15km improváveis

Um casamento me levou para uma praia improvável: Itapoá, no litoral de Santa Catarina. 

O improvável foi sensacional. 

Com temperatura acima dos 30 graus, céu sem uma única núvem para manchar o azul, saí para 15km pela areia firme, quebrada apenas por um ou outro riacho adoçando o mar a partir do verde do outro lado. 

Tinha tudo que eu mais gosto: calor, sol, visual e um vazio daqueles que força a mente a viajar e o peito a se encher. 

Tinha também um mergulho bem vindo acompanhado de uma ultra bem vinda nadada salgada, um vai-e-vem que chegou a dar tontura por conta das marolas que balançavam o corpo. 

Nem parecia real, aliás: no dia anterior eu estava em São Paulo; na mesma noite de hoje, já escrevo este post da minha casa em meio à selva cinza da metrópole. 

Tanto melhor: o improvável ganha tons de sonho quando ocorre em um intervalo tão curto de tempo. 

Para contrastar – mesmo porque contrastes são perfeitos para marcar bem os acontecimentos – pretendo rodar mais 15km amanhã por um cenário oposto: algo como Barra Funda ou região da Luz, no centro velho. 

Algo que troque o ar cristalino soprado pelo mar pelas ondas cinzas da história paulistana.

Algo que troque a ingenuidade da praia pela malandragem da cidade grande. 

Algo que me permita digerir melhor no corpo essa viagem mental que foi correr, em um dia como outro qualquer, na mais improvável das praias para um baiano radicado em São Paulo. 

Improvável e, acrescente-se, absolutamente perfeita. 

  

O sol

Correr sob o sol é perfeito. Nesse momento, enquanto treino para 140km em pleno sertão do Rosa, mais ainda: fora o gosto que já tenho por homenagear esse Deus amarelo, possivelmente incutido no meu DNA baiano, a experiência certamente é bem vinda. 

A cidade já amanheceu um forno. Às 8, quando saí, São Paulo parecia um Rio de Janeiro sem praia, um Saara com prédios. O céu estava com um azul meio opaco, forte, que dava a sensação de estarmos cozinhando sob uma redoma. Nem vento aparecia. 

O caminho? Parques Alfredo Volpi e Burle Marx, incluindo portanto todo um sobe-desce pelo Butantã e Morumbi. Os parques foram um alento, aliás: entre suas pequenas trilhas e sob a mata fechada, uma umidade inexistente no céu descoberto parecia me transportar para outra cidade. Abafada, pesada, mas com sombra e uma umidade daquelas densas, pesadas como a consciência dos errados. 

Mas seus bosques eram pequenos – 1 ou 2 quilômetros, no máximo, em cada parque. O restante do caminho era a céu aberto, feito de céu claro e deixando um rastro de suor por onde eu passava. Houve uma hora que cheguei a achar me ridículo por gostar de um clima tão opressor quanto aquele – mas o que se há de fazer contra os jeitos do coração? 

A desconcentração, aliás, foi tamanha, que acabei me perdendo no caminho de volta, já do outro lado do Rio Pinheiros. Me perdi por 5km – o suficiente para me tirar do centro e fazer o corpo protestar veementemente contra essa falta de consideração. 

Parei no primeiro boteco que vi, tomei uma Coca para acalmar as pernas e recobrar as energias, e segui em frente. 

Acabei fazendo algo como 35km em 4 horas – bem mais que o planejado. 

Cheguei destroçado, cansado, com uma leve dor de cabeça pela desidratação, mas feliz. 

É possível mesmo alguém aguardar com ansiedade o sol do sertão? 

    

  

Caminhos de Rosa pela frente?

Depois de uma longa troca de mensagens com o Zumzum, amigo e organizador dessa prova, a vontade de percorrê-la foi instalada fundo.

Não na versão de 250km – ainda não estou nesse nível de loucura – mas na de 140km.

140km rodando pelos sertões do Guimarães Rosa, conhecendo os pontos exatos que se transformaram em suas histórias, sentindo o sol queimar as costas com a mesma fúria resignada com que torra o solo… Putz, tudo isso é, no mínimo, absolutamente inspirador.

E, como ela está prevista lá para agosto… Quem sabe?

 

O outro Tempo

Tempo é algo extremamente relativo para quem corre. 

Para qualquer outra pessoa, o dia costuma ser dividido, a grosso modo, em dois grandes pedaços: um apressado, feito de tarefas, prazos e compromissos profissionais, e outro doméstico, quando se começa a cuidar do outro lado – o mais importante, diga-se de passagem – da vida. 

Entre um e outro, no entanto, há tempo para se criar um novo pedaço de Tempo. 

Digo mais: a meu ver, é o Tempo mais sagrado de todos por ser absolutamente egoísta, por ser exclusivamente seu e feito para que se curta a si mesmo. Ele não costuma começar promissor: o despertador soando às 5 da manhã dificilmente empolga. Mas, aos poucos, acaba-se cedendo à expectativa de se aproveitar esse Tempo. 

Aos poucos, roupas vão se trocando, portas vão se abrindo e, de repente, você está lá, só, de frente para uma rua vazia iluminada apenas pelos primeiros tímidos raios de sol. 

Você segue. 

Passos ritmados, fone ecoando alguma coisa desimportante qualquer. A vida passa em revista, com o dia atual servindo de marco entre o passado recente e o futuro distante. O pensamento viaja por projeções esculpidas sobre a vida alheia de outros corredores, de outros cotidianos, de outras possibilidades. 

Cruzando um portão, o asfalto se transforma em trilha e os prédios, em árvores. Tudo muda. Os raios do sol, mais lineares e nítidos, parecem desenhar cores pioneiras nos troncos enquanto  mente segue viajando sabe-se lá por onde. O ritmo vai mudando: tempo runs, intervalados, trotes, todas as modalidades se alternam prendendo o corpo a alguma coisa que lembre um planejamento prévio. A mente fica indiferente: tudo o que ela consegue fazer é aproveitar aquelas cenas, aqueles cheiros, aquele calor maravilhoso que assa a pele sob um céu já permanentemente azul. 

Tudo é incrível. 

E tudo dura pouco mais de 1h30. 

A extensão desse Tempo, desse momento intermediário entre os períodos normais, é relativamente pequena. Ainda assim, parece gigante por ser o único não dividido ou compartilhado com absolutamente ninguém além de si mesmo e da própria imaginação. 

Depois dessa corrida que beira o surreal, cruzar o portão de casa para começar o primeiro dos Tempos normais é como iniciar um novo dia.

Um novo dia no mesmo dia – mas devidamente dotado de uma espécie de paz interior que poucos conseguem sequer entender. 

  

Aqueles insuportáveis 60km do meio

Toda ultra tem, claro, os seus desafios. Para mim, pelo menos, o maior deles acontece naquele período morno, monótono, que normalmente se estende entre os km 55 e 65 de uma prova de 80 ou 90km.

Ambas as Comrades foram assim. A Douro Ultra trail foi assim. A Ultra Estrada Real foi assim.

Não há um desafio técnico, uma montanha mais tensa a ser escalada, rios caudalosos a serem cruzados. Não há nada além da nossa mente se perguntando se segue ou se pára.

Para falar a verdade, o que chateia é justamente esse “nada”, essa sensação de se estar em algum lugar entre o começo empolgante e o fim extasiante, espremido entre o sol e a terra e com um prospecto de insuportabilidade da travessia. É quando se alcança o ponto mais baixo, quando aquele lugar escuro na mente parece guiar o corpo e ditar as decisões.

A alternativa? Seguir em frente. Fixamente. Constantemente. 

Atravessar esse vale escuro, depressivo, dure o quanto durar, até o outro lado.

Neste momento, a vida parece estar imitando o esporte: estou nesses malditos 60km.

Dependendo do que ocorra, tudo pode mudar. Pode ser que o governo caia, dando uma guinada nas perspectivas de curto prazo de qualquer empresário brasileiro, a esta altura já meio saturados de lidar com tanto cavalo de pau e adversidade.

Pode ser que a crise se acentue ainda mais, forçando medidas mais drásticas na condução dos negócios. Pode ser que não, embora essa possibilidade pareça mais remota. 

Pode ser que a própria crise permita surgir oportunidades interessantes, daquelas que jamais apareceriam em momentos de euforia em que se está mais concentrado em aproveitar a abundância do que em garimpar raridades na escassez. Pode ser que não, que essas oportunidades sejam, na verdade, miragens geradas pelo estopor da realidade.

Pode ser que seduções do além-mar gritem mais alto e puxem, como um ímã, mudanças pessoais radicais na minha vida. Pode ser que me mude. Pode ser que não.

Pode ser.

Pode ser.

Pode ser.

Essa insistência de possibilidades que se mantem equilibradamente remotas e, ao mesmo tempo, no mesmo espectro de viabilidade, cansa. Indefinições geram exaustão. 

A alternativa? Assim como no esporte, só me resta uma: seguir em frente. Fixamente. Constantemente.

  

Post curto

Acordar às 5 da manhã, brigando contra o despertador, não faz um sorriso abrir no rosto de ninguém. Depois que se acorda e sai, no entanto, é difícil não ficar feliz com a decisão ao se testemunhar algo assim:

  
Correr, principalmente ultras, é precisamente lidar com esse tipo de conflito.

Buscando a paisagem “errada”?

Esse será o cenário para a semana que vem inteira:

  
Perfeito, não? Praia calma, águas refrescantes e aquele clima zen que só o nordeste consegue entregar ao país.

É nessas horas que descobrimos o quanto corredores devem mesmo ter problemas. 

Usei o Google Street View na região que estarei, no litoral cearense, e eis o que apareceu: 

  
É mais ou menos em ruas de terra assim, castigadas pelo sol inclemente e beirando paisagens que se situam entre a miséria e o bucólico, que correrei nos próximos dias. 

Curiosamente, estou muito mais empolgado com esse novo território para correr do que com qualquer praia. 

Vai entender…

Corra pelo sertão e litaratura no incrível Caminhos de Rosa

Na quinta-feira, 24 de setembro de 2015, um grupo de ultracorredores partirá para uma daquelas aventuras inesquecíveis que só quem ama as longas distâncias experimenta. 

Nesse caso não basta apenas amar a distância: é necessário estar REALMENTE preparado para ela. Serão 263km cortando o sertão mineiro e seguindo a mesma rota que Guimarães Rosa percorreu e onde tirou inspiração para sua obra prima, Grande Sertão: Veredas

Cada pedacinho de chão lá do norte mineiro, com temperaturas variando de 18 a escorchantes 44 graus, dará aos corredores a oportunidade de viver na pele as letras de um dos maiores gênios que o Brasil já deu ao mundo. 

Paisagens? De chãos talhados a lagos secos, de vidas a ermo a esperanças pairando pelos ares, de suor em cada pedaço azul do céu a noites estreladas como se estivesse flutuando pelo universo: assim deve acontecer a nova edição do Caminhos de Rosa, uma prova icônica organizada pelo André Zumzum e que merece a atenção de todos. 

Destaco a organização porque foi o próprio Zumzum que, como voluntário, organizou a Ultra Estrada Real com uma maestria absoluta, fazendo aquela “prova independente” ser melhor organizada do que muitas, mas muitas provas oficiais mundo afora. 

O que, então, se deve esperar? Dificuldades extremas, um calor infernal, história e literatura s emetamorfoseando em vistas inesquecíveis e muita, muita brasilidade. 

Quer saber mais? Clique aqui, na imagem abaixo (de uma foto tirada do percurso) ou vá ao link http://caminhosderosa.com.br. Se, se tiver coragem de se inscrever, boa sorte! Não estarei lá esse ano – mas certamente participarei em alguma edição futura!!! 
  

Meia do sol

Nosso corpo esquece fácil.

Saí de Salvador para morar em São Paulo há quase 20 anos. À época, o calor intenso da cidade era apenas cotidiano, alvo de pequenas reclamações frugais e base para muitos programas que tinham o sol e o mar como protagonistas máximos.

Com o tempo, as lembranças foram ficando no passado mais remoto, naquele canto do cérebro que desconhece termômetros e sensações mais fisiológicas.

E muita coisa aconteceu – incluindo a minha descoberta da corrida como esporte que, hoje, é parte tão integrante do meu estilo de vida.

Todo ano volto a Salvador, nem que seja por um punhado de dias, para me abençoar nas águas de Yemanjá, revisitar o passado e, claro, correr a cidade. E todo ano me esqueço de como aqui é quente.

Hoje saí para fazer 2 horas de treino às 7 da manhã. Só que 7, no nordeste, está longe de ser cedo.

O termômetro que encontrei já no km 3 apontava 28 graus. De tempos em tempos, quando cruzava por outros termômetros, via aumentos contínuos que rimavam bem com os rios de suor que jorravam do corpo.

Umidade alta, sol escaldante e nenhuma única núvem no céu.

Para não esquecer que era Carnaval, alguns trechos eram pontilhados por ambulantes dormindo ao lado de seus isopores e caminhões ensaboando todo o asfalto para limpar um pouco o pecado que faz da capital baiana seu lar durante os festejos.

Em um ou outro canto, casais continuavam firmes na safadeza, certamente remanescente da noite anterior e embalada por um mar deslumbrantemente azul.

Eu amo esta cidade.

Com esses pensamentos ecoando entre os ouvidos, cheguei ao bairro de Ondina, logo antes da Barra, e dei meia volta.

IMG_6513

Decidir o ponto de retorno em um percurso tão quente e úmido tem o lado bom e o ruim. O bom, claro, é saber que dali em diante, a próxima parada é em casa; e o ruim é a certeza de que ainda há o dobro de chão a percorrer enquanto o dia apenas esquenta.

Tudo bem: fechar duas horas com qualidade no calor do auge do verão baiano serve, no mínimo, como treino mental.

Aprende-se, por exemplo, a encontrar pontos no percurso que tirem o foco do esforço. Como essa vista abaixo, por exemplo, que praticamente me acompanhou por todo o caminho:

IMG_6514

Perfeito.

Pelo menos o suficiente para que eu ignorasse os efeitos do inclemente (mas belíssimo) sol soteropolitano e fechasse uma meia maratona inesquecível.