Vendo

É fim de tarde e o avião decola de Joinville, Santa Catarina. 

Pela janela, toda uma paisagem de morros verdes iluminados por aqueles últimos raios de sol do dia, meio amarelo-avermelhados, se abre. Só uma coisa passa pela minha cabeça no mesmo instante em que as preocupações do cotidiano evaporam: “deve haver uma infinidade de trilhas ali por baixo”. 

Tento espremer os olhos e olhar com mais atenção, mas apenas uma ou outra veia ocre, mais para estrada de terra do que para trilha, pode ser vista a distância. Ainda assim, dá para imaginar cada passo dado cortando as montanhas, cada visual colecionado pelas córneas, cada gota de endorfina pulsando pelas veias. 

O mundo fica melhor quando sabemos aproveitá-lo. 

Se vivemos em uma grande cidade como São Paulo, explorar parques e vias em busca de qualquer que seja o desejo é algo relativamente fácil. Basta pegar alguma programação cultural pronta na Internet, entrar em um taxi ou metrô e aproveitar o que a cidade deixou mastigado para você. E acredite: as grandes cidades costumam deixar muita coisa mastigada para quem quiser aproveitá-las, de opções turístas a esportivas, de ofertas culturais a ambientes perfeitos para se curtir o mais autêntico ócio. Cidades grandes pensam pelos seus habitantes. 

É diferente de pequenos povoados, de trechos de terra abandonados, de praias escondidas ou montanhas isoladas. Antes de me apaixonar pelas trilhas, eu costumava enxergar cada pedaço inexplorado do mundo como um grande e entediante “nada”. 

Isso mudou. 

Dificilmente deixo de enxergar ao menos alguma opção de qualquer coisa quando olho, hoje, o que antes entendia como “nada”. Na verdade, parece que o vazio que existia foi magicamente preenchido por um “tudo”, por veias de natureza praticamente implorando algum tipo de desbravamento. Dá até uma certa dó ver as montanhas do alto de um avião sem poder descer para explorar cada milímetro selvagem que elas proporcionariam.

Não que eu queira trocar a vida de uma cidade grande por um estilo mais interiorano: sempre fui apaixonado por grandes metrópoles e o mar de opções proporcionado pelas suas selvas de concreto, na minha opinião, abre mais horizontes que qualquer paraíso intocável. Afinal, se viemos ao mundo para aproveitá-lo em sua completude, quanto mais opções melhor. 

Mas há um quê de preenchimento, de percepção de mundo, que nasceu das minhas primeiras corridas nas trilhas. É como se o mundo tivesse subitamente ficado mais rico.

Há menos nada e mais emoção, menos vazio e mais adrenalina, menos tédio e mais opções em cada canto de terra esparramado na frente dos olhos. 

Há mais vida a ser sorvida pelos olhos. 

Correr é definitivamente o melhor óculos que se pode conseguir. 

  

Checkpoint: Corpo vencendo o Garmin, 50K de Atibaia se aproximando

Até o começo desta semana, minha maior preocupação era em voltar ao normal. Bom… preocupação talvez seja uma palavra forte demais, dado que eu não estava sequer pensando muito sobre o assunto…

Mas o fato é que algo ainda não estava tão certo com o corpo desde que voltei da Comrades. 

Foi uma questão de dar ouvidos e tempo ao corpo. Passadas as primeiras semanas, o único efeito residual, meio que fruto de um rebote, tem sido um aumento na velocidade. 

Fora um único treino mais complicado na quarta de manhã, quinta, sábado e domingo foram rodados em uma velocidade de cruzeiro absolutamente suave. Por suave, entenda mais rápido e com bem menos esforço que o normal. 

O longão de sábado foi especialmente curioso neste sentido, até porque costumo rodar propositalmente mais devagar quando o volume cresce. E até tentei no começo, mas o corpo começou a estranhar o pace de 6’30″/km de tal maneira que decidi ignorar o relógio e simplesmente obedecer as pernas. 

E assim foram 30km na casa dos 5’50”, um ritmo que eu, pelo menos, considero forte para este tipo de rodagem – especialmente considerando que boa parte dele foi feito na escuridão da madrugada paulistana, com direito a alguns tropeços e atenção redobrada no caminho. 

Mais curiosa ainda foi a reação do corpo: nada de dores, de incômodos, de reclamações. Estava bem. Simples assim. 

Decidi tirar a prova hoje pela manhã, aproveitando o dia incrível para fazer a trilha do Ibirapuera e a mega-íngreme subida da Ministro Rocha Azevedo que, aliás, já se incorporou ao meu cotidiano. Zero de problema. Foram 13km em um ritmo mais rápido que o de sábado, inclusive – e também com zero de esforço. 

Semana que vem tem novidade: a ultra de Atibaia, com 50K mais “roots” para auxiliar na preparação da Indomit Costa Esmeralda em novembro. Ajudar, claro, do ponto de vista mais de preparação mental que qualquer coisa: o percurso, que nem aparece no site do evento, deve ser daqueles pesados, técnicos e com subidas capazes de fazer jorrar o ácido láctico. 

O plano é simples: me acostumar a ambientes mais técnicos. Assim, nada de preocupação com pace, com horário ou coisa alguma. No meu entendimento, a missão estará cumprida apenas se eu cruzar a linha de chegada com a sensação de ter me divertido. 

Esperemos que funcione.

  

Lidando com a adaptabilidade

O dia ainda não havia caído e tudo indicava um entardecer daqueles bem vermelhos, secos, intensos.

Coordenei meu dia no trabalho para conseguir sair a tempo de pegar aqueles últimos raios de sol, sempre tão bem vindos quando se quer respirar alívio quanto a qualquer coisa. Deu certo: no horário programado, estava na rua.

Cortei a Santo Amaro, cruzei a IV Centenário e, em minha frente, o velho Ibiraquera parecia dar boas vindas com aquele sorriso de quem está à espera faz algum tempo. Dava tempo ainda de pegar a trilha, aproveitando o pôr do sol entre os verdes e os lagos.

E tudo parecia perfeitamente sincronizado… até que um vento súbito me pegou de surpresa. Olhei para os lados: folhas pareciam voar, ágeis, na horizontal.

O vento assobiava nervoso, agitado, quase elétrico.

Pequenos mosquitos pareciam voar desnorteados em torno das luzes nos postes.

E, no lago, pequenas gotas começaram a se fazer onipresentes.

A garoa tensa durou apenas alguns segundos e logo se transformou em tempestade. A água, aliás, parecia vir com tamanha força do céu que até o lago parecia mais seco que o ambiente em si.

Olhei para os lados: os corredores que estavam por ali há apenas alguns instantes pareciam ter evaporado. Era apenas eu no parque inteiro – eu e a chuva torrencial. Aproveitei.

O fim do dia de ontem não teve pôr do sol vermelho, mas teve algo ainda melhor: uma tempestade sem aviso prévio que expulsou todo mundo e deixou o Ibiraquera inteiro para mim. Corri livre, ensopado, alternando trilha com asfalto para evitar quedas e bebendo cada gota de endorfina que parecia estar sendo produzida pelo tempo em vez de pelo corpo.

Foi extasiante.

E, da mesma forma que começou, a tempestade parou: de repente.

Os corredores voltaram às ruas, a noite se abriu, as nuvens sumiram.

Voltei para casa.

O simples ato de correr, às vezes, nos faz entender que podemos até não controlar o tempo – mas conseguimos nos adaptar e aproveitar, com toda a intensidade do mundo, qualquer forma que ele decidir impor sobre nós. Adaptabilidade, aliás, talvez seja a maior das lições das trilhas.

  

Comparando performances e evolução

Quem acompanha este blog sabe que tenho uma certa tara por números e métricas. Guardo com um zelo ridículo minhas marcas, melhores ou piores, além de cada registro que puder colocar as mãos e que me ajude a entender melhor o corpo e a mente.

Na prática, confesso que a utilidade é pouca: não sou e nunca serei um atleta de elite e, no máximo, gosto de satisfazer a minha própria curiosidade quanto a mim mesmo. Digamos apenas que eu seja uma espécie de acumulador virtual.

Nesse espírito, decidi fazer alguns gráficos para entender a minha performance correndo maratonas e trilhas/ ultras desde a minha primeira linha de largada, em 2013. E cheguei a algumas conclusões interessantes.

Maratonas de Rua

Screen Shot 2015-06-08 at 1.17.59 PM

 

Fiz, até hoje, um total de 8 maratonas “oficiais” (desconsiderando treinos de 42K, naturalmente). Até a de Chicago, minha meta era uma só: tempo. Nunca havia pisado em uma trilha e o máximo de sonho que eu tinha era correr Nova York, Londres, Berlim etc. E exceto por um pequeno soluço na Maratona do Rio de 2013 – que estava com um calor infernal – vinha conseguindo baixar meus tempos praticamente a cada corrida.

E isso durou até a Comrades de 2014.

Ultras e Trilhas

Screen Shot 2015-06-08 at 1.18.16 PM

Depois da Comrades, minha primeira prova foi uma maratona de trilha – a Indomit – que estava usando como preparo para a Douro Ultra Trail. Novidade pura para mim, incluindo terrenos super técnicos, uma necessidade óbvia de se caminhar de vez em quando e um bônus valiosíssimo: as paisagens.

Foi só fechar a Indomit e a DUT, esta última em setembro do ano passado, que virei um trilheiro convicto. Com o abandono das metas de rua, passei a me dedicar mais a treinos de resistência e a focar provas em montanha, com altimetrias mais severas e uma largura de tempo substancialmente maior.

É difícil comparar uma ultra com a outra: cada uma delas tem terreno e distância diferente, o que as faz únicas. Mas dá para perceber que me mantive com uma resistência semelhante dado que a diferença das minhas duas Comrades ficou em ridículos 23 segundos (mesmo considerando a alternância dos percursos).

Mas a velocidade em maratonas ficou nitidamente comprometida, bastando olhar os dois resultados que tive (ambos em São Paulo) depois de Chicago.

Que grande e disruptiva conclusão se pode tirar disso? Nenhuma, claro. Ficar lento em maratonas depois de ser abduzido para o mundo das ultras de trilhas não é nada além do óbvio.

Mas fiquei curioso quanto à minha capacidade de retomar a performance e, quem sabe, bater um sub 3h30.

Quem sabe um dia? Por enquanto, minha vontade de participar de uma prova de rua realmente é mínima…

Checkpoint: Mente e corpo se desencontrando

É curioso como o corpo tem o seu próprio tempo, por vezes desconectado do que se espera a partir de teorias ou mesmo experiências alheias. 

Voltei bem da África, pronto para ganhar as ruas de volta já na quarta imediatamente após a Comrades. Fiz outro treino na quinta, outro no sábado. 

De repente, depois do longão (que, na verdade, não chegou a ser tão longo assim), a musculatura começou a reclamar. Alto. 

Sem problemas: desisti das ruas na terça – mas segui adiante na quarta, já devidamente motivado. 

Não consegui me segurar: na quinta, ao invés de 1h leve, fiz 1h30 com direito a dois tempo runs de 30 e 20 minutos cada. Mas estava inteiro e segui com alguns amigos para o Pico do Jaraguá, onde fiz duas subidas e descidas somando pouco menos de 900m de ganho altimétrico. Curiosamente, voltei muito, mas muito inteiro. Nada de dores e uma sobra de energia impressionante. 

Até hoje, pelo menos. 

Acordei com os músculos meio colados, tensos e fui para 13k na trilha em torno do Ibira – não aproveitar o céu azul em um domingo cedo me parecia criminoso. 

Resultado: agora à noite, enquanto escrevo este post, o corpo todo parece reclamar. 

O momento que estou agora é esquisito: hiper motivado e com uma ansiedade monumental de passar horas em qualquer que seja a trilha, mas com uma fadiga poderosíssima. Uma espécie de descolamento de mente e corpo, creio. 

Hora de dar tempo ao tempo. 

Amanhã é dia de descanso: vamos ver se o corpo alcança a mente para uma sessão com 15 minutos de tempo run na terça. Se não alcançar, rearrumo a programação – mas nada de forçar. Se conseguir, pelo menos. 

No final do mês, afinal, tenho 50K em Atibaia para os quais quero estar absolutamente em forma! 

  

Ultra nas montanhas em Atibaia? Parece boa ideia…

No começo desse ano, fiz uma prova organizada pela Corridas de Montanha que jurei nunca mais repetir: havia charco, travessia de rio e todo um percurso onde trilha, trilha de verdade, era um luxo quase raro.

Aparentemente, algo mudou. Ao menos em minha mente.

Hoje me peguei navegando pelo site deles em busca justamente de desafios semelhantes. E olhe o que encontrei: uma ultra de 50K aqui pertinho, em Atibaia…

Cedi. E me inscrevi, contando também com a dificuldade técnica como ferramenta de treino para a Indomit!

Em resumo: já há uma nova prova em vista. Ainda bem!!

406443_4266447151365_1273223166_n

Como será o treinamento de agora até o final de julho

Hora de colocar as mãos na massa! Com a Indomit programada para o começo de novembro, tenho um período bom para trabalhar a base – principalmente do ponto de vista de velocidade – mantendo o ganho acumulado desse período que culminou na Comrades.

Não pretendo me programar até o dia da prova, mas montei algumas regras que traduzi em uma planilha que seguirei até o final de julho. A partir de então farei algo mais específico com base em como estiver me sentindo. Os ponteiros gerais são:

Começarei nessa semana, tomando como base uma meta semanal de 55-60K (já considerando o “day-off” de ontem).

Terças e quintas serão dias de tempo runs ou tiros, alternando-se. Isso será sagrado: trabalhar velocidade foi algo que gostei de fazer até aqui, até para dar uma variada, e que pretendo continuar.

O modelo será de duas semanas crescentes para cada semana light, buscando uma evolução realmente lenta e terminando em algo como 85-90km semanais.

As primeiras semanas de agosto, ainda não planilhadas, serão o pico do treino para o Indomit. Chegaremos lá depois.

Na medida do possível vou inserir trilhas nos longões. Isso ajudou bastante por mudar grupos musculares.

Também buscarei algumas ultras menores no caminho, o que pode mudar o planejado (de maneira positiva, diga-se de passagem).

Enfim, veremos como tudo funcionará. O programa completo está abaixo:

Screen Shot 2015-06-05 at 3.46.59 PM Screen Shot 2015-06-05 at 3.47.12 PM Screen Shot 2015-06-05 at 3.47.22 PM

Checkpoint: Revisando a chegada e resetando os sistemas

Ainda é difícil de acreditar que a Comrades foi há apenas uma semana e que, nesta exata hora, eu estava já comemorando com os amigos lá em Pietermaritzburg, vestindo as duas medalhas com o peito estufado de orgulho. 

É igualmente difícil acreditar que meu ciclo naquele naco da África, região que mais amo em todo o mundo, se encerrou. 

Dizem, no entanto, que se deve encarar finais de ciclos como início de novos tempos. Talvez seja mesmo hora de me concentrar em outras provas da minha lista de desejos – ou mesmo de varrer a mesma África em busca de outras ultras e desafios, seja em Victoria Falls, nas Drakensberg, em Lesotho, no Kilimanjaro ou em qualquer outro local. Uma coisa é certa: meu tempo na África está longe de ter terminado: se não para a Comrades, ainda voltarei lá para correr algum outro solo. 

Enquanto isso, claro, essa semana foi de pura recuperação. Recuperação equilibrada, devo acrescentar: corri um total de pouco mais de 40km, me entregando à vontade de estar nas ruas, fiz novos planos, busquei novas provas, respirei novos ares. Aproveitei esse (muito) bem vindo feriado para repassar esses últimos meses e todo esse treinamento que se foi. 

Curioso: no final das contas, a quantidade de trilhas que fiz no caminho até a Comrades foi tão grande, gerando tantos altos e baixos do ponto de vista de volume de rodagem e pace médio, que facilmente se deduziria que a linha de chegada seria cruzada com muito mais dificuldade. Não foi o caso: possivelmente pela somatória de experiência com variação muscular no treinamento acabou funcionando de maneira perfeita e cheguei em Pietermaritzburg com um tempo melhor e com muita, muita energia ainda sobrando. É só ver abaixo, pelos gráficos:

  
Só isso já diz muito sobre o quanto a variação em terreno pode fazer bem para o corpo. 

Agora é hora de recomeçar. Minha próxima grande meta é apenas em novembro, fechando meus primeiros 100K nas trilhas de Santa Catarina. Até lá ainda há muito chão pela frente. 

Que bom.