Checkpoint 6: Novo tênis, nova rotina de subidas, longão acima de 4 horas

Essa semana trouxe três “novidades” importantes ao ciclo de treinamentos. O primeiro, claro, foi o tênis: sem me adaptar direito à forma do Merrell Trail Gloves, que me causou duas bolhas, acabei migrando para o Sketchers GoBionic Trail por indicação do Jósa, do Endorfine-se.

Hoje foi o terceiro dia que rodei com ele, mas o primeiro realmente longo. Sendo bem direto: ele funciona. Adapta-se bem aos pés, tem um grip forte o bastante e é minimalista dentro das possibilidades de minimalismo das trilhas. Falo isso porque, sendo bem sincero, o tamanho do seu solado é a única coisa que me incomoda – muito embora ele cumpra o papel de proteger os pés das “abruptidões” encontradas fora do asfalto. Mas meu desejo mesmo era que os pés criassem calos e ficassem imunes a bolhas para que pudesse voltar ao modelo mais natural do Merrell. Enfim… quem sabe um dia isso não aconteça?

Outro ponto importante: inseri a subida da Ministro Rocha Azevedo em todos os treinos, acrescentando uma pequena volta no caminho para casa e uma grande ladeira. Estava sentindo falta de mais subida, principalmente depois de fazer os cálculos de altimetria do DUT e, embora saiba que o problema não foi “resolvido”, estou seguro de ter pelo menos amenizado um pouco. Agora é dar tempo ao tempo.

Finalmente, o terceiro e último ponto importante dessa semana foi o longão acima de 4 horas, algo que já estava sentindo falta e que acabei fazendo hoje mesmo por conta de um imprevisto que tive ontem. Resultado: rodei pouco menos de 40K e me senti bem – muito bem. Isso tudo em uma USP no domingo chuvoso, totalmente deserta e com um silêncio quase zen. Perfeito.

Semana que vem tem mais coisas interessantes acontecendo, incluindo uma viagem a trabalho para Paraty na quinta. Como voltarei apenas no domingo, isso me deixará correr por aquela paisagem incrível do sul carioca, rodando morros e bebendo os mares com os olhos, por horas a fio. Tem treino melhor do que esse?

Gráficos da semana abaixo:

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#BoasTrilhas

Ritmo, rotina e equilíbrio

Uma vez um amigo me disse que corria para fugir da rotina. Não prestei muita atenção a isso na época mas, hoje, acredito que poucas coisas façam menos sentido que esse pensamento.

Ok: todos tem os seus próprios entendimentos, crenças e mesmo conceitos sobre o que significa levar uma rotina. Mas por qualquer que seja o espectro, correr é provavelmente a maior ode que o corpo humano possa fazer a ela.

Eu, por exemplo, sigo um planejamento que inclui três treinos em dias úteis e dois nos finais de semana.

Há variações entre os dias escolhidos para ir às ruas por conta da agenda de trabalho – esta, sim, muito pouco rotineira. Há também variações nos modelos de treinos: ora são regenerativos, ora tempos, ora intervalados. Mas todos duram uma média de uma ou uma hora e meia, cruzando a Brasil até o Ibirapuera e alternando entre a pista, a rua ou a trilha que circunda o parque.

Nos sábados, 2, 3 ou 4 voltas pela USP – o que, incluindo o caminho de e para casa, soma algo entre 30 ou 40km.

Aos domingos, 1h30 por percursos que se desenham no próprio dia.

Em todos os casos, o corpo aprendeu técnicas ritmadas de respiração para poupar os músculos; o pace se calibra por conta própria na casa dos 180 passos por minuto; os olhos varrem os arredores consistentemente sem que o pescoço se mova; os braços funcionam como aceleradores ou freios naturais.

Tudo automático como uma máquina.

Ritmo puro, instintivo, quase inconsciente.

Enquanto isso, do outro lado do cérebro, cenas se desenham na cabeça, vistas se pintam à frente e toda a consciência parece ter um tempo exclusivo para ser na sua mais completa exclusividade. Para viajar, solta.

Meu amigo estava redondamente enganado: não se corre para fugir da rotina. Corre-se para mergulhar o corpo em uma rotina tão intensa, tão instintiva, e por tanto tempo, que a consciência pode – esta sim – viajar mais livre por lugares que o cotidiano dificilmente permitiria.

Equilíbrio, afinal, não vem de uma zona cinzenta monótona, desconcentrada, de uma semi-consciência. Equilíbrio vem justamente do esforço para se exagerar simultaneamente nos extremos de corpo e mente, de rotina e liberdade, de viver e imaginar.

E não há melhor esporte para pôr isso em prática, cinco vezes por semana, do que a corrida.

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Como seria treinar para uma prova de 100 milhas?

Karl Meltzer, um dos mais reconhecidos ultramaratonistas americanos, costuma dizer que 100 milhas não é uma distância tão longa assim.

Não sei se concordo e duvido que um dia queira percorrer tanto terreno – mas tenho uma certa inveja de quem consegue passar mais de 24 horas mergulhado em si mesmo e sendo levado pelo movimento das pernas. A força zen de quem completa 100 milhas – 160km – é certamente algo digno de um guru indiano.

Mas, independentemente da minha intenção em correr 100 milhas, sempre tive curiosidade em relação ao processo de treinamento. Afinal, como alguém se prepara para algo tão longo assim?

Decidi buscar informações na Web e cheguei a três pontos no mínimo interessantes:

1) Fazer uma ultra de 100 milhas inclui ficar mais de 24 horas de pé. E, para isso, é necessário se habituar ao combate do sono, como correr no meio da madrugada ou em momentos em que exaustão (por qualquer que seja o motivo) estiver dominando a mente. Não parece algo muito agradável – mas é quase uma unanimidade entre os ultra-ultracorredores.

2) 100 milhas é um esporte totalmente diferente. É como passar de uma meia para a maratona ou da maratona para as 50 milhas ou 100km. Os músculos parecem mudar, a mente passa a ser mais importante e a tolerância ao cansaço se torna a principal arma. Só que passar de 50 milhas para 100 é, de acordo com muitos, algo bem mais difícil do que passar de uma maratona para os 100km. Isso também significa que é altamente recomendável que se faça ao menos algumas provas “menores” (50 milhas ou 100km) antes de se aventurar por algo tão grande.

3) Ao contrário do que se imagina, no entanto, as planilhas de treino não são tão diferentes do que as utilizadas para provas “menores”. Veja o exemplo de uma abaixo (retirado desse post aqui): a semana mais intensa (fora a da prova) tem 75 milhas – 120km. A média em si é menor, em torno das 60 milhas (ou 95km, algo muito próximo do que eu fiz por semanas durante o treinamento para os 90km de Comrades).

Esses três pontos indicam uma coisa bem clara: 100 milhas são mais possíveis do que muitos acreditam. Mas, embora o corpo precise de um treinamento físico compatível com o tamanho do desafio, é a cabeça que precisa de preparo de verdade. A minha ainda não está pronta (e não sei se um dia ficará). Mas, até lá, imagino que permanecerei sendo assombrado por essa “instigante curiosidade”.

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Vídeo: hora de se inspirar com um mini-documentário sobre Hardrock 100

Uma das ultras de trilha mais famosas é a Hardrock – uma prova de 100 milhas que inclui 10.300 metros de subida e mais 10.300 metros de descida. Em um percurso extremamente técnico, há pessoas que desmaiam, aproximam-se perigosamente de hipotermia e enfrentam todo tipo de problema físico e mental.

Não dá para dizer que sou apaixonado por trilhas técnicas – mas não dá também para negar que elas são as mais belas. Recentemente a Hoka publicou em seu canal um vídeo com a cobertura da prova incluindo pílulas de todas as dificuldades e maravilhas pelas quais os corredores passam.

Vale a pena ver – nem que seja para se inspirar com o mundo:

 

Checkpoint 4: Lidando com a exaustão

Dentre todas as semanas – provavelmente desde que comecei a me preparar para a Comrades, ainda no ano passado – essa foi a que a exaustão mais apareceu. Não pelo esforço físico em si: este realmente ficou em um distante segundo plano. Mas o trabalho foi tão intenso, tão além do humanamente plausível, que seus efeitos se alastraram pelas outras esferas do cotidiano.

Por conta disso, perdi um treino – que, embora leve, foi tempo na rua desperdiçado. Por conta disso, enfrentar o longão ontem foi cansativo ao ponto de fazê-lo um pouco chato, “desempolgante”. Por conta disso, todos os meus indicadores pessoais, que podem ser vistos nos gráficos abaixo, caíram.

Mas, enfim, faz parte. Não somos máquinas, afinal.

Hoje, no entanto, decidi fazer algo diferente para recuperar a energia: ser acordado pelo fim do sono (e não pelo despertador). Nada de madrugar: se não conseguisse me recompor, em poucos dias certamente desabaria com alguma lesão, gripe ou qualquer coisa que costuma vir com excesso de estresse. E não é que deu (muito) certo?

Descansado, saí mais leve para o trote do domingo. Apenas com a rua, o céu azul que iluminou Sampa, a temperatura amena e música: tem coisa melhor?

Tem: o resultado de se ouvir o corpo. Curiosamente, a energia que estava escondida, tímida, pareceu dar as caras. Desisti do trote programado e fiz uma tempo só para animar um pouco, para deixar as pernas acompanharem a vontade. E assim foram mais ou menos 40 minutos a um ritmo de 4’40″/km que pareceram tão leves que cheguei a questionar se o relógio estava correto!

Estava sentindo falta – muita falta – de ter uma corrida assim. Descompromissada mas intensa, solta mas absolutamente satisfatória.

Para a semana que vem, o ritmo deve apertar e a volumetria subir – mas o trabalho deve ser, senão light, pelo menos bem mais leve do que essa última semana. Pelo menos é o que espero!

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Quando a mente corre sem as pernas

Há qualquer coisa com o clima que traz à tona uma vontade incrível de sair para as ruas.

Estive ontem em Brasília a trabalho. Bate-volta: peguei o vôo das 6:30 saindo de Congonhas e às 18:30 já estava no avião de volta para casa.

Mas nessas 12 horas que passei na Capital, entre uma e outra reunião, me peguei invejando alguns corredores que passaram por mim em direção ao Parque da Cidade.

Tudo estava perfeito para eles: o céu azul brilhante do cerrado, a temperatura amena, o ar gostoso, o verde amarronzado da vizinhança convidativo.

Passaram leves, quase flutuando pela outra dimensão que toma conta dos corredores quando os corpos se sintonizam no vai-e-vem das pernas. Pareciam extraterrestres, de certa forma, alheios a todas as pessoas que, como eu, estavam com agendas e pendências nas mentes brigando entre si.

Mas, naquele punhado de segundos em que parei para invejar os corredores brasilienses, acabei entrando no mesmo clima. Na mesma zenitude, na mesma atmosfera. Foi como se a minha mente tivesse conseguido correr enquanto o corpo se sedentarizava.

Chega um ponto em que a corrida se torna um hábito que independe das pernas.

Estas, no entanto, ficaram ansiosas. Queriam largar tudo, se levantar e seguir as camisetas coloridas até o Parque; queriam produzir ácido láctico, colocar o restante do corpo em movimento, cansar.

Bom sinal. No começo da semana – que, diga-se de passagem, foi absolutamente turbulenta – estava preocupado com overtraining e estafa mental. Minha receita foi desistir do regenerativo da segunda e empurrar a a planilha para hoje, quinta.

Funcionou. Graças aos céus do cerrado, aos corredores anônimos, ao Parque da Cidade e à agenda turbulenta fiquei prontinho para recomeçar.

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Checkpoint 3: primeira prova feita!

Com intensidade inquestionável nos treinos da semana, esta terminou com o marco dos 70K batidos e com a primeira prova de montanha devidamente feita. Não pretendo me alongar muito sobre ela aqui – deixarei para o post de amanhã – mas o sentimento de que estou na rota certa para o DUT, em setembro, é nítida.

É claro que uma prova de montanha cansa de uma maneira diferente de provas de ruas: há menos corrida e mais altimetria, para ficar apenas em uma das “trocas”. Mas terminei esses 27km bem, inteiro, como se tivesse feito um longão normal a uma distância das que estava habituado à época de Comrades.

Gráficos abaixo:

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Essa semana que entra terá alguns contratempos que precisarei lidar. Primeiro, na falta de vôos, amanhã viajarei noite adentro, de ônibus, até Joinville, para uma reunião com cliente. Sairei de lá corrido ao meio dia, a tempo de pegar o jogo do Brasil aqui em Sampa. Na quarta, por sua vez, viajarei às 6:30 para outra reunião em Brasília, voltando no mesmo dia. Em resumo: a planilha precisará ser reajustada para amanhã cedo, quinta, sexta, sábado e domingo. Ainda bem que os treinos previstos são mais light!

Mas, enfim, são ossos do ofício. Já me habituei tanto a malabarismos na agenda que, honestamente, estava até sentindo falta de um pouco de desorganização!

 

Longão? Nada: hoje foi dia de curtinho só para variar

Às vezes, uma corridinha leve é exatamente o que precisamos.

Já estou em Campinas, onde amanhã largo na minha primeira corrida de montanha (sobre a qual as únicas informações que tenho são que ela terá 27km e que devo me encontrar na subprefeitura de Sousas para seguir em comboio até a largada).

Assim, rodar 20 ou 30k hoje pelo Pico do Jaraguá ou pela USP não ajudariam. Acrescentariam volume, claro – mas me deixariam em um estado pouco prático para amanhã.

Saí apenas para um trote descompromissado pelas redondezas de casa antes de pegar a estrada. Fui lento, leve e sem a mochila de hidratação que tem se transformado em parte integrante do meu “corpo em movimento”. Fui seguindo a vista e a vontade, me guiando por incríveis paisagens urbanas que às vezes esquecemos que Sampa tem.

O objetivo do treino de hoje foi um só: soltar mente e corpo. Liberar a tensão da musculatura que, acreditem se quiser, ainda não se recuperou plenamente da trilha do sábado passado, e diminuir a ansiedade.

Funcionou.

Agora é curtir um pouco o sol e a piscina do hotel e sair amanhã cedo, sabe-se lá para onde, para somar essa primeira experiência de correr na montanha!

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Treinando no Pico do Jaraguá

Sensacional.

Não há outra palavra para descrever o treino de hoje no Pico do Jaraguá, sugerido pelo Leandro Carvalho quando nos conhecemos lá na Comrades.

Ou talvez haja, muito embora seja uma palavra inventada: “humildecente”.

Cheguei cedo no parque onde fica o ponto mais alto de Sampa, tendo inclusive que aguardar alguns minutos para que ele abrisse. Cancela liberada, fui de carro até o topo, ainda inseguro de onde parar.

A partir daí, tudo foi novidade. Comecei pela Trilha do Pai Zé, que serpenteia o morro até a sua base passando por caminhos deslumbrantes. Descida relativamente rápida, subida mais técnica e íngreme. Tudo o que eu precisava para me sentir mais à vontade com o próprio conceito de trail run.

Do topo à base e da base ao topo foram cerca de 5km. De volta ao pico, decidi fazer mais um bate volta – só que pela estrada normal, mais longa e “corrível”. Descer foi fácil: 4,5km de pura leveza e cenários que incluíam belas encostas, feixes de luz do sol entre árvores e vistas incríveis da urbe que parecia muito, muito distante.

A subida foi mais complicada. Longa. Não parecia tão íngreme ou interminável antes, mas era. Lembrava Comrades.

Troquei o passo algumas vezes, caminhei um pouco, voltei a correr e cheguei ao topo. Olhei para o relógio: já estava quase fechando duas horas – mas tinha feito apenas 14,5km.

Essa foi a parte “humildecente”: a terceira volta que planejei dar antes de sair de casa ficaria para uma outra oportunidade. Hoje tem jogo do Brasil, afinal, e chegar tarde em casa não estava nos planos.

O resumo do primeiro treino no Jaraguá foi assim: 14,5km de vistas incríveis e 830m de ganho altimétrico acumulado, uma introdução de verdade às trilhas e uma pitada de frustração por não ter conseguido terminar o percurso que desenhei originalmente.

Mas, ainda assim, a experiência como um todo foi tão sensacional que dificilmente conseguirei tirar o sorriso do rosto nas próximas horas!

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Intervalados para aprender a (des)acelerar

Eu havia abandonado treinos de tiro, intervalados ou mesmo tempos na reta final da preparação para Comrades. Por algum motivo, a combinação de longos cada vez maiores com intensidade simplesmente não funcionaram – e acabei abrindo mão do último.

Com o tempo, acabei desenvolvendo uma espécie de “mono-pace”: fosse acelerando ou trotando, acabava sempre próximo da faixa entre 5’50” a 6’10”.

Uma das minhas metas agora é mudar isso. Está claro que, na medida em que os desafios aumentam, um domínio maior sobre as marchas do corpo é fundamental. Preciso conseguir correr mais rápido nos momentos certos e desacelerar de verdade para poupar energia nos outros.

Intervalados, portanto, já voltaram à minha rotina. Não são exatamente curtos – os de hoje incluíram 5 x 5 minutos na casa dos 4’30″/km com 1’30” de descanso e sanduichados por aquecimento e desaquecimento de 20 minutos.

Não que os tiros em si tenham sido fáceis – voltar a essa rotina e, embora gostoso, dolorido. Mas o mais difícil é forçar a queda da velocidade nos tempos de descanso, evitando uma volta natural (e bastante prejudicial) ao mono-pace.

E, exceto pelos longões de sábado, parece que marcar bem a diferença entre trotar e voar será uma das partes mais importantes de todo esse processo rumo ao DUT.

(Quando poderia imaginar que desacelerar seria a parte mais difícil?)

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