Sofrendo com a mochila de hidratação

Sábado, dia de voltar à USP.

Desta vez, no entanto, o estilo seria outro: nada de alternar caminhada com corrida – essa era a estratégia de Comrades – e nada de ir apenas com uma garrafinha de água na mão.

Hoje, em um longão de pouco mais de 22K, precisaria acelerar o pace e encaixar algo na casa dos 5’30 a 5’40 como média, incluindo um tiro forte na Subida do Matão.

E mais: levando comigo uma mochila de hidratação que, nessas próximas semanas, deve se tornar minha melhor amiga.

O começo da amizade, no entanto, não foi dos melhores. Sendo direto: odiei cada segundo correndo com a mochila que, mesmo apertada contra o corpo, cismava em balançar e se esfregar nos meus ombros causando uma dor que só piorava.

Agora, escrevendo pós corrida, estou queimado nas costas como se tivesse passado horas sob o sol do Nordeste.

Concentração? Quase impossível. Consegui correr bem no começo e dar o tal tiro na subida – mas, depois disso, a dor era tamanha que por pouco não joguei a mochila fora e peguei um taxi de volta para casa.

Ok…. isso é péssimo. Como vou resistir a uma ultra de montanha, onde mochilas são itens obrigatórios, se quase tive um treco correndo míseros 22k com uma??

Alternativas que pensei:

a) Usar camisas com golas mais longas, estilo tartaruga, fazendo o contato das alças com a pele impossível

b) Me acostumar, queimando um pouco mais até fortalecer o couro

c) Comprar outra mochila

Para o próximo sábado tentarei a alternativa “a” – afinal, a “b” soa dolorosa demais e a “c” cara demais.

Hora também de mergulhar na Web atrás de dicas de outros corredores, o que sempre me ajudou no passado.

Enquanto isso, é hora de passar uns 3 ou 4 galões de hidratante nas costas e torcer para que a dor passe logo!

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A porta destrancada pela Comrades

O tornozelo ainda lembrava um pouco que Comrades estava a menos de uma semana de distância – mas estava na hora de virar a página.

Depois de quase uma semana sem correr, calcei o tênis, vesti a roupa e saí para o Ibira.

Era a minha primeira corrida depois da ultra que dominou os meus sonhos por tanto tempo. E o dia estava igual aos tantos outros que, por meses, me viram percorrer o asfalto.

Mas alguma coisa estava diferente.

Enquanto corria em passadas ainda lentas, meio cansadas, dava para ver uma espécie de realidade nova formada por uma maior autoconfiança e certeza de que somos capazes de muito mais do que os nossos próprios corpos imaginam.

A experiência espiritual, para dizer o mínimo, que dominou os últimos quilômetros de Comrades, deixou marcas. Mudou. Abriu um acesso, talvez, para um território mental que eu só conhecia pelos livros.

E fui mergulhando fundo nesse território, explorando-o um pouco mais, a cada passada. Estava conhecendo melhor uma zona mental nova, feita de pura concentração zen e que, até então, estava escondida no cotidiano.

Quilômetros foram se diminuindo. Músculos, se soltando. Dores, sumindo.

Até que a volta se completou e, de repente, estava de volta em casa.

Hora de subir e retomar a rotina que me aguardava – mas ciente de uma espécie de novo poder mágico que, a partir de então, já estava destrancado.

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Como estou pós-Comrades

Hoje é dia 5 de junho – 4 dias depois da Comrades 2014, lá na Africa do Sul.

Apesar de já ter feito uma ultra antes – a Two Oceans, de 56K – essa foi a minha primeira jornada em um percurso acima de 50 milhas. E foi absolutamente espiritual, para dizer o mínimo. Não vou me prolongar muito falando da Comrades – já fiz todo um blog com algumas centenas de posts narrando tanto a jornada quanto a prova em si (veja aqui).

Mas, considerando que este é o que considero o dia 1 da minha transição para as trilhas, é sempre bom começar detalhando o meu estado físico alguns dias depois de ter passado 10h54 na estrada entre Pietermaritzburg e Durban.

Meu tornozelo esquerdo é o único ponto realmente problemático. Aparentemente desenvolvi um cisto sinovial nos últimos quilômetros da prova, vazando líquido de alguma articulação e criando uma bolha na parte de cima do tornozelo que está comprimindo toda a região. O lado bom é que não é nada de grave: o cisto já começou a desaparecer, com o líquido sendo reabsorvido pelo próprio organismo. A região inteira ainda ainda está bastante inchada, mas melhor. Fui ao médico ontem para saber se poderia ser algo grave mas, aparentemente, basta dar um pouco mais de tempo ao tempo e estarei inteiro.

O restante da musculatura está toda recuperada: não há mais nenhum sinal de dor em nenhuma outra parte do corpo.

O moral está excelente – como não poderia deixar de ser. No domingo completei uma prova que definitivamente mudou a minha vida e a minha forma de me entender enquanto pessoa. Comrades faz isso com todos, aparentemente.

Meu relógio quebrou na Comrades. Aparentemente, o sal do suor acumulado embaixo do pulso danificou os sensores do Adidas Smartrun que, agora, não carrega mais. Devo passar na Adidas esse final de semana para ver o que fazer mas, como o relógio foi comprado fora do Brasil, tenho poucas esperanças de solução. Se for o caso, terei que comprar um outro. Infelizmente.

Assim, com um tornozelo ainda se recuperando, sem relógio, com moral elevado e restante da musculatura recuperada, começo uma nova jornada que me levará para mais distante das ruas e mais próximo das montanhas. Ainda é cedo para dizer sequer se gostarei da experiência – embora ache difícil que não.

De toda forma, veremos, a partir de hoje, quais os caminhos que me esperam!

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