Checkpoint: fim de ano à vista

O ano está acabando.

Isso começa a ficar nítido na medida em que semanas são encurtadas e confraternizações começam a aparecer no calendário.

Sim: estamos em novembro ainda. Mas as próprias decorações de Natal alinhadas por qualquer percurso que se escolha deixam claro que 2015 está querendo – e muito – chegar.

Essa semana foi diferente.

Com viagens na segunda, sexta e sábado, consegui apenas espremer 4 corridas. Compensei aumentando a distância – mas os caminhos que escolhi, incluindo uma trilha súbita lá em Joinville e outra urbana, hoje cedo, aqui em Sampa, não privilegiaram pace. Meu treinador provavelmente brigará comigo, mas não me arrependo.

Ironicamente, a semana curta me fez saboreá-la mais e sentir melhor cada passo dado na rua.

Screen Shot 2014-11-23 at 1.40.32 PM

Trilhas urbanas

Treinar para correr em trilhas quando se mora em uma cidade como São Paulo não é, exatamente, uma coisa fácil. Claro: sempre dá para escapulir para o Jaraguá de vez em quando – mas estamos falando de um percurso de pouco menos de 4km, apenas.

Passar finais de semana em Campos do Jordão, Joaquim Egydio ou sul de Minas também é possível – mas, sendo realista, é algo longe de ser prático (principalmente quando se tem família).

O que fazemos então? Corremos na rua mesmo.

Asfalto não é terra e ladeiras não são montanhas – mas, às vezes, precisamos nos contentar com o que temos.

Recentemente, descobri que isso até tem nome: “urban trails”. Pela enxurrada de vídeos no Youtube, são provas organizadas que, ao invés de buscarem percursos planos, incluem escadarias e até mesmo trechos no interior de prédios.

O chão continua com a mesma “dureza”, por assim dizer – mas pelo menos há aqueles pequenos obstáculos que enxertam algum grau, por menor que seja, de surpresa pelo caminho.

Nunca cheguei a me atentar a isso mas, vendo esses dois vídeos que coloco abaixo, de Brugge e Lyon, vou começar a caçar mais obstáculos urbanos no meu tradicional caminho pelo Ibira. Ou talvez mudá-lo um pouco mais de vez em quando.

Moodfilm Brugge Urban Trail from Golazo on Vimeo.

 

 

Crescimento de ultras nos últimos 10 anos

Há alguns anos, eu nunca tinha ouvido falar de ultras. Aliás, eu tinha plena certeza que a São Silvestre era uma maratona (!).

De lá para cá, me descobri no asfalto e nas trilhas, fui ampliando as distâncias e concluindo que tempo passado só, em ritmo constante e em direção definida é simplesmente fascinante.

Claro: achar que só eu descobri isso nesse período seria de uma arrogância ímpar. Mas, ainda hoje, evito falar em círculos normais que curto distâncias maiores para evitar olhares tortos, daqueles que mesclam descrença a certeza de insanidade.

Dia desses vi um gráfico bem interessante sobre o crescimento de ultras no mundo. Veja abaixo: nos últimos 10 anos, a soma de eventos e corridas oficiais saltaram de 528 para 2.141 – 4 vezes mais!

Imagino que o número de participantes por corrida tenha crescido também, embora esse dado não tenha sido revelado.

Qual a utilidade prática desse dado? Bom… pelo menos deixa a nós, amantes de ultradistâncias, com uma sensação de maior de “normalidade social” – se é que isso existe :-)

Screen Shot 2014-11-19 at 6.38.29 PM

Primeiras impressões do tênis Salomon S-Lab Sense 3 Ultra

Já fazia algum tempo que estava querendo testar esse tênis. Ganhei de presente de aniversário, em outubro, mas acabei postergando a sua “inauguração” por não querer massacrá-lo no asfalto – até que desisti de preciosismo.

Ontem pela manhã decidi calçá-lo e aproveitar pelo menos a pequena trilha em torno do Ibirapuera. Não é exatamente um ambiente selvagem – mas também não é uma avenida inteiramente pavimentada.

Primeiras impressões: o sistema de cadarço dele é complicado. Levei alguns bons minutos até entender a lógica e, em um dos pés, acabei deixando-o apertado demais. Além disso, como se pode ver na foto abaixo, esse sistema deixa a lateral do tênis próxima ao tornozelo aberta demais. Não senti nenhum problema prático no percurso que fiz – mas certamente isso pode permitir que pedrinhas entrem e atrapalhem um pouco (embora haja uma proteção na língua que pode eliminar problemas do gênero).

FullSizeRender

Por outro lado, pode ser que apenas um ajuste melhor no cadarço resolva. Veremos em próximas corridas.

Fora isso, o tênis se comportou incrivelmente bem. O grip na sola é muito forte e seguro – certamente teria feito a diferença no Indomit Bombinhas enlameado que participei há alguns meses.

Gosto de correr com tênis minimalistas – o mais “barefoot style” possível, com drop zero e peso ínfimo. Nas ruas, normalmente uso o Merrell TrailGloves ou o Vibram Fivefingers, excelentes para ajudar na biomecânica. O Salomon S-Lab Sense 3 Ultra não é exatamente “barefoot style” – tem um drop de 4mm que me preocupou um pouco no começo.

resizeImage (2)

E, de fato, esse drop pode ser sentido nos primeiros passos, mas um ajuste rápido na pisada para garantir uma biomecânica fluida, com pisada com o peito do pé, resolve. Não tive nenhum problema ou dor.

Ao contrário: a qualidade da sola acabou protegendo os pés dos galhos e pedrinhas no caminho mais do que qualquer outro tênis que estou habituado a usar.

resizeImage

Outro ponto positivo é a leveza. São 230g de tênis – apenas 90g a mais que o Vibram e 30 a mais que o Merrell. Pouco, muito pouco considerando o nível de proteção e grip da sola.

No geral, fiquei muito, muito satisfeito com o tênis. Tanto que estou seco por uma trilha nova em algum lugar para que possa testá-lo por mais tempo em “condições mais adequadas”, para dizer o mínimo.

Ultra Estrada Real: Informações organizadas

Como o volume de informações sobre a Ultra Estrada Real estava ficando grande demais, acabei organizando tudo em um mesmo ambiente. Informações sobre a prova, o percurso, mapas, planilhas, fotos, formulário e tudo mais pode ser visto agora no http://www.rumoastrilhas.com/ultraestradareal . Simples assim :-)

Na medida em que for juntando mais informações, vou colocando tudo lá, ao alcance. E, claro, quem tiver qualquer dúvida ou precisar saber de alguma coisa específica, é só comentar por aqui que eu providencio!

Screen Shot 2014-11-12 at 6.53.26 PM

As montanhas e os seus perigos

Soube ontem que o João Marinho, organizador da Douro Ultra Trail, está desaparecido desde a terça da semana passada.

Saiu para correr solo pelas montanhas das Astúrias, no norte da Espanha, e, em meio a neve, ventos e neblina, se fundiu com a paisagem.

Até a hora deste post o paradeiro dele ainda é desconhecido. Sabe-se apenas que o resgate espanhol nutre poucas esperanças de encontrá-lo com vida dado o tempo desde o último contato e as condições da montanha.

Conheci o João quando decidi me inscrever na DUT: era ele quem respondia as dúvidas diretamente e que ajudava nos detalhes de planejamento da minha ida daqui do Brasil até a largada, na cidade de Peso da Régua.

Dirigiu uma prova sem paralelos por um dos visuais mais incríveis que meus olhos já testemunharam – e em um nível de organização como poucas vezes minhas pernas já percorreram. Sua atenção aos detalhes foi admirável – incluindo me reconhecer, pelo sotaque brasileiro, no instante que nos cruzamos lá na chegada.

É difícil – e triste – imaginar que um corredor tão experiente tenha se perdido ou se acidentado justamente em seu habitat natural, a montanha. Mas é também um alerta importante para todos nós que fazemos das trilhas e ruas uma espécie de segunda casa.

A natureza, afinal, ama apenas a ela própria e não costuma ter pena ou piedade de ninguém. A nós, cabe apenas degustá-la com uma alta dose de respeito.

Espero que o João retorne vivo para a sua família e que esse seja um daqueles casos milagrosos de sobrevivência. E que essa lição possa ser dada a todos os corredores que o conhecem sem mais crueldades do destino.

Abaixo, a última foto dele mesmo postada em sua página no Facebook antes de partir para a montanha. Espero que mais dessas possam ser tiradas por ele em breve.

IMG_5904.JPG

Formulário de inscrição na Ultra Estrada Real

Para facilitar a organização da Ultra Estrada Real, no dia 4 de abril de 2015, criei um formulário no Google Docs. A ideia é simples: com todos os dados de quem quiser participar em mãos, posso já me mexer para organizar alguns pontos críticos dessa “prova independente”.

Afinal, é uma ultra com percurso incrível, mas sem nenhum tipo de chancela oficial que não a vontade de corredores de desbravar o país. Todos estão mais do que convidados a participar – quem sabe assim não acabamos criando uma prova oficial no futuro?

Bom… o formulário segue abaixo. Se preferir, no entanto, pode acessar o link http://bit.ly/1xsanOa

Boas trilhas para nós!!!

Atualização de 13/11/2014: Percurso e informações gerais estão já plenamente organizados em uma página única: www.rumoastrilhas.com/ultraestradareal . Para saber mais e se inscrever, clique aqui.

Brincando de Strava

Dia atípico: por conta de uma reunião de trabalho às 8:30, acabei tendo que assassinar o meu longão de hoje. Tudo bem: acabei “espalhando” o longão pelo resto da semana/

E, claro, aproveitei também para usar o meu brinquedo novo, o Strava. Até então, usava o MiCoach, da Adidas, para acompanhar os treinos. Essa app é imbatível em um ponto: ela efetivamente passa instruções ao longo de cada corrida, funcionando quase como uma conexão virtual permanente com um treinador.

Mas, desde que troquei o SmartRun para o Garmin, acabei pesquisando outras ferramentas. E caí no Strava que, diga-se de passagem, é integrado tanto ao MiCoach quanto ao Garmin.

Não vou ficar aqui celebrando o software: eu provavelmente sou o último corredor a conhecer o sistema deles. Mas vou apenas dizer que fiquei quase abismado com o nível de dados que entregam.

Além do conceito de segmentos e de rotas dos outros – que já estou utilizando para programas corridas na Argentina, durante o final do ano – a análise de pace foi o que mais me chamou a atenção.

Até então, utilizava apenas uma análise quase cronológica de uma corrida – incluindo pontos em que aumentava ou diminuía o pace. Hoje, no entanto, a análise de zonas acaba dando uma noção bem mais clara do esforço feito e dos resultados alcançados.

Exemplo abaixo:

Screen Shot 2014-11-07 at 3.08.00 PM

Resultado? Nessa corrida de exemplo, feita ontem, acabei forçando a velocidade (Z4 para cima). Perfeito: era exatamente essa a meta do dia.

Fiz a mesma comparação com a quinta mas percebi que, nela, apesar de ter terminado com uma sensação de missão cumprida, havia me concentrado quase que inteiramente na Z3. Em outras palavras: acabei encaixando um treino errado.

Vou passar a utilizar essa análise mais vezes como uma espécie de ferramenta para guiar o desempenho. Tecnologia é incrível!

Correndo dentro do silêncio

Um amigo uma vez me disse que a melhor maneira de representar o silêncio no teatro era inserindo pequenos barulhos em cena: cantos de grilos, sopros do vento, passos cortando o vazio. Curiosamente, são os pequenos sons – e não a ausência deles – que definem o silêncio a partir do contraste.

Silêncio.

Quando se está buscando algum tipo de recuperação, quando se quer sair de um estado de estafa física e mental, poucos remédios são mais perfeitos que ele. O problema é que costuma ser algo difícil de se conseguir: quando não há tarefas do dia gritando em alto tom a sua existência, há preocupações do dia seguinte ecoando entre as orelhas.

Nesse constante zunido, qualquer tipo de calma, de paz de espírito, se faz quase impossível.

Quase.

Na segunda-feira saí para uma corrida diferente. Era fim de tarde, ainda claro devido ao horário de verão, e com o tempo carregado da eletricidade que costuma preceder a chuva.

Saí sem telefone, sem música, sem podcast ou audiobook. Fui absolutamente só, ignorando a leve garoa que já começava a cair.

Estados Unidos, Brigadeiro, Ibirapuera. Os carros viraram vultos semi-silenciosos navegando, nervosos, pelas ruas úmidas. Tudo ficou distante, meio apagado – exceto pelo ritmo das passadas amassando poças e folhas e pela pulsação carregando o sangue corpo afora.

Passos ritmados. Pulso. Buzinas distantes. Folhas. Brisas súbitas soprando contra os ouvidos. Pássaros cantando. Suor pingando.

Noite caindo.

Para o mundo, a cena provavelmente carregava toda uma orquestra de sons desconexos, desafinados, fora de foco.

Para mim, era o mais perfeito silêncio.

Pela primeira vez em muito tempo senti a bênção desse silêncio curando os sintomas do overtraining a cada passo. Aos poucos, mas de maneira persistente.

Forte, mas não súbito; constante, mas não irritante.

Em um dado momento, foi como seu eu não estivesse correndo no parque e sim dentro de mim mesmo. De um sonho afônico.

De repente, uma solidão sem tamanho pulou sobre o meu ombro, forçando uma autopiedade que beirou a tortura. Durou alguns minutos e, em uma espécie de efeito catártico, quase me fez chorar. Quase.

Foi o tempo de respirar fundo e, no instante em que o cansaço mental foi exalado juntamente com algumas gotas de suor e chuva, a endorfina entrou pelo pulmão e se espalhou. Livre, inteira, intensa.

O ar que faltava nos dias anteriores veio. O mau humor se foi. O cansaço foi transferido da alma para as pernas que, de repente, sentiram os quilômetros que estavam percorrendo. Tudo foi substituído por uma sensação de pura paz.

A essa altura, estava encharcado de chuva e suor. Estava fisicamente pela metade – mas mentalmente inteiro.

Pela primeira vez em dias, estava bem.

Os problemas não sumiram, as preocupações não evaporaram, o mar de coisas para fazer se manteve intacto.

Mas, de alguma forma, o silêncio me deu de presente a sensação de que tudo dará certo.

Já não era sem tempo.

IMG_5861.JPG

Plano Estrada Real: Percurso escolhido

Depois de pensar e mastigar cada um dos roteiros, acabei não escolhendo exatamente nenhum deles. Pelo menos não da forma com que os planilhei.

Ao invés de partir de Ouro Preto, a ideia será chegar lá. Dica do Marcelo Juliani e que faz total sentido: achar pousadas nas pequenas cidades no meio da Estrada Real certamente será uma tarefa ingrata.

E, dentre os 3 caminhos, minha opção foi pelo segundo justamente pelas belezas que encontrarei lá. Ele será também o mais longo, com 87-88km – mas nada que, creio, não consiga encarar (até porque as altimetrias não são nem de longe tão tensas quanto as do Douro Ultra Trail).

Recapitulando, então, o percurso:

  1. Santa Bárbara > Catas Altas: K22
  2. Catas Altas > Morro da Água Quente: K28 (+6km)
  3. Morro da Água Quente > Santa Rita Durão: K40 (+12km)
  4. Santa Rita Durão > Bento Rodrigues: K51 (+11km)
  5. Bento Rodrigues > Camargos: K58 (+7km)
  6. Camargos > Mariana: K76 (+18km)
  7. Mariana > Ouro Preto: K88 (+12km)

Mapas altimétricos do percurso abaixo:

Screen Shot 2014-11-01 at 8.13.26 PM Screen Shot 2014-11-01 at 8.17.44 PM Screen Shot 2014-11-01 at 8.20.41 PM Screen Shot 2014-11-01 at 8.47.07 PM Screen Shot 2014-11-01 at 8.49.05 PM

Na prática, o trecho mais difícil mesmo será o final – que acumulará o cansaço dos quilômetros nas pernas com 10km de subida. Mas, até aí, há uma solução bem ao alcance: treinar.

Já separei também um kit completo com planilhas, arquivos de GPS e mapas de percurso. Todos estão abaixo para quem quiser baixar e visualizar. Cabe uma observação: os arquivos agrupam os 7 trechos em 5 para dividir melhor as distâncias. De toda forma, tudo está aí embaixo:

Mapas:

  1. Mapa1_SantaBarbara-CatasAltas
  2. Mapa2_CatasAltas-SantaRitaDurao
  3. Mapa3_SantaRitaDurao-Camargos
  4. Mapa4_Camargos-Mariana
  5. Mapa5_Mariana-OuroPreto

Planilhas:

  1. Planilha1_SantaBarbara-CatasAltas
  2. Planilha2_CatasAltas-SantaRitaDurao
  3. Planilha3_SantaRitaDurao-Camargos
  4. Planilha4_Camargos-Mariana
  5. Planilha5_Mariana-OuroPreto

Altimetria (versão para download):

  1. Altimetria1_SantaBarbara-CatasAltas
  2. Altimetria2_CatasAltas-SantaRitaDurao
  3. Altimetria3_SantaRitaDurao-Camargos
  4. Altimetria4_Camargos-Mariana
  5. Altimetria5_Mariana-OuroPreto

Percurso definido. Agora é escolher uma data.

Atualização de 13/11/2014: Percurso e informações gerais estão já plenamente organizados em uma página única: www.rumoastrilhas.com/ultraestradareal . Para saber mais e se inscrever, clique aqui.