O sol

Correr sob o sol é perfeito. Nesse momento, enquanto treino para 140km em pleno sertão do Rosa, mais ainda: fora o gosto que já tenho por homenagear esse Deus amarelo, possivelmente incutido no meu DNA baiano, a experiência certamente é bem vinda. 

A cidade já amanheceu um forno. Às 8, quando saí, São Paulo parecia um Rio de Janeiro sem praia, um Saara com prédios. O céu estava com um azul meio opaco, forte, que dava a sensação de estarmos cozinhando sob uma redoma. Nem vento aparecia. 

O caminho? Parques Alfredo Volpi e Burle Marx, incluindo portanto todo um sobe-desce pelo Butantã e Morumbi. Os parques foram um alento, aliás: entre suas pequenas trilhas e sob a mata fechada, uma umidade inexistente no céu descoberto parecia me transportar para outra cidade. Abafada, pesada, mas com sombra e uma umidade daquelas densas, pesadas como a consciência dos errados. 

Mas seus bosques eram pequenos – 1 ou 2 quilômetros, no máximo, em cada parque. O restante do caminho era a céu aberto, feito de céu claro e deixando um rastro de suor por onde eu passava. Houve uma hora que cheguei a achar me ridículo por gostar de um clima tão opressor quanto aquele – mas o que se há de fazer contra os jeitos do coração? 

A desconcentração, aliás, foi tamanha, que acabei me perdendo no caminho de volta, já do outro lado do Rio Pinheiros. Me perdi por 5km – o suficiente para me tirar do centro e fazer o corpo protestar veementemente contra essa falta de consideração. 

Parei no primeiro boteco que vi, tomei uma Coca para acalmar as pernas e recobrar as energias, e segui em frente. 

Acabei fazendo algo como 35km em 4 horas – bem mais que o planejado. 

Cheguei destroçado, cansado, com uma leve dor de cabeça pela desidratação, mas feliz. 

É possível mesmo alguém aguardar com ansiedade o sol do sertão? 

    

  

A lição do menosprezo

Eis uma lição que aprendi na Indomit São Bento do Sapucaí: menosprezar provas faz mal. 

Quando me inscrevi, a ideia era apenas ter uma espécie de treino de luxo, uma etapa relativamente simples no caminho até os 140km dos sertões mineiros em agosto. 

A semana que me levou até os 50K não teve nenhum milímetro de diminuição de ritmo ou volume – foi uma semana normal, por assim dizer. 

Ignorei a altimetria acumulada de 3,450m: o máximo de subida que treinei ficou no Cruce, lá no distante mês de fevereiro. 

Quando cheguei em São Bento não sabia direito sequer o horário da largada de tão despreparado que estava. O resultado foi óbvio: penei muito mais do que deveria ter penado. 

Cheguei até o final, é verdade: mas certamente poderia ter feito o mesmo em um estado menos cadavérico. 

Prova é prova – mesmo que seja parte de um treinamento. E uma prova da Indomit carrega no sobrenome a certeza de desafios que estão longe de serem meras brincadeiras. 

O que dizer agora? Lição aprendida!

  

A fuga da areia movediça: quando o descanso vira uma armadilha

A areia movediça, finalmente, ficou no passado.

Hoje acordei cedo como costumava fazer e saí para o parque. 

Leve. Rápido. Quase voando.

Não fossem dois malditos semáforos travados, teria feito uma média abaixo dos 5’/km – coisa forte para meus parâmetros. E mais: foi o segundo treino da semana, mantendo um volume e uma frequência perfeitos, e sem nenhum mínimo sinal de incômodo.

Curioso é analisar essa recuperação.

O Cruce não foi a prova mais dura que já fiz – apesar das montanhas dos últimos dias e da falta de camas macias nos acampamentos, os três dias conseguiram quebrar o desafio da quilometragem em pedaços mais digeríveis. Ainda assim, foi uma das provas mais marcantes: envolvia montanha de verdade, envolvia os míticos andes, envolvia uma experiência totalmente diferente de todas as que havia colecionado até então.

Quando voltei, voltei realizado. Tinha cumprido uma meta importante e, em nome dela, baixei a guarda e me dei o luxo de não ter nada mais planejado para o futuro próximo, de não ter planilha e de me dar férias. Isso deveria ser algo bom… Mas não foi.

Relaxado, o corpo meio que se desmontou. Dores começaram a subir por todos os cantos, articulações pararam de responder como deveriam e até a capacidade aeróbica titubeou. Foi como se tivesse regredido ou como se a linha de chegada em San Martin se equivalesse a uma lesão mental da qual estaria iniciando uma recuperação.

Foi uma areia movediça: se permanecesse parado, continuaria sendo engolido pelo cansaço crescente; se exagerasse e forçasse a barra em treinos teimosamente intensos, apenas pioraria.

E aí comecei a escalada para fora do poço. A primeira arma: regularidade. Fiz de tudo para sair nos dias determinados, ainda que pra fazer metade do que planejava. Aproveitei finais de semana abrindo mão das primeiras e mais difíceis horas do dia. Penei no calor e persisti na chuva.

Planejei novas provas: ter uma meta é sempre fundamental. 50K da Indomit São Paulo em abril, 140K do Caminhos de Rosa em agosto.

Depois, aos poucos, fui somando altimetria. Busquei morros mais altos até o limite do confortável. Quando estava perto da sensação de quebra, cedia.

Sempre mantendo a regularidade.

Troquei altimetria por velocidade, aumentando o pace.

Regularidade.

Fiz um ou outro regenerativo.

Leve, mas conforme o planejado.

E, assim, em uma bela quarta, acordei para o fato de que havia deixado a areia movediça para trás. 

O corpo havia desistido de seu protesto intruso, as dores haviam se transformado naqueles incômodos leves e normais a treinos de ultras, a sensação de medo ao pensar nas dificuldades dos dias anteriores trocada por ansiedade referente aos planos futuros.

Ufa!

A lição aprendida aqui? Descanso pode ser bom de vez em quando – mas quando o exagero o metamorfoseia em descaso, a volta à ativa pode ser muito mais dolorosa do que se imagina.

  

Motivação excessiva versus autocontrole pre-prova

Um dos momentos mais curiosos depois de alguma prova grande é a distância colossal que se interpõe entre a motivação e o corpo. 

Voltei da BR com sede de ruas, trilhas e provas. Já no dia seguinte mandei email ao organizador perguntando sobre a inscrição do próximo ano; na sequência, passei mais de uma hora vasculhando a Web em busca de provas de 100K a 100 milhas; e, na segunda, saí para rodar (exagerados) 16K no centro de São Paulo. 

Por outro lado, embora eu realmente não esteja nem de longe tão cansado quanto imaginaria depois de ter rodado 84K, não dá para negar uma certa fadiga nas pernas. Ponto de atenção: dado que o Cruce é em menos de 3 semanas, é ele que deve entrar em foco. 

Pois bem: a planilha, ao menos no restante desta semana, foi parar no lixo. Estou me coordenando pelo puro “feeling”: se acordo dolorido um dia, cancelo a saída; se a dor esmaece no outro, mas o sono é intenso demais pela manhã – outro sinal de cansaço – tento me programar para uma corrida noturna; e assim por diante. 

Até agora, por exemplo, o único treino que fiz foi na própria segunda, feriado em São Paulo. Claro: ainda há o final de semana onde, somando sábado e domingo, devo rodar algo como 45K. Mas, em linhas gerais, o plano é manter a semana ativa e não exagerada, cair o volume na semana que vem (mas aumentando a intensidade) e, na próxima, voltar a subir de leve como se fosse um “esquenta” para o Cruce. 

Domingo será o dia de fazer um “assessment”, de rodar uma espécie de check-up mental. A meta: estar fisicamente preparado, com fadiga apenas marginal e sem nenhuma daquelas dores-fantasma que costumam aparecer em fases de tapering, motivo pelo qual evito, a todo custo, cair de maneira intensa demais o volume. 
De qualquer forma, o nome do treino agora definitivamente mudou. Agora, ele se chama “autocontrole”.
 

O melhor percurso para longões de São Paulo

Esse é, ao menos para longões, o melhor percurso para fazer em São Paulo. 

Começa pela descida via Rebouças, um trecho não exatamente arborizado ou verde, mas que logo muda quando se cruza a ponte e se entra à esquerda no Butantã. A partir daí, a urbe dá lugar a um verde mais esparramado e quase mesclado a casarões meticulosamente plantados no terreno. 

Pelo bairro deserto, com árvores para todos os lados, vamos atravessando uma zona que parece outra cidade. Há ladeiras: o sobe e desce não pára, um dos pontos altos desse trecho. Em uma das descidas, acabamos na Oscar Americano quase de frente para o Parque Alfredo Volpi. Nova mudança de cenário. 

O parque é pequeno, mas com uma natureza quase intacta. Não há asfalto e nem visão de prédios: tudo é trilha pela mata atlântica, incluindo um ou outro single track e aquela umidade típica das florestas. Dá para se passar um bom tempo lá, mas demos uma volta. Às vezes, é o suficiente para respirar o ar mais denso do verde. 

De lá, saímos e subimos a avenida que passa pelo São Luis. Subida grande, mas voltando a ter os ares de outra cidade. Ainda assim, o cenário vai se transformando e, de repente, entramos no Morumbi. Não o Morumbi que se ouve falar, do trânsito e da violência: um outro, vazio, super arborizado e delicioso se estende pela frente. 

Entre subidas e descidas, passamos pelo Palácio do Governo, pela casa que parece ter sido construída a 4 séculos (embora seja relativamente nova), pelo pórtico de entrada da antiga fazenda que ocupava o terreno, pela Capela do Morumbi. Seguimos por entre praças, casas e prédios que se contrastavam mantendo a beleza. Descemos. Subimos. Subimos mais. 

De lá de cima, a cidade parecia se estender pelos nossos pés tendo apenas uma faixa densa de mata no caminho. Essa faixa abria caminho para o próximo destino: o Parque Burle Marx. 

Nele, é possível passar horas percorrendo as trilhas que se ziquezagueiam e se cruzam. Tudo parece diferente, mas mantendo o estilo. Tudo é verde, é mata, é trilha. Tudo é tão sintonizado que, de novo, parece que estamos em outra cidade. Nos mantivemos correndo naquele naco de natureza por alguns poucos quilômetros até sair. 

Era hora de voltar, só que por outro caminho. No começo, subimos a ladeira até o alto do Morumbi e tomamos a avenida. Nela, no entanto, nos mantivemos até cruzar a ponte e chegar no Brooklin, onde outra cidade nos aguardava.

Essa não era particularmente bonita. Era cinza, mais poluída, mais movimentada pela pressa dos carros, mais paulistana. Cruzamos um dos epicentros da metrópole, a Berrini, cruzamos o Parque do Povo, subimos a Tabapuã e entramos na Faria Lima. 

Hora de entrar pela Cidade Jardim. Subimos testemunhando os novos prédios cedendo o terreno para casas amplas, confortáveis. Estávamos já no final. 

Dali era só cruzar a Brasil, subir a Bela Cintra e pronto: fechar os 30km de percurso. Foi onde meu companheiro de corrida de hoje, Geovane, se separou de mim e seguiu seu rumo até o outro lado da Paulista, somando ainda a cena da grande avenida ao seu percurso. 

No total, foram dois parques com trilhas sempre bem vindas, cenários absolutamente diferentes, contrastes, árvores, vistas, subidas, descidas.

Longões são bons assim, quando quebram a monotonia e agregam cenas diferentes para divertir a cabeça. E, por mais que não faltem opções de percursos e trilhas urbanas em Sampa, esse certamente está no topo da lista. 

(A propósito, deixei o link do trajeto via Strava abaixo – é só clicar na imagem ou aqui).

  

Pernas mastigadas, mente tranquila

Tá: é verdade que não tenho seguido uma planilha com o afinco que, provavelmente, deveria. Mas também não dá para dizer que estou sendo relapso ao extremo. De certa forma, meio que na sensação, estou moldando as minhas semanas de maneira a concentrar o máximo possível de back-to-backs.

Explico: o principal desafio do Cruce não é a altimetria em si (embora ela também seja tensa). O ponto mais difícil é justamente correr sobre pernas cansadas já que a prova se dá em três etapas. E para isso, sim, eu tenho treinado.

Exemplificando: minha volumetria na semana passada pode não ter sido tão intensa: ela chegou a quase exatos 70km. Mas destes, 42 foram concentrados entre o final da tarde do sábado e as primeiras horas do domingo. E sim: sair no domingo foi muito, muito cansativo.

Essa “receita”, por assim dizer, tem sido aplicada semana após semana, chegando ao curioso ponto de eu estar no período de pico, sem bater na casa dos 100km semanais mas com as pernas absolutamente mastigadas. O próprio treino de hoje, de 15km, foi dolorido.

Está tudo certo? Não sei, sendo bem sincero. Esse estado que mescla disciplina para treinar a falta de disciplina para seguir um plano de treino não é exatamente algo com o qual eu esteja acostumado.

Mas, dado que estou de fato tendo as sensações que previa para este ponto – e dado também que eu não me sinto nada nem remotamente próximo de uma lesão – creio que tudo esteja bem.

A mente, pelo menos, está tão tranquila quanto fortes as dores que sobem pelas pernas.

Heading down the trail together!

 

 

 

Zzzzzz…

Fui dormir ontem com mochila de hidratação preparada, roupa separada e percurso planejado. Iria daqui até a USP, com direito a uma passadinha pela Casa dos Bandeirantes, lá no Butantã, para aplacar um pouco uma certa curiosidade turística sobre a cidade. Seriam 30km hoje que, somados aos 20 de amanhã, fechariam pouco menos de 80 na semana.

O que fiz?

Dormi.

Motivado por uma dor muscular nas pernas que persiste desde meados da semana, desisti. O longão de hoje? Talvez faça uns 15K daqui a pouco…

Mas agora, neste instante, está meio difícil de me forçar a sair de casa. A culpa, por assim dizer, está perdendo para a sensação de que tenho mais a ganhar se descansar o corpo e dar a ele mais tempo para se preparar tanto para a BR quanto para o Cruce, que já se alinham no horizonte próximo.

Tomara que esteja certo. Hoje, na prática, será bem difícil me fazer correr um longão.

  

Niterói, dia 5: Orla de Itacoatiara

Na verdade, esse dia foi o 6. Ontem, dia 31, não me contive e saí para uma corrida de 10K às 2 da tarde sob um sol de mais de 40 graus. Cansei, suei até me desidratar e não cheguei a nenhum lugar bonito – mas valeu pelo simples fato de aproveitar o sol e gastar os últimos quilômetros de 2015. 

Hoje, dia 1, foi diferente. 

Acordei com aquele ar de ano novo, aquela vontade de iniciar um novo ciclo com toda a inspiração que certamente se fará necessária ao longo dos próximos 12 meses. Infelizmente não pude ir ao Parque da Cidade: rodar 26km sob esse calor e depois de tanta rodagem acumulada não seria “saudável”, para dizer o mínimo. Tudo bem: fica para a próxima. 

Resolvi, então, juntar a inspiração para o ano novo e me despedir da belíssima Niterói em uma das mais incríveis praias que já vi: Itacoatiara. 

E, assim, saí trotando leve até lá, cortando o calor que já se fazia imponente às 10 da manhã e chegando ao canto da praia carregado de energia. De lá, parei e fique alguns instantes olhando as pedras. Todas: a do Elefante, que subi nos meus primeiros dias, a do Costão, que subi há pouco, a Serra da Tiririca ao fundo e um outro morro que permaneceria um mistério. 

Esse contraste de pedra, mar e verde exuberante é simplesmente fantástico. Inesquecível. 

Fui de uma ponta a outra curtindo o litoral. Uma música leve embalou o pace e a mente, mudando o pensamento de retorspectiva a perspectiva a passe de mágica. 

No final do dia estarei voltando para São Paulo, onde todo um novo ano me aguarda. Ainda terei um final de semana para completar esse bem vindo recesso – mas nada se comparará a esse mergulho na mata atlântica que foi essa descoberta de Niterói. 

Nem imagino os desafios que 2016 colocará no caminho – mas é difícil não entrar no ano com a certeza de que todos serão devidamente vencidos depois de dias tão inspiradores, em paisagens tão exuberantes e com trilhas tão fantásticas como estas daqui.

Que venha o novo ano. De preferência com tantas belezas quanto as que encerraram os meus dias de 2015.

   

     

No running day

Hoje era dia de longão. Dia de rodar uns 30K e fechar os 70 programados para a semana. 

Dia de experimentar a mochila de hidratação nova. 

Dia de passar algumas horas imerso em mim mesmo e cruzando as trilhas que se escondem por São Paulo. 

Não deu. 

Acordei com a perna absolutamente dolorida, como se tivesse sido mastigada por um monstro inesperado durante a noite. Motivo? Em tese, nenhum: desde o final da Indomit, minha semanas tem sido conservadoras: uma de 30K, outra de 50 e, nesta, havia acumulado apenas 40. Pouco para quem está acostumado a uma média de 75-85…

Mas, ao que parece, o corpo ainda não está plenamente recuperado do acúmulo de esforço do ano, incluindo não apenas os 100K da Indomit no começo do mês como também os 75 de Bertioga-Maresias 3 semanas antes, os 50K de Atibaia antes dessa, os 87K da Comrades, os 88K da Ultra Estrada Real, os 50K pela Serra do Mar. 

Ao que parece, o cansaço bateu todo junto. 

Forçar a barra não me pareceu uma boa ideia. Apesar do dia estar lindo, da motivaço estar alta e da sensação de não sair para as ruas em um sábado ser quase assustadora, não havia muito o que fazer: saída cancelada.

Talvez eu precise de algum período a mais de descanso do que o originalmente previsto. 

Descobrir que não somos super-heróis é um saco.