Sábado

Não deu para acordar no sábado de manhã. Foi simples assim: a cama foi mais forte que o tênis. 

Mas era um sábado diferente: na prática, o ano já estava terminado. Era um sábado que teria cara de sábado mesmo no domingo, na segunda, na terça. Era um sábado de encerramenta de ano, de ciclo, de Tempo. 

Não correr seria algo quase criminoso. 

E, então, saí mais tarde. Bem mais tarde, por volta das 5, sob uma garoa fina que cobriu São Paulo. Não fui para nenhum parque: me embrenhei pela Barra Funda, perto do centro da cidade. 

Aproveitei aquela luz de fim de tarde nublado, com os postes começando a se acender, para quase flutuar pela ciclovia da Sumaré e pelo Parque da Água Branca. O melhor veio depois: fazer o Minhocão. Quando cheguei lá a noite estava quase se apossando do céu: a garoa ainda insistia em riscar o asfalto, as luzes do trânsito mostravam um quê de impaciência generalizada e, no ouvido, um rock leve, liso, embalava os passos. 

Quando saí do Minhocão peguei a Consolação ainda cheia, mas já começando a dar o dia por encerrado. Tangenciei o Cemitério, cruzei a Paulista. As pistas já estavam tomadas por happy hours de sábado, por sons de brindes e risos cortantes. 

O ano já estava terminado para muitos – possivelmente há algum tempo. 

Para mim, no entanto, só naquele sábado é que as peças efetivamente se encaixaram. 

  
 

Fechando o ano no Pico do Urubu

2015 foi um ano intenso para mim. 

Ele abriu, já em janeiro, com 50K por puro charco na Serra do Mar. 

Emendou com a Ultra Estrada Real (87K), prova que concebi aqui pelo blog e que foi ganhando adeptos de maneira espontânea, se auto-organizando e acontecendo pelo maravilhoso interior de Minas. 

Teve minha segunda Comrades (87K), experiência absolutamente inesquecível. Teve mais 50K por Atibaia. 

Teve os meus primeiros 100K nas malvadas trilhas da Indomit Costa Esmeralda. 

E, entre uma e outra prova, teve muito trabalho, muito treino, muito foco e muitas, muitas novas amizades feitas. 

Mas 2015 foi além disso: foi o ano em que realmente me entreguei às trilhas, perdendo medo de qualquer tecnicidade e aprendendo, ainda que a duras penas, a voar ladeira abaixo e correr ladeira acima. 

Nada mais natural do que me despedir de 2015 nas trilhas, portanto. 

E, assim, fui com um grupo de 30 trilheiros para o Pico do Urubu, aqui no interior de São Paulo. Tece de tudo: um pouco de asfalto, muita estrada de terra, singletracks gostosos, mais de mil metros de subida, uma vista deslumbrante. De certa maneira, esses 23km que percorri ora rindo com amigos, ora calado, imerso em meus próprios pensamentos, foram uma mini-versão de um ano tão intenso quanto cansativo. 

Quando cheguei de volta ao carro, 3 horas depois, estava mais revigorado do que cansado. Foi como um banho de mar às vésperas do ano novo: aquela trilha me fez cortar, mentalmente, o Tempo: separou 2015 de 2016. 

Ainda há dias pela frente, claro – mas nem sempre o tempo se mede pelo calendário. 

Domingo foi um belo exemplo disso. 

   
    
    
    
   

Checkpoint: O alívio da linha de chegada

Descidas são sempre sagradas.

O corpo entra no próprio ritmo, os membros parecem se soltar, a velocidade flui na mesma medida em que o cansaço vai ficando para trás.

Essa semana começou cheio de subidas. Subidas daquelas íngremes, técnicas, de assaltar o fôlego. Houve dias no trabalho que eu mal sabia se conseguiria sobreviver até o Natal, tamanha a exaustão.

Mas fui em frente. De alguma maneira consegui encaixar os treinos planejados. De alguma maneira consegui sobreviver à segunda, à terça, à quarta.

E, de alguma maneira, a semana passou.

Ainda não estou de férias – ao menos não oficialmente. Mas agora, tudo está mais fácil, mais leve.

Melhor: a semana terminou com duas sensacionais corridas que conto depois, em outro post: um pelo centro no fim de tarde chuvoso desse último sábado e outro na montanha, entre amigos, subindo o Pico do Urubu.

Que esse período de final de ano dure ainda muitos dias. Preciso miito do descanso mental tanto para aliviar o cansaço de 2015 quanto para me preparar para 2016.

   
 

Só mais 5 dias

Faltam 5 dias.

5 dias de turbulência e truculência, 5 dias de estresse, 5 dias de correria insana no trabalho para fechar o ano.

Nesta manhã de segunda, o que me resta é olhar para algumas das fotos do longão de ontem e torcer para que elas deixem o passado e saltem para o futuro próximo o mais rapidamente possível.

No mais, é aguentar esses 5 próximos dias.

  

 
 

Checkpoint: Um dia depois do outro

Ontem foi dia de blackout repentino. Não apenas troquei o longão pela cama como dormi até as 11 e passei o resto do dia me arrastando com sono.

Talvez tenha sido um pouco de anemia, talvez cansaço acumulado, talvez tudo. 

Mas nada como um dia depois do outro: hoje acordei às 5:15 sem despertador, voei para a rua e fiz todo o trajeto planejado pra ontem: Parque Alfredo Volpi, Butantã, Morumbi, Parque Burle Marx. Considerando que o dia estava lindo, me embrenhar pelas trilhinhas desses parques foi um bônus bem vindo e que trouxe doses desejadíssimas de endorfina da melhor qualidade.

No final das contas, fechei a semana uns 6 ou 7km abaixo do planejado – mas inteiro. Mas foi o melhor que pude fazer. Ultras ensinam isso: às vezes, brigar com o corpo é inútil. O máximo que se pode fazer é se segurar e aguentar um pouco mais esperando que os minutos futuros tragam algum alívio milagroso. E o melhor de tudo é que se aprende também que, com o tempo, milagres sempre acontecem.

De certa forma, foi como se um deles tivesse aparecido hoje, dando um boost súbito um dia depois de eu ter me rendido de maneira tão completa ao sono.

Que bom.

   
 

Blackout

Ontem cheguei de viagem relativamente inteiro e já traçando a rota do longão de hoje. Atravessaria a Marginal, cortaria o Butantã e faria as trilhinhas do Parque Alfredo Volpi e do Burle Marx. 

Voltaria depois de umas 3 horas com quilômetros muito bem gastos sob as solas dos tênis.

Não deu: acordei com aquele cansaço sobrehumano, com sono e praticamente sem conseguir me mexer. Cheguei até a trocar de roupa e a fazer um check-up – fisicamente, afinal, estava perfeito e sem uma única dor pelo corpo.

Mas fui sugado pela cama.

Capotei.

Acordei às 11 da manhã pela primeira vez em 4 anos.

2015 está acabando comigo.

  

Preciso de uma trégua do ano

Ontem eu escrevi aqui que o ano estava diminuindo o ritmo. Deveria ter sido mais esperto: há coisas que não se fala por aí, coisas que parecem convidar maus agouros para dentro de casa.

No instante em que pisei na agência, bombas sequenciais decidiram explodir. Apareceu concorrência nova, campanha de ano novo, relatório para fazer com prazo insano, mudanças abruptas em verbas forçando replanejamentos inteiros e assim por diante. Traduzindo em uma única palavrinha: caos.

Cheguei em casa me arrastando, praticamente lambendo o chão e pedindo clemência ao celular que não parava de tremer. Sentei no estado vegetativo pleno e fiquei ali, tão imóvel quanto um vaso, enquanto personagens corriam na tv em minha frente, família passava pelos lados e os ponteiros do relógio na parede de trás seguiam o rumo próprio.

Dormi.

No dia seguinte, hoje, o despertador já soou para a rotina: acordar a filha, dividir tarefas de arrumá-la para a escola e preparar seu café, brigar por alguma malcriação matinal menor, achar os sapatos que sempre parecem fugir dos pés que pretendem calçá-los, atender o interfone e avisar a van que estamos atrasados, correr pelo hall, dar tchau.

7:30 da manhã. 

Hora de dar uma corridinha no parque. Pela primeira vez em semanas consegui encaixar treinos em três dias seguidos, algo que sempre me foi habitual.

Mas sabe o resultado? Apesar do treino ter sido proveitoso tanto em ritmo quanto em volume, estava cansado. Dolorido. Sonado. Tenso.

Há momentos em que nem uma boa corrida ajuda a descansar. 

Agora, enquanto sigo de taxi até a segunda reunião do dia, só torço para que a semana passe logo e que, nesses próximos dias, menos bombas insistam em explodir.

Preciso de uma trégua emergencial desse ano.

  

O Gambá-Rei do Ibirapuera

Tenho o hábito de correr cedo – bem cedo. Chego no Ibirapuera ainda antes do sol nascer e, dependendo da época do ano, saio também antes das primeiras luzes acenderem o dia. 

Nesse tempo todo, me acostumei a ver pequenos vultos cruzando o parque, principalmente quando vou pela trilha na companhia daquele cheiro de mato tão incompatível com São Paulo. São tatus, gatos e mesmo ratos que fazem daquela zona – inteligentemente – as suas casas. 

Hoje, no entanto, aproveitei que o ritmo do trabalho estava diminuindo com o final de ano e saí com o sol já pintando o céu de azul e vermelho: dei meus primeiros passos às 6 em ponto. Pareceu que estava em outra cidade: havia mais gente dividindo a pista, os carros seguiam em linhas retas (afinal, não estavam mais sendo conduzidos por bêbados varando a madrugada) e o tipo de calmaria era diferente, mais leve e menos assustadora. 

Não esperava, portanto, cruzar com nenhum dos pequenos vultos que me fazem companhia de madrugada: imaginei que todos já estivessem devidamente entocados e escondidos da confusão. E a maioria provavelmente estava mesmo – exceto por um.

Em um brado de coragem, no meio de pessoas e bikes, um gigantesco gambá decidiu, de repente, atravessar a pista. Lentamente. Soberanamente. Arrogantemente.

Ignorava tudo e todos, como que deixando claro que era ele o dono de tudo aquilo. E quer saber? Parecia ser mesmo. Bikes desviaram, corredores pararam para tirar fotos e até os trabalhadores do parque, que começavam a assumir os seus postos, murmuravam qualquer coisa entre si. Ninguém ousou chegar perto demais ou atrapalhar a vagarosa caminhada do Gambá, aparentemente o rei do parque. 

Decidi segui-lo de perto para fora da pista, até o gramado. 

Ele parou e se virou para mim, como que me reconhecendo das outras madrugadas. 

Me olhou, reprovando esse atentado ao seu direito de solidão, e ficou imóvel por alguns instantes. 

Depois, voltou a me ignorar, ciente de que ninguém ali seria capaz de fazer qualquer coisa contra ele, e seguiu no mesmo ritmo lento. 

Não desisti e fui atrás do meu “amigo  por mais algum tempo, desta vez contando com o seu total desprezo pela minha presença. Ele nem sequer tentou se fazer invisível: em um par de segundos, sem quebrar o pace, ele virou para uma árvore – uma das grandes que pontilham o parque e que fazem parte da sua paisagem – e entrou em uma toca que eu jamais havia percebido. Estava em casa. 

O Gambá não saiu mais de lá: provavelmente estava na hora de descansar de uma noite de caça intensa pela selva do Ibirapuera. Eu, por outro lado, não tinha mais o que fazer. 

Nós dois, afinal, tínhamos as nossas vidas para tocar.

E, no fundo, nós dois sabíamos que nos veríamos de novo em breve, seja em alguma outra madrugada ou em outra manhã corajosa como aquela.

Dei dois passos para trás e segui meu rumo. 

   

Checkpoint: Escalando de volta

Nem cansaço, nem gripe, nem más notícias ou viagens de meio de semana. Há horas em que simplesmente precisamos dar um basta em desculpas internas, virar a página e começar um novo capítulo.

Missão cumprida. 70km rodados na semana, com o bônus de incontáveis subidas por escadas no trabalho e na escada. 

Não nego o cansaço, claro – mas ele não é nada perto dessa sensação de uma semana finalmente bem fechada, trazendo esperadíssimos bons prospectos para o restante deste mês de dezembro.