Ultra é mais espírito do que esporte

Na semana passada, vi uma foto de um amigo meu no Facebook comemorando uma travessia aquática.

Dei os meus entusiasmados parabéns e ele comentou comigo que estava treinando para a travessia Mar Grande-Salvador. Me entusiasmei.

Explico melhor: a travessia marítima Salvador-Mar Grande é o que há de mais antigo em minha memória sobre endurance. Trata-se de atravessar 13km da Baía de Todos os Santos, saindo de um ponto da Ilha de Itaparica e chegando em outro na capital baiana.

Quando criança, considerava todos os nadadores como heróis e loucos – ou loucos e heróis, para colocar na ordem correta.

O tempo, no entanto, foi me afastando da prova. Me mudei para São Paulo.

Comecei a correr.

Me apaixonei pelas ruas e trilhas e me entreguei por completo a esse esporte.

Até essa bendita foto no Facebook.

Em um intervalo de segundos, anos de infância apareceram como um susto entusiasmado que, somados à experiência em provas longas, desenharam um gosto de viabilidade que nunca tive antes.

Ainda estou cozinhando esse sonho – mas já o considero como uma das minhas metas futuras, embora tenha mais a ver com ultra do que com maratona.

Mas, do ponto de vista espiritual, há mesmo tanta diferença entre atravessar uma montanha ou uma baía? Em todos os casos, são horas revirando a própria alma e puxando energia do peito para se encontrar, se abraçar, se entender. Muda-se apenas o elemento, a solidez do solo, a escolha dos membros.

Mas, fora isso, é a mesma coisa: uma meta de autosuperação.

Ultra é mais espírito do que esporte.

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Correndo pela história de Salvador

Quando se corre em uma cidade velha, com séculos de história e sangue derramado pelas suas ruas e avenidas, é difícil não se imaginar cruzando o Tempo em si. Em plena quarta-feira de cinzas na capital baiana, imagens do passado remoto se fundiram com as do presente formando um mosaico surrealista de paisagens e cenas.

Começando pelo meu ponto de partida, no atual bairro do Caminho das Árvores, que ganhou vida mesmo no século XX. Por toda a minha infância, era apenas um punhado de casas bem arrumadas, com ares de interior e situadas entre pontos de referência como a sede da Odebrecht, o jornal A Tarde e a academia de tênis Frugoni.

Cortei a avenida ACM, homenageando o último dos donatários da capitania hereditária, até chegar ao Rio Vermelho. Por lá, já dava para imaginar índios confusos se deparando com Caramuru que, subitamente, apareceu em suas praias depois de um naufrágio. Magro, provavelmente sofrendo de escorbuto e com um aspecto de cadáver, poucos diriam que aquele corpo em breve se tornaria uma das figuras mais importantes do recém descoberto Brasil.

Logo à frente, ainda no mesmo bairro, um córrego que servia de matadouro para os primeiros colonos deságua no mar. O sangue do gado era tamanho que logo logo as águas ficaram quase que permanentemente avermelhadas, batizando toda a região.

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Seguindo adiante, uma pequena praia faz os zumbis do Carnaval dividirem espaço com mães de santo, pescadores e baianas de acarajé. O cheiro de dendê atravessa os mares e chega até o Morro da Paciência, último antes de se avistar o bairro de Ondina.

Foi o bairro onde nasci e me criei aqui na cidade. Calmo, com praias mais vazias indicadas por balaustradas brancas e uma fileira de hotéis com vista para o mar baiano – certamente o mais belo do mundo.

De Ondina à Barra, circuito tradicional do Carnaval, começa-se logo a avistar o Farol. Farol, aliás, que foi solução remendada para um forte inútil, que nascera para defender a Baía de Todos os Santos de invasores mas que, com canhões fracos, não conseguiu sequer assustar a esquadra holandesa que, no século XVII, dominou a região. Ali, dividindo espaço com corredores e foliões, muito sangue já foi varrido das colinas para o mar.

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Depois do Farol, os fortinhos de Santa Maria e São Diogo protegem o local exato onde os Portugueses efetivamente desembarcaram para fundar Salvador, hoje lembrado por uma cruz no atual Porto da Barra. Igualmente ineficazes contra os holandeses, eles formam um conjunto típico da cidade ao unir construções do século XVI a prédios da década de 70, mar e – claro – aquele permanente e delicioso cheiro de dendê.

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Dali, subi a ladeira da Barra. No meio do caminho, duas paradas rápidas: uma na Igreja de Santo Antônio, que abriga o primeiro (e possivelmente único) santo de todo o mundo que foi responsabilizado por evitar uma invasão inimiga (desta vez, dos franceses) e, portanto, passou a integrar o exército colonial e chegou a ser promovido até o posto de major.

Mais à frente o Cemitério dos Ingleses, onde eram enterrados os “europeus melhores”, como eram conhecidos, à época da abertura dos portos.

No topo da ladeira da Barra, uma visão. No passado, onde atualmente fica a clínica de ortopedia da Cato, Caramuru construiu ali a sua morada com Catarina Paraguaçú.  Foi de lá que ele praticamente viabilizou a construção da cidade no Pelourinho e de onde comandou uma das maiores operações de tráfico do mundo, vendendo pau-Brasil para os franceses. Dava para imaginar, a cada passo, negociatas e brigas antigas pelas ruas.

Tomei a reta e segui pelo Corredor da Vitória, destinada desde a sua fundação a ser a morada dos mais abastados. Ponto de saída de trios, era lá que moravam os ingleses, curtindo a vista deslumbrante da Baía de Todos os Santos e passeando em suas liteiras carregadas por escravos.

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Escravos às dezenas, centenas, milhares. Na região do Campo Grande e Avenida Sete, já a caminho da Castro Alves, dava para sentir os tiros de tantos policiais que, volta e meia, eram convocados para destroçar revoltas. A mais emblemática, a dos Malês, visava construir um califato muçulmano na Bahia – e tinha tudo para dar certo. Não deu porque, afinal, estamos na Bahia: às vésperas da rebelião estourar, a mulher traída de um dos líderes decidiu se vingar contando todos os planos à polícia e gerando uma relação de execuções em praça pública como jamais se havia visto. A praça, aliás, era logo ali do lado.

Descendo mais, liteiras com senhoras suadas no interior cruzavam a rua em frente ao Mosteiro de São Bento – local que até hoje guarda, a sete chaves, todos os documentos secretos da inquisição na América portuguesa.

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Desci mais, chegando à Praça Castro Alves. Ha um prédio em ruínas, pertencente ao Ministério dos Esportes, logo em frente à estátua. Ali ficava o Teatro São João, um dos mais belos da época e que se incendiou no começo do século XX. Em seus arredores, Castro Alves declamava junto a outros poetas inspirados pela Bahia. em um café próximo, aliás, dava para imaginar Maximiliano de Habsburgo sentado, calmamente escrevendo um livro sobre botânica nas Américas, encantado com a natureza. Mal sabia ele que, tempos depois, o destino o conduziria ao trono de imperador do México apenas para executá-lo em uma revolução poucos anos depois.

Praça Castro Alves

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Hoje, a praça é do povo. E, hoje, ela tinha cheiro de Carnaval: urina e cerveja quente misturada a asfalto fervendo davam o tom de toda a região. Por pouco tempo, pelo menos, já que a prefeitura estava ensaboando cada canto de cada rua no caminho da folia.

Subi a Carlos Gomes honrando o percurso dos trios. Por ali, em plena ditadura militar, levas e mais levas de estudantes foram perseguidos, presos, torturados e “desaparecidos”. Uns chamam esse período de “o mais negro da história do Brasil”. Não é: é apenas um tempo muito ruim ainda fresco na memória.

De guerras contra invasores e revoltas escravas, as ruas do centro baiano já viram muitos dias difíceis. Subi até chegar, novamente, ao Corredor da Vitória, cruzando-o então à ladeira da Barra. Passei de novo o Cemitério dos Ingleses, descendo a caminho do presente. Já na praia do Porto, entrei à direita na esquina do Forte São Diogo, subindo até o atual Yatch Clube. Tudo ali era silêncio: não se ouvia mais trios e nem se via mais almas dos que um dia perambularam pela cidade.

Só pequenos pássaros interrompiam, com alguma cautela, a única coisa que permaneceu intacta em quase 500 anos de Salvador: o barulho das ondas da Baía de Todos os Santos sobre as rochas de suas colinas.

Era hora de entrar no mar e agradecer à Rainha Yemanjá pela honra de ter testemunhado tanta coisa incrível ao longo de apenas 20km de corrida.

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Meia do sol

Nosso corpo esquece fácil.

Saí de Salvador para morar em São Paulo há quase 20 anos. À época, o calor intenso da cidade era apenas cotidiano, alvo de pequenas reclamações frugais e base para muitos programas que tinham o sol e o mar como protagonistas máximos.

Com o tempo, as lembranças foram ficando no passado mais remoto, naquele canto do cérebro que desconhece termômetros e sensações mais fisiológicas.

E muita coisa aconteceu – incluindo a minha descoberta da corrida como esporte que, hoje, é parte tão integrante do meu estilo de vida.

Todo ano volto a Salvador, nem que seja por um punhado de dias, para me abençoar nas águas de Yemanjá, revisitar o passado e, claro, correr a cidade. E todo ano me esqueço de como aqui é quente.

Hoje saí para fazer 2 horas de treino às 7 da manhã. Só que 7, no nordeste, está longe de ser cedo.

O termômetro que encontrei já no km 3 apontava 28 graus. De tempos em tempos, quando cruzava por outros termômetros, via aumentos contínuos que rimavam bem com os rios de suor que jorravam do corpo.

Umidade alta, sol escaldante e nenhuma única núvem no céu.

Para não esquecer que era Carnaval, alguns trechos eram pontilhados por ambulantes dormindo ao lado de seus isopores e caminhões ensaboando todo o asfalto para limpar um pouco o pecado que faz da capital baiana seu lar durante os festejos.

Em um ou outro canto, casais continuavam firmes na safadeza, certamente remanescente da noite anterior e embalada por um mar deslumbrantemente azul.

Eu amo esta cidade.

Com esses pensamentos ecoando entre os ouvidos, cheguei ao bairro de Ondina, logo antes da Barra, e dei meia volta.

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Decidir o ponto de retorno em um percurso tão quente e úmido tem o lado bom e o ruim. O bom, claro, é saber que dali em diante, a próxima parada é em casa; e o ruim é a certeza de que ainda há o dobro de chão a percorrer enquanto o dia apenas esquenta.

Tudo bem: fechar duas horas com qualidade no calor do auge do verão baiano serve, no mínimo, como treino mental.

Aprende-se, por exemplo, a encontrar pontos no percurso que tirem o foco do esforço. Como essa vista abaixo, por exemplo, que praticamente me acompanhou por todo o caminho:

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Perfeito.

Pelo menos o suficiente para que eu ignorasse os efeitos do inclemente (mas belíssimo) sol soteropolitano e fechasse uma meia maratona inesquecível.

Checkpoint: Fechando a semana no Carnaval baiano

Independentemente de qualquer gosto musical, há qualquer coisa de muito diferente em se testemunhar o Carnaval em Salvador. Na prática, a sua essência tem muito pouco a ver com Cláudia Leite, Ivete Sangalo ou quem quer que esteja em cima de um trio: tem a ver mesmo com o que se passa abaixo dele.

Explico: o Carnaval baiano só se tornou o que é por conta de uma força popular essencialmente local e que mescla malandragem, energia, sol, mar, suor e muita, muita vontade de ser feliz. A música em si é apenas uma coadjuvante que ganhou proporções muito maiores do que deveria.

Cheguei em Salvador ontem à noite para aproveitar o feriado unindo a família formada por mim à que me gerou, casando as minhas raízes às raízes que estou formando hoje, na outro ponta do país em que vivo.

E a primeira coisa que fiz – claro – foi sair para uma corrida de cerca 1h30 pela orla. Saí do bairro do Caminho das Árvores, onde meu pai vive, e desci até a Pituba, cruzando Amaralina, Rio Vermelho, Ondina e Barra. Fiz boa parte da orla baiana correndo por entre as minhas lembranças e encontrando pérolas como um ritual de Candomblé em plena praia. Não resisti e tirei uma foto:

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De lá em diante fui embalado pelos batuques dos Orixás, testemunhando sorrisos de todos os lados, cruzando com trios se preparando para um dia de guerra e sendo abençoado pelo sol e pelo onipresente mar soteropolitano.

A cidade parecia de uma felicidade sem paralelos, mesmo considerando o cansaço estampado nos olhares dos ambulantes que fazem da folia o seu ganha-pão. Em Salvador, a sensação que dá é que trabalhar é apenas algo necessário para se viver – e que deve ser feito com a mesma alegria que se tem ao tomar um chopp com os amigos em algum boteco qualquer.

E o que tudo isso tem a ver com corrida e com o treino? Mais do que se imagina.

Sob o sol da cidade, as dores nas costas evaporaram por completo; o estômago melhorou; o ritmo voltou ao normal e tanto mente quanto corpo pareciam curados no instante em que encerrei a corrida para um mergulho nas águas transparentes da Baía de Todos os Santos.

Não poderia ter esperado nada melhor que isso para finalizar uma semana tão difícil e dolorosa quanto esta.

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Oi verão

Depois de algum tempo, consegui energias para uma corrida ontem pela manhã.

Nem precisou ser tão cedo, inclusive: com as primeiras horas ficando mais leves no trabalho, esticar um pouco no parque ficou mais viável. Bela decisão.

O céu estava azul brilhante, nítido e sem nenhuma única mancha branca. O sol, quente, forte, queimando a pele e declarando a incontestabilidade de sua estação.

Cheguei no Ibirapuera no meio de uma sessão de tempo run e me esvaindo em suor. Pela frente, bikes e corredores formavam aquela multidão de indivíduos imersos em suas próprias solidões. Uma solidão feliz, aliás, a julgar pela luminosidade dos rostos. O verão faz isso.

Adoro o verão. Nasci em Salvador, terra do sol, e o calor úmido da Bahia fez parte da minha vida por 18 anos. A gente fica mais íntimo do sol, entende melhor seus humores e fica viciado na luz que emana de seus raios.

Por mais que eu ame São Paulo, não nego que sinto uma baita falta do sol e do calor o ano todo. O cinza do céu, a camada fina de poluição que apaga um pouco a saturação das cores, o frio que volta e meia desce sobre essa parte do país… tudo isso tem um efeito esquisito na mente.

Mas ontem não. Ontem foi dia de calor, de sol, de luz, de suor, de cores, de verão.

E isso porque estamos apenas no começo da estação!

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