesse amanhã: rápido, leve, tranquilo. Pelos meus cálculos, devo ter feito 60% da trilha – e, pelo menos até ali, não achei nada muito técnico. 

Mas o tempo, infelizmente, costuma ter pouca misericórdia: já estava atrasado e seguir em frente certamente me traria problemas. 

Voltei. 

Desci a trilha feito uma bala: descidas assim, em singletracks leves dentro de uma mata fechada, são absolutamente sensacionais. 

Quando cheguei de volta ao mirante, virei à esquerda e desci mais asfalto, mantendo um ritmo apertado. No total, cheguei em casa com 18km rodados em pouco mais de 2 horas, muita felicidade estampada no rosto e a certeza de que farei a Trilha do Elefante inteira nos próximos dias!

   
    
   
   

Niterói, dia 1: Cruzando a cidade

Verdade seja dita, o longão de sábado não estava exatamente nos planos para esta semana: cheguei em Niterói na noite anterior, cansado e com um sono que parecia exigir mais cama do que tênis. 

Mas isso, claro, foi até o avião pousar no Santos Dumont, recheando a retina com aquelas paisagens exuberantes que apenas o Rio e Cape Town, as duas mais belas cidades do mundo, tem. 

Acordei às 7:00 da manhã seguinte, me arrumei na velocidade da luz, programei a rota no Google Maps e me mandei. O percurso: sair da região da Serra da Tiririca e chegar aos pés do MAC, somando cerca de 30km de ida e volta e bebendo a vista do Pão de Açúcar, Cristo e tudo mais no mesmo plano. 

E já saí com o céu azul e o calor batendo forte – um bônus para mim, que amo a sensação de ter as costas assando sob o sol. Por algum motivo, o Google me mandou margeando o morro do Cantagalo, por dentro, cruzando alguns morros leves. Não senti nenhum perigo ou coisa do gênero – mas certamente algum outro caminho seria mais bonito. Ainda assim, passar pelas pedras grandes que pontilham a paisagem e, vez por outra, sentir o mar perto dos olhos, faz toda a diferença. 

E demorou. Morro acima, abaixo, acima, abaixo, casinhas decorando a paisagem, céu ficando cada vez mais azul e temperatura subindo. 29, 30, 31, 32 graus. 

De repente, na descida de um morro, casas começaram a se transformar em prédios: estava no chegando ao centro da cidade. Com ele, trechos mais planos pareciam me guiar até o mar como um ímã. 

Segui. 

33 graus. 

À minha frente, a mais espetacular das vistas se desacortinou. Do lado de cá da Baía de Guanabara o sol parecia apontar o horizonte com um orgulho sem precedentes: ali, logo do outro lado, descansava o Pão de Açúcar e os demais morros que fazem do Rio o Rio. 

Não pude continuar: parei, tomei um bem-vindo gole d’água e fiquei imóvel por alguns instantes. 

Outros corredores aproveitavam a orla, comum para eles, aparentemente sem perceber o quão inacreditavelmente belo era aquele lugar. Dei mais alguns passos em direção ao MAC, que se posicionava como uma nave alienígena em frente a uma pequena igreja no alto de outro morro. Não cheguei a ir até lá, mas cheguei perto o suficiente para babar. 

34 graus.

Decidi ignorar o Google Maps: tracei a minha volta margeando a orla, deixando Icaraí por uma estradinha semelhante – mas mais bela – à Niemayer. Foi a melhor decisão que poderia ter tomado: àquela altura, às 9 da manhã, outros corredores e ciclistas já estavam aproveitando a cidade e transformando o clima em pura endorfina. 

Aliás, a endorfina era tamanha que mal conseguia me lembrar de beber água. 

35 graus. 

Saí da orla cruzando o bairro de São Francisco, subindo e descendo mais alguns morros e seguindo paralelo à Lagoa de Piratininga. 

Àquela altura estava já bastante cansado e com uma forte dor de cabeça por conta, provavelmente, do forte calor. Mas nem isso atrapalhou o dia: quando cheguei de volta em casa, quase às 11, o termômetro marcava 37 graus e o Strava computava 33km rodados. 

Foram as melhores boas vindas que já recebi de uma cidade.

   
   
  

Checkpoint: No paraíso

Nada que eu escreva agora poderá descrever a maravilha que é correr descompromissado pelas ruas e morros cariocas sob o sol escaldante destas bandas. Ainda assim, tentarei – mas nos próximos posts. 

Por hora, basta ver o súbito crescimento na rodagem para perceber que planilha e planejamento ficaram em São Paulo. Aqui, pelo menos até os últimos dias de 2015, será a mais pura diversão.

   
 

Antes e depois de uma ultra

Sempre que eu termino uma ultra eu costumo me olhar no espelho. Não, não passarei aqui nenhuma mensagem piegas no estilo autoajuda ou coisa do gênero: eu simplesmente me surpreendo com o quanto envelheci ao longo de 80, 90, 100km. 

Isso é normal: os altos e baixos de um percurso longo, a desidratação, a exaustão e os tantos demônios que enfrentamos em uma ultra realmente nos deixam… digamos… mais sábios. E, com a sabedoria, vem também o envelhecimento.

Também é verdade que nos recuperamos rapidamente. Basta um banho e uma noite bem dormida que pronto: estamos como novos, como estávamos antes de cruzar a largada. 

Sob esse aspecto, correr uma ultra é como viajar um pouco ao futuro e captar o tipo de sabedoria sobre a vida que só se ganha com a idade. E depois voltar – mas mantendo esse aprendizado. 

Uma matéria da Trail Runner fez um experimento que achei perfeito: registrou fotos de diversos corredores dos 125km da UltraTrail Harricana antes e depois da prova. Veja alguns exemplos abaixo. 

Percebe o envelhecimento? Aquele olhar de quem descobriu algo denso e novo sobre si mesmo e sobre a vida? 

É por isso que correr ultras é tão sensacional.

Vale conferir a matéria inteira clicando aqui.

   

   

  

Sábado

Não deu para acordar no sábado de manhã. Foi simples assim: a cama foi mais forte que o tênis. 

Mas era um sábado diferente: na prática, o ano já estava terminado. Era um sábado que teria cara de sábado mesmo no domingo, na segunda, na terça. Era um sábado de encerramenta de ano, de ciclo, de Tempo. 

Não correr seria algo quase criminoso. 

E, então, saí mais tarde. Bem mais tarde, por volta das 5, sob uma garoa fina que cobriu São Paulo. Não fui para nenhum parque: me embrenhei pela Barra Funda, perto do centro da cidade. 

Aproveitei aquela luz de fim de tarde nublado, com os postes começando a se acender, para quase flutuar pela ciclovia da Sumaré e pelo Parque da Água Branca. O melhor veio depois: fazer o Minhocão. Quando cheguei lá a noite estava quase se apossando do céu: a garoa ainda insistia em riscar o asfalto, as luzes do trânsito mostravam um quê de impaciência generalizada e, no ouvido, um rock leve, liso, embalava os passos. 

Quando saí do Minhocão peguei a Consolação ainda cheia, mas já começando a dar o dia por encerrado. Tangenciei o Cemitério, cruzei a Paulista. As pistas já estavam tomadas por happy hours de sábado, por sons de brindes e risos cortantes. 

O ano já estava terminado para muitos – possivelmente há algum tempo. 

Para mim, no entanto, só naquele sábado é que as peças efetivamente se encaixaram. 

  
 

Fechando o ano no Pico do Urubu

2015 foi um ano intenso para mim. 

Ele abriu, já em janeiro, com 50K por puro charco na Serra do Mar. 

Emendou com a Ultra Estrada Real (87K), prova que concebi aqui pelo blog e que foi ganhando adeptos de maneira espontânea, se auto-organizando e acontecendo pelo maravilhoso interior de Minas. 

Teve minha segunda Comrades (87K), experiência absolutamente inesquecível. Teve mais 50K por Atibaia. 

Teve os meus primeiros 100K nas malvadas trilhas da Indomit Costa Esmeralda. 

E, entre uma e outra prova, teve muito trabalho, muito treino, muito foco e muitas, muitas novas amizades feitas. 

Mas 2015 foi além disso: foi o ano em que realmente me entreguei às trilhas, perdendo medo de qualquer tecnicidade e aprendendo, ainda que a duras penas, a voar ladeira abaixo e correr ladeira acima. 

Nada mais natural do que me despedir de 2015 nas trilhas, portanto. 

E, assim, fui com um grupo de 30 trilheiros para o Pico do Urubu, aqui no interior de São Paulo. Tece de tudo: um pouco de asfalto, muita estrada de terra, singletracks gostosos, mais de mil metros de subida, uma vista deslumbrante. De certa maneira, esses 23km que percorri ora rindo com amigos, ora calado, imerso em meus próprios pensamentos, foram uma mini-versão de um ano tão intenso quanto cansativo. 

Quando cheguei de volta ao carro, 3 horas depois, estava mais revigorado do que cansado. Foi como um banho de mar às vésperas do ano novo: aquela trilha me fez cortar, mentalmente, o Tempo: separou 2015 de 2016. 

Ainda há dias pela frente, claro – mas nem sempre o tempo se mede pelo calendário. 

Domingo foi um belo exemplo disso. 

   
    
    
    
   

Checkpoint: O alívio da linha de chegada

Descidas são sempre sagradas.

O corpo entra no próprio ritmo, os membros parecem se soltar, a velocidade flui na mesma medida em que o cansaço vai ficando para trás.

Essa semana começou cheio de subidas. Subidas daquelas íngremes, técnicas, de assaltar o fôlego. Houve dias no trabalho que eu mal sabia se conseguiria sobreviver até o Natal, tamanha a exaustão.

Mas fui em frente. De alguma maneira consegui encaixar os treinos planejados. De alguma maneira consegui sobreviver à segunda, à terça, à quarta.

E, de alguma maneira, a semana passou.

Ainda não estou de férias – ao menos não oficialmente. Mas agora, tudo está mais fácil, mais leve.

Melhor: a semana terminou com duas sensacionais corridas que conto depois, em outro post: um pelo centro no fim de tarde chuvoso desse último sábado e outro na montanha, entre amigos, subindo o Pico do Urubu.

Que esse período de final de ano dure ainda muitos dias. Preciso miito do descanso mental tanto para aliviar o cansaço de 2015 quanto para me preparar para 2016.

   
 

Só mais 5 dias

Faltam 5 dias.

5 dias de turbulência e truculência, 5 dias de estresse, 5 dias de correria insana no trabalho para fechar o ano.

Nesta manhã de segunda, o que me resta é olhar para algumas das fotos do longão de ontem e torcer para que elas deixem o passado e saltem para o futuro próximo o mais rapidamente possível.

No mais, é aguentar esses 5 próximos dias.

  

 
 

Checkpoint: Um dia depois do outro

Ontem foi dia de blackout repentino. Não apenas troquei o longão pela cama como dormi até as 11 e passei o resto do dia me arrastando com sono.

Talvez tenha sido um pouco de anemia, talvez cansaço acumulado, talvez tudo. 

Mas nada como um dia depois do outro: hoje acordei às 5:15 sem despertador, voei para a rua e fiz todo o trajeto planejado pra ontem: Parque Alfredo Volpi, Butantã, Morumbi, Parque Burle Marx. Considerando que o dia estava lindo, me embrenhar pelas trilhinhas desses parques foi um bônus bem vindo e que trouxe doses desejadíssimas de endorfina da melhor qualidade.

No final das contas, fechei a semana uns 6 ou 7km abaixo do planejado – mas inteiro. Mas foi o melhor que pude fazer. Ultras ensinam isso: às vezes, brigar com o corpo é inútil. O máximo que se pode fazer é se segurar e aguentar um pouco mais esperando que os minutos futuros tragam algum alívio milagroso. E o melhor de tudo é que se aprende também que, com o tempo, milagres sempre acontecem.

De certa forma, foi como se um deles tivesse aparecido hoje, dando um boost súbito um dia depois de eu ter me rendido de maneira tão completa ao sono.

Que bom.