Desbravando a costa selvagem (em um dia pra lá de intenso)

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Uma das melhores coisas de se correr é o conjunto de experiências novas por onde as pernas passam a te levar.

Claro: há mais em torno da Comrades, por exemplo, dos que os 90km que separam Durban de Pietermaritzburg. Há tudo em volta.

Há a cultura Zulu. Há os macacos nas estradas. Há o turbilhão de idiomas e credos que circulam pelas ruas. Há o cheiro de curry da cidade que mais tem indianos fora da Índia. Há as águas quentes do Índico, sempre convidativas. Há a savana que fica logo ali.

E vir para cá deixando de saborear cada centímetro desse país incrível é, para dizer o mínimo, uma perda de oportunidade.

Já pousei aqui com esse pensamento: depois das 12 horas de viagem onde mal dormi, deixei as malas no hotel e saí para uma corrida. Fiz toda a orla, entrei pelos três estádios (Kingsmead, de cricket, onde…

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A força de um símbolo

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Pouco antes da década de 20, um veterano sul-africano da primeira guerra mundial decidiu criar uma corrida de proporções então consideradas épicas, somando 90km entre as cidades de Pietermaritzburg e Durban, para homenagear os seus camaradas que tombaram na luta. Seu raciocínio era simples: se soldados com pouco treinamento conseguiram atravessar as savanas africanas por centenas de quilômetros, carregando quilos de mantimentos e armas, então qualquer pessoa minimamente preparada também conseguiria.

Bom… Vic Clapham precisou de algum tempo mas, em 1921, conseguiu autorização para largar com um punhado de 34 amigos loucos em uma das homenagens mais exaustivas já feitas a qualquer combatente, que ficou conhecida como a ultramaratona de Comrades.

Curiosamente, ano após ano novos adeptos se inscreviam e, embora ainda pequena, a prova acabou se consolidando no então mínimo calendário esportivo da região.

Anos se passaram.

Em plena era do Apartheid, a África do Sul vivia uma espécie…

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Hoje

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De alguma forma, a cidade parece mais estática hoje. É como se houvesse alguma energia no ar, algo deixando os fios dos cabelos de pé, mas sem gerar aquela conturbação que costuma caracterizar explosões de estresse.

Está cedo, ainda antes das 6. As ruas estão desertas, o asfalto ainda não sentiu os primeiros raios do sol e o escuro do céu apenas começa a dar sinais de que pretende sair. Não está nem quente, nem frio: uma espécie de temperatura tão amena que beira o inexistente parece se deitar sobre São Paulo.

Sigo adiante, ligando o Garmin e dando os primeiros passos.

Apenas eles são ouvidos, de tal forma que fico até preocupado em não despertar a metrópole com os meus pés. Bobagem, claro – mas o silêncio em excesso sempre desvia os nossos pensamentos por vielas inexistentes.

Tão mudo quanto rápido, viro algumas esquinas, sigo algumas retas e cruzo…

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LCHF: Exames depois de 75 dias

Passados 75 dias depois da adoção da low-carb, decidi fazer uma outra leva de exames para saber como o meu corpo estava lidando com isso. Antes de entrar nos resultados: fisicamente, tudo parece estar perfeito, com disposição em alta, resistência forte, alto poder de concentração etc.

No entanto, a continuidade da dieta pode estar em risco por conta de um dos indicadores. Vamos a todos:


Em geral, quase todos os indicadores melhoraram: Gama-GT, TGO e TGP, três dos principais indicadores de função hepática, caíram substancialmente (45 para 34, 42 para 32 e 54 para 40, respectivamente).

A glicose também caiu (86 para 82) , juntamente com a insulina (3,5 para 3). O colesterol total subiu levemente (177 para 181), sendo que o HDL foi de 53 para 51 e o LDL de 107 para 120. Todos dentro da normalidade, assim como TSH e T4 Livre.

Tudo também está relacionado à perda de peso: nesses últimos 90 dias, como pode ser visto no gráfico abaixo, 6,7kg desapareceram praticamente sem esforço:

  

Tudo estaria perfeito não fosse um dos marcadores: a Ferritina. Esta disparou de 257 (há mais de 1 ano) para 334 (há 45 dias) e, agora, foi para 430. Ainda está dentro da normalidade (que fica entre 17,9 a 464) – mas foi um salto alto demais para ser ignorado.

Há, claro, hipóteses plausíveis – incluindo um excesso de consumo de carne vermelha que pode ter gerado o crescimento na Ferritina aliado à queda de outros indicadores relacionados ao fígado. Via das dúvidas, já vou cortar a carne vermelha do cotidiano e trocar por salmão, atum ou frango. 

E, claro, está na hora de fazer uma ressonância e de ir ao médico para uma leitura mais científica de todos esses resultados. Na pior das hipóteses, talvez seja o caso de, com pesar, abandonar a LCHF . 

A vida deveria ser mais fácil.

Último checkpoint: Todos os sistemas prontos (eu acho)

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Faltam exatos 7 dias.

Para ser mais exato, em 7 dias eu estari me arrumando para largar.

Não dá para dizer que esse ano de treinamento tenha sido consistente: com outras ultras no meio e toda a descoberta de trilhas, passei os últimos doze meses entre altos e baixos de quilometragem, pace e tempo sobre os pés.

Mas quer saber? Mesmo com todas as inconsistências e variações – ou talvez por conta delas – estou entrando na reta final me sentindo mais forte e preparado. Experiência, talvez, tenha esse efeito.

Ultras não tem a ver com exercício físico ou com saúde – até porque passar 10, 12, 15 horas dificilmente pode ser considerado saudável. Ultras tem a ver com se conhecer melhor, com se descobrir, se entender e aprender a dialogar consigo mesmo. E nesse processo acaba-se confiando mais em si mesmo e nas suas próprias capacidades ao ponto de…

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Enganando o corpo

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O plano era simples, até modesto: correr até a USP, dar uma voltinha por lá e retornar, somando 23 ou 24km levíssimos entre amigos.

Era.

Bom… como diminui bastante o volume essa semana para me recuperar da Maratona de SP, aconteceu aquele efeito infalível da fase de polimento/ tapering: dores fantasmas por todo o corpo.

De repente, joelhos, tornozelos e até a planta do pé começaram a reclamar insistentemente, me fazendo cortar mais treinos e diminuir o ritmo. Quanto mais eu diminuía, no entanto, mais as dores apareciam.

Até que a ficha caiu: o corpo estava em “tilt”. Já não sabia mais o que eu planejava e, portanto, passou a reclamar de qualquer coisa a seu modo. E claro: na medida em que eu dava trela, cedendo tempo a ele, mais ele reclamava.

Hora de mudar de estratégia.

Já dei os primeiros passos com más intenções. Sabia que não podia…

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Correndo com o céu de Brasília

Dormi fora de Sampa na terça passada. 

Por conta de uma reunião, fui até Brasília fazer um “semi-bate-volta”, chegando tarde da noite, trabalhando na manhã seguinte e voltando antes do cair do sol da quarta. 

Essas viagens até costumam ser cansativas – mas elas permitem uma fuga da rotina que eu, pelo menos, amo. A melhor parte: poder acordar com tudo ainda escuro e correr sem compromisso do setor hoteleiro até o Parque da Cidade. 

Uma vez lá, apenas uma palavra se materializou: silêncio. 

Às 5:30 da manhã, a cidade era apenas as minhas passadas ritmadas e eventuais zunidos finos de bikes que voavam em suas próprias dimensões. 

À frente, uma rua inteira vazia, meio mal iluminada, praticamente me convidava a trotar para o lado que quisesse, fosse em direção aos lagos ou aos aromas intensos do cerrado que, por si só, são marcantes. 

Havia já esquecido o que era correr em tamanha solidão: em São Paulo, a qualquer que seja a hora, há sempre mais gente pincelando os cenários de ruas e parques. Lá na capital federal, não: a escuridão e o silêncio eram tamanhos que, confesso, chegavam a dar medo em alguns momentos. 

Mas aí era só esquecer, se concentrar nas passadas e seguir em frente sorvendo cada grão de silêncio. 

Até que o sol resolveu nascer. 

Não lembro se já comentei isso antes, em algum outro post, mas poucos céus são mais intensos do que o de Brasília. Quando o sol nasce, então, é um espetáculo à parte: o horizonte começa a pegar fogo, alternando tons desesperados de vermelho, laranja e amarelo contra um fundo que, aos poucos, vai deixando de ser negro. É forte, imperativo. 

Na medida em que as cores vão ficando mais intensas, toda uma sinfonia se desenrola: pássaros começam a cantar em sincronia, cheiros ficam mais fortes e parece que até o oxigênio se torna mais abundante, disponível. É como se a Caixa de Pandora fosse lentamente aberta, transformando a calmíssima noite do cerrado brasileiro em mais um dia exageradamente confuso da capital federal. 

E durou apenas 15 minutos. Depois, veio o barulho dos carros; apareceram mais corredores; sons de vozes começam a abafar as passadas; o calor, até então inexistente, desceu com os raios do sol. 

Sim: correr na madrugada brasiliense é uma experiência à parte. De certa forma, nos deixa mais humildes, mais conscientes de que alguns dos principais espetáculos da natureza – como o nascer do sol no cerrado – acontecem justamente quando estamos mais ausentes, mais camuflados, quando não estamos preocupados em roubar o protagonismo do dia e damos margem para que ele se imponha à sua própria maneira e em seu próprio ritmo. Nos transforma em meras testemunhas, ainda que fazendo surgir uma espécie de felicidade orgulhosa por não termos perdido o show.

E se, por um lado, seja uma pena que esse show dure tão pouco tempo, não deixa de ser reconfortante se lembrar que ele acontece todo dia. Basta que estejamos um pouco mais atentos e dispostos a assistir.