Correndo pela história de Salvador

Quando se corre em uma cidade velha, com séculos de história e sangue derramado pelas suas ruas e avenidas, é difícil não se imaginar cruzando o Tempo em si. Em plena quarta-feira de cinzas na capital baiana, imagens do passado remoto se fundiram com as do presente formando um mosaico surrealista de paisagens e cenas.

Começando pelo meu ponto de partida, no atual bairro do Caminho das Árvores, que ganhou vida mesmo no século XX. Por toda a minha infância, era apenas um punhado de casas bem arrumadas, com ares de interior e situadas entre pontos de referência como a sede da Odebrecht, o jornal A Tarde e a academia de tênis Frugoni.

Cortei a avenida ACM, homenageando o último dos donatários da capitania hereditária, até chegar ao Rio Vermelho. Por lá, já dava para imaginar índios confusos se deparando com Caramuru que, subitamente, apareceu em suas praias depois de um naufrágio. Magro, provavelmente sofrendo de escorbuto e com um aspecto de cadáver, poucos diriam que aquele corpo em breve se tornaria uma das figuras mais importantes do recém descoberto Brasil.

Logo à frente, ainda no mesmo bairro, um córrego que servia de matadouro para os primeiros colonos deságua no mar. O sangue do gado era tamanho que logo logo as águas ficaram quase que permanentemente avermelhadas, batizando toda a região.

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Seguindo adiante, uma pequena praia faz os zumbis do Carnaval dividirem espaço com mães de santo, pescadores e baianas de acarajé. O cheiro de dendê atravessa os mares e chega até o Morro da Paciência, último antes de se avistar o bairro de Ondina.

Foi o bairro onde nasci e me criei aqui na cidade. Calmo, com praias mais vazias indicadas por balaustradas brancas e uma fileira de hotéis com vista para o mar baiano – certamente o mais belo do mundo.

De Ondina à Barra, circuito tradicional do Carnaval, começa-se logo a avistar o Farol. Farol, aliás, que foi solução remendada para um forte inútil, que nascera para defender a Baía de Todos os Santos de invasores mas que, com canhões fracos, não conseguiu sequer assustar a esquadra holandesa que, no século XVII, dominou a região. Ali, dividindo espaço com corredores e foliões, muito sangue já foi varrido das colinas para o mar.

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Depois do Farol, os fortinhos de Santa Maria e São Diogo protegem o local exato onde os Portugueses efetivamente desembarcaram para fundar Salvador, hoje lembrado por uma cruz no atual Porto da Barra. Igualmente ineficazes contra os holandeses, eles formam um conjunto típico da cidade ao unir construções do século XVI a prédios da década de 70, mar e – claro – aquele permanente e delicioso cheiro de dendê.

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Dali, subi a ladeira da Barra. No meio do caminho, duas paradas rápidas: uma na Igreja de Santo Antônio, que abriga o primeiro (e possivelmente único) santo de todo o mundo que foi responsabilizado por evitar uma invasão inimiga (desta vez, dos franceses) e, portanto, passou a integrar o exército colonial e chegou a ser promovido até o posto de major.

Mais à frente o Cemitério dos Ingleses, onde eram enterrados os “europeus melhores”, como eram conhecidos, à época da abertura dos portos.

No topo da ladeira da Barra, uma visão. No passado, onde atualmente fica a clínica de ortopedia da Cato, Caramuru construiu ali a sua morada com Catarina Paraguaçú.  Foi de lá que ele praticamente viabilizou a construção da cidade no Pelourinho e de onde comandou uma das maiores operações de tráfico do mundo, vendendo pau-Brasil para os franceses. Dava para imaginar, a cada passo, negociatas e brigas antigas pelas ruas.

Tomei a reta e segui pelo Corredor da Vitória, destinada desde a sua fundação a ser a morada dos mais abastados. Ponto de saída de trios, era lá que moravam os ingleses, curtindo a vista deslumbrante da Baía de Todos os Santos e passeando em suas liteiras carregadas por escravos.

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Escravos às dezenas, centenas, milhares. Na região do Campo Grande e Avenida Sete, já a caminho da Castro Alves, dava para sentir os tiros de tantos policiais que, volta e meia, eram convocados para destroçar revoltas. A mais emblemática, a dos Malês, visava construir um califato muçulmano na Bahia – e tinha tudo para dar certo. Não deu porque, afinal, estamos na Bahia: às vésperas da rebelião estourar, a mulher traída de um dos líderes decidiu se vingar contando todos os planos à polícia e gerando uma relação de execuções em praça pública como jamais se havia visto. A praça, aliás, era logo ali do lado.

Descendo mais, liteiras com senhoras suadas no interior cruzavam a rua em frente ao Mosteiro de São Bento – local que até hoje guarda, a sete chaves, todos os documentos secretos da inquisição na América portuguesa.

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Desci mais, chegando à Praça Castro Alves. Ha um prédio em ruínas, pertencente ao Ministério dos Esportes, logo em frente à estátua. Ali ficava o Teatro São João, um dos mais belos da época e que se incendiou no começo do século XX. Em seus arredores, Castro Alves declamava junto a outros poetas inspirados pela Bahia. em um café próximo, aliás, dava para imaginar Maximiliano de Habsburgo sentado, calmamente escrevendo um livro sobre botânica nas Américas, encantado com a natureza. Mal sabia ele que, tempos depois, o destino o conduziria ao trono de imperador do México apenas para executá-lo em uma revolução poucos anos depois.

Praça Castro Alves

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Hoje, a praça é do povo. E, hoje, ela tinha cheiro de Carnaval: urina e cerveja quente misturada a asfalto fervendo davam o tom de toda a região. Por pouco tempo, pelo menos, já que a prefeitura estava ensaboando cada canto de cada rua no caminho da folia.

Subi a Carlos Gomes honrando o percurso dos trios. Por ali, em plena ditadura militar, levas e mais levas de estudantes foram perseguidos, presos, torturados e “desaparecidos”. Uns chamam esse período de “o mais negro da história do Brasil”. Não é: é apenas um tempo muito ruim ainda fresco na memória.

De guerras contra invasores e revoltas escravas, as ruas do centro baiano já viram muitos dias difíceis. Subi até chegar, novamente, ao Corredor da Vitória, cruzando-o então à ladeira da Barra. Passei de novo o Cemitério dos Ingleses, descendo a caminho do presente. Já na praia do Porto, entrei à direita na esquina do Forte São Diogo, subindo até o atual Yatch Clube. Tudo ali era silêncio: não se ouvia mais trios e nem se via mais almas dos que um dia perambularam pela cidade.

Só pequenos pássaros interrompiam, com alguma cautela, a única coisa que permaneceu intacta em quase 500 anos de Salvador: o barulho das ondas da Baía de Todos os Santos sobre as rochas de suas colinas.

Era hora de entrar no mar e agradecer à Rainha Yemanjá pela honra de ter testemunhado tanta coisa incrível ao longo de apenas 20km de corrida.

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