Triathlon do mal

Triathlon não é exatamente a minha praia: não curto muito bike e esse negócio de ficar se batendo debaixo d’água de fato não me encanta.

Mas, se um dia fosse fazer um, seria algo nessa linha mais “alucinante” (para dizer o mínimo): 

Longões na Disney

Correr pela região da Disney é uma experiência para lá de ruim: as ruas não tem acostamento, os lugares são todos afastados uns dos outros para que se arrisque com segurança (se é que isso existe) e o calor é digno do verão amazônico.

A parte de correr sem acostamento é a pior: mesmo indo pela contramão, os carros e ônibus que passam tiram finos de gelar a espinha. Há, claro, a alternativa de se correr nos resorts, que sempre tem pistas internas bem cuidadas – mas aí o problema é a distância curta. A quase totalidade deles tem, no máximo, 2 ou 3kms “corríveis”, forçando loops atrás de loops para se completar planos como o meu, de 15 a 20km/ dia.

No final do dia de ontem decidi improvisar. 

Fui pela rua mesmo, me espremendo contra árvores e metendo os pés nas gramas altas e cheias de poças, até a região de Downtown Disney. Foram 4km com o pensamento fixo em achar uma nova rota.

Achei – o que não significou muita coisa, diga-se de passagem. Correr por lá foi como correr ao meio dia de domingo no Ibirapuera: era tanta gente, mas tanta gente, que a endorfina acabava se metamorfoseando em doses de estresse. Completei a volta e saí pela rua de novo. 

O tráfego, no entanto, estava tão intenso que decidi cortar o caminho por algum lugar qualquer. Tal foi a minha surpresa quando, de repente, me deparei com uma pista escondida saindo de Downtown Disney e cruzando um campo de golf fenomenal!

Segui, meio receoso de estar invadindo mas seguro de não ter visto nenhuma placa ou portão de alerta. Pelo gps, via apenas que estava na direção certa.

À frente, uma paisagem digna de descanso de tela do Windows: morros verdes meticulosamente cuidados, pontilhados por laguinhos de água negra e buracos com areia branca, tendo ao fundo árvores gigantes emoldurando um por do sol impressionista. 

Há, na vida de qualquer corredor, um punhado de lugares tão belos que nunca saem da mente. Por mais artificial que toda a Disney seja, por menos natureza bruta que ela exiba e por mais cara de “cidade de isopor” que tenha, aquele foi um deles. 

Algumas cenas, creio, acabam sendo perfeitas demais para escaparem às nossas lembranças. Que bom: aquele inesperado campo de golf definitivamente foi uma delas que espero ficar comigo para sempre.

Fiz a minha parte: rodei para cima e para baixo, aproveitando cada centímetro do lugar e sorvendo cada paisagem que se revelava de curva em curva.

Vi o rio que entrava em meu hotel: segui-lo. 

Em um determinado ponto, o campo de golf era interrompido por uma rua normal, já perto do meu destino. Era hora de voltar para casa: entrei nela e segui 1km pela margem até a entrada do hotel vizinho ao meu e interligado a ele por uma pista de corrida. 

Cheguei nos últimos instantes do por do sol, aproveitando uma paisagem tão perfeita quanto a do campo de golf, com rio, barquinhos cruzando de uma ponta a outra e postes de iluminação ao clássico estilo sulista. 

Parei, fechei os olhos por um instante e respirei fundo, puxando com os pulmões todo aquele cenário.

Encerrei ali minha corrida e minha viagem.

No final das contas, os ‘pros’ foram tão maiores que os ‘contras’ que só trouxe boas lembranças desses últimos 15km. 

Ainda assim, serei franco: aos que planejam visitar a Disney, tenham em mente que não é um lugar feito para se correr e que planejar longões pode ser mais complicado do que completar uma ultra! 

   
 

O que faz valer a pena

Mesmo com tanto calor e umidade, com percursos improvisados por estradas sem acostamento, com despertares horas antes do sol pensar em nascer… mesmo com tudo isso, correr em lugares diferentes vale pelas cenas novas, maravilhosamente estranhas, que as pálpebras colecionam.

Há coisas que dificilmente sairão da mente – como esse caminho que fiz nos 20K de hoje de manhã. Ainda bem.

   
  

Queimado pelo calor do sul dos Estados Unidos

35-40 graus com umidade acima dos 90% intercalados com períodos em locais com ar condicionado digno da Sibéria: não há corpo que aguente.

Ou até pode haver – mas não é o meu. Já fui dormir ontem sem voz, com dor de cabeça e um teco de febre. Acordei às 5 para correr… mas desisti. Há dias em que o melhor a fazer é ceder ao corpo, dando tempo para que ele se recupere. 

Passei o dia com idas e vindas do mal estar… mas melhorando. A cada olhada no céu azul, um arrependimento de não ter aproveitado o asfalto logo cedo; a cada tosse ou incômodo na garganta, um alívio pelo mesmo motivo.

Asfalto, de amanhã você não me escapa.

  

33 graus, 92% de umidade relativa

O problema definitivamente não foi o sol. Tanto hoje quanto anteontem saí com o dia ainda escuro, às 5:15 da manhã aqui na região central da Florida. 

O problema foi o calor perfeitamente temperado pela umidade. 

Saí por uma rota improvisada pela estrada, buscando me fazer visível na contramão dos carros com uma camisa mais brilhante que a luz do dia. Funcionou. 

Se alguém visse a cena a distância – incluindo um céu azul escuro com uma lua imensa reinando absoluta – imaginaria um clima ameno, gostoso. Não era o caso: mesmo no final da madrugada o calor castigava como em poucos outros lugares em que já estive. 

Quando o dia em si nasceu, lá pelas 6:30, sem uma única nuvem, tudo piorou. 

Cada passo vinha acompanhado de jorros próprios de suor.

Por algum motivo, tanto a braçadeira com o IPhone quanto a garrafinha d’água que carregava pareciam mais pesados, quase insuportáveis. 

Nos momentos em que tinha que correr sobre a grama, a umidade nas solas dos pés davam aquela sensação de talho dolorido, rivalizando com o ardor dos olhos por conta das gotas de suor que insistiam em entrar pelas pálpebras para queimar as pupilas. 

A estrada vazia à frente, rodeada de pântanos, mostrava as ondas de calor que o corpo, absolutamente pegajoso, denunciava. 

Tudo estava grudento, molhado, pesado. 

Entrei por caminhos diferentes para variar a paisagem: a sensação de estar no passado confederado americano trazia algum conforto – sempre curti a percepção de correr pela história. Casas e hotéis com a arquitetura sulista se erguiam em frente a lagos com ares de pântano enquanto a trilha sonora, quase que inteiramente feita de sapos e pássaros, completava a paisagem. 

Mas era o calor quem falava mais alto. Muito mais alto.

Na prática, estava fazendo 33 graus com umidade de 92%. Não faço ideia de como calcular a sensação térmica disso, mas certamente não é coisa bonita. 

Ainda assim, depois de 20km nesse cenário novo que mesclava Saara a Amazônia, as reclamações do corpo cederam espaço a uma espécie de alegria esquisita: estava, afinal, experimentando uma espécie de novidade na corrida, cruzando lugares novos e em condições absolutamente diferentes do que esotu habituado. 

Incomodou? Sem dúvidas. 

Doeu? Sim. 

Mas mal posso esperar para repetir tudo amanhã. 

  

 

Gravando a última impressão

Mar e dunas ontem, cidade hoje. Por algum motivo, há qualquer coisa que sempre me encantou em pequenas vilas que parecem congeladas no tempo.

Fora algumas anomalias urbanas superpopuladas, repletas de violência e miséria pútrida, o interior nordestino é essenclamente cheio delas. 

A região do pontal não é exceção.

Saí hoje tão cedo que a lua cheia ainda reinava absoluta no céu que apenas começava a se riscar com os primeiros tons de azul claro. Era sábado, dia mais parado que os já calmíssimos habituais, mas algum movimento se ensaiava. 

Mulheres de vestido de renda varriam areia para longe de suas varandas, homens olhavam o sol que sempre viam com um ar de tedioso espanto, crianças e cachorros faziam os primeiros barulhos do dia. 

A pobreza da região era óbvia – mas era também resignada, calma, quase que conivente com sua própria falta de perspectiva. 

Era uma pobreza de tudo: dinheiro, conforto, futuro, vocabulário. Curiosamente, ela se equilibrava com o outro extremo: a abundância de paisagens, de dunas, de oceano, de azul do céu e de vida que cismava em proliferar naquele naco abandonado do mundo.

No caminho, estradas se abriam em frente a igrejas de todas as faces cristãs, ruelas se esgueiravam por entre céu e terra, carnaúbas se erguiam do mato, brisas teimosas quebravam, ainda que por instantes, o já insuportável calor nordestino.

Olhei para tudo aquilo diversas vezes: para os rostos castigados mas leves dos locais, para as casas mal pintadas, para as pracinhas bucólicas e para toda a natureza que se sobressaía superlativa. 

Gravei cada milímetro na mente.

Era essa a última impressão que queria levar de volta para São Paulo amanhã.

   
   

De costa a costa no Pontal

Despedidas tem que ser feitas em alto estilo, claro. Em grande parte, os últimos quilômetros corridos serão sempre os mais frescos na memória, quer por motivos óbvios quer por terem sido corridos em meio a um turbilhão de pensamentos ecoando entre os ouvidos, todos mesclando saudades com momentos de altos e baixos passados nas trilhas.

Meu último dia não foi hoje – será amanhã. Mas, hoje, decidi fazer 21K rodando pelos dois lados do Pontal.

Primeiro, saí ainda cedo e com maré começando a baixar pelo trecho oeste. Repeti o caminho de ante-ontem, absolutamente deserto e na companhia apenas de mar e dunas. Decidi variar e, por pura diversão, troquei trechos de areia dura por mais e mais dunas, escalando-as e correndo para baixo como se tivesse 10 anos de idade. Fiz isso uma, duas, três, várias vezes. Até que os Vibrams, que me acompanharam em toda a viagem, ficassem tão cheios de areia que seria necessário parar para recalçá-los.

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Com o sol já ardendo, busquei refúgio em uma das casinhas de palha feitas para abrigar jangadas. Foi uma boa ideia: abrigado por uma sombra providencial e banhado por uma brisa divina, pude erguer os olhos e enxergar, à minha frente, um mar de um azul vibrante brilhando sob o céu. Naquele pedaço de segundo tive a certeza de que estava imerso em uma daquelas cenas que o cérebro escolhe jamais esquecer.

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Com um suspiro, limpei o tênis e segui. A maré já estava mais baixa, o que facilitou a corrida e me fez desistir de cortar por um trecho fora da praia para evitar uma região mais cheia de pedras. Fui por elas mesmo, me equilibrando e alternando saltos como se estivesse dançando sobre o acaso.

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Já na outra ponta, prossegui, passando o hotel e seguindo no sentido leste.

A praia, agora com maré bem baixa, parecia outra: o mar brilhava diferente, o cenário parecia mais árido e campos com um toque de sertão se abriam a cada morro. Em um determinado ponto precisei sair das areias e subir uma pequena falésia para atravessar uma zona mais “impassável”. De cima, o velho farol vermelho pontuava um horizonte aberto como poucos, feito de vegetação rasteira, de cactus  e de uma eventual duna.

Fui até o farol cortando o mato e enfrentando a areia fofa. O solo se alternava: virava terra vermelha queimada, depois branca rochosa, depois mato, depois duna. Todos os solos do mundo pareciam conviver ali – ao menos até a beira do pequeno forte que abrigava a luz.

Nele, uma escada interrompida parecia um dia ter servido ao propósito de levar pessoas ao seu interior em algum momento do passado. Pulei algumas pedras e, usando as mãos, consegui chegar ao primeiro degrau. Subi até o topo apenas para sentar e tomar o último gole de água apreciando mais uma vista memorável. Que incrível essa região ainda praticamente intocada pela civilização, ainda deserta, ainda pura sob tantos aspectos! Que incrível todo esse estado do Ceará, certamente um dos mais belos do Brasil!

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Olhei para o Garmin: estava na hora de retornar. Fiz o caminho de volta à base mas, em vez de seguir pela praia, decidi ir por dentro para viver um pouco mais daquela paisagem sertaneja, quente, forte.

A ideia foi perfeita: de repente, me deparei com uma estrada de areia inteiramente margeada por cactus gigantes! A impressão deixada foi tamanha que tive que parar e andar um pouco apenas para sorver aquela cena com a atenção que ela merecia: nem nos meus sonhos imaginei me deparar com algo assim.

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Dali em diante foi uma reta só.

Cheguei de volta ao hotel no segundo que o relógio bateu 21km: perfeito. Ainda eram 8:30 da manhã e o dia inteiro se estendia como promessa.

Correndo do barulho

Sair para correr às 5:30 da manhã foi difícil. Desisti por conta de pernas moídas de tanta areia fofa.

Uma hora depois, acordei. Abri a janela: mar azul e areia branca, infinita, me fizeram ficar arrependido até o último fio do cabelo. Mas, àquela altura, não havia mais tempo: estava na hora de conhecer Canoa Quebrada.

Serei sincero: chegar em uma barraca gigante esbanjando um som no talo que vomitava uma mistura de Axé com Sertanejo com Fábio Junior não é exatamente o que entendo como perfeição. A distorção criada entre aquele barulho todo e o cenário paradisíaco era péssima. 

Desisti de desistir: descalço, fui praticamente sugado pelo percurso de areia que se estendia à minha frente e comecei a correr. Não muito – queria apenas fazer uns 6 ou 7km para arejar as pernas, para regenerar a musculatura e oxigenar os ouvidos. Nenhuma decisão poderia ter sido melhor.

Poucos metros depois da barraca infernal, o vento apagava qualquer rastro de som e era tudo apenas mar azul turquesa, areia branca, dunas e céu azul.

No horizonte, torres eólicas se enfileiravam: estava na margem oposta do rio onde o cachorro avançou sobre mim no primeiro dia. Do outro lado, até o estado de espírito parece mudar.

Entre passadas e suor escorrendo pelas costas, só uma sensação de paz absoluta dominava. E mais: o calor, no final, foi rapidamente eliminado com um mergulho extremamente bem vindo no mar cearense.

Estava revigorado ao ponto em que nem o insistente barulho incomodava mais.