15km improváveis

Um casamento me levou para uma praia improvável: Itapoá, no litoral de Santa Catarina. 

O improvável foi sensacional. 

Com temperatura acima dos 30 graus, céu sem uma única núvem para manchar o azul, saí para 15km pela areia firme, quebrada apenas por um ou outro riacho adoçando o mar a partir do verde do outro lado. 

Tinha tudo que eu mais gosto: calor, sol, visual e um vazio daqueles que força a mente a viajar e o peito a se encher. 

Tinha também um mergulho bem vindo acompanhado de uma ultra bem vinda nadada salgada, um vai-e-vem que chegou a dar tontura por conta das marolas que balançavam o corpo. 

Nem parecia real, aliás: no dia anterior eu estava em São Paulo; na mesma noite de hoje, já escrevo este post da minha casa em meio à selva cinza da metrópole. 

Tanto melhor: o improvável ganha tons de sonho quando ocorre em um intervalo tão curto de tempo. 

Para contrastar – mesmo porque contrastes são perfeitos para marcar bem os acontecimentos – pretendo rodar mais 15km amanhã por um cenário oposto: algo como Barra Funda ou região da Luz, no centro velho. 

Algo que troque o ar cristalino soprado pelo mar pelas ondas cinzas da história paulistana.

Algo que troque a ingenuidade da praia pela malandragem da cidade grande. 

Algo que me permita digerir melhor no corpo essa viagem mental que foi correr, em um dia como outro qualquer, na mais improvável das praias para um baiano radicado em São Paulo. 

Improvável e, acrescente-se, absolutamente perfeita. 

  

Que venha a Indomit Costa Esmeralda 100K!

A esta altura, minha esperança de passar por um percurso seco, relativamente tranquilo e sem muitas intempéries, já se foi. Mesmo que não chova na madrugada do dia 6 para o dia 7, as tempestades das últimas semanas já se encarregaram de deixar o solo molhado o suficiente para garantir muita, muita lama.

Paciência.

Inaugurei minha primeira prova mais longa em trilhas na mesma região: foi a Indomit Bombinhas, com 42K, regada a chuva e a escorregões. Quando terminei, jurei a mim mesmo que jamais voltaria ao local.

O tempo passou, me adaptei mais às trilhas, perdi o medo. E, curiosamente, lá estarei eu para uma nova estreia: os primeiros 100K.

O que esperar? No mínimo, uma dificuldade técnica alta.

A largada será na madrugada, garantindo pelo menos umas 6 horas de escuridão. Comigo, além da óbvia mochila de hidratação, levarei uma lanterna testeira poderosa e poles para ajudar no equilíbrio e nas escaladas. Serão muitas: 3.088 metros acumulados, para ser exato. Pior: as maiores montanhas estarão justamente no começo, quando a luz inexistirá.

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Não vou estimar pace algum aqui – mas ficaria muito feliz de chegar ao menos próximo do marco da maratona quando o sol começar a raiar. 4 ou 5 subidas, portanto, estarão para trás.

Ainda assim, não planejo acelerar nada: a meta é ir no ritmo que o corpo, os olhos e o equilíbrio permitirem, poupando energia física e mental para os últimos trechos.

A parte “boa” é que, por mais que seja uma prova dura, os trechos mais ásperos serão percorridos à noite, sem que os olhos possam assustar a cabeça devido à redução no campo de visão. É o ideal? Não sei – mas é o que se apresenta.

Pelo mapa, pelo menos, haverá alguns espaços longos de “calmaria técnica”: ruas, seja de asfalto ou de terra, onde a cabeça poderá descansar um pouco.

Aproveitemos também esses espaços.

Aliás, aproveitemos tudo.

Serão meus primeiros 100K e nada melhor do que começar em um lugar incrivelmente lindo, com um desafio forte e um potencial altíssimo de boas histórias para contar.

Minha expectativa de tempo? A julgar pelos tempos do ano passado, imagino que levarei algo entre 15 e 18 horas. Menos, difícil; mais, possível.

Seja como for, espero apenas uma coisa: que me divirta por cada um dos segundos que a Indomit durar!

Programando o futuro

Como diz o ditado, “o que era doce, acabou-se”. Estou neste exato momento curtindo os primeiros sinais daquela típica depressão pós-viagem, em que a perspectiva de correr no (embora amado) Ibira posa como um contraste absoluto em relação às dunas e praias do Ceará. 

Mas, enfim, parte da graça de correr é poder justamente aproveitar o mundo de uma maneira solitária, intensa, egoista e, sobretudo, completa. Foi-se o Ceará, virão novas trilhas. 

A começar pela que está programada para o dia 7 de Novembro: meus primeiros 100K sob o solo hiper técnico e traiçoeiro de Santa Catarina, na Indomit UltraTrail Costa Esmeralda. Não minto que estou levemente aterrorizado com o prospecto de encarar aquelas trilhas novamente – minha primeira vez foi no Indomit Bombinhas, de 42K, que me tomaram mais de 6 horas. Mas, de lá para cá, muita coisa já aconteceu e amadureci bastante como corredor. Não que esteja pronto para encarar uma Marathon de Sables, claro – mas 100K não há de ser, espero, tão infernal assim. 

E a parte divertida começa agora, com a programação montada por mim mesmo. 

No começo, esta semana, pegarei leve: preciso livrar a musculatura das dores e recome;car o ciclo, embora os 100K com areia fofa que carrego da semana certamente serão uma bela base. 

Depois sigo com microciclos: duas semanas evolutivas com tiros e tempo runs seguidas de uma semana mais leve. Os longões estão até modestos: fora os 50K da semana de pico, já em meados de outubro, os outros variam entre 3 e 4 horas, mais ou menos. Procurarei fazê-los em trilhas diversas, seja na Serra do Japi, no Parque do Carmo ou em qualquer outro canto próximo a Sampa. 

É claro que, como toda boa programação, ajustes devem ser feitos. Mas é sempre bom ter uma base a partir de onde improvisar. 

Agora é foco puro. Em pouco mais de 3 meses terei completado meus primeiros 100K. 

   
    
   

Vendo

É fim de tarde e o avião decola de Joinville, Santa Catarina. 

Pela janela, toda uma paisagem de morros verdes iluminados por aqueles últimos raios de sol do dia, meio amarelo-avermelhados, se abre. Só uma coisa passa pela minha cabeça no mesmo instante em que as preocupações do cotidiano evaporam: “deve haver uma infinidade de trilhas ali por baixo”. 

Tento espremer os olhos e olhar com mais atenção, mas apenas uma ou outra veia ocre, mais para estrada de terra do que para trilha, pode ser vista a distância. Ainda assim, dá para imaginar cada passo dado cortando as montanhas, cada visual colecionado pelas córneas, cada gota de endorfina pulsando pelas veias. 

O mundo fica melhor quando sabemos aproveitá-lo. 

Se vivemos em uma grande cidade como São Paulo, explorar parques e vias em busca de qualquer que seja o desejo é algo relativamente fácil. Basta pegar alguma programação cultural pronta na Internet, entrar em um taxi ou metrô e aproveitar o que a cidade deixou mastigado para você. E acredite: as grandes cidades costumam deixar muita coisa mastigada para quem quiser aproveitá-las, de opções turístas a esportivas, de ofertas culturais a ambientes perfeitos para se curtir o mais autêntico ócio. Cidades grandes pensam pelos seus habitantes. 

É diferente de pequenos povoados, de trechos de terra abandonados, de praias escondidas ou montanhas isoladas. Antes de me apaixonar pelas trilhas, eu costumava enxergar cada pedaço inexplorado do mundo como um grande e entediante “nada”. 

Isso mudou. 

Dificilmente deixo de enxergar ao menos alguma opção de qualquer coisa quando olho, hoje, o que antes entendia como “nada”. Na verdade, parece que o vazio que existia foi magicamente preenchido por um “tudo”, por veias de natureza praticamente implorando algum tipo de desbravamento. Dá até uma certa dó ver as montanhas do alto de um avião sem poder descer para explorar cada milímetro selvagem que elas proporcionariam.

Não que eu queira trocar a vida de uma cidade grande por um estilo mais interiorano: sempre fui apaixonado por grandes metrópoles e o mar de opções proporcionado pelas suas selvas de concreto, na minha opinião, abre mais horizontes que qualquer paraíso intocável. Afinal, se viemos ao mundo para aproveitá-lo em sua completude, quanto mais opções melhor. 

Mas há um quê de preenchimento, de percepção de mundo, que nasceu das minhas primeiras corridas nas trilhas. É como se o mundo tivesse subitamente ficado mais rico.

Há menos nada e mais emoção, menos vazio e mais adrenalina, menos tédio e mais opções em cada canto de terra esparramado na frente dos olhos. 

Há mais vida a ser sorvida pelos olhos. 

Correr é definitivamente o melhor óculos que se pode conseguir. 

  

Meus primeiros 100K já tem data marcada: 7 de novembro

Ainda levará algum tempo, o que garante tempo para treino. 

Ainda há Comrades pela frente e, depois, alguns meses de preparo. 

A largada será à noite e na praia, em pleno período de verão catarinense. 

Haverá estradas de terra, areiões, costões de pedra e trilhas. 

Haverá um amanhecer no alto das montanhas fazendo o mar ficar dourado sob pés que, provavelmente, já estarão começando a ficar cansados. 

Haverá aventura, adrenalina e uma estreia que mescla percurso técnico à ansiedade de inaugurar uma nova distância. 

E já há muita ansiedade pulsando pelas veias. 

Dia 7 de novembro largarei na Indomit 100K Costa Esmeralda. 

  

Uma trilha súbita

Dizem que, quando começamos a nos interessar por algo, os olhos ganham uma espécie de agudeza quase sobrenatural para localizar o que a mente mais deseja.

Faz sentido: os olhos, afinal, são grudados à imaginação e tem por objetivo nos guiar pelas manifestações físicas do que ela concebe em seu estado quase onírico de liberdade constante.

Correr em trilhas é um exemplo perfeito disso.

Quando sequer se sabe da existência desse esporte, trilhas parecem coisas distantes e exóticas, encontradas apenas em filmes de aventura ou fotos de revistas. A vida, afinal, acontece na cidade.

No entanto, basta despertar o interesse que descobrimos que mesmo os centros mais urbanos tem um pouco de selvageria escondida. É só saber procurar.

Foi o que fiz hoje cedo, quando acordei antes dos primeiros raios do sol aqui em Joinville, Santa Catarina.

Vim a trabalho ontem e acabei dormindo na cidade, o que sempre é uma boa oportunidade para explorar um pouco o desconhecido. Das últimas vezes que estive aqui acabei percorrendo circuitos tradicionais: a Beira Rio, a volta do Batalhão etc. Tudo tediosamente pacato, organizado e tão simples quanto uma esteira.

Hoje teria quase 2 horas para mim – tempo de sobra para sair do lugar comum.

A primeira coisa que fiz foi olhar o Google Maps: lá, no final da XV de Novembro, parecia haver um morro; havia um ponto no meio dele – possivelmente um mirante ou uma torre de TV; e o caminho certamente não era asfaltado, ao menos não no todo. Perfeito.

Ainda antes do sol nascer, em uma manhã sufocada por núvens e uma permanente ameaça de garoa, parti quebrando o silêncio com as passadas.

Levei o tempo necessário para aquecer: estava cedo e não adiantaria muito entrar na montanha com tudo escuro. Fui leve, passeando pela cidade adormecida e cruzando ruas vazias como se o tempo estivesse pausado.

Até me deparar com o morro.

De início, havia uma rua íngreme, com paralelepípedos se perdendo em meio a um matagal fechado e úmido.

Subi alternando trotes com caminhada. Faz algum tempo que caminhar deixou de ser palavrão para mim: normalmente, o ato em si significa que estou em alguma trilha, ladeira ou ambiente que precisa ser degustado sem pressa. Pace perde relevância nesse esporte.

De repente, a rua se fundiu com uma estradinha de terra. Continuei.

A estradinha cedeu lugar a uma trilha pequena, meio sinuosa e em subida constante. Segui.

Não dava para dizer que a vista estava incrível: quanto mais eu subia, mais espessa ficava a neblina. Em um ponto, a visibilidade não passava de 2 ou 3 metros.

Ao redor de mim só sons de pássaros, folhas se batendo contra o vento e cheiros do verde molhado. Estava já claro e a umidade abafada formava um clima absolutamente tropical.

A cidade já começava a despertar a apenas 20 ou 30 minutos de mim – mas parecia que eu estava no meio de uma floresta perdida no mapa.

Era um outro mundo, exatamente o tipo de escape que eu buscava para exercer a solidão.

Em um dado momento cheguei ao cume: um fim de linha sem vista ou beleza excepcional, marcado pelo que de fato era uma torre de TV.

Tudo bem: a missão do dia estava cumprida e o tênis, enlameado e quase irreconhecível, parecia feliz.

Voltei voando morro abaixo, parando apenas para tirar algumas fotos e tomando o rumo do hotel.

Entrei novamente na civilização, que agora já continha alguns carros e pessoas dando movimento ao cenário, e cruzei por ruas e avenidas.

A vida havia retornado à sua normalidade urbana. Estava de volta à realidade, exalando um intenso agradecimento tanto à mente, por ter demandado esse escape, quanto aos olhos, por ter achado o caminho.

Ter conseguido fugir do asfalto e me ver em meio a uma “súbita floresta”, mesmo que por um punhado de minutos, foi como ter um instante surrealista traçado com as pálpebras abertas.

O que mais se pode esperar das trilhas?

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Checkpoint 9: Segunda meta cumprida

Não há muito o que falar além do que já comentei no post de ontem: a semana inteira girou em torno da segunda meta do meu plano rumo à Douro Ultra Trail: fazer a Indomit Bombinhas.

Neste ponto, o importante de comentar é que levei a semana como normal, sem fase de tapering ou nenhum tipo de diminuição. Ao contrário: fiz os três treinos em dias úteis, mesclando tanto volume quanto intensidade (via tempos e tiros) e cheguei em Bombinhas como se fosse um final de semana normal.

Só na largada da Indomit é que senti um pouco o cansaço ampliado pela areia fofa dos primeiros metros. Mas, ainda assim, sacudi o corpo e voltei ao normal, encarando a prova com sangue nos olhos.

Em resumo (e com alguma dose de orgulho): tudo saiu perfeito.

Segunda fase completa. A próxima agora é lá em Portugal.

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Indomit Bombinhas: difícil, mas sensacional

Fase dois do plano completa: fiz hoje os 42K da Indomit Bombinhas, última parada antes da Douro Ultra Trail.

A palavra “difícil” nem começa a descrever a prova.

Na madrugada de ontem para hoje, um temporal bem forte se abateu sobre a costa catarinense – algo como um pacto entre Iansã e Æolus para deixar a prova mais emocionante.

Funcionou. A quantidade de lama era tamanha, principalmente na primeira montanha, que escorregar passou a ser algo quase corriqueiro. Subidas íngremes se alternavam com descidas tensas em um piso que parecia gelo marrom – e que piorava a cada instante com a chuva que nunca chegou a parar de cair.

Depois, areia de praia. Dura ou fofa, foi bem vinda. Uma espécie de relaxamento para a mente que já mostrava sinais de cansaço.

Relaxamento temporário: logo ele foi substituído por mais trilhas fechadas. Mais emoção e uso de, acredito, todos os músculos existentes nas pernas.

E assim, com muita trilha, muita praia, alguns trechos em estrada de terra e, claro, um inesquecível costão de pedras, finalizei a Indomit.

Entre subidas e descidas técnicas, escorregões e algumas paradas para ver a incrível paisagem de Bombinhas, fiz um tempo bem pior do que imaginava: 6h27.

Mas tudo bem: foi uma iniciação em corridas por trilhas mais longas e mais árduas e eu nem sabia bem o que esperar.

Agora sei.

Sei que doeu, que é bem diferente de corrida de rua, que há elementos muito mais imprevisíveis que o asfalto e cenários tão acachapantes que dificilmente esquecerei.

Amei cada quilômetro.

Agora quero mais.

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Mais algumas fotos que encontrei pela Web:

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E mais outras publicadas diretamente no Facebook da Indomit:

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