A domesticação do sono

De vez em quando acabo me pegando com o despertador.

Não costumo ter muitos problemas com horário, mas há dias em que levantar cedo parece uma tarefa impossível. Pelo menos até que aprendi a domesticar o sono.

É assim que estou considerando esse “momento Eureka” que, aparentemente, tive nas últimas semanas. Por algum motivo esquisito qualquer – e sobre o qual não tenho absolutamente nenhum embasamento científico – meu sono parece funcionar por ciclos.

Esses ciclos se abrem de maneira natural: é bem provável que, mesmo sem ter consciência, eu começo efetivamente a dormir em horários parecidos todos os dias. E digo provável porque ninguém sabe, ao certo, em que instante se despede da consciência e mergulha nos sonhos.

Pelos meus cálculos, meu sono tem ciclos de 45 minutos. Isso não significa que durmo apenas 45 minutos, claro – mas que acabo emendando um ciclo no outro, sendo que a janela perfeita para acordar é no instante em que um ciclo termina e outro está prestes a iniciar.

Sendo prático: 5 da manhã é um horário perfeito para eu acordar: por mais cedo e escuro que esteja, eu levanto inteiro, descansado e pronto para o dia. Se o despertador tocar 5:30, tudo muda de figura: levanto com aquela sensação de ter sido arrancado do sono e estapeado pelo zumbido infernal do dia que insiste em começar.

Mas some mais 15 minutos ao despertador, fazendo-o soar às 5:45, e consigo acordar novamente perfeito.

A mesma coisa acontece se ele tocar às 6:30 ou 7:15.

Eu sei: isso parece pura loucura. Possivelmente até seja, acrescento com um pouco de medo da própria mente.

Só que é uma loucura que tem funcionado miraculosamente bem, me levando à conclusão que, sem querer, eu talvez tenha realmente conseguido domesticar o sono!

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Brigando contra o sono

Era uma das batalhas que eu mais ansiava por ter. De todas as principais autodescobertas que fazemos com ultras – e digo principais porque, na prática, elas nunca cessam de vir – confrontar o sono era algo inexplorado. Já corri varando a madrugada antes – na Indomit, por exemplo. Mas foram 21 horas de prova e, em uma situação dessas, a própria adrenalina se encarrega de eliminar a vontade de dormir. 

Neste caso, na BR, foi diferente. Minha última perna foi de cerca de 32km que se iniciaram às 10 da noite e se encerraram às 6:30 da manhã. E quando digo “se iniciaram”, refiro-me a já partir para a rua com um 38 horas sem dormir e intercalando trabalhos de pacer (portanto, correndo) com os de apoio (como organizar hidratação e nutrição, acompanhar a atleta com o carro etc.).

Quando o sono bateu ele foi severo. As pernas obedeciam a mente, mas esta cismava em travar uma verdadeira guerra contra as pálpebras. Os olhos ardiam como nunca, o pensamento ficava lerdo, os golpes de olhar tardios. Era como se estivesse correndo em um pesadelo em câmera lenta. Muito lenta. 

O que eu fiz? O que se há de fazer quando dormir não é uma possibilidade? Continuei dando um passo atrás do outro. 

Tentei puxar assuntos diferentes com a Zilma e com os outros membros do time, tentei manter-me aceso, tentei ignorar o inignorável. Nada, absolutamente nada funcionou. 

Até que decidi me entregar ao efeito placebo que cafeína teria em mim. Digo placebo por um motivo simples: no dia-a-dia, costumo tomar algo entre 1 a 2 litros de café – incluindo uma caneca antes de dormir. Chega a ser óbvio que os efeitos energético em mim são, para usar de um eufemismo, mínimo. 

Mas é incrível o que ocorre quando o desespero nos força a confiar (e desejar) cegamente por um milagre. A mente, fraca pela batalha contra o sono, cedeu. Completamente. Irremediavelmente. Ridiculamente. 

Em menos de um minuto – tempo insuficiente mesmo para efeitos reais – o sono havia evaporado pelos ares da Mantiqueira. Eu estava eufórico, adrenalinado, aceso. 

Tudo voltou ao normal e foi como se a madrugada tivesse se transformado em uma tarde (mesmo que meio escura para os “padrões normais”). 

Lição aprendida: em desespero, entregue-se a medidas desesperadas. Às vezes elas funcionam. 

   
   

Descansar (realmente) também é treino

Não durmo muito. Quando se tem uma filha de 3 anos, uma empresa própria e se escolhe correr ultras como esporte, o sono é a primeira coisa que acaba sacrificada. 

Com o tempo, me acostumei com isso ao ponto de ficar com culpa sempre que durmo algo na casa das 7 horas – uma eternidade. 

E, claro, isso tem lá os seus problemas. A recuperação muscular é um deles: esperar que as pernas não demonstrem qualquer sinal de dor quando o máximo de descanso concedido a elas é ficar um punhado de horas trabalhando sentado é irreal. 

Irreal mas, ainda assim, algo com o qual me acostumei. Veja: não reclamo da minha capacidade de regeneração. 2 ou 3 dias depois de uma ultra estou novo, pronto para tomar as ruas de novo, motivado até o limite por conta de algum próximo desafio. 

É que tudo nesta vida é relativo. 

Estar novo, para mim, é acordar com uma dor nas pernas leve mas constante ao ponto de ter se transformado em paisagem. Algo que não atrapalha em nada – embora obviamente fosse melhor passar pelo menos algum tempinho realmente sem sentir nada. 

Pois bem: no domingo à noite vim para Joinville, onde tive uma reunião na segunda. Cheguei às 18:30, mas a reunião seria apenas às 10:00 do dia seguinte. 

Sabe o que fiz? 

Dormi. Muito. Algo como 9 horas inteiras, uma espécie de anormalidade principalmente considerando que acordei sem despertador, por conta própria e sem precisar correr para nada. Tinha tempo para tomar um banho calmo, mastigar o café da manhã e ainda escrever um post para o blog antes do dia se atribular. 

E foi sentado na recepção do hotel que, subitamente, me dei conta que não sentia nada – absolutamente nada – nas pernas. 

Me concentrei nelas. Contraí a musculatura. Andei de um lado para outro. 

Nada. 

Era como se eu sempre tivesse sido sedentário, tamanho o relaxamento muscular!

Foi aí que caiu a ficha: todas aquelas pessoas que pregam o poder de cura do sono, que bradam que descanso também é treino, estão realmente sendo verdadeiras. Curti a sensação. 

Honestamente, não sei quando terei novamente o tempo para dormir de maneira tão densa, fazendo a noite cuidar das pernas. Mas já está claro que é um remédio muito melhor que qualquer anti-inflamatório. 

  

Descansar sem dormir

Depois de dias seguidos nas ruas e trilhas, o corpo sente.

Hoje acordei dolorido, com o cansaço arrastando as suas unhas pelas pernas, costas e pálpebras. Por uma infelicidade de agenda arrumei uma reunião extremamente cedo, o que significa que meu “day off” teve apenas 6 horas de sono.

Suficiente para embalar o resto da semana? Difícil afirmar que sim. Mas, quando não há solução, não adianta haver também estresse pela sua falta.

Hoje o corpo precisará se recuperar em horas úteis, em meio a prazos apertados, clientes, propostas e os conflitos internos cotidianos que definem qualquer vida corporativa.

Hoje o corpo não poderá contar com horas de sono concentrando o poder mental inconsciente na recuperação muscular.

Hoje o próprio sono terá que dar um jeito de sair antes que sua falta acumule ainda mais cansaço.

A semana, afinal, será longa e está apenas começando.

Hora de trabalhar.

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Day off não programado

Há dias em que a planilha perde.

Hoje tinha uma tempo run de 20 minutos em meio a um treino de 1h programado. Tinha.

Depois de três semanas de escadinha no volume, incluindo um longão de pouco mais de 4h no domingo e uma sessão intensa de tiros ontem, meu corpo implorou por uma folga.

E, verdade seja dita, essa semana é mais leve mesmo, com aquela queda em tempo de rua desenhada para evitar a sobrecarga.

O problema é que a sobrecarga veio antes: acordei cheio de dores e com uma vontade incontrolável de dormir mais um pouco. Cedi.

Ouvir o corpo significa também saber separar a preguiça da necessidade de mais descanso. Como a de hoje.

Tirei o dia de folga e matei uma corrida da semana.

Como viajo amanhã cedo para Paraty, treino agora só na sexta. Sob o sol da serra e a vista do mar.

Tudo bem: certamente dará para compensar lá, encaixando um pouquinho mais de tempo em um cenário que faz o tempo passar desapercebido.

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Como seria treinar para uma prova de 100 milhas?

Karl Meltzer, um dos mais reconhecidos ultramaratonistas americanos, costuma dizer que 100 milhas não é uma distância tão longa assim.

Não sei se concordo e duvido que um dia queira percorrer tanto terreno – mas tenho uma certa inveja de quem consegue passar mais de 24 horas mergulhado em si mesmo e sendo levado pelo movimento das pernas. A força zen de quem completa 100 milhas – 160km – é certamente algo digno de um guru indiano.

Mas, independentemente da minha intenção em correr 100 milhas, sempre tive curiosidade em relação ao processo de treinamento. Afinal, como alguém se prepara para algo tão longo assim?

Decidi buscar informações na Web e cheguei a três pontos no mínimo interessantes:

1) Fazer uma ultra de 100 milhas inclui ficar mais de 24 horas de pé. E, para isso, é necessário se habituar ao combate do sono, como correr no meio da madrugada ou em momentos em que exaustão (por qualquer que seja o motivo) estiver dominando a mente. Não parece algo muito agradável – mas é quase uma unanimidade entre os ultra-ultracorredores.

2) 100 milhas é um esporte totalmente diferente. É como passar de uma meia para a maratona ou da maratona para as 50 milhas ou 100km. Os músculos parecem mudar, a mente passa a ser mais importante e a tolerância ao cansaço se torna a principal arma. Só que passar de 50 milhas para 100 é, de acordo com muitos, algo bem mais difícil do que passar de uma maratona para os 100km. Isso também significa que é altamente recomendável que se faça ao menos algumas provas “menores” (50 milhas ou 100km) antes de se aventurar por algo tão grande.

3) Ao contrário do que se imagina, no entanto, as planilhas de treino não são tão diferentes do que as utilizadas para provas “menores”. Veja o exemplo de uma abaixo (retirado desse post aqui): a semana mais intensa (fora a da prova) tem 75 milhas – 120km. A média em si é menor, em torno das 60 milhas (ou 95km, algo muito próximo do que eu fiz por semanas durante o treinamento para os 90km de Comrades).

Esses três pontos indicam uma coisa bem clara: 100 milhas são mais possíveis do que muitos acreditam. Mas, embora o corpo precise de um treinamento físico compatível com o tamanho do desafio, é a cabeça que precisa de preparo de verdade. A minha ainda não está pronta (e não sei se um dia ficará). Mas, até lá, imagino que permanecerei sendo assombrado por essa “instigante curiosidade”.

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