Ritmo, rotina e equilíbrio

Uma vez um amigo me disse que corria para fugir da rotina. Não prestei muita atenção a isso na época mas, hoje, acredito que poucas coisas façam menos sentido que esse pensamento.

Ok: todos tem os seus próprios entendimentos, crenças e mesmo conceitos sobre o que significa levar uma rotina. Mas por qualquer que seja o espectro, correr é provavelmente a maior ode que o corpo humano possa fazer a ela.

Eu, por exemplo, sigo um planejamento que inclui três treinos em dias úteis e dois nos finais de semana.

Há variações entre os dias escolhidos para ir às ruas por conta da agenda de trabalho – esta, sim, muito pouco rotineira. Há também variações nos modelos de treinos: ora são regenerativos, ora tempos, ora intervalados. Mas todos duram uma média de uma ou uma hora e meia, cruzando a Brasil até o Ibirapuera e alternando entre a pista, a rua ou a trilha que circunda o parque.

Nos sábados, 2, 3 ou 4 voltas pela USP – o que, incluindo o caminho de e para casa, soma algo entre 30 ou 40km.

Aos domingos, 1h30 por percursos que se desenham no próprio dia.

Em todos os casos, o corpo aprendeu técnicas ritmadas de respiração para poupar os músculos; o pace se calibra por conta própria na casa dos 180 passos por minuto; os olhos varrem os arredores consistentemente sem que o pescoço se mova; os braços funcionam como aceleradores ou freios naturais.

Tudo automático como uma máquina.

Ritmo puro, instintivo, quase inconsciente.

Enquanto isso, do outro lado do cérebro, cenas se desenham na cabeça, vistas se pintam à frente e toda a consciência parece ter um tempo exclusivo para ser na sua mais completa exclusividade. Para viajar, solta.

Meu amigo estava redondamente enganado: não se corre para fugir da rotina. Corre-se para mergulhar o corpo em uma rotina tão intensa, tão instintiva, e por tanto tempo, que a consciência pode – esta sim – viajar mais livre por lugares que o cotidiano dificilmente permitiria.

Equilíbrio, afinal, não vem de uma zona cinzenta monótona, desconcentrada, de uma semi-consciência. Equilíbrio vem justamente do esforço para se exagerar simultaneamente nos extremos de corpo e mente, de rotina e liberdade, de viver e imaginar.

E não há melhor esporte para pôr isso em prática, cinco vezes por semana, do que a corrida.

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