Eu contra São Paulo

Pernas levemente doloridas, mas alma inteira. Ajusto o Garmin, ligo um podcast e olho para a rua à minha frente.

Uma sessão diferente me aguarda, com 4 “tiros” de 8 minutos. Meio intervalado, meio tempo run.

Rua vazia às 6:30. Hora de voar.

Um, dois, três, quatro e… pausa. Um carro não parou.

Tudo bem: recomeço.

Um, dois, três, quatro… nova pausa. De onde saíram tantos carros a essa hora da manhã??

De recomeço a recomeço, vou da Bela Cintra até a 9 de Julho. Semáforo teimoso e lento, possivelmente ainda dormindo. Espero.

Espero mais. A essa altura, a primeira sessão de 8 minutos já estava inutilizada.

Tudo bem: recupero depois.

Atravesso a avenida, cruzo a Brigadeiro e pronto: novo semáforo travado. Esse durou pouco, pelo menos.

Reacelerei por poucos metros até o cruzamento da República do Líbano, onde uma nova pausa me aguardava para, sadicamente, interromper o segundo tiro.

Tudo bem: pelo menos tinha o parque como destino e, lá dentro, nenhum semáforo.

Exceto, claro, as faixas de bicicletas que pareciam subitamente ter ficado abarrotadas. Me senti paranoicamente sendo perseguido por todas as bikes de São Paulo.

Plano b: deixei a pista de corrida e fui pela trilha.

Consegui um tiro quase perfeito: 6 minutos inteirinhos. Só não fechei os 8 porque a bexiga decidiu que precisava de um banheiro. Claro.

Faltava mais um e decidi prolongar a rota, saindo do parque e dando a volta por fora para aproveitar a solidão daqueles arredores durante as primeiras horas do dia.

Péssima ideia.

Portões surpreendentemente congestionados forçaram caminhadas, kombis de ambulantes descarregando côcos pelo caminho impuseram pausas, carros que nunca passam pela IV Centenário decidiram se perder pela rua.

Quarto tiro comprometido – assim como o humor.

Decisão tomada: hora de acrescentar um quinto tiro.

Já no caminho de casa, semáforos, carros e bicicletas se concentraram para matar qualquer nova tentativa da minha parte de acrescentar qualidade ao treino.

Ignorei o conceito de tiro: era melhor correr até em casa por qualquer que fosse a duração, sem novas pausas programadas.

Era uma prova com obstáculos. Eu contra o trânsito, o trânsito contra mim.

Me senti desviando de carros, pulando calçadas e dando a volta em torno quadras mal acabadas.

Silêncio nos fones: o podcast já havia terminado faz tempo e eu nem havia percebido.

Irrelevante.

Agora era pressão pura, quase um combate teimoso para terminar.

Um, dois, três, quatro. Um, dois, três, quatro. Um, dois, três, quatro.

Veio a ladeira. Longa, ampla, definitiva. Suei, rangi os dentes, fiz cara feia… mas desacelerei, ainda que levemente.

E, no auge do pique físico e mental, terminei.

Exausto mais pelo esforço de brigar contra o trânsito e suas intempéries do que pelo treino em si, que foi quase inútil, infrutífero, perdido.

Há dias em que as cidades, mesmo com todas as suas regras, leis e convenções sociais, parecem mais voluntariosas que qualquer montanha.

(Ou esse gráfico abaixo sequer lembra algo remotamente semelhante a uma sessão de intervalados??)

IMG_5952.PNG

Técnica de respiração para aumentar a eficiência durante a corrida

Faz algum tempo, fiz um post no Rumo a Comrades sobre técnicas de respiração para se correr melhor. A mudança que isso gerou para mim foi tamanha que queria falar um pouco mais sobre isso aqui – até para matar algumas teorias de que é o corpo que deve decidir, por conta próprio, o ritmo ideal de cada corredor.

Antes de mais nada, uma observação: sim, respirar é algo que prescinde de qualquer esforço coordenado. Quando o intuito é deixar pulmões adaptados, a mágica é feita por uma só palavra: treinamento.

Mas o nosso corpo é um só e, de alguma forma, pulmão, músculos e articulações estão todos interligados.

E foi justamente seguindo esse raciocínio que um técnico chamado Budd Coates decidiu se aprofundar mais nas correlações corporais durante a corrida.

Ele se baseou principalmente em uma pesquisa feita por dois pesquisadores da Universidade de Utah, Dennis Bramble e David Carrier, que concluiu que o momento mais frágil para a musculatura e articulações durante uma corrida é quando o pé toca o chão no momento em que se expira o ar para fora. Ou seja: se seu pé esquerdo sempre tocar no chão a cada vez que você começa a expirar o ar dos pulmões, então todo o seu lado esquerdo estará mais suscetível a lesões (afinal, cada passada de corrida representa um impacto aproximado de 3 vezes o peso sobre as articulações).

Depois que li isso comecei a prestar atenção no meu padrão de respiração e descobri que, como a maioria dos corredores, ele é “par”. O problema está aí: se você puxa ou solta o ar a cada duas ou três passadas, então, logicamente, sempre repetirá a perna que tocará o chão durante a expiração. É só fazer as contas.

Com isso, claro, você acabará fragilizando o mesmo lado cada vez mais ao forçar uma carga maior em um momento de fragilidade mais aguda. Qual a solução? Revezar o pé que toca o chão ao sincronizar passadas com respiração de forma diferente, “ímpar”.

Coates sugere que isso seja feito em 3 etapas:

1) Em primeiro lugar, é importante aprender a respirar com a barriga (e não com o tórax). A barriga expande melhor e, assim, permite que o pulmão absorva mais oxigênio, deixando todo o processo mais eficiente. Esse talvez seja o passo mais difícil de todos pois inclui reprogramar todo o hábito respiratório já inserido no nosso cotidiano fisiológico, por assim dizer. Mas, com treino, tudo é possível.

2) Depois é o momento de praticar a respiração no ritmo 3-2-3-2. Inspira-se ao longo de 3 passadas, expira-se ao longo de duas. Com esse ritmo, você naturalmente alternará a pisada e equilibrará melhor o corpo. Veja na imagem abaixo:

20131114-234152.jpg

3) Finalmente, deve-se começar a praticar em diferentes velocidades. Quanto mais rápido se correr, mais difícil será manter o 3-2-3-2 – mas pode-se trocar por 2-1-2-1. O importante é manter o fluxo ímpar de sincronia respiratória.

Há uma série de exercícios e dicas que Bramble dá no artigo, mas basta buscar no Google para encontrar a peça completa.

Do lado de cá, levei algumas semanas para adaptar conscientemente o modelo de respiração. Mas funciona: o nível de dor na musculatura ficou quase que instantaneamente mais sincronizada, o que é um bom sinal. As dores que costumavam ser sempre maiores na perna direita, por exemplo, estão mais distribuídas, deixando todo o processo de regeneração mais ágil. E o tempo de adaptação também foi rápido: hoje, esse controle respiratório ímpar é quase que instintivo, inconsciente.

(Quem quiser se aprofundar mais no assunto pode também comprar o livro do Budd Coates, aqui).

Primeiras impressões do tênis Salomon S-Lab Sense 3 Ultra

Já fazia algum tempo que estava querendo testar esse tênis. Ganhei de presente de aniversário, em outubro, mas acabei postergando a sua “inauguração” por não querer massacrá-lo no asfalto – até que desisti de preciosismo.

Ontem pela manhã decidi calçá-lo e aproveitar pelo menos a pequena trilha em torno do Ibirapuera. Não é exatamente um ambiente selvagem – mas também não é uma avenida inteiramente pavimentada.

Primeiras impressões: o sistema de cadarço dele é complicado. Levei alguns bons minutos até entender a lógica e, em um dos pés, acabei deixando-o apertado demais. Além disso, como se pode ver na foto abaixo, esse sistema deixa a lateral do tênis próxima ao tornozelo aberta demais. Não senti nenhum problema prático no percurso que fiz – mas certamente isso pode permitir que pedrinhas entrem e atrapalhem um pouco (embora haja uma proteção na língua que pode eliminar problemas do gênero).

FullSizeRender

Por outro lado, pode ser que apenas um ajuste melhor no cadarço resolva. Veremos em próximas corridas.

Fora isso, o tênis se comportou incrivelmente bem. O grip na sola é muito forte e seguro – certamente teria feito a diferença no Indomit Bombinhas enlameado que participei há alguns meses.

Gosto de correr com tênis minimalistas – o mais “barefoot style” possível, com drop zero e peso ínfimo. Nas ruas, normalmente uso o Merrell TrailGloves ou o Vibram Fivefingers, excelentes para ajudar na biomecânica. O Salomon S-Lab Sense 3 Ultra não é exatamente “barefoot style” – tem um drop de 4mm que me preocupou um pouco no começo.

resizeImage (2)

E, de fato, esse drop pode ser sentido nos primeiros passos, mas um ajuste rápido na pisada para garantir uma biomecânica fluida, com pisada com o peito do pé, resolve. Não tive nenhum problema ou dor.

Ao contrário: a qualidade da sola acabou protegendo os pés dos galhos e pedrinhas no caminho mais do que qualquer outro tênis que estou habituado a usar.

resizeImage

Outro ponto positivo é a leveza. São 230g de tênis – apenas 90g a mais que o Vibram e 30 a mais que o Merrell. Pouco, muito pouco considerando o nível de proteção e grip da sola.

No geral, fiquei muito, muito satisfeito com o tênis. Tanto que estou seco por uma trilha nova em algum lugar para que possa testá-lo por mais tempo em “condições mais adequadas”, para dizer o mínimo.

Checkpoint semanal: Olá, longão!

Estava com saudades de um longão realmente descente.

Nos últimos tempos, tenho feito corridas mais curtas e buscado mais velocidade nelas – pelo menos até a Maratona de Sampa. Depois disso, acabei entrando em uma espécie de vácuo de overtraining, me recuperando mais lentamente do que desejava. Mas o fato é que me recuperei – e, ontem, depois de muitas semanas, fui para a rua sem muita hora para voltar.

Foram, na prática, 3h23 somando pouco mais de 30,6km. Um ritmo lento, admito – mas velocidade não estava exatamente nos planos. A ideia era apenas sair de casa, entrar na USP e aproveitar o máximo de duas voltas por lá, sorvendo cada raio de sol, cada visual e cada gota do clima de corrida que domina todo aquele ambiente.

Não vou mentir que cheguei bem cansado de volta – 30km são 30km em qualquer que seja a fase do treino. Mas cheguei bem e pronto para fechar a semana com uma corrida mais acelerada hoje, onde usei pela primeira vez o Salomon S-Lab Ultra na trilha em volta do Ibirapuera. Mas isso fica para outro dia.

Por hora, vão apenas os meus gráficos acumulados e a satisfação de ter quebrado, novamente, a marca dos 30km em um sábado como outro qualquer.

Screen Shot 2014-11-16 at 1.02.56 PM

Ultra Estrada Real: estamos no Webrun :-)

Recebi, ontem, um email da Webrun informando que a Ultra Estrada Real está já formalmente aparecendo no portal. Mesmo sendo uma ultra independente, que está quase que se auto-organizando com base na pura vontade de corredores, é bom começar a vê-la já em “carne e osso” em posts e sites.

Aliás, o incrível desse “evento” é justamente o fato dele representar o que considero como mais apaixonante de todo esse esporte: uma motivação gerada pelo amor às trilhas e distâncias – e não por kits recheados e multidões aplaudindo.

Que bom :-)

Screen Shot 2014-11-13 at 3.22.00 PM

Ultra Estrada Real: já somos em 5!

Apenas para atualizar: somos já cinco corredores dispostos a percorrer os 88km do trecho da Estrada Real no dia 4 de abril de 2015!

E, no total, alguns dos corredores já disponibilizaram uma ajuda que será MUITO bem vinda e que inclui dois carros de apoio, 4 voluntários e, possivelmente, uma ajuda com nutrição.

Do lado de cá, vou começar a organizar uma página mais completa com as informações sobre o evento (que, agora, já tem ares mais oficiais) e montar uma espécie de newsletter que mantenha todos informados e no mesmo pique.

E só lembrando: quem quiser se juntar a nós é só preencher o formulário no link http://bit.ly/1xsanOa

66a0e2fd282323fda3f13439e158390c

Atualização de 13/11/2014: Percurso e informações gerais estão já plenamente organizados em uma página única: www.rumoastrilhas.com/ultraestradareal . Para saber mais e se inscrever, clique aqui.

A conexão entre a Teoria dos Jogos e ultramaratonas

Uma das diferenças básicas entre uma corrida de 10K e uma ultra – além, claro, da distância – é o clima que se forma em torno do evento. Em provas rápidas, a solidão é quase tão grande quanto o número de pessoas participando. A não ser que você vá com algum amigo, tudo gira em torno de engolir quilômetros o mais rapidamente possível, terminar logo, pegar a medalha e voltar.

Em ultras, tudo muda. Na maior parte delas, há muito menos pessoas participando – mas isso acaba gerando uma sensação de comunidade muito maior. Afinal, depois de algumas horas correndo sozinho, você fatalmente cruza com algum outro corredor e passa algum tempo junto, o que força a criação de uma espécie de companheirismo quase instantâneo.

Há algo da teoria dos jogos envolvido nisso – e esse vídeo do TED, que copio abaixo, fala bastante sobre isso. São 8 minutos de pensamentos sobre o assunto que, no mínimo, valem a atenção:

Finalmente de volta ao ritmo!

Ufa! Depois de uma “semi-depressão” doída por conta do overtraining e do estresse de um fim de ano no mínimo tenso, depois de uma corrida de segunda libertadora e de um longão feito hoje, domingo, incluindo um percurso diferente pelo centro de Sampa, estou finalmente me sentindo inteiro de novo!

E a maior prova talvez seja justamente o acúmulo de tempo, quilômetros e altimetria nas ruas. Nada que se assemelhe a um corredor de elite ou mesmo aos meus próprios marcos em tempos de picos de treino, obviamente – mas, na corrida, peculiaridades individuais se somam a momentos e contextos para desenhar o que é, de fato, um desafio.

O dessa semana foi fechar essa fase ruim pela qual estou passando com algo além dos 60km. Deu certo: cheguei aos 65km extremamente bem.

Meta cumprida com cérebro, motivação e inspiração devidamente oxigenados.

Aliás, eu arriscaria dizer que o “adeus” dado ao overtraining veio com um alívio tão grande que, até agora, a endorfina parece caminhar pelas veias soltando picos de bom humor por todo canto do corpo.

Perfeito.

Hora de aproveitar e de seguir adiante. Semana que vem, afinal, tem mais ruas e trilhas a serem corridas. Ainda bem!

Screen Shot 2014-11-09 at 11.26.21 AM

Brincando de Strava

Dia atípico: por conta de uma reunião de trabalho às 8:30, acabei tendo que assassinar o meu longão de hoje. Tudo bem: acabei “espalhando” o longão pelo resto da semana/

E, claro, aproveitei também para usar o meu brinquedo novo, o Strava. Até então, usava o MiCoach, da Adidas, para acompanhar os treinos. Essa app é imbatível em um ponto: ela efetivamente passa instruções ao longo de cada corrida, funcionando quase como uma conexão virtual permanente com um treinador.

Mas, desde que troquei o SmartRun para o Garmin, acabei pesquisando outras ferramentas. E caí no Strava que, diga-se de passagem, é integrado tanto ao MiCoach quanto ao Garmin.

Não vou ficar aqui celebrando o software: eu provavelmente sou o último corredor a conhecer o sistema deles. Mas vou apenas dizer que fiquei quase abismado com o nível de dados que entregam.

Além do conceito de segmentos e de rotas dos outros – que já estou utilizando para programas corridas na Argentina, durante o final do ano – a análise de pace foi o que mais me chamou a atenção.

Até então, utilizava apenas uma análise quase cronológica de uma corrida – incluindo pontos em que aumentava ou diminuía o pace. Hoje, no entanto, a análise de zonas acaba dando uma noção bem mais clara do esforço feito e dos resultados alcançados.

Exemplo abaixo:

Screen Shot 2014-11-07 at 3.08.00 PM

Resultado? Nessa corrida de exemplo, feita ontem, acabei forçando a velocidade (Z4 para cima). Perfeito: era exatamente essa a meta do dia.

Fiz a mesma comparação com a quinta mas percebi que, nela, apesar de ter terminado com uma sensação de missão cumprida, havia me concentrado quase que inteiramente na Z3. Em outras palavras: acabei encaixando um treino errado.

Vou passar a utilizar essa análise mais vezes como uma espécie de ferramenta para guiar o desempenho. Tecnologia é incrível!

Plano Estrada Real: Guia com informações importantes do percurso

Há, no site da Estrada Real, uma série de informações importantes sobre o percurso – incluindo dicas da sinalização, sugestões de hospedagem etc. Aliás, cabe aqui uma observação: eles são de uma organização impecável na Web. Dá até orgulho :-)

Baixei um PDF que tem uma espécie de compilado feito especialmente para quem for percorrer a rota dos Diamantes (onde se “encaixa” o percurso que escolhi).

Esse PDF inclui:

  • Informações sobre o Passaporte Estrada Real
  • Sinalização
  • Explicações sobre as planilhas disponibilizadas (as que coloquei nesse post aqui)
  • Dicas gerais
  • Explicações históricas
  • Detalhamento trecho a trecho (incluindo pontos de carimbo do passaporte, sugestões de atrativos, pousadas e restaurantes); no caso do trecho da ultra, o conteúdo interessante vai da página 54 à 71

Ou seja: um baita guia interessante. Para baixar, clique aqui ou na imagem abaixo:

Screen Shot 2014-11-05 at 5.52.51 PM

Atualização de 13/11/2014: Percurso e informações gerais estão já plenamente organizados em uma página única: www.rumoastrilhas.com/ultraestradareal . Para saber mais e se inscrever, clique aqui.