4 maratonas feitas

Falta apenas mais uma, aproximadamente, para fecharmos a BR135. E esse trecho de agora, entre Tocos do Moji e Estiva, foi daqueles duros e perfeitos, daqueles que mostraram como funciona um ultra. 

Já nos primeiros quilômetros, a Zilma quebrou miseravelmente. O estômago travou, ela ficou nauseada e parecia estar se arrastando pelo caminho. Descidas eram lentas. Subidas, arrastadas. 

A solução, no final, veio da equipe: forçá-la a parar e deitar um pouco, descansando o corpo que já se contorcia depois de mais de 30 horas na estrada. 

Foram necessárias duas tentativas: a segunda, ainda bem, funcionou. A partir daí, como que a passe de mágica, ela se regenerou por completo. 

Correu solta, com a Luana como pacer levemente à frente ditando o ritmo, e acabou ganhando boa parte do tempo perdido. Impressionante como parar, às vezes, nos faz acelerar. 

Impressionante este esporte. 

Agora vamos ao último trecho. 

   
   

Checkpoint: Semana de recuperação

Às vezes o sentimento de sensatez parece dominar o impulso de simplesmente sair e correr. Pode não parecer, mas quem curte um esporte onde se passa, por vezes, um dia inteiro deslizando pelas trilhas, tem um óbvio problema de obsessão. Não disfarço isso nem um pouco – aliás, me dou impressionantemente bem com essa característica que transcende a vida atlética e domina praticamente todos os aspectos do meu dia-a-dia e dos meus planos futuros. Em tese, hoje eu deveria completar 1h de treino para fechar a semana com 40km. 

Não deu. 

Acordei com dores musculares que deveriam ter aparecido há dias, com sono e com uma vontade de dormir maior do que a de conferir as trilhas do Ibirapuera ou a Avenida Paulista exoticamente fechada para carros. 

Enquanto ainda estava na cama, rolando de um lado para outro, fiquei ricocheteando os pensamentos até tomar uma decisão. Tomei: continuei dormindo. 

Em tese, afinal, o objetivo desta semana seria a pura recuperação da Bertioga-Maresias. Ora… dores tardias, sono esquisito… de que outra forma o corpo poderia falar mais alto?

No total, portanto, esta foi a semana com menos volume de muito, muito tempo: 30km. 

Tenho mais duas semanas de treino – ou quase isso, dado que a segunda já terminará nas areias de Porto Belo. Bom… parece que a única coisa a fazer é me entregar ao que o próprio corpo mandar fazer e aproveitar cada dia ao máximo. 

   
 

Reconstrução

Uma ultra não termina na linha de chegada. Verdade seja dita, toda uma outra prova de endurance começa a partir daí. 

Primeiro, é necessário acalmar o corpo, deixá-lo entender que ele fez o seu papel e que agora é hora de descansar. Com calma. 

Friso isso porque, por mais que músculos e mente estejam a milhão e em ritmos incessantes, basta cruzar a linha de chegada que eles ficam muito próximos de um estado de colapso. É parar de correr e pronto: pernas ficam duras, musculatura trava, um frio polar arrepia até a espinha e um cansaço bíblico toma conta do corpo. 

A cabeça pesa mais nas horas imediatamente seguintes à chegada. Desidratação e nutrição de guerra fazem-na ressoar mais que o normal, algo que vai passando a cada garfada de um jantar mais caprichado. Ainda assim, é necessária uma noite de sono e todo o dia seguinte para que ela realmente volte ao normal. 

Juntamente com a cabeça, os músculos – claro – doem. Por fases, pedaços, quase que de maneira compartimentalizada. Esse ponto é curioso: todo o corpo pode estar dolorido mas, se a coxa esquerda carregar a dor mais intensa, é nela que a mente se focará. As demais parecerão apenas um leve e distante incômodo. Com a experiência, as dores musculares são as primeiras que passam: em uns dois dias não há mais nem lembrança delas. Pode-se inclusive dar um trote pelo parque para forçar uma reanimação geral que músculo algum será barreira. 

Musculatura, no entanto, não é tudo. Enquanto coxas, panturrilhas, pés e torso ficam bons, o organismo começa a se refazer em seu próprio ritmo. 

Estômago, ainda inconformado com a provação, tenta voltar ao seu normal – algo que levará alguns dias ainda.
Rins e bexiga parecem tentar se reconhecer: o ato de urinar em si carrega alguma dor na medida em que se vai eliminando as toxinas do corpo. Não é uma dor lascinante: é apenas presente e incomoda na medida em que, aos poucos, se vai mais e mais ao banheiro. A cada ida, pequenas mudanças são sentidas: o incômodo vai diminuindo e a coloração muda de laranja escuro para amarelo claro. Dois, três, talvez quatro dias se passam até que tudo volte ao normal.

No total, a recuperação de uma ultra pode levar até uma semana a depender da experiência do corredor e do próprio estilo da prova. Esse ponto é importante: ultras de montanha, com mais ajustes de ritmo em que trocas por caminhadas e corridas são constantes, costumam imprimir danos menores; ultras mais rápidas, onde se corre por quase todo o tempo, são mais severas. 

Severas ou não, todas passam. De lembrança, deixam apenas algumas bolhas nos pés, lembranças fortes e aquela sensação de missão cumprida que costuma vir acompanhada de alguma outra meta. 

E já é hora de começar tudo de novo. 

Definitivamente, entender esse mundo de ultras que tanto amamos não é das tarefas mais fáceis!

  

Sobre dores e medos

OK, hoje já era para eu fazer um trote leve de uma hora pelo parque. 

Afinal, é quarta, terceiro dia depois da ultra em Atibaia e período no qual, normalmente, o corpo já está inteiramente recuperado. Foi assim com Comrades, afinal… 

Só que a realidade está diferente. Bem diferente. 

A sola do pé direito ainda dói, as coxas cismam em dar pontadas e as pernas meio que falham de leve no simples ato de caminhar do ponto a ao ponto b. 

Há um nome para essa dor: altimetria. 

Os 90km de Comrades, afinal, não chegam nem perto do tanto de subida técnica que enfrentei nos últimos quilômetros do domingo, terminando a prova no topo da Pedra Grande. 

E olhe que até subi bem. Subir em trilhas técnicas é algo que faço com relativa tranquilidade – bem mais, pelo menos, que descer, quando uma onda desnecessária e meio constrangedora de medo de cair parece dominar cada um dos meus instintos. 

O instante em que tive que descer um trecho do percurso de volta, quando me perdi, para apenas depois prosseguir com a escalada, foi algo próximo do vergonhoso.

Mas vamos por partes. 

Primeiro, dando mais tempo ao corpo para que ele se cure e sem forçar nada: a última coisa que quero é algum tipo de lesão. 

E, segundo, dando algum jeito de treinar melhor as descidas. 

Como, ainda não sei. Os parques de São Paulo não são exatamente terrenos técnicos. Mas algum jeito há de ser dado. 

  

Descansar (realmente) também é treino

Não durmo muito. Quando se tem uma filha de 3 anos, uma empresa própria e se escolhe correr ultras como esporte, o sono é a primeira coisa que acaba sacrificada. 

Com o tempo, me acostumei com isso ao ponto de ficar com culpa sempre que durmo algo na casa das 7 horas – uma eternidade. 

E, claro, isso tem lá os seus problemas. A recuperação muscular é um deles: esperar que as pernas não demonstrem qualquer sinal de dor quando o máximo de descanso concedido a elas é ficar um punhado de horas trabalhando sentado é irreal. 

Irreal mas, ainda assim, algo com o qual me acostumei. Veja: não reclamo da minha capacidade de regeneração. 2 ou 3 dias depois de uma ultra estou novo, pronto para tomar as ruas de novo, motivado até o limite por conta de algum próximo desafio. 

É que tudo nesta vida é relativo. 

Estar novo, para mim, é acordar com uma dor nas pernas leve mas constante ao ponto de ter se transformado em paisagem. Algo que não atrapalha em nada – embora obviamente fosse melhor passar pelo menos algum tempinho realmente sem sentir nada. 

Pois bem: no domingo à noite vim para Joinville, onde tive uma reunião na segunda. Cheguei às 18:30, mas a reunião seria apenas às 10:00 do dia seguinte. 

Sabe o que fiz? 

Dormi. Muito. Algo como 9 horas inteiras, uma espécie de anormalidade principalmente considerando que acordei sem despertador, por conta própria e sem precisar correr para nada. Tinha tempo para tomar um banho calmo, mastigar o café da manhã e ainda escrever um post para o blog antes do dia se atribular. 

E foi sentado na recepção do hotel que, subitamente, me dei conta que não sentia nada – absolutamente nada – nas pernas. 

Me concentrei nelas. Contraí a musculatura. Andei de um lado para outro. 

Nada. 

Era como se eu sempre tivesse sido sedentário, tamanho o relaxamento muscular!

Foi aí que caiu a ficha: todas aquelas pessoas que pregam o poder de cura do sono, que bradam que descanso também é treino, estão realmente sendo verdadeiras. Curti a sensação. 

Honestamente, não sei quando terei novamente o tempo para dormir de maneira tão densa, fazendo a noite cuidar das pernas. Mas já está claro que é um remédio muito melhor que qualquer anti-inflamatório. 

  

Checkpoint: Reset total

Semana de recomeço: queda brusca no volume, diminuição na gana por velocidade e, ainda assim, articulações duras e cansaço correndo pelo corpo.

Não dá para dizer que foi uma semana fácil, motivadora – mas, assim como em dias de prova, é preciso estar sempre preparado para tudo. E, se é verdade que houve um erro de cálculo no treinamento que me fez atingir o pico cedo demais, é também verdade que há tempo para remediar.

Tenho pouco menos de um mês para a Ultra Estrada Real e quase 3 para a Comrades.

O foco total agora está em crescer o volume aos poucos, manter o pace médio próximo ao que está hoje (para evitar novos exageros) e recuperar a motivação que acabou vazando com os tempos difíceis.

Um passo de cada vez: e essa semana foi apenas o primeiro.

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Checkpoint 11: Semana de pico cumprida e corpo recuperado

Foi uma semana intensa – tanto no trabalho quanto em casa e nas ruas! Nada mais apropriado, diga-se de passagem, para um treinamento para ultra.

Foram apenas três treinos, verdade – mas todos muito bem aproveitados e, em uma palavra única, intensa.

O lado bom é que estou saindo inteiro, sem praticamente nenhuma dor – nem mesmo muscular, mesmo um dia após o principal longão. Acredito que seja o corpo se acostumando à rotina de ultras, o que significa uma recuperação maior em um tempo menor. Bom: esse aprendizado físico certamente será útil no futuro!

Enquanto isso, é hora de organizar a partida para Portugal, já nesta sexta. A meta está chegando perto.

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Hora de virar a página

3 para dentro, 2 para fora; 3 para dentro, 2 para fora; 3 para dentro, 2 para fora.

Como o ritmo de respiração, a corrida do domingo foi fazendo o corpo voltar ao velho estado.

Saí tarde, quase meio dia, para aproveitar o sol que brilhava forte: poucas coisas me empolgam tanto quanto um céu azul e um calor que beire o lúdico.

O objetivo era me medir, testar a recuperação, saber se já estava pronto para a nova fase do treinamento.

E segui, inicialmente a passos tímidos, na casa dos 6’30″/km. Não forcei: esperei as endorfinas fazerem efeito.

Cruzei a Groenlância, atravessei a 9 de Julho, Brigadeiro, entrei no Ibira. Fui pela trilha de fora para desviar da multidão do domingo.

Entre caminhos de terra batida e galhos, a empolgação foi batendo. Check-up mental: nenhum sinal de nenhum tipo de dor.

Olhei para o relógio: 5’07″/km sem esforço, relativamente tranquilo.

Administrei. Rodei o parque pela trilha, sem vontade sequer de parar para beber água. Estava pronto.

Caminho de volta. Subida da 9 de Julho até a Brasil em pace de tempo.

Da Brasil à Estados Unidos, entrando na Bela Cintra e chegando em casa. Perfeito.

Tudo já estava normal.

Primeira providência pós-treino: mandar um mail para o Ian Corless, novo treinador que me guiará por essa transição para as trilhas, com apenas duas palavras: “Estou pronto.”

Que comece a nova semana!

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