Os zumbis nas trilhas noturnas do Ibiraquera

Na semana passada eu troquei o longo do sábado de manhã pela sexta à noite. Foram dois motivos: desenferrujar a headlamp, que será usada na Indomit neste próximo final de semana, e livrar a manhã do sábado para outras coisas que precisava fazer.

E, assim, saí do trabalho já com tudo escuro rumo ao parque. Não dá para dizer que o Ibiraquera é um lugar selvagem, claro: trata-se de um grande parque urbano, com trilhas absolutamente domesticadas e apenas um ou outro obstáculo pelo caminho. Ainda assim, é uma experiência sensacional para quem quer variar.

Os cheiros são outros, os sons são outros e a sensação de se estar na mata é imbatível. Só que há outras curiosidades tipicamente urbanas em uma trilha assim.

A minha primeira volta foi basicamente uma repetição de trechos que costumo fazer de dia: incluiu uma área mais deserta atrás da horta e um cotovelo perto de um dos portões principais (veja no mapa abaixo).

À noite, no entanto, concluí que esses trechos são dominados por… ZUMBIS! Não achei outra maneira de descrever os seres que lá estavam: de 5 a 10 indivíduos sem camisa, andando sozinhos de um lado para o outro na mais completa escuridão. Nenhum falava ou murmurava: eles simplesmente se afastavam de mim sempre que a lanterna iluminava o local.

Não havia movimentos agressivos e nem mesmo olhares desconfiados: estavam apenas ali, como se tivessem brotado do solo, vivendo com a mesma intensidade que uma planta. Dá para imaginar?

Bom… nenhum dos zumbis tentou me comer mas, por via das dúvidas, cortei esses trechos nas últimas duas voltas.

Para quem estiver a fim de uma aventura noturna no meio da cidade, recomendo o Ibira fortemente – mas que fique aqui o alerta. Afinal, quem sabe os zumbis não fiquem com fome e queiram te devorar em alguma oportunidade qualquer??

Vai saber…

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Checkpoint: Agora é esperar mais alguns dias e largar!

Última semana finalizada.

Não vou dizer que estou recuperado da Bertioga-Maresias – pelo menos não ao ponto de enfrentar 100K daqui a alguns dias. Mas estou quase.

Na semana passada fiz quase nada: 30km apenas para evitar que o corpo perdesse o mo-jo. Nessa semana, o plano era chegar a perto de 70, mas fechei em 56. Cortei um dia na rua e, hoje, ao invés de 1h30, fiz 30 minutos depois de sentir a musculatura dolorida. Para a tarde, massagem e um Flanax para diminuir a inflamação.

Ainda tenho uma semana e, com um pouco mais de descanso, tenho certeza que tudo ficará bem. Mas o lado realmente instigante da semana foi sair para correr nas trilhas do Ibiraquera com tudo escuro e sob toró!

Curti tanto que, no longo que fiz na sexta à noite, de 2h30, nem vi o tempo passar enquanto dava as 3 voltas. Para quem costuma se entediar facilmente com voltas repetidas isso realmente faz a diferença.

E o mais importante: ter me divertido rodando à noite, com chuva, de headlamp acesa e sentindo os cheiros e sons que costumam dar as caras quando o sol desaparece, foi um boost sem precedentes na motivação.

Agora é seguir o resto do plano e confiar no que foi feito!

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Que venha a Indomit Costa Esmeralda 100K!

A esta altura, minha esperança de passar por um percurso seco, relativamente tranquilo e sem muitas intempéries, já se foi. Mesmo que não chova na madrugada do dia 6 para o dia 7, as tempestades das últimas semanas já se encarregaram de deixar o solo molhado o suficiente para garantir muita, muita lama.

Paciência.

Inaugurei minha primeira prova mais longa em trilhas na mesma região: foi a Indomit Bombinhas, com 42K, regada a chuva e a escorregões. Quando terminei, jurei a mim mesmo que jamais voltaria ao local.

O tempo passou, me adaptei mais às trilhas, perdi o medo. E, curiosamente, lá estarei eu para uma nova estreia: os primeiros 100K.

O que esperar? No mínimo, uma dificuldade técnica alta.

A largada será na madrugada, garantindo pelo menos umas 6 horas de escuridão. Comigo, além da óbvia mochila de hidratação, levarei uma lanterna testeira poderosa e poles para ajudar no equilíbrio e nas escaladas. Serão muitas: 3.088 metros acumulados, para ser exato. Pior: as maiores montanhas estarão justamente no começo, quando a luz inexistirá.

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Não vou estimar pace algum aqui – mas ficaria muito feliz de chegar ao menos próximo do marco da maratona quando o sol começar a raiar. 4 ou 5 subidas, portanto, estarão para trás.

Ainda assim, não planejo acelerar nada: a meta é ir no ritmo que o corpo, os olhos e o equilíbrio permitirem, poupando energia física e mental para os últimos trechos.

A parte “boa” é que, por mais que seja uma prova dura, os trechos mais ásperos serão percorridos à noite, sem que os olhos possam assustar a cabeça devido à redução no campo de visão. É o ideal? Não sei – mas é o que se apresenta.

Pelo mapa, pelo menos, haverá alguns espaços longos de “calmaria técnica”: ruas, seja de asfalto ou de terra, onde a cabeça poderá descansar um pouco.

Aproveitemos também esses espaços.

Aliás, aproveitemos tudo.

Serão meus primeiros 100K e nada melhor do que começar em um lugar incrivelmente lindo, com um desafio forte e um potencial altíssimo de boas histórias para contar.

Minha expectativa de tempo? A julgar pelos tempos do ano passado, imagino que levarei algo entre 15 e 18 horas. Menos, difícil; mais, possível.

Seja como for, espero apenas uma coisa: que me divirta por cada um dos segundos que a Indomit durar!

Voltando à selva antes da hora útil

Repeti a dose de ontem.

Às 5 da manhã estava já de pé, devidamente trajado, ajustando o relógio e olhando pra a tempestade.

A noite estava escura, meio enevoada e com água saindo tanto dos céus quanto das valetas que descem da Paulista carregando cachoeiras nervosas.

Perfeito.

Fiz a mesma rota de ontem e, ligando a lanterna presa à testa, virei à direita na trilha. Familiariza-se rápido com situações diferentes: foi só dar o primeiro passo em uma poça de lama que me senti em casa. A luz estava a mesma, o tênis era o mesmo e o local estava igualmente irreconhecível. Ainda assim, trilhei os 6km como se fosse uma criança.

Corri onde pude, caminhei em locais mais difíceis de ler, respirei cada gota de umidade e cada cheiro de floresta molhada que consegui detectar com os sentidos aguçados. Aliás, desta vez deixei o celular em casa para poder me concentrar mais na trilha e em seus sons.

Muitos sons.

Grilos, insetos, sapos e toda uma gama de espécies rastejantes transformavam o Ibirapuera à noite e sob tempestade em um tipo de festa animada até o último decibel. Fosse alguém vendado e levado até aquele local, dificilmente deduziria estar no coração da maior cidade da América do Sul: nada ali sequer lembrava uma metrópole.

E assim o tempo foi passando regado a sons, chuva, lama e a visão enevoada do fio fino de luz que emanava de uma lanterna já cansada e quase sem pilha.

Quando voltei, novamente subindo a Ministro, era outra pessoa. Parecia que havia me teletransportado de volta para a cidade, provando que estive fora por roupas encharcadas, enlameadas e absolutamente felizes.

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O lado selvagem do Ibirapuera no escuro

Dá para achar novidade, algo diferente, na mais estabelecida das rotinas. 

Em grande parte por conta da Indomit, decidi ontem tirar a poeira da minha headlamp e fazer uma corrida em alguma trilha à noite na segunda. Bom… achar uma trilha para se fazer sem a luz do sol em plena segunda-feira útil não costuma ser algo fácil, simples. Certo? 

Errado. 

Primeiro, porque à noite pode ser simplesmente antes do sol raiar. Segundo, porque qualquer trilha no escuro pode servir a estes propósitos: a sensação de familiaridade, afinal, costuma ser irmã da luz. 

Com o iPhone setado para me acordar às 4:30, dormi carregado de alguma ansiedade. Minhas roupas para a manhã seguinte mais pareciam às de uma prova: buff, headlamp, tênis de trilha (também para tirar a poeira e acostumar os dedos dos pés). Lá pela 1 da manhã, uma tempestade sem tamanho, daquelas que deixa a cidade em estado de alerta por horas a fio, se abateu sobre São Paulo. Tudo era som de chuva, estrondos de trovão, relâmpagos iluminando a noite. Cheguei a me perguntar algumas vezes se sairia assim ou não até que peguei no sono. 

Às 4:25 – antes do despertador – acordei. 

O céu estava silencioso, calmo: não havia mais tempestade. Aproveitei a janela de tempo, me arrumei e, em poucos minutos, estava na rua. 

Os parcos seres que perambulavam antes das 5 nas ruas paulistanas me olhavam como que a uma alucinação, alguém absolutamente fora de contexto e lugar. E realmente estava – pelo menos até cruzar o portão do Ibira e entrar na trilha escura já com a headlamp acesa. 

Tudo, tudo era lama. Havia me esquecido como lanternas falham em passar aos olhos a sensação de profundidade: de certa forma, correr à mercê delas é como cruzar uma tela em 2D. Há algum temor de queda nos instantes iniciais mas, logo depois, é como se o corpo se adaptasse ao novo cenário. 

Aliás, tudo era tão novo, tão diferente que, por vezes, eu até me esquecia onde estava. A chuva, por exemplo, havia pintado um lago no meio do caminho que precisei cruzar; raízes de árvores e folhas formavam pequenas armadilhas que precisavam ser evitadas e uma leve garoa misturada a fumaça da respiração formava um clima meio onírico, afastado da realidade. 

Não fosse o tempo passando e o sol que estaria dominando os céus em pouco tempo eu certamente daria mais uma ou duas voltas. Ou três. 

Mas voltei para casa, não sem antes subir a ladeira da Ministro para somar alguma altimetria mais intensa. 

Hoje é uma segunda-feira como outra qualquer: começo de semana de trabalho, repleta de reuniões e tarefas, com prazos apertados e tudo aquilo que caracteriza a vida de quem habita esta grande urbe. Ainda assim, posso dizer que comecei o dia cruzando uma trilha noturna, atravessando um lago improvável, deslizando por lamaçais esparramados pelo chão e movido pelo som isolado dos pulmões e testemunhando o encontro de névoas que saíam da boca e das núvens. 

Tirei uma foto antes de voltar para casa para me assegurar de que tudo aquilo realmente acontecera. Olhe bem… não é incrível o que podemos extrair mesmo da maior das cidades quando se tenta algo diferente? 

  

Checkpoint: Semana de recuperação

Às vezes o sentimento de sensatez parece dominar o impulso de simplesmente sair e correr. Pode não parecer, mas quem curte um esporte onde se passa, por vezes, um dia inteiro deslizando pelas trilhas, tem um óbvio problema de obsessão. Não disfarço isso nem um pouco – aliás, me dou impressionantemente bem com essa característica que transcende a vida atlética e domina praticamente todos os aspectos do meu dia-a-dia e dos meus planos futuros. Em tese, hoje eu deveria completar 1h de treino para fechar a semana com 40km. 

Não deu. 

Acordei com dores musculares que deveriam ter aparecido há dias, com sono e com uma vontade de dormir maior do que a de conferir as trilhas do Ibirapuera ou a Avenida Paulista exoticamente fechada para carros. 

Enquanto ainda estava na cama, rolando de um lado para outro, fiquei ricocheteando os pensamentos até tomar uma decisão. Tomei: continuei dormindo. 

Em tese, afinal, o objetivo desta semana seria a pura recuperação da Bertioga-Maresias. Ora… dores tardias, sono esquisito… de que outra forma o corpo poderia falar mais alto?

No total, portanto, esta foi a semana com menos volume de muito, muito tempo: 30km. 

Tenho mais duas semanas de treino – ou quase isso, dado que a segunda já terminará nas areias de Porto Belo. Bom… parece que a única coisa a fazer é me entregar ao que o próprio corpo mandar fazer e aproveitar cada dia ao máximo. 

   
 

Olhando para a frente

O longão hoje foi de sono. Pela primeira vez em nem sei quanto tempo, dormi por (merecidas) 10 horas seguidas, acordando ainda com bocejos e sem pressa para correr. Havia me esquecido do quão maravilhoso é colocar o sono em dia :-)

Ainda assim, tinha uma missão para hoje: uma corrida relativamente leve, de 15K, para sentir a quantas andava a recuperação das pernas e, principalmente, da região da bexiga que estava doendo a cada passada.  Não há muito tempo para “zerar” o corpo: a Indomit acontece em duas semanas, mais ou menos. 

Felizmente, o dia foi de boas notícias: as pernas apenas “simularam” alguma dor muito, muito de leve – e a bexiga estava quase perfeita. Havia, verdade seja dita, alguma “pressão interna” – mas nada de preocupante. Ao que parece, tudo está se normalizando. 

Amanhã tem mais uma corrida ao mesmo estilo da de hoje e, a partir da semana que vem, começa o treino normal. 

No horizonte, uma só palavra: #Indomit.